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Livros da guerra colonial

Miandica terra do outro mundo


segunda-feira, 23 de setembro de 2024

A Traição de Omar fez correr lágrimas a Spínola! E entrevista ao Alferes Costa Monteiro


A Traição de Omar fez correr lágrimas a Spínola!

O Significado da queda de Omar  (Nametil)

 Rompia a manhã a 1 de Agosto de 1974, no aquartelamento do exército colonial, chamado de «Omar», mas cuja verdadeira designação era Nametil. Estava no seu comando interino o alferes José Carlos Monteiro. Para eles, certamente, a guerra já tinha acabado, perdidos num ermo de Cabo Delgado, com uma vista monótona para a fronteira com a Tanzânia. Haviam mesmo começado a destruir algum material, pois estava previsto o seu encerramento. Ignoravam que eram, há muito, objecto de especial atenção, e que iriam ficar registados na história.

Em Naschingwea, face ao impasse negocial, depois das falhadas negociações de Junho, era necessário realizar uma acção capaz de acelerar a marcha dos acontecimentos. Escolhe-se o posto de Omar. Estudam-se as suas envolventes e chega-se mes­mo a fazer uma maqueta do aquartelamento. Ou a operação re­sultava em pleno ou as suas consequências poderiam ser sérias e reacender a guerra, quando da parte de uma das partes existe um estado de cessar-fogo. Samora Machel, pessoalmente, estabele­ce a táctica. E recomenda, com alguma estranheza para alguns, que a acção seja gravada em som e imagem. A 31 de Julho as forças da FRELIMO, as FPLM, tinham cercado por completo o aquartelamento. Inclusivamente colocado artilharia. Era respon­sável por esta operação no terreno o comandante Atanásio Salvador Mtumuke. Bem próximo do local, numa montanha, encontravam-se, em atenta observação, o adjunto do Departamento de Defesa, Alberto Joaquim Chipande, assim como o comandante do De­partamento de Defesa de Cabo Delgado, Raimundo Pachinuapa. Tinham instalado um sistema de comunicações entre a fren­te de operações, a base de comando e a Tanzânia, onde Samora Machel aguardava com grande impaciência o desenrolar do pla­no estabelecido.

Quando rompe a aurora do primeiro dia do mês de Agosto de 1974, os cento e quarenta soldados do aquartelamento de Nametil são acordados por megafones solicitando a sua rendição  Todos estes pormenores da tomada de Nametil foram gravados. A guarnição militar rende-se. Cento e quarenta homens são feitos prisioneiros e três conseguiram fugir. Seguirão para a Tanzânia, onde chegam a 6 de Agosto. Independentemente da controvérsia, se a rendição resultou de um equívoco ou simplesmente da tomada de decisão mais sensata do seu comandante de não combater, face à situação política que se vivia e mesmo tendo em causa a desproporção do equipamento e das armas, a tomada do quartel de Nametil (Omar)  não pode deixar de ser mencionada pelos reflexos que teve. Mais do que uma vitória militar era uma vitória política.

O presidente Spínola, com condição para uma ronda nego­cial, que se inicia a 15 de Agosto, em Dar-es-Salam, exige que a FRELIMO apresente desculpas pelo ocorrido em Omar. Samora que engenhosamente tivera a percepção de tudo gravar, faz com que a delegação chefiada por Melo Antunes escute essa grava­ção. O que foi suficiente.

O que se passou a 1 de Agosto, nesse aquartelamento, poder-se-ia passar em qualquer outro ponto do país. Havia, da parte do exército português, a total falta de vontade de dar mais um tiro e muito menos de continuar uma guerra. Há factos indesmentíveis dessa realidade. O próprio general António de Spínola o admite e escreve que a tomada de Omar era «uma arma decisiva para Samora Machel na mesa de negociações. De militar para militar efectivamente assim o foi.

494 António de Spínola, País sem Rumo – Contributo para a História de uma Revolução. Ed. Editorial SCIRE, p. 302

In MOÇAMBIQUE 1974 – O fim do Império e o Nascimento da Nação, de Fernando Amado Couto(2011)

*Omar, para as autoridades portuguesas.

NOTA:

Se se comparar este texto com o que o Comandante Almeida e Costa relata, tanto Almeida Santos, como Melo Antunes mentiram ao General Spínola, além de não lhe fazerem a comunicação imediata dos acontecimentos de 1 de Agosto de 1974.

