preso em Abril de 1966 por ter “permitido” que a Frelimo atravessasse as suas terras,
que lhe levava comida à cadeia, Ramos disse-lhe que ela “era muito bonita” que não
“precisava de viver com um preto”. Coheque queixou-se ao inspector Francisco da
Costa Lontrão e este terá repreendido o subordinado. Contudo, numa visita posterior,
relações sexuais”. À data deste auto, esta mulher já tinha morrido.
recluso que fou recrutado pela PIDE em 1965 e ficou a trabalhar como cabo auxiliar.
tortura: o Popeye e o Boby, sendo este último mais mencionado pelas vítimas. Estes
frequentemente identificados perante a comissão como autores de actos criminosos.
foram levados para os calabouços da PSP onde o guarda Bento Maria lhes queimou, à
vista do queixoso e doutros presos, os testículos, o pénis e toda a zona púbica com um
archote improvisado com jornais enrolados. “O mesmo momento foi testemunhado por
Cupela Muahamara e a mesma prática referida por muitos ex-prisioneiros e funcionários da PIDE, como o auxiliar Sebastião Choquela Esteira. “Viu pelo menos duas vezes o guarda Bento Maria queimar a piça dos presos com capim a arder, empurrando-os com o fogo para junto do cão Boby, o qual mordia os presos.” Ramos fazia o mesmo, segundo Rodrigues Numanle, um cozinheiro de 39 anos, que o viu “deitar gasolina nos testículos” de um recluso chamado André Navinho e que, “acendendo um fósforo, deixou arder”, “|O preso| foi transportado para o hospital a fim de receber |tratamento| o mesmo dia e vindo |para a cadeia| nesse mesmo dia. Saindo em liberdade desta polícia em 1968 veio a morrer em sua casa, aproximadamente um mês depois.
As provas da violência e do terror
A primeira página era uma folha azul de 25 linhas, dactilografada e dirigida ao “Gabinete do Movimento das Forças Armadas (MFA)junto do Comando-Chefe da RMM|Região Militar de Moçambique|”, datada de 6 de Junho de 1974 e assinada por um motorista chamado Alfredo Fontes Nivavela. O texto tomava a forma de uma participação judiciária feita no quartel em Nampula, a cidade mais importante do norte moçambicano, e tinha como instrutor um alferes miliciano, Luis Filipe Sacramento, e como escrivão o cabo Francisco Torres Nivavela, residente no Bairro do Matadouro, procurava o paradeiro do seu tio Paqueleque, desaparecido desde o dia em que fora detido por dois agentes da PIDE/DGS, em Outubro de 1966. No segundo fólio, repetia-se a metodologia: os mesmos militares registavam a 4 de Juno o pedido do cozinheiro Gabriel Mussa, que pretendia saber em que circunstâncias morrera o seu tio Pampião Piteira, morto nas celas da PIDE naquela cidade, em data incerta.
Seguiam-se 235 folhas de depoimentos mais ou menos semelhantes, que assumiam o formato de actos processuais: autos de notícia, autos de queixa, participações e denúncias. Os depoentes não eram apenas familiares que procuravam saber o que acontecera aos seus pais, irmãos, filhos e outros parentes após a detenção dos mesmos pela PIDE – na grande maioria, eram antigos reclusos sa PIDE que contaram aos militares as torturas e os tratamentos desumanos e criminosos a que foram sujeitos nos interrogatórios e nas secções prisionais da polícia. Falaram e mostraram como os seus corpos ostentavam as marcas vitalícias dessa violência.
Os restantes fólios desse volume consistiam em cópias de comunicações entre as subdelegações e a delegação da polícia na capital, Maputo (então Lourenço Marques), sobre a morte sem causa registada de civis nos calabouços da PIDE e nos hospitais locais, entre 1964 e 1974; e ainda originais dos registos quimzenais de detenções, folhas A3 quadriculadas com as identidades dos presos, datas de entrada e de libertação e frequência da distribuição de alimentos, papeis manuscritos sobre refeições fornecidas e compra de géneros e bens alimentares – ou seja, uma parcela do arquivo que se julgava perdido para sempre.
O que esta caixa nº 48 indiciava era que após a Revolução de Abril as Forças Armadas (FA) presentes em Moçambique tinham constituído uma Comissão de Verdade para investigar os crimes e as violações de direitos humanos cometidos pela PIDE na colónia, inquirindo vítimas e testemunhas.
Mas quando Paulo Tremoceiro partilhou a sua perplexidade com o P2, em finais de 2024, as suspeitas sobre esta documentação não previam o que se encontrou nos últimos seis meses: em mais 11 caixas estavam as provas documentais, e até agora nunca reveladas, das atrocidades praticadas pela PIDE contra a população civil moçambicana.
Verificar “possíveis crimes e abusos graves
No quartel de Vila Cabral, perto do lago Niassa, a notícia de uma revolução na “metrópole” chegou através de uma rádio sul-africana. Os militares ali instalados estavam “isolados do mundo”, diz hoje o juíz-conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça, António Ferreira Girão, então alferes miliciano. “Foi uma bagunça”, recorda, “os gritos eram ’viva a peluda’ e não ‘viva a liberdade’ porque na gíria militar a ‘peluda’ era sair da tropa”.
A quase mil quilómetros dali, em Nampula, o então major pára-quedista Nuno Mira Vaz, que chegara a Moçambique precisamente um ano antes, a 25 de Abril de 1973, oriundo de missões na Guiné e em Angola, apresentava-se como um dos militares do Movimento das Forças Armadas (MFA), sendo destacado para o grupo que deveria “responsabilizar-se” pelos elementos da PIDE/DGS. Mais a norte, em Montepuez, pequena cidade que tinha pouco mais do que um entreposto algodoeiro, propriedade de um colono abastado, António Ribeiro Carioca percebeu depressa que tinha de ali permanecer a cumprir o serviço militar, mas ainda não podia suspeitar que o Verão dos seus 22 anos iria ser passado a registar provas incriminatórias contra funcionários da polícia política portuguesa.
Muitos membros do grupo de oficiais que registou e documentou a repressão policial da PIDE já morreram; outros recusaram falar. Estes três homens (que nunca se conheceram) aceitaram falar com o P2. O conselheiro Ferreira Girão e o coronel Mira Vaz não têm memórias muito vividas da inquirições, talvez porque tenham abandonado abruptamente estes trabalhos: o para-quedista, Mira Vaz, saiu de Nampula a 4 de Julho para chefiar um batalhão em Nacala: e Ferreira Girão, que então era já magistrado do Ministério Público, regressou a Portugal a 4 de Agosto, Ribeiro Carlota, hoje com 78 anos, engenheiro electrotécnico reformado, foi o único que passou os meses de Junho, Julho e Agosto de 1974 a ouvir civis, quase todos das etnias macua e maconde, originários da província de Cabo Delgado. “Quando acordávamos e íamos à janela espreitar, já havia muita gente que estava à espera para ser ouvida. Era impressionante”, lembra. Muitas destas pessoas viajavam de lugares remotos, a pé, caminhando “desde a véspera”Em Vila Cabral, Nampula e Montepuez, como também em Quelimane, Beira, Tete ou Maputo, instalados em quartéis ou nos antigos da PIDE (como a “Vila Algarve”, delegação na capital), dezenas de militares começaram em finais de Maio de 1974 a trabalhar exclusivamente na “Comissão de apuramento de responsabilidade criminais de elementos da ex-DGS” ou “Comissão de Saneamento e Investigação”).