Diz Almeida e Costa: “Não só pelas três sessões de trabalho mas, sobretudo, pelo teor das surpresas que os esperam. A começar pela notícia de que a Frelimo tinha capturado uma companhia inteira de militares portugueses em Omar, no norte de Moçambique. Como se isso não bastasse, Samora insistiu que se ouvissem as gravações e as entrevistas feitas com os soldados capturados, apelando à rendição das forças portuguesas. «Foi muito confrangedor», explica Almeida e Costa. Incluindo para o terceiro-mundista Melo Antunes, que não resistiu a um desabafo: «Merda, assim não se pode fazer nada». 

Assim a cassete veio para Portugal a 3/4 de Agosto e não a 17/18 de Agosto.

Porque a não apresentaram de imediato ao General Spínola?

Escreve o General Spínola:

“Assim, quando em 15 e 16 de Agosto, a Delegação Portuguesa  se sentou à mesa das negociações em Dar-es-Salam, a facção predominante do MFA, ali repre­sentada pelo Major Melo Antunes, já estava ao lado do chamado Movimento de Libertação e, para que ainda se retirassem às forças políticas todas as possibilidades de soluções razoáveis, recorreu-se a formas de pressão impensáveis e só possíveis num quadro de alta traição.

 “Na mesma ocasião fui informado de que aquela reunião havia sido aberta com a audição de uma fita gravada da «rendição» de uma companhia metropoli­tana no Norte de Moçambique, num cenário concertado com as cúpulas marxistas do MFA e conhecido pela «traição de Omar», gravação que ficará a assinalar uma das páginas mais vergonhosas da História do Exér­cito Português ao oferecer a Samora Machel, na mesa das negociações, uma arma decisiva. As afirmações pro­duzidas no «acto da rendição», designadamente as sau­dações à FRELIMO, como libertadora de Moçambique e do próprio povo português, constituíram prova irrefu­tável do índice de prostituição moral a que haviam che­gado alguns militares portugueses.” 

(In O PAÍS SEM RUMO, de António Spínola).

Ora, a fita gravada, segundo Almeida e Costa, já fora ouvida por ele e Melo Antunes na anterior estadia entre 31 de Julho e 3 de Agosto.

Agora escutem o que Almeida Santos diz sobre a reunião de 15/16 de Agosto à SIC 

Para quê este “teatro”?

Mas porque é que “Samora Machel, pessoalmente, estabelece a táctica. E recomenda, com alguma estranheza para alguns, que a acção seja gravada em som e imagem.”(In Moçambique 1974, de Fernando Amado Couto)

Porque era preciso impressionar e levar o General Spínola a aceitar o que há muito já estava combinado entre o PS, PCP e FRELIMO, desde uma célebre reunião em Paris, onde, entre outros, a FRELIMO esteve presente.

E, para que não restem dúvidas, o autor da Newsletter aqui reproduzida, ainda felizmente vivo, me confirmou todo o seu conteúdo.

Resta ler-se a entrevista do Alferes Comandante em OMAR na altura, para se poder comparar do que é real do que é ou foi forjado.

Negando o então Alferes comandante de Omar ter proferido as afirmações que lhe são atribuídas por Almeida Santos, porque nunca foi tornada pública a cassete apresentada ao General Spínola? Será que ainda existe? Porque nunca foi ouvido qualquer dos elementos da companhia aprisionada?

OMAR e WIRIAMU são dois acontecimentos cuja génese ainda não foi totalmente dissecada. Mas que serviram na perfeição para a descolonização que foi feita.

Ex-comandante da Base de Omar desmente Almeida Santos e chama-lhe traidor

 Almeida Santos está na mira de tiro dos militares portugueses que, em Agosto de 1974, caíram nas mãos dos terroristas da Frelimo, em Omar (Moçambique). 

No centro da polémica está o segundo volume do livro «Quase Memórias», há dias
publicado, onde o dirigente socialista acusa de «traição» os homens da 1a Companhia de Cavalaria-Batalhão 8421. A versão relatada por um dos principais
responsáveis pela trágica «descolonização exemplar» é rejeitada liminarmente
por quem viveu «in loco» os acontecimentos. Chocado e indignado, mais de trinta
anos depois o ex-alferes miliciano Costa Monteiro, à altura comandante interino
da Base de Omar, dispôs-se a abrir a «gaveta» das memórias em nome da verdade.
De «traição à Pátria» o antigo militar acusa Mário Santos, Melo Antunes, Otelo
Saraiva de Carvalho e o próprio Almeida Santos

 Jornal "O DIABO" -O que é que realmente aconteceu em Omar na madrugada de 1 de Agosto de 1974?

COSTA MONTEIRO — Nessa madrugada, na orla da mata do estacionamento ouviram-se vozes, através de megafones, que diziam: «Atenção aquartelamento de Omar, nós não estamos contra vocês, lutamos contra o fascismo e o colonialismo, e esses terminaram no dia 25 de Abril. Queremos falar com vocês. Mandem um mensageiro à pista, pois nós estamos sem armas. Não queremos mais derramamento de sangue». Em consequência destas palavras, insistentemente repetidas, o soldado Joaquim da Silva Piedade ofereceu-se como voluntário para ir à pista como mensageiro. O restante pessoal continuou nas valas e em diversas posições de fogo. Quando o nosso soldado estava próximo da pista, voltaram-se a ouvir vozes, igualmente através de magafones, pedindo para que o comandante fosse também à pista. Perante a insistência acedi deslocar-me com o soldado Piedade. Surgiu, então, cerca de uma dezena de indivíduos, desarmados, munidos com gravadores portáteis, máquinas fotográficas e de filmar. Quando me encontrava a conversar com o comandante do grupo, este pediu, pelo megafone, para falar com os soldados da Companhia na pista.

Face à insistência e recordando-me da mensagem 2008/01/74, do Comando do Sector B, sugeri que poderiam entrar e falar com todo o pessoal no interior do aquartelamento. A minha proposta não foi aceite alegadamente por recearem qualquer reacção das nossas tropas ou da Força Aérea. Como não foi notada a presença de indivíduos armados, aceitei que parte da Companhia fosse até à pista, ficando nas posições as secções de obuses 8,8, morteiros e postos de sentinelas. Quando uma parte dos nossos militares estavam na pista, surgiu uma força de cerca de cem homens, que pela porta de armas traseira, entraram de assalto, tomando as nossas posições no interior do quartel. A reacção das secções de obus não era possível, pelo que o grupo da força invasora entrou obrigou o pessoal das restantes posições a sair. No mesmo momento em que o quartel foi tomado, outra força, emboscada
na orla da mata da pista, cerca todo o pessoal que ali se encontrava. A Companhia não se entregou e muito menos se bandeou com a Frelimo, como alguns políticos e meios da comunicação social referiram. Foi emboscada. Se não fosse o 25 de Abril isto não teria
acontecido.

 P - Que instruções recebeu na mensagem que referiu?

R - Era a transcrição da mensagem 7165/P da 5.a Repartição, que dizia: «Devem todos os comandos tentar criar condições locais passíveis de conduzir ao cessar fogo na sua ZA. Para o efeito lançarão campanhas de panfletos, cartas deixadas no mato, e acima de tudo servir-se como intermediários, bem como todos os meios achados convenientes. Só deve ser prometido respeito e confiança mútuos e desejo para a paz. Todos os militares serão esclarecidos destes acontecimentos e finalidades, tendo em vista evitar quaisquer incidentes ou atitudes inconvenientes e todos os resultados alcançados serão comunicados a este Comando». Baseado nesta mensagem e sob o mesmo espírito, o Comando Militar de Mocimboa do Rovuma elaborou um comunicado para ser distribuído durante os patrulhamentos efectuados por forças do BCAV 8421, onde era referido que «as Forças Armadas estão dispostas a não atacar o povo da Frelimo, se esta força não atacar as picadas e quartéis portugueses».

A fuga dos cinco

P - Os militares portugueses foram feitos prisioneiros?

R -O cativeiro dos militares de Ornar iniciou-se a 1 de Agosto, em Moçambique, e terminou a 19 de Setembro, na Tanzânia. Daquela guarnição militar cinco soldados lograram fugir.

P -Ainda se recorda dos nomes desses militares que conseguiram escapar às garras da Frelimo

R -Sim, ainda me lembro. José António Cardoso Gonçalves, Joaquim da Silva Piedade e Vasco Ponda, que vieram a apresentar-se no dia 2 em Nangade; Sumail Aiupa e Laquine Puanhera, que se apre sentaram no dia 3, igualmente em Nangade, e no mesmo dia apresentou-se Mário Andrade Moiteiro, em Mocimboa do Rovuma.

 P -Como foi possível o êxito da cilada montada pela Frelimo?