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| "Vila Algarve" |
A data dos primeiros autos de queixas é 28 de Maio, feitos em Nampula. No dia anterior, 27, um telegrama do comando-chefe na colónia informava Lisboa de que todos os sectores militares tinham sido incumbidos de verificar os “possíveis crimes e abusos graves” exercidos por pides e que as inquirições seriam feitas por grupos de três oficiais, que, nas suas áreas, poderiam instaurar processos-crime e “controlar” os funcionários da polícia. Isto significava, segundo se comprova na documentação, que os militares ficavam responsáveis pela instrução preparatória dos processos, actuando como investigadores criminais. Não podiam punir judicialmente, mas tinham poder para arquivar autos, manter sob prisão ou libertar pides, ordenar diligências, fazer interrogatórios e recorrer aos arquivos policiais e prisionais. Redigiam sumários de culpa pelos crimes de homicídio ou ofensas corporais (praticamente ops únicos considerados) e recomendavam a entrega da matéria probatória aos tribunais militares. Aparentemente, essas provas nunca foram entregues às instâncias judiciais. Serviços paralisados, fugas e poucas detenções
Em Moçambique, as decisões sobre o destino a dar ao pessoal da PIDE, após a Revolução foram titubeantes e pautadas por retrocessos e dúvidas. Logo em Abril, os serviços desta polícia paralisaram, a delegação em Maputo e as subdelegações e postos em todo o país foram tomadas e ocupadas pelo Exército, confiscou-se armamento e munições e tomou-se o controlo das centrais de comunicações e do centro de instrução dos Flechas, a força paramilitar da PIDE/DGS que tinha quartel a 12 quilómetros de Vila Pery (actual Chimóio). No decreto-lei que ditava a extinção da PIDE, aprovado pela Junta de Salvação Nacional a 25 de Abril, lia-se que os funcionários destacados no Ultramar poderiam ser transferidos para os serviços de informações militares caso estivessem ilibados de responsabilidades criminais. Em Abril e Maio, porém, era ainda muito cedo para se apurar, de facto, sobre as atrocidades perpetradas pela PIDE contra a população civil, sobretudo desde 1964, ano da eclosão da guerra em Moçambique.
A iniciativa de incorporar pides no universo castrense foi pouco consensual no seio do MFA. Em Vila Pery, o Movimento entendia que o trabalho desta polícia não tinha “qualquer interesse” para a Polícia de Informação Militar (PIM), sublinhando que isso era verificável em colaborações e relatórios “antecedentes”. “Na minha perspectiva”, diz hoje Nuno Mira Vaz, elemento do MFA em Nampula, “não eram essenciais à tropa. Digamos que não havia consideração recíproca”.
Vestígio
Em cima, Paulo Tremoceiro, chefe de Divisão do Comunicação e Acesso do Arquivo Nacional Torre do Tombo, no piso onde se encontra o Arquivo PIDE/DGS: ao lado, ruínas da “Vila Algarve” vivenda onde funcionou a delegação da polícia política em Maputo. Em baixo, o juiz-conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça-António Ferreira Girão, que fez parte da Comissão de Verdade em Moçambique – era alferes miliciano e estava destacado na secção de “acção psicológica”Em Lisboa, o assunto não causava menos embaraços. Em meados de Junho, Costa Gomes, chefe do Estado-Maior do Exército, perguntou a Almeida Santos, ministro da Coordenação Interterritorial ( a nova designação do Ministério do Ultramar), se o saneamento integral integral dos quadros da polícia política também se aplicava às colónias, notando desde logo que muitos pides estavam já a trabalhar nos organismos militares.
Em Abril de 1974, o quadro da PIDE em Moçambique seria talvez composto por cerca de 600 funcionários (não há números rigorosos, sabendo-se que em 1971 os números rondavam as duas mil pessoas nesta colónia, em Angola e na Guiné). Tinha uma delegação em Lourenço Marques (onde estava a direcção-geral, chefiada por António Fernandes Vaz de 1960 a 1972, e depois por Fernando Pereira de Castro até Abril de 74); mais de uma dezena de subdelegações, sobretudo no Norte, onde estava o epicentro da guerra, e inúmeros postos de fronteira e de vigilância. “Tinha ainda sob a sua tutela um grande número de prisões: Machava e Sommerchild, na capital, Fortaleza do Ibo, Ponta Mahone, o campo de trabalhos forçados de Mabalane, calabouços em Quelimane, Beira, Nampula, Tete, João Belo ou Vila Junqueiro e celas em postos da administração colonial. Estava dispersapor todo o território e não existia qualquer controlo sobre a sua actuação.
Poucos dias após a Revolução, os Democratas de Moçambique, uma organização criada ainda no período colonial, começaram a exortar publicamente a população a apresentar queixas formais contra a PIDE. Disponibilizaram-se para recolher denúncias manuscritas e distribuíram folhas pré-impressas que poderiam ser preenchidas por vítimas e familiares. Sabemos agora que uma grande parte desta documentação foi recuperada pelos instrutores militares da Comissão e incluída nos processos-crime como matéria probatória. No cabeçalho dos impressos lia-se a frase “Investigação dos crimes contra a humanidade e contra a economia” – não era a primeira vez que a PIDE era acusada de violações dos direitos humanos e delitos contra bens públicos e privados, mas desta vez, com o derrube da ditadura e da ocupação colonial, talves fosse feita justiça, acreditavam os Democratas.
Temendo o recrudescimento da ira popular e de actos de justiça nas ruas, o Exército começou a deslocar pides para outras zonas, proibindo a sua saída do país. Porém, um número incontável conseguiu fugir para a Rodésia (actual Zimbabwe) e para a África do Sul; outros, poucos, foram surpreendidos por ordens de prisão, como irem para a Machava, de maneira que você como está à vontade com eles tem de os reunir para serem presos. “Mas como? ’Olhe, uma sugestão: diga que vais fazer uma palestra’. “ E foi o que aconteceu. “Lá os reuni e nisto sinto à volta do edifício, parecia um filme daqueles de guerra, as botas cardadas e as armas apertadas para prender 30 homens,”
Num telegrama datado de 24 de Maio, o comando militar em Moçambique informou Lisboa que estavam detidos 38 pides (12 inspectores, 3 chefes de brigada e 23 agentes). Mas no mês seguinte tudo mudou, ainda que temporariamente.