R -A nossa Companhia estava — como reconheceu Melo Antunes no livro «Melo Antunes — O sonhador pragmático» — numa situação extremamente delicada e difícil, junto à fronteira com a Tanzânia, praticamente isolada, sem grandes possibilidades de informação e de comunicação. A mensagem oficial que havíamos recebido e que anteriormente referi, chegou a notícia de que, na sequência dos contactos havidos entre as autoridades militares e civis portuguesas com os dirigentes da Frelimo, estava-se à beira de atingir o desbloqueio das negociações então em curso e que a paz era dada como certa. Quanto ao êxito de que me fala, deveu-se às condições que acabo de referir e à mensagem 7165P da 5.a repartição.

P -O que é que lhe disse o comandante dessa operação da Frelimo?

R -Quando lhe perguntei o que é que se passava, ele respondeu que iria falar com o comandante Joaquim Chipande, que estava no interior da mata. Pouco depois fomos levados para uma base avançada da Frelimo, de que eram responsáveis Silésio e Joaquim Chipande. No dia 2 seguimos para outra base da Frelimo, onde permanecemos dois dias. Aí tivemos a primeira reunião com uma comitiva da Frelimo, chefiada pelo Chipande. Foi-nos lido o teor das conversações de Lusaca onde Chipande havia estado presente. Aquele comando da Frelimo explicou-nos, então, que a razão ou uma das razões porque tinham tomado Omar foi pelo facto de não só ser uma base de importância vital, mas também porque já haviam escrito uma carta ao Comandante do Sector B/AV (Mueda), tenente-coronel Andrade Lopes, onde a Frelimo exigia como condições a retirada de determinados quartéis e a reunião dos mesmos em Mueda. Como não foi satisfeita essa exigência e a Frelimo sabia, pelo barulho de rebentamentos e por uma mainato civil, que desertara da nossa Companhia, que Omar estava a destruir material de guerra. Após esta explicação seguimos, escoltados por guerrilheiros da Frelimo, para outra base dos guerrilheiros, onde nos juntamos aos outros soldados, pois havíamos sido divididos em dois grupos. No dia 5 levaram-nos para o Distrito de M'Napa, onde pernoitamos. No dia seguinte rumámos em direcção à base Limpopo, da Frelimo, onde nos distribuíram sopa, arroz e água. No dia 7 de Agosto estávamos em território tanzaniano. Trocaram os nossos uniformes por fardamento presumivelmente pertença do exército da Tanzânia. No mesmo dia fomos transportados em viaturas do exército tanzaniano para Newala, onde pernoitamos numa prisão em construção. No dia seguinte houve um encontro dos prisioneiros com o presidente da Frelimo, Samora Machel, que fez questão de nos cumprimentar, um por um. Na tarde desse mesmo dia fomos levados para Nashinguwea. Ficámos instalados num quartel do exército da Tanzânia, onde permanecemos presos até aos dia 19 de Setembro de 1974.

P -Quando regressaram a Moçambique quem é que vos recebeu e que tratamento tiveram?

R -Fomos recebidos em Nampula pelo coronel Travassos, na altura comandante do Sector B. Fomos bem acolhidos. Deram-nos novos fardamentos e dinheiro.

«Aviltada e traída»

P -A sua Companhia foi traída?

 R -Foi aviltada e traída. Se querem saber a verdade sobre o que aconteceu na madrugada de 1 de Agosto de 1974, em Omar, consultem os arquivos militares portugueses. Lamento que ninguém se tenha preocupado em transcrever o que está registado no Arquivo do Exército sobre os acontecimentos de Omar. A verdade de Omar não é a que Almeida Santos escreveu.

P -Recorda-se do nome do comandante da força da Frelimo que capturou a guarnição militar portuguesa de Omar, também conhecida por Namatil?

R -Salvador Mutumuke.

 P -Essa acção da Frelimo em Omar terá tido alguma influência nas conversações de Lusaca?

R -Desconheço. Mas poderá ter servido de moeda de troca em termos de prisioneiros.

P -No livro que escreveu, Almeida Santos faz alusão à existência de uma cassete de vídeo que supostamente prova que os militares portugueses se entregaram voluntariamente à Frelimo. É verdade?

R -Não sei de que cassete se trata. Não tenho conhecimento da existência de qualquer cassete. Nunca vi nem ouvi esse registo. O que tem sido escrito sobre o que aconteceu em Omar não corresponde à verdade.

P -Escreve também Almeida Santos que o general Spínola, então Presidente da República, terá ficado «perturbado» com a audição da cassete, que entretanto fora entregue a Melo Antunes pela Frelimo. Segundo as palavras de Almeida Santos, o general Spínola recusou aceitar que tão vergonhosa rendição traduzisse o espírito das Forças Armadas portuguesas em Moçambique. Como comenta?