Destruir os arquivos para evitar
“incidentes internacionais”
A 8 de Junho, num plano rodeado do maior secretismo e delineado pelas Forças Armadas (FA) em Moçambique em conjunto com o Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), depois de “ponderados todos os riscos”, foi desencadeada a Operação Zebra, destinada a deter a quase totalidade dos quadros da direcção e investigação da PIDE/DGS- exceptuaram-se as agentes femininas e os elementos que tinham entrado em funções depois de 1 de Março de 1974.
A que se devia a operação? Antes de mais, tinha um carácter preventivo e de protecção:”(…) o seu desencadeamento foi a intensa campanha desenvolvida pela opinião pública apoiada pelos jornais tentando confundir com ex-DGS campanha que continua”, lê-se num telegrama “secreto” remetido de Moçambique, pertencente a um fundo do Arquivo da Defesa Nacional (ADN) desses dias revela que os militares acreditavam que era necessário prender os pides para que os civis não receassem denunciar as violências cometidas na última década. A mesmo tempo, procuravam contrariar a “forte campanha de informação pública” que insinuava a cumplicidade e colaboração entra as FA e a PIDE/DGS, algo que causava notório desconforto ao Exército.
Na data em que foi realizada esta operação militar, prosseguiam já os trabalhos da comissão criada para investigar os crimes da PIDE. Menos de um mês depois, a 4 de Julho, 148 funcionários tinham sido libertados, embora sujeitos ao “regime de controlo militar” e proibidos de sair das suas áreas de residência. Vinte dias mais tarde, o EMGFA foi alertado de que decorriam “fugas” para a África do Sul, a partir de onde os pides tentavam “aliciar outros” para uma acção “defensiva ou ofensiva” na colónia. A 3 de Setembro, nas vésperas da insurreição branca contra os acordos de Lusaca, Lisboa decidiu o “imediato regresso” dos que estavam “em liberdade e presos”; a 7, os revoltosos libertaram os que estavam detidos na Machava e deram-lhes armas; e no final do mesmo mês, centenas de funcionários portugueses e nativos embarcaram com as famílias em aviões fretados pela FA, com destino a Lisboa.
Em Juno, a maior preocupação da cúpula militar em Lisboa era, porém, a salvaguarda dos arquivos da polícia em Moçambique, extensos e dispersos – era imperioso mantê-los intactos e sob protecção, existindo o “grave risco” de “incidentes internacionais”. O EMGFA não sabia ainda, contudo, que a PIDE já se tinha antecipado, por diferentes motivos e usando outros métodos, nas subdelegações da Beira e de Inhambane: na primeira cidade, um inspector obrigara cinco reclusos a transportar todo o arquivo para sua casa, na cozinha na qual os papéis foram destruídos pelo fogo; e na segunda, tudo foi igualmente incinerado num auto-de-fé que durou de 26 de Abril a 4 de Maio.
Curiosamente, o argumento do receio de “incidentes internacionais” foi novamente invocado pelo Exército em finais de Setembro num telegrama “muito secreto” remetido para Lisboa. Mas, desta vez, o mando era para destruir todo o acervo da PIDE/DGS, mesmo com o “prejuízo” de nunca mais ser possível saber o destino de muitos presos políticos e de não se poder abrir processos-crime contra membros da polícia.
Quando esta ordem foi cumprida, já os instrutores da comissão tinham guardado muitas cópias e originais desse vasto arquivo nas pastas dos processos-crime. O recurso a estes fundos fazia parte do trabalho de investigação e em muitos casos resultou na recolha de provas documentais dos métodos repressivos usados contra civis. Nas 12 caixas descobertas na Torre do Tombo está também uma parcela considerável do arquivo perdido de Moçambique.
Punição e extermínio
A 5 de Abril de 1973, a Federação Democrática Internacional das Mulheres (FDIM) apresentou um relatório no Comité dos Direitos Humanos da ONU em que eram detalhados actos brutais cometidos pelos “colonialistas portugueses” em Moçambique. Uma cópia desse documento chegou à sede nacional da polícia política, em Lisboa, em Julho, procedente do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Nada do seu conteúdo era estranho à direcção da PIDE/DGS ou ao seu presidente do Conselho, Marcelo Caetano. A FDIM alertava a ONU para as “bárbaras atrocidades” contra a população, exigia um inquérito internacional e para sustentar as suas acusações anexava um depoimento escrito do padre comboniano Luís Afonso Costa, que, no ano anterior, já comunicara a Caetano e a Roma a ocorrência de massacres e sucessivos atentados contra os Direitos Humanos no distrito de Tete. Os acusados eram as tropas e os pides.
As denúncias às autoridades governamentais portuguesas e a instituições internacionais, feitas sobretudo por padres e missionários de diversas congregações, que tinham contacto direto com as populações, recrudesceram após o assassinato pela PIDE/DGS do fundador da Frelimo, Eduardo Mondlane, em Fevereiro de 1969, a par do aumento da violência contra populares. Tudo se prolongou até aos primeiros dias de Abril de 1974, quando Caetano ordenou a expulsão do bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto – num dos processos-crime da Comissão encontra-se o depoimento de uma testemunha que conta como os pides perseguiram, ameaçaram e bateram nos missionários também expulsos nessa altura, acicatando a ira dos colonos e lançando panfletos com o retrato de Vieira Pinto e a legenda “Famigerado traidor à Pátria. Indesejável em território português. VIVA PORTUGAL UNO E INDIVISÍVEL”.
O eco internacional do que acontecia em Moçambique teve poucos ou nenhuns efeitos prático a na colónia. Pelo menos desde 1966, os delegados do Comité Internacional da Cruz Vermelha que visitavam o país, nomeadamente as cadeias da PIDE, eram constantemente ludibriados através de cenografias montadas pela polícia com sugestões do Governo da “metrópole” e colaboração da Interpol, como veremos no artigo dedicado às prisões.
Nas últimas linhas de uma participação escrita a 14 de Julho de 1974 e entregue à comissão militar, Luís José Cotopola, funcionário administrativo em Govuro, torturado em Vila Cabral e na Machava, dizia esperar contribuir para “o desvendamento do grande mistério que são os crimes cometidos pela PIDE/DGS”. Eram um mistério, sde facto, para todos os que não foram submetidos à violência discricionária desta polícia. Quando a comissão iniciou os seus trabalhos, desconhecia-se ainda a escala e o grau de brutalidade e sadismo praticados, os atropelos às convenções do direito internacional humanitário e às mais básicas condições humanas de dignidade.
O que os instrutores militares registaram e recolheram para memória futura – a voz das vítimas, mas também a de familiares desaparecidos e mortos e a dos perpetradores (agentes, inspectores, guardas prisionais, auxiliares e intérpretes) – será contado nas próximas semanas e num podcast de seis episódios. Nas edições impressa e digital, serão ainda publicadas selecções de documentos inéditos.
Num curto período de tempo (três meses), a comissão agregou milhares de depoimentos a 381 processos. Ouviu vítimas, familiares, testemunhas, elementos da PIDE e da administração civil, funcionários de hospitais e de conservatórias do registo civil, agentes da PSP, médicos e enfermeiros. Procedeu a acareações e a sessões de reconhecimento presencial, pediu diligências judiciais, instaurou autos de corpo de delito directo e indirecto, requereu exames de sanidade e registou lesões corporais visíveis. Constituiu como arguidos ou identificou como “presumidos delinquentes” dezenas de pides, alguns dos quais tinham já abandonado a instituição ou haviam sido deslocados para a “metrópole”. Interrogou alguns dos que foram capturados na Operação Zebra e ouviu confissões sobre a recorrente prática de torturas nos interrogatórios, mutilações, sobrelotação das cadeias, mortes por asfixia, castigos corporais, fome, ausência de tratamento médico e a memória traumática de um cão esfomeado que durante a noite era introduzido nas celas da subdelegação em Nampula para estropiar os reclusos.
Em diversos interrogatórios, os instrutores perceberam que nunca seria possível determinar o número de detidos e mortos pela PIDE porque em alguns postos e subdelegações o registo dos presos só começou a ser feito em finais de 1973. Muitos foram inumados em valas comuns nos cemitérios e no mato, outros lançados aos rios, sem certidões de óbito ou com assentos que falseavam as causas (broncopneumonia ou insuficiência cardíaca).
Os trabalhos de instrução feitos entre junho e finais de Agosto, “perdidos” até agora na Torre do Tombo, representam um processo de punição e extermínio sem qualquer controlo entre 1964 e 1974 – detenções ilegais, execuções sumárias, desaparecimentos, trabalhos forçados, condições desumanas no encarceramento, falta de apoio médico, confiscos e roubos de dinheiro e bens pessoais, sevícias e violações sexuais, choques eléctricos, alimentação deficiente, inibição do acesso a água, mutilações com pregos e facas, queimaduras do corpo com archotes, isqueiros, cigarros, ferros em brasa para a ferver, fracturas de membros e tortura através de “water boarding” são alguns dos relatos da desmedida violência exercida pela PIDE.
Depois, em Setembro, a agitação em Moçambique não apenas decidiu o repatriamento e o desterro dos pides, como terá decretado o fim da comissão: os chamados “termos de entrega” dos processos datam do dia 10 e obedecem a uma “mensagem-relâmpago” para que os trabalhos sejam encerrados. Algures entre 1974 e 1975, esta documentação viajou para Lisboa, porventura nas malas especiais do comando militar português, com escolta e isenta de inspecção aeroportuária, e foi levada para a prisão de Caxias, onde a Comissão de Extinção da PIDE/DGS reuniu e catalogou o arquivo.
Desde 1992, as 12 caixas estiveram num dos depósitos da Torre do Tombo à espera da curiosidade de Paulo Tremoceiro. É o conteúdo dessas caixas que será revelado pelo P2 nas próximas semanas.
Punir, extorquir e aterrorizar: os métodos da PIDE/DGS no Norte de Moçambique
A perseguição religiosa aos crentes muçulmanos traduziu-se em detenções, sessões de torturas, mortes, destruição de lugares e livros religiosos, praticados pela PIDE e por algumas autoridades civis. Em Vila Cabral, Quelimane e Porto Amélia, a polícia era uma estrutura repressiva que tinha autonomia e só obedecia à desumanidade.
A perseguição religiosa aos crentes muçulmanos traduziu-se em detenções, sessões de torturas, mortes, destruição de lugares e livros religiosos, praticados pela PIDE e por algumas autoridades civis. Em Vila Cabral, Quelimane e Porto Amélia, a polícia era uma estrutura repressiva que tinha autonomia e só obedecia à desumanidade.
Uma das primeiras acções do chefe do posto colonial foi mandar matar um porco e obrigar os muçulmanos a comê-lo. Depois, proibiu o culto islâmico e perseguiu e prendeu crentes e líderes religiosos. Mário da Cruz Pires Tenório chegou a Lalaua, a noroeste de Nampula, no interior moçambicano, por volta de 1965, cerca de um ano após o início da guerra na antiga colónia. Quando assumiu funções como responsável do posto administrativo, “tudo se modificou”: os habitantes, que viviam da agricultura, passaram a ser “perseguidos sem motivo” e espoliados (de dinheiro e bens, como máquinas de costura ou animais de criação); e os que morriam nos interrogatórios eram inumados no mato, “deitados ao rio” ou lançados numa “langua” (pântano) conhecida por “Bananeiras”, sempre durante a noite.
Os auditores da comissão de apuramento de responsabilidades criminais da ex-PIDE/DGS que recolhiam queixas em Nampula ouviram estas declarações a 10 de Julho de 1974, proferidas por uma mulher de 42 anos, Maria Armanda Riedel, natural de Lalaua. Mas desde finais de Maio que registavam relatos atrozes sobre a actuação de Cruz Tenório, em estreita colaboração ou com encobrimento dos elementos da subdelegação da PIDE em Nampula. Ajudado por pides ou cipaios, perseguiu, prendeu, torturou, matou e escravizou. Sucederam-se as detenções ilegais, os desaparecimentos, as mortes por espancamento e as mutilações, com uma cruel preferência pelo corte de orelhas.
Os auditores da comissão de apuramento de responsabilidades criminais da ex-PIDE/DGS que recolhiam queixas em Nampula ouviram estas declarações a 10 de Julho de 1974, proferidas por uma mulher de 42 anos, Maria Armanda Riedel, natural de Lalaua. Mas desde finais de Maio que registavam relatos atrozes sobre a actuação de Cruz Tenório, em estreita colaboração ou com encobrimento dos elementos da subdelegação da PIDE em Nampula. Ajudado por pides ou cipaios, perseguiu, prendeu, torturou, matou e escravizou. Sucederam-se as detenções ilegais, os desaparecimentos, as mortes por espancamento e as mutilações, com uma cruel preferência pelo corte de orelhas.
Os auditores da comissão de apuramento de responsabilidades criminais da ex-PIDE/DGS que recolhiam queixas em Nampula ouviram estas declarações a 10 de Julho de 1974, proferidas por uma mulher de 42 anos, Maria Armanda Riedel, natural de Lalaua. Mas desde finais de Maio que registavam relatos atrozes sobre a actuação de Cruz Tenório, em estreita colaboração ou com encobrimento dos elementos da subdelegação da PIDE em Nampula. Ajudado por pides ou cipaios, perseguiu, prendeu, torturou, matou e escravizou. Sucederam-se as detenções ilegais, os desaparecimentos, as mortes por espancamento e as mutilações, com uma cruel preferência pelo corte de orelhas.