R -As ordens transmitidas pelo general Spínola não foram cumpridas pelos seus emissários e isso é que, certamente, o terá enfurecido.

P -Na qualidade de comandante interino da guarnição de Omar foi ouvido pela hierarquia militar?

R -Não.

 P -E pelo poder político?

 R -Também não.

 P -Foi-lhe instaurado algum inquérito ou sofreu alguma punição pelo que aconteceu em Omar?

R -Nada.

«Os verdadeiros traidores»

P -Fica claro das suas palavras que os militares portugueses estacionados em Omar e que o senhor comandava não foram traidores.

R -Nós, os militares portugueses em momento nenhum fomos traidores. Traição houve por parte do poder político português da altura, no quadro da trágica descolonização das ex-províncias ultramarinas.

P -Quer referir os nomes?

 R -Mário Soares, Almeida Santos, Melo Antunes e Otelo Saraiva de Carvalho, entre outros. Estes é que são os grandes e verdadeiros traidores da Pátria portuguesa.

P -O que é que acha que Almeida Santos procura com o livro que escreveu?

R -A meu ver procura encontrar bodes expiatórios, procura sacudir a água do capote, eximir-se às muitas responsabilidades que teve.

P -Ainda por cima recorrendo a mentiras...

R -É vergonhoso! O livro descreve factos sem que ele, Almeida Santos, tenha procurado averiguar da sua veracidade. Escreveu coisas sem se preocupar em buscar a verdade. É lamentável e vergonhoso. Mas ainda há mais de uma centena de pessoas vivas, ex-mi-litares, que podem testemunhar toda a verdade.

 

terça-feira, 10 de setembro de 2024

10 DE SETEMBRO DE 1974. 50º ANIVERSÁRIO DO FINAL DA REVOLTA EM LOURENÇO MARQUES (MAPUTO))

 

HOJE DIA 10 DE SETEMBRO


CELEBRAMOS O 43º ANIVERSÁRIO
DA GRANDE OPERAÇÃO DE RETOMADA DA
RÁDIO CLUBE DE LOURENÇO MARQUES
UMA HOMENAGEM AOS JOVENS DE 1974
UMA HOMENAGEM AO BAIRRO DA MAFALALA
RECORDANDO MOMENTOS DA NOSSA HISTÓRIA
Dia 7 de Setembro - Dia da Victória
Um Importante Momento Histórico
A Assinatura dos Acordos de LUSAKA em 1974
A Grande Manifestação dos Moçambicanos no Estádio Salazar em Lourenço Marques em Apoio a Assinatura dos Acordos de Lusaka entre a FRELIMO e o Governo Português Rumo a Independência de Moçambique.
Tomada da Rádio Clube pelos Colonos Revoltosos numa
Acção Contra a Assinatura dos Acordos e o Início de uma INTENTONA GOLPISTA com o Objectivo de Instalar em Moçambique um Governo semelhante ao da RODÉSIA
como aconteceu com IAN SMITH.
A Partir de 8 de Setembro a População Moçambicana de Lourenço Marques e Arredores decide-se Organizar no BAIRRO da MAFALALA na Residência da Heróica Família CALIANO DA SILVA Contra o Movimento denominado "AQUI MOÇAMBIQUE LIVRE" que fez Derramar Muito Sangue.
A 10 de Setembro de 1974 o POVO UNIDO Liderado por um Amplo Grupo de Nacionalistas, realiza com Sucesso a GRANDE OPERAÇÃO, retomando a RÁDIO CLUBE DE LOURENÇO MARQUES, hoje RÁDIO MOÇAMBIQUE na Grande Operação "GALO, GALO AMANHECEU" que pôs termo aos Longos DIAS e NOITES SANGRENTAS que Ceifaram Vidas sob Comando dos ESQUADRÕES DA MORTE e do GRUPO FICO apoiados pela famigerada Polícia Política (PIDE - DGS) com o Apoio da PSP - Polícia de Segurança Pública, do EXÉRCITO e POLÍCIA MILITAR que se ALIARAM a INTENTONA na Globalidade.
A OPERAÇÃO GALO em Duas Decisivas Etapas teve o Único e Decisivo Apoio do CORONEL NUNO DE MELO EGÍDIO (Comandante do CTS) fiel ao Governo Português, apoiando o passo importante de Lançamento da Senha Chave que a População aguardava com Muita Ansiedade:
"GALO, GALO AMANHECEU"
A Segunda Etapa com o Apoio de Duas Companhias de Paraquedistas que Decididamente e sob o Comando do "COMANDANTE GALO" executou o ASSALTO FINAL e CONTROLO DEFINITIVO da Estratégica Emissora de RÁDIO Extremamente Importante para a Reposição da Ordem Pública.
A 12 de Setembro por Decisão e Orientação do Presidente SAMORA MACHEL, chegam a Lourenço Marques os Comandantes ALBERTO CHIPANDE e BONIFÁCIO GURVETA recebidos por nós no Edifício do Comando Territorial Sul (hoje Ministério da Defesa) com a DECISIVA MISSÃO de ASSEGURAR que os HEROICOS JOVENS do 7 de SETEMBRO não sofressem uma NOVA INTENTONA com a possível e Eminente Intervenção de Forças Militares da ÁFRICA DO SUL e da RODÉSIA.
Recordamos aqui e a título póstumo as Heróicas Figuras que deram o Seu Contributo na Base Galo na MAFALALA ao Lado daquela Juventude Heróica de Setembro de 1974:
AMARAL MATOS
NUNO CALIANO DA SILVA
ORLANDO MACHEL
ÂNGELO CHICHAVA
ANTÓNIO SIMBINE
JOAQUIM CHAÚQUE
MILAGRE MUTEMBA
ISAÍAS TEMBE
ANA MARIA AKUY
GILBERTO ANTONIO
ANTÓNIO MEIRINHO
SALVA MUTEMBA
AREOSA PENA
EUGENIO DE LEMOS
ANTONIO MATSINHE
ABDUL REMANE (BUBULE)
ISSUFO BIN ABOOBAKAR
ALBERTO MASSAVANHANA
ALEXANDRE MATOS
RAPOSO PEREIRA
LEITE DE VASCONCELOS
VIVA O 7 DE SETEMBRO - DIA DA VITÓRIA
VIVA O 43º ANIVERSÁRIO DA GRANDE OPERAÇÃO
Em Anexo um Vídeo Especialmente Concebido e Editado por JOÃO ALMEIDA TAVARES, para a Obra Literária
"MAFALALA 1974 - Memórias do 7 de Setembro - A GRANDE OPERAÇÃO".