Em Agosto de 1974, perante o volume e o teor dos testemunhos contra este funcionário colonial, a comissão perguntou ao inspector Gilberto da Silva Campos, que chefiara a polícia em Nampula e que nesta altura estava preso na cadeia da Machava (Maputo), por que razão nunca denunciara “os crimes extremamente graves praticados” em Lalaua. Silva Campos, que à data do 25 de Abril tinha ascendido a director adjunto da PIDE em Moçambique, respondeu que não se recordava de Cruz Tenório e nada mais disse. Mas o agente José Duarte da Cruz, que, tal como o seu superior, fora preso na operação militar que capturara meio milhar de pides (Operação Zebra), lembrava-se bem do administrador e dos comportamentos que tinham “prejudicado” o trabalho policial: fizera “inúmeras prisões”, “prendia pessoas por alta recreação e ouvia os presos antes de a PIDE chegar”, causando “prejuízo para a acção” da polícia. Cruz Tenório não lhe merecia “muita consideração”.Os postos administrativos compunham o organograma territorial ultramarino e eram habitualmente instalados em zonas com parco desenvolvimento económico. Os seus responsáveis eram a autoridade colonial máxima na povoação, com competências definidas por lei, mas frequentemente galgavam os limites das suas funções e criavam pequenos feudos onde a violência arbitrária tinha o respaldo e a cumplicidade da PIDE.
A 10 de Julho de 1974, Francisco Momula participou a morte do seu irmão, Metaveia Monihuia Mucabara, na cadeia do posto de Lalaua. A Comissão consultou os arquivos da PIDE/DGS em Nampula e no registo de preso de Metaveia encontrava-se uma informação manuscrita sobre a sua libertação a 8 de Setembro de 1969, provavelmente a data da sua morte.
No Norte de Moçambique, as subdelegações de Nampula, Quelimane, Vila Cabral e Porto Amélia (actual Pemba) tinham brigadas itinerantes que actuavam nestes postos e nas circunscrições concelhias, mantendo em muitos deles calabouços clandestinos. Entre os milhares de páginas de queixas registadas pela comissão encontram-se histórias macabras passadas em Quisanga, Vila Junqueiro (Gurué), Metuge, Lugela, Palma, Nairoto, Montepuez, Ancuate e Inhassunge.
No posto de Gurué, Lucas Bassião foi queimado por pides nas pernas e nos pés com um ferro em brasa; em Mocímboa da Praia, Mário Matacalia foi agredido com correntes de bicicleta, pendurado pelos pés e queimado com um maçarico; e um número incalculável de detidos foi castrado durante os interrogatórios no posto de Balama.
Documentos que descrevem torturas a Lucas Bassião, no posto de Gurué, e a Tipulia Aibo, torturado em várias prisões
“Leva no mato e mata”
Num documento do arquivo da subdelegação em Nampula, resgatado pela comissão, lê-se que à data de 5 de Janeiro de 1967 estavam detidos no posto de Lalaua 143 pessoas, sem culpa formada e por tempo indeterminado. Os testemunhos das vítimas e familiares revelam que as detenções ilegais podiam prolongar-se por anos; muitos sucumbiam a doenças, gangrenas e castigos corporais, não sendo os cadáveres devolvidos às famílias. “Era costume haver bastantes mortes em consequência da porrada dada pelo pessoal das administrações ou pelo pessoal da PIDE”, confessou Joaquim Alves do Nascimento, funcionário da polícia política em Nampula desde 1962. “Ocasiões houve em que após chegados às administrações e quando se preparavam para ouvir um determinado indivíduo, aquele já tinha falecido em consequência do tratamento que lhe tinha sido dado pelo pessoal administrativo”, acrescentou quando inquirido em Junho de 1974.
Durante os anos de chefia de Cruz Tenório (1965-1968), os mortos eram transportados para o mato por outros prisioneiros, que “abriam covas e enterravam” os corpos, contou Levaneque Sapula Umparara, um agricultor de 46 anos que viu morrer muitos companheiros de cela “em consequência de porrada”. Outros eram carregados numa viatura e lançados ao rio durante a noite. Por isto mesmo, muitas das queixas apresentadas à comissão reportam-se a desaparecimentos.
Ao fim de três dias de detenção no posto e após Tenório lhe ter roubado dois contos e 200 escudos, Alberto João Kicurrupo foi levado por um auxiliar da PIDE e dois cipaios para o mato. Despiram-no e bateram-lhe com uma borracha de pneu, “ao mesmo tempo que gritavam que se o declarante não quisesse confessar ia morrer”, lê-se no auto. Kicurrupo “foi assim forçado a confessar tudo o que eles quiseram” e não voltou a ser espancado, mas foi mantido sob reclusão e forçado a trabalhar nas plantações (machambas) do administrador. “Tenório dizia aos cipaios ‘leva no mato e mata’”, afirmou, relembrando três presos que foram levados para o mato e surrados com paus — um morreu no mesmo local, os outros dois horas mais tarde nas celas.
Ao pai de Fernando Lapala, que morrera em 1973 com problemas de saúde resultantes dos maus tratos sofridos na prisão, meteram-no dentro de um saco de tecido e espancaram-no com um chicote de “cavalo-marinho” — antes disto, ensoparam o saco em água salgada, de forma a provocar dor nas feridas abertas pelas agressões. No momento da detenção, Tenório confiscou-lhe cinco contos em dinheiro que nunca foram devolvidos.
Nem o chefe do posto nem a PIDE tratavam da alimentação dos reclusos — esta só podia ser fornecida pela família — e não existia qualquer tipo de assistência médica na cadeia. As celas eram pequenas e os homens dormiam nus, uns sobre os outros. Muitos depoentes contaram ainda que Tenório tinha “o costume” de mandar um dos seus cipaios cortar as orelhas aos presos e fê-lo aos líderes religiosos da povoação. Extorquia bens e dinheiro e mantinha a população aterrorizada. “Os africanos tinham muito medo [dele]”, recordou Taleque Mutiana, ex-recluso em Lalaua.
A Visita do pintor moçambicano Malangatana. Na imagem está retratada a visita de familiares à prisão. Em muitas cadeias a alimentação tinha de ser fornecida pela família Fundação Mário Soares
Malangatana esteve preso duas vezes entre 1965 e 1966. No desenho em cima, sem título, estão retratados reclusos a dormir numa cela sobrelotada Fundação Mário Soares
Narracala Muduetere esteve preso no posto em 1966, durante oito meses que começaram com dois dias de interrogatório sob tortura com palmatória e bastão. Depois, o administrador mandou reunir todos os presos e ordenou aos cipaios que lhes fosse “tirado o dinheiro que naquele momento possuíam e caso não tivessem dinheiro na prisão tinham de informar da quantia e do local que tinham em casa, caso contrário morreriam ali”. Muduetere deu o que tinha (1500 escudos) e depois de libertado soube que os subordinados de Tenório lhe tinham ainda roubado um par de sapatos, uma gabardina e um petromax.
Os roubos tornaram-se uma prática quotidiana, relatada por muitas vítimas — Álvaro Mucovo contou que, além do pouco dinheiro que tinha, lhe levaram também uma caçadeira, duas ratoeiras, nove cabritos, nove galinhas e duas camas de ferro. Quase todos os queixosos ouvidos pela comissão foram ainda submetidos a trabalhos forçados na machamba de Tenório (tinha culturas de amendoim, milho e arroz) e na sua residência.
Criada para averiguar unicamente os crimes cometidos pela PIDE, a comissão nunca interrogou o funcionário público colonial, mas questionou Gilberto da Silva Campos e outros agentes que trabalhavam em Nampula sobre as violações de direitos humanos verificadas na localidade rural. Nenhum deles disse que Tenório fora demitido da chefia do posto em 1968 e que o governo distrital de Nampula lhe instaurara dois processos disciplinares. Omitiram estas informações não só porque também estavam envolvidos na repressão exercida contra os residentes, mas também porque em 1974 tentavam evitar o avolumar de acusações.
Em finais de Março de 1968, o ministro do Ultramar, Joaquim Silva Cunha, informou Oliveira Salazar de que Cruz Tenório “e outros”, que não nomeou, eram autores de “faltas graves praticadas no posto de Lalaua”. Documentos que fazem parte do fundo da secretaria-geral da Presidência do Conselho, depositado na Torre do Tombo, provam que os governos em Lisboa e em Lourenço Marques (Maputo) tinham conhecimento dos actos criminosos, mas esta correspondência governamental, apesar de confidencial, nunca se refere à participação da PIDE. Esse envolvimento surge, no entanto, num documento surpreendente que está no mesmo fundo arquivístico: uma carta escrita por Maria da Luz, mulher de Tenório.
Visita de Silva Cunha à prisão da Machava, em Lourenço Marques, hoje Maputo, em finais de 1972 ANTT
Dirigida a Salazar, a missiva data de Fevereiro de 1968, pouco tempo após o afastamento compulsivo daquele funcionário público, pelo que é muito evidente o tom de indignação da autora. Tenório fora vítima de “calúnias” e “inveja”, mas trabalhara competentemente em Lalaua e “melhor do que ninguém a PIDE (…) poderá informar o que naquele Posto se fez na repressão de actividades subversivas”. Infelizmente, acrescentava, isso não tinha sido reconhecido pelo governo distrital de Nampula e até o instrutor dos processos disciplinares chegara “ao ponto de dizer” que o chefe do posto e os pides “viam terroristas até a dormir”.
Perante a demissão e a transferência para Cabo Delgado, restava a Maria da Luz — que dizia escrever ao presidente do Conselho sem conhecimento do marido — reclamar “justiça”, um novo cargo dirigente para Tenório e uma residência do Estado, de preferência “no mato”, onde “a vida é mais barata”.
Desaparecidos em Vila Cabral
A perseguição aos crentes muçulmanos consta de muitas queixas apresentadas aos instrutores da comissão, verificando-se nos depoimentos que a PIDE nem sempre procurava mascarar a intolerância religiosa com suspeições sobre “actividades subversivas”. Detinha para “averiguações” e torturava. Em Janeiro de 1966, o pedreiro Alexandre Uazire estava de visita a um amigo no hospital de campanha de Vila Cabral (Lichinga) quando uma mulher “desconfiou” do seu aspecto (“na altura já usava barbas”). Chamou a Polícia Militar e esta entregou-o à PIDE, que, na subdelegação, o espancou. A Alberto Massimbe, também muçulmano, chicotearam-lhe a cabeça e deram-lhe palmatoadas nas mãos até estas sangrarem; depois partiram-lhe dois dentes e o braço direito, dando-lhe papelão de caixotes para envolver a fractura.


Estranhamente, os pides nunca foram confrontados pelos instrutores militares com as violências decorrentes da discriminação religiosa, apesar dos inúmeros depoimentos de actos brutais contra crentes, desaparecimentos, profanação de lugares de culto e destruição de livros sagrados.
Nos processos-crime relativos à subdelegação de Vila Cabral, no Noroeste do país, a maioria dos depoentes eram nativos em busca do paradeiro dos seus familiares — uma tarefa quase impossível para a comissão, mesmo recorrendo aos arquivos da polícia, uma vez que a PIDE não documentava a entrada de todos os presos e, mesmo quando o fazia, não registava o itinerário prisional. Por vezes, escrevia nos mapas de prisioneiros a informação “evadiu-se”, sem mais explicações, e isso significava frequentemente que tinha morrido. A audição de ex-reclusos e testemunhas permitiu, no entanto, saber alguns destinos: transferidos para outras cadeias; mortos e inumados no mato.
Quando a comissão não tinha resultados concretos, aguardava por “melhor prova”. Foi o que aconteceu no processo de averiguações aberto pelo depoimento de Cecília Mile, uma trabalhadora rural de 36 anos, que, com a ajuda de um intérprete, quis saber o que acontecera ao seu marido, Alexandre Ebete, preso em 1965 quando trabalhava na loja Queirós Portugal. Cecília tentou por várias vezes visitá-lo na cadeia da subdelegação de Vila Cabral, mas negaram-lhe sempre qualquer contacto e nunca lhe deram quaisquer informações. Há nove anos que nada sabia dele.

Os militares consultaram o arquivo e transcreveram o que encontraram para os autos: dias depois de ser detido, em Setembro de 1965, Ebete foi levado para “proceder ao reconhecimento de uma localidade nos arredores (…), com o fim de tentar deter elementos que usualmente” contactavam com o recluso, mas “pôs-se em fuga, não tendo sido possível recuperá-lo”. Inquiridas duas testemunhas, ex-presos, apurou-se que Ebete não regressara à cela logo no primeiro dia do interrogatório, suspeitando-se de que não tenha sobrevivido às sevícias. Os militares decidiram então suspender os autos até “melhor prova”.
Tal como Cecília, também António Barros ansiava há nove anos por notícias do filho, Rui António Barros, de 26 anos, empregado nas Finanças e preso em casa em 1965. A 23 de Julho de 1974, a comissão inquiriu o seu companheiro da cela disciplinar (“segredo”), João Estevão Minofo: contou que, ao regressar de uma semana de interrogatórios, Rui se lhe lançou nos braços, “dizendo que ia morrer”.
Morreu algumas horas mais tarde, durante noite, e o corpo foi retirado da cela de manhã. Nos arquivos da subdelegação, os instrutores militares encontraram a informação de que Rui Barros tinha sido libertado a 16 de Setembro de 1965 (dez dias depois de ser detido) e recrutado para trabalhar como informador da PIDE em Mandimba.
Perícias médicas provam torturas
No Verão de 1974, Fernando de Azevedo Vaz, delegado de saúde, e o médico António Leitão Pereira Marques observaram centenas de vítimas da PIDE em Quelimane, assinando outras tantas perícias solicitadas pela comissão. Luís Franco Molo e Miguel Pedro Francisco, presos políticos sem culpa formada entre 1966 e 1969, continuavam a ter crises de ansiedade e pesadelos com as “atrocidades” de que tinham sido vítimas, “revendo” com frequência os “horrores” vividos. Aqueles que sobreviveram à violência na subdelegação daquela cidade costeira saíram da cadeia estropiados e inabilitados para trabalhar.