CLIKA NESTE LINK: 
PARA LERES O LIVRO DE CLOTILDE MESQUITELA COM O TÍTULO::
MOÇAMBIQUE, 7 DE SETEMBRO


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PARA LERES O LIVRO AURÉLIO LEBON COM O TÍTULO
MAFALALA A GRANDE OPERAÇÃO

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

BREVE HISTORIA DA " VIAGEM " DA CCAÇ 1710 DO BCAÇ 1916

 TEXTO E FOTOS DE JOSÉ FERNANDO PASCOAL MONTEIRO

FURRIEL MILICIANO DA CCAÇ 1710


A nossa " VIAGEM " começou em Março de 1961, com o inicio da luta armada dos movimentos de libertação e com a convicção de Salazar de manter "PORTUGAL DO MINHO A TIMOR", consubstanciado na célebre frase "PARA ANGOLA RAPIDAMENTE E EM FORÇA". Estávamos ,então, nos anos 60 que foram varridos, por toda a Europa Ocidental, por contestações estudantis a que se juntaram pessoas mais politizadas. Foi, também neste período, e na década anterior, que começou em África a independência de alguns países. Entretanto, no nosso cantinho, começou a mobilização geral de toda uma juventude, com o único objectivo de formar "carne para canhão", dizendo-nos que defenderíamos o nosso território. Com esta atitude politica, toda uma geração foi trucidada, mutilada. Uns não acabaram os seus cursos, outros foram impedidos de sair do seu país, para trabalharem nos países que tinham acabado a segunda guerra mundial e que necessitavam de mão de obra, outros, ainda, saíram clandestinamente. Foi neste ambiente, que nos encontrámos pela primeira vez em CHAVES, estávamos, entretanto, em 1967. Aqui o nosso batalhão começou a estrutura de corpo e foi iniciado um novo ciclo de relações humanas. Com a formação das Companhias e destas em Pelotões, começa, na realidade, a constituir-se uma nova família, com novos anseios, novos desafios e, também, novas preocupações. Terminada, em CHAVES, a formação militar e como a máquina de guerra não podia parar, fomos para Vila Real esperar embarque. Chegado o mês de Abril - dia 12 - , encaminharam-nos para Lisboa, onde estava á nossa espera o navio Niassa, para a nossa grande viagem rumo a Moçambique. 
12 de Abril de 1967. o embarque do Bcaç 1916
Navegando pelo Atlântico, tivemos a primeira paragem em Luanda, onde estivemos cerca de dois dias, e pela primeira vez sentimos o " cheiro " de África. A viagem prosseguiu pelo Atlântico, e todos nós nos lembrámos dos nossos antepassados, quando da passagem para o Índico. Finalmente desembarcámos em Lourenço Marques ( Maputo ), onde todo o Batalhão desfilou na praça Mouzinho de Albuquerque. Foi aqui que, verdadeiramente, começámos a " cheirar " África, pois era aqui que iríamos dar mais dois anos das nossas vidas. A viagem continuou por Nacala, Porto Amélia ( Pemba ), e Mocímboa da Praia, onde desembarcamos. Desta localidade, entrámos nas estradas de pó e lama ( picadas ) onde o Batalhão se foi espraiando pelas localidades de Diaca, Sagal e finalmente a " cabeça da guerra ", Mueda, onde ficaram sediadas a CCS e a Companhia 1710. 
Mueda
Na chamada " terra da guerra " , ficámos cerca de um ano. Foi ali, Mueda, que o grupo ficou mais forte, mais unido e que se forjaram verdadeiras amizades. Fizemos inúmeras operações de combate, vimos populações famintas, camaradas ficarem feridos e alguns mortos. Através das adversidades, ficámos mais fortes como homens e também mais responsáveis. Foi aí, também, que começaram as primeiras interrogações. O que fazemos aqui?. Que causas ?, que interesses defendemos?. 
O que fazemos aqui? Que causas? Que interesses defendemos?

O tempo ia passando e na mente de todos só um pensamento - SUL - , o que representava descanso fisico e mental e sobretudo ficar longe da guerra. Ai vamos nós, finalmente, para a estrada Mueda/Mocimboa da Praia, e então foi com enorme contentamento que voltámos a passar pela curva da morte, Sagal, Diaca , Mocímboa e finalmente o tão esperado navio que nos iria levar para a Beira. A descompressão de todos nós era notória, já parecíamos outros, estávamos mais " leves ". Embarcámos, numa viagem fantástica, de comboio que durou cerca de dois dias, Beira/Moatize, entrando no distrito de Tete, rumo a Vila Coutinho. 

De férias na ilha de moçambique

Aqui começou uma nova etapa do nosso destino Africano. Agora, em vez de contarmos os dias, passámos a contar os meses. Aqui a ocupação do tempo foi muito mais fácil, pois além das patrulhas para marcar presença territorial, havia contactos 
com as populações e visitas a várias missões de cariz religiosas. Finalmente chegou o dia 8 de Maio de 1969 , em que embarcámos no Império, regressando a Lisboa no dia 31 do mesmo mês. Terminou aqui a nossa " viagem " , no entanto só em ABRIL de 1974, se fechou o ciclo da " Grande Viagem " de todos nós.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

TESTEMUNHO DE UM PRISIONEIRO DE GUERRA (OMAR 1 DE AGOSTO DE 1974)

OMAR, 1 de Agosto de 1974, antes do nascer do Sol, ouviam-se megafones no final da pista. A companhia colocou-se em alerta mas imediatamente o Alferes Miliciano Monteiro comandante da companhia ordenou que ninguém pegasse em armas. Obedecida a ordem,os elementos da FRELIMO que trajavam à civil juntaram-se à porta de armas e pediram para que mandasse-mos um mensageiro à pista

Ofereceu-se o soldado Piedade de seu nome,mas pediram novamente que também fossem à pista o comandante o que de imediato aconteceu.

A partir de aí começaram a entrar no aquartelamento, muitos elementos da FRELIMO poderosamente armados a cumprimentarmos e a dizer que a guerra tinha acabado e que iríamos ser libertados mas que primeiro iríamos ao encontro do chefe. Fomos facilmente desarmados e colocados em fila indiana, andamos pelo capim em trilhos alguns conhecidos por nós, pernoitamos no mato em zonas que  eles diziam estar libertadas.

Ao quinto dia destas caminhadas, e sem sabermos, o nosso destino chegamos ao rio Rovuma onde já se encontrava á nossa espera várias canoas que nos transportaram até à outra margem, a TANZANIA. Aqui entramos em camions do exército tanzaniano,andamos dezenas de kilometros até uma base chamada salvo erro NACHINGWEA. Quartel militar da FRELIMO, onde já se encontravam outros militares Portugueses aí aprisionados, muitos eram Açorianos.