“Apresenta deformação do pulso esquerdo, resultante de luxação rediocubital e cibitocárpica, como diminuição acentuada da actividade funcional do pulso e mão; esta lesão foi provocada por horas e horas de pendura pelos pulsos suspensos duma trave. Edema crónico da perna esquerda provocado por linfangite resultante de queimaduras por choques eléctricos, apresentando cicatrizes das mesmas em número de nove. (…) Sofria de bronquite na altura da prisão, a qual se agravou pelo facto de várias vezes ter sido mergulhado nu num tanque de água fria existente na delegação da PIDE nos três primeiros dias que passou na mesma, antes de o mudarem para a cadeia. Refere algias dorsolombares resultantes de chicotadas. Estas lesões são resultantes de traumatismo de violências como as referidas pelo examinado e delas resultou incapacidade para o trabalho.” Azevedo Vaz e Pereira Marques assinaram este exame a 4 de Julho de 1974 após a avaliação clínica de Hermínio Norberto, um electricista de 56 anos detido em casa na noite de 24 de Março de 1966, suspeito de ter informações sobre o alegado desembarque de armas chinesas.

Quando entrou na sala de interrogatórios, viu dois homens suspensos do tecto pelos pulsos a serem chicoteados e foi-lhe dito que, se “contasse toda a história”, não acabaria como eles. Mas acabou, e as torturas a que foi submetido deixaram-lhe lesões para toda a vida, como atestaram os médicos.
Bizueque José Sonipa, motorista da Auto Viação da Zambézia, ficou também com cicatrizes nos pulsos por ter estado horas pendurado no tecto por cordas e cortou a língua por diversas vezes devido aos choques eléctricos. Domingos José de Ascensão, também motorista, apresentava, além de quistos nos pulsos, marcas de chicotadas nas costas. Luís António Beira tinha lesões no cóccix, fracturado por pontapés. António Raivoso Júnior perdera a força nos pulsos e tinha lacerações musculares nos ombros e costas.
As denúncias permitiram instaurar centenas de autos de corpo de delito directo relativos aos crimes praticados pela PIDE em Quelimane, cuja subdelegação tinha um robusto quadro de pessoal. A cidade era a capital da Zambézia, a província que, em 1973, era a mais populosa da colónia, com quase dois milhões de habitantes.
Pendurados pelos pés ou mãos e chicoteados
A apresentação de queixas e a audição de vítimas começou nos primeiros dias de Junho de 1974 e, tal como aconteceu em todo o país, os trabalhos da comissão foram subitamente encerrados após a assinatura dos acordos de Lusaca e a revolta de colonos brancos na capital, em Setembro.
A revolta dos colonos brancos durou vários dias e estalou quando se celebrou o acordo que reconheceu o direito do povo moçambicano à independência, assinado em Setembro de 1974 em Lusaca.
Os testemunhos coligidos durante o Verão revelam uma rotina diária de torturas e maus tratos nos gabinetes e na cadeia infligidos por inspectores, agentes, guardas prisionais e auxiliares. A sala de interrogatórios da subdelegação era conhecida entre os reclusos como “matadouro”.
António Fidalgo, Manuel Mileia e Luís Raimundo Martins, entre muitos outros, contaram que todos os dias o guarda prisional que distribuía a comida obrigava alguns reclusos a abrir a boca e introduzia directamente a colher com papa de milho a ferver na cavidade oral, provocando queimaduras. Nos interrogatórios, que podiam durar 15 horas, eram usados chicotes, rabos de raia, “cavalos-marinhos”, palmatórias, mocas, zagaias, correntes de ferro e tábuas com pregos; os presos eram frequentemente pendurados no tecto pelos pulsos ou pelos pés e depois vergastados; outras vezes, eram ajoelhados sobre uma tábua com as mãos debaixo da mesma.

Depois de ter estado pendurado durante algumas horas, Desomata Lorry Tsandoka vomitou sobre o agente João Dias Pacheco, um dos agentes mais temidos pelos prisioneiros, conhecido por “leão”. Pacheco levou-o para a casa de banho, enfiou-lhe a cabeça na retrete e puxou o autoclismo por diversas vezes. Tsandoka julgou que iria “morrer afogado”. Bizueque Sonipa disse ter ficado “meio morto” com os choques eléctricos: “Ligavam uma extensão de fio ao dedo e ligavam a respectiva ficha a uma tomada. O signatário ficava meio morto, não conseguia ficar de pé, caía, a cabeça a bater no chão como se fosse uma bola a saltitar, e o agente olhando o relógio dizia: ‘Falas ou não falas?’ e na quarta vez e última que foi submetido a essa tortura, calhou abrir a boca para dizer alguma coisa (…) precisamente na altura em que ligavam a ficha à tomada e nessa altura o choque violento que recebeu obrigou-o a fechar a boca repentinamente cortando a língua”, registou-se no auto de perguntas.
A alimentação era “intragável”, as celas eram exíguas e não tinham esteiras, e em cada uma havia um balde para as necessidades. “Por causa da má alimentação, sofriam-se solturas intestinais e diarreia e originava um cheiro insuportável, além do existente da transpiração dos corpos, pois só tomávamos banho uma vez por semana, e da roupa que não era lavada há bastante tempo”, declarou Beltram Jerónimo Pereira Braga, pai de sete filhos, detido para “averiguações” em 1966 e torturado durante quatro dias por Dias Pacheco.
Este agente foi também o torturador de Manuel Augusto Batalha, empregado de escritório que esteve sete anos preso (sob o expediente de “medidas administrativas de segurança”, de 1965 a 1972). Contou que por várias vezes teve de recorrer à ajuda de outros presos para lhe darem comida na boca, uma vez que perdia totalmente a força de braços e mãos devido à tortura da “pendura”. Pelo menos em três ocasiões, a PIDE foi a sua casa interrogar a sua mulher, Adelaide, que, a 3 de Junho de 1974, afirmou perante a comissão que quatro pides lhe revistaram a habitação e lhe bateram, tendo-lhe partido um dente.
Luís Linder levou tantas pancadas na cabeça que perdeu inteiramente a audição do ouvido esquerdo, certificaram os médicos em meados de Julho de 1974. No mesmo mês, apresentou queixa contra quatro elementos, sendo um deles o subinspector António Augusto Borges, então já em Portugal.
Linder fora detido em 1966, quando estava a trabalhar numa missão de padres capuchinhos, acusado de ter recrutado combatentes para a Frelimo. Na sala de interrogatórios deram-lhe choques eléctricos nos dedos das mãos e depois penduraram-no pelos pés. Dias Pacheco começou a chicoteá-lo; quando ficava cansado, passava o chicote ao auxiliar Alberto Comboio, que continuava a tortura. Linder recorda-se de que a certa altura, perante as perguntas insistentes sobre a identidade das pessoas que supostamente recrutara, começou a dizer os nomes dos seus antigos colegas de escola.