Deram-nos fardas da FRELIMO e ai ficamos até dia 18 de Setembro de 1974. Neste dia apareceu junto de nós o SAMORA MACHEL e sua comitiva. Saudou-nos e disse que iríamos para as nossas famílias nesse dia. F    Fomos transportados de avião para Nampula e daqui para a ilha de Moçambique,onde permanecemos dois meses.

A companhia veio para a Metrópole no final de 1974, mas eu ainda lá fiquei em Nampula até Março de 1975, por ter ido em rendição individual.

Quer acrescentar que durante o tempo que ficamos aprisionados não nos trataram mal, fisicamente, mas psicologicamente sim. No dia da nossa libertação foram-nos indicados vários destinos entre eles ,União Soviética,Cuba, Argélia; é claro que todos dissemos que queríamos regressar a Portugal.

O Alto Comissário Contra - Almirante Victor Crespo que nos enviou já em Nampula um questionário, para relatarmos o valor dos nossos pertences roubados pela FRELIMO para que fossemos indemnizados, mas nada aconteceu; o resto da história já é conhecida.

Texto de:

Manuel Patrício 

Soldado da 1ª Companhia do Batalhão de Cavalaria 8421






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sábado, 10 de agosto de 2024

"OS ÚLTIMOS TAMBÉM FAZEM HISTÓRIA"

Fez ontem precisamente 50 anos após o inferno passado na picada SAGAL-MUEDA.

Sou Bernardino Martins, soldado Comando da 29ª Companhia de Comandos, irmão de José Martins 1º Cabo Paraquedista, e publiquei este texto de homenagem ao meu irmão José Martins.

JOSÉ MARTINS - 1ª Cabo Paraquedista

José Carlos Correia Martins, Sócio da Associação de Pára-Quedistas do Algarve Nº 251, nascido a 25 de Janeiro d 1952 e criado numa pequena aldeia piscatória do Barlavento algarvio, no concelho de Vila do Bispo.
Ingressei nas tropas Pára-Quedistas no R.C.P, em Janeiro de 1973, 1º Incorporação, 4ª C.A.. Depois de ter feito todo o percurso até chegar à tão desejada Boina Verde, fui colocado em Moçambique, no B.C.P 32 - 2º Pelotão, 2ª Companhia, com o nº 601/73.
Fiz várias operações nos Distritos de Tete e de Cabo Delgado (Mueda).
Eis a razão dos últimos também fazerem História: Porque foi o último Pára-Quedista do B.C.P 32 a ser ferido, numa difícil operação na picada do Sagal, onde sofremos várias emboscadas, coo muitos camaradas ainda as recordam, aquando da Companhia do Exército, do Sagal para Mueda.
O Grupo de Combate ao qual eu pertencia era comandado pelo Alferes Morgadinho e, se a memória não me falha, foi a sua primeira operação.

O José Martins na Picada do Sagal-Mueda

O outro grupo era comandado pelo Alferes Sanches e a Companhia comandada pelo Capitão Melo de Carvalho. Tínhamos como número de código Águia. No dia 9 de Agosto de 1974, depois de algumas horas de progressão, sofremos mais uma emboscada onde eu eu era o homem da frente e fui alvejado com um tiro no tórax, atingindo-me um pulmão e o fígado. mas graça à eficaz evacuação feita ainda debaixo de fogo pelo mecânico de helicópteros Abddul, e a intervenção cirúrgica a que fui submetido, feita pelo professor Linhares Furtado e a sua equipa da qual não sei os nomes, sem este espírito de grupo e camaradagem, não estaria aui a contar a História do Último. 

CLIK NESTE LINK https://niassa1558.blogspot.com/2020/02/memorias-dum-mecanico-de-alouette-em.html  PARA LERES "MEMÓRIAS DE UM MECÂNICO DE ALOUETT" POR  ABDUL OSMAN, ONDE É RELATADO ESTE INCIDENTE

Assim aqui vai o meu agradecimento muito especial a estes elementos, e a todos os camaradas de armas que muito me ajudaram das mais diversas formas, uma das quais, muito especial, foi darem-me o sangue necessário pra me salvarem a vida.


O meu obrigado a todos, que nunca foram e nem serão esquecidos.


1º Cabo Pára-quedista 601/73
José Martins

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