Darina recolheu à palhota e chorou o filho
No Verão de 1974, muitas mulheres apresentaram-se à comissão em busca dos maridos, dos filhos, dos pais e dos irmãos. Uma delas foi Darina Canaíba, que há oito anos nada sabia sobre o seu filho, Pinto Suade, preso pela PIDE de Quelimane em Junho de 1964. Nos primeiros tempos de reclusão, entregava-lhe comida na cadeia, mas via os guardas prisionais comerem à sua frente a fruta que levava. “O resto não sei se lhe entregavam porque não sabíamos o que se passava lá dentro”, disse. Quando perguntava pelo filho, nada lhe diziam. Certa vez chorou e “uma senhora do escritório” mandou-a embora, dizendo-lhe que “ali não era sítio para se chorar”.
Num dos dias em que se deslocou novamente à subdelegação, procurando saber do filho, familiares de outros reclusos disseram-lhe que Pinto Suade tinha morrido. Darina pediu então a um funcionário que lhe dessem o corpo para poder sepultá-lo: “O guarda prisional mostrou-me uma pistola e ordenou-me que fosse embora se não queria levar um tiro. Recolhi à minha palhota no Domela junto à minha família e chorámos o meu filho.”
Os militares avançaram então com um processo de averiguações e ouviram um conjunto de homens que tinham estado presos com Pinto Suade e que concordaram no relato da sua morte. “Trouxeram o Pinto Suade num estado lastimoso devido aos espancamentos e torturas, deitaram-no inerte na cela, deram-lhe pontapés, dizendo que se fosse em Angola lhe cortavam logo a cabeça. Depois, o Pinto Suade expirou, tendo sido retirado numa maca da cela durante aquela mesma noite”, contou o enfermeiro Arrone Fijamo Cafar. Esta morte nunca foi comunicada à família, como tantas outras.
Última página da denúncia feita por Darina Canaíba junto da Comissão em Quelimane. Há oito anos que procurava saber o destino do seu filho Pinto Suade, detido pela PIDE em 1966 e morto por espancamentos e torturas na cadeia da polícia política
Porto Amélia
Sob tortura, Matias pediu que o matassem
A captura de pouco mais de meio milhar de pides na Operação
Zebra (8 de Junho) permitiu aos militares da comissão interrogar, sobretudo
entre Julho e Agosto, os funcionários sobre os quais recaíam suspeitas de actos
criminosos. Muitos deles tinham trabalhado na subdelegação de Porto Amélia
(Pemba), uma cidade portuária localizada numa península no Nordeste
moçambicano.
As queixas sobre as práticas brutais executadas
pelos elementos daquelas instalações incluíam detenções ilegais, a tortura da
“estátua”, espancamentos e choques eléctricos. Chafim Abacar, estivador, contou
ter ficado seis horas “com a boca fechada apertada com uma mola”; José Gamo,
empregado comercial, foi privado de comida e de água durante cinco dias; muitos
confessaram ter sido coagidos a chicotear os seus companheiros de reclusão.
Houve reclusos que perderam a audição, outros a visão, todos tinham ainda
cicatrizes e marcas no corpo para mostrar aos militares e aos médicos que
elaboravam os “exames de sanidade” em 1974.
A maioria das queixas referentes à actuação
criminosa da PIDE em Porto Amélia situava-se entre os anos de 1968 e 1972/73,
durante a chefia de Eduardo Avelino Borges, um inspector que foi depois
transferido para a direcção da cadeia política da fortaleza do Ibo, lugar onde prosseguiu
os seus métodos violentos e cruéis. A comissão inquiriu-o a 6 de Agosto de
1974, na cadeia da Machava, onde se encontrava preso. Previsivelmente, negou
ter alguma vez ordenado, consentido ou perpetrado “qualquer ofensa corporal na
pessoa dos detidos”. Alguns dos seus subordinados, agentes de 1.ª e 2.ª classe
(João de Almeida, Eduardo Figueiredo Marques e António Sousa Moreira), disseram
o mesmo. O agente João Joaquim Magro, porém, divergiu daquela unanimidade,
admitindo que recorria à violência e a “tratamentos menos dignos” — “até por
uma questão de nervosismo mesmo até de saturação dos interrogatórios que eram
em elevado número”, alegou.
Porto Amélia, hoje Pemba, nos anos 60
A 22 de Agosto de 1974, os oficiais da comissão em
Porto Amélia não tiveram dúvidas em abrir um processo-crime contra o
“presumível delinquente” Eduardo Avelino Borges, acusado de “ofensas corporais
voluntárias”. Em causa estava o teor de mais duas denúncias. Uma delas era de
Matias Absalão Mandange, um sargento de artilharia detido em Novembro de 1972
pela Polícia Militar, entregue à PIDE e levado para Porto Amélia, onde foi
sujeito a tratamentos desumanos. Mandange chegara a apresentar queixa ao
Exército português em Janeiro de 1973, num relatório detalhado que entregou a
um oficial superior e ao qual apensou perícias médicas feitas em Nampula, mas
nunca obteve qualquer resposta. Por isso, a 27 de Junho de 1974 decidiu depor
perante a comissão.
Depois de dar entrada na cadeia da subdelegação,
foi-lhe negada comida durante um dia e meio. Ao fim do segundo dia de reclusão
foi levado para a sala de interrogatórios: “À porta desta e inesperadamente, o
inspector [Eduardo Avelino Borges] segurou-o por trás, com as mãos em ambos os
ombros, e deu-lhe um pontapé nas costas, ao nível dos rins”. Quando Matias
perguntou “mas o que foi?”, o “agente Nogueira” (a documentação não identifica
este funcionário, mas é possível que se trate de Sousa Moreira), munido com um
bastão de borracha de pneu, agrediu-o nas costas. “Ao mesmo tempo e de frente,
o inspector desferiu-lhe uma série de socos na cara.”
A violência ter-se-á prolongado por uma hora. Matias
sentia “a cara toda inchada”, tinha dores no corpo e visão turva do olho
esquerdo. Quando recusou assinar uma confissão escrita que o identificava como
“chefe de uma célula da Frelimo em Mueda”, Borges ordenou que se despisse e se
ajoelhasse com os braços estendidos na horizontal. Depois, pontapeou-o nos
cotovelos e bateu-lhe na cara. O rosto de Matias ficou “tão inchado” que no dia
seguinte, quando quis comer, teve de abrir a boca com os dedos para conseguir
meter a colher.
Exausto e dolorido, deixou cair os braços e, quando
o fez, o agente chicoteou-o nas costas, primeiro, e depois na zona da virilha,
provocando-lhe um desmaio. Matias ignorava quanto tempo esteve sem sentidos.
Lembrava-se apenas de quem quando acordou tinha um balde de água ao seu lado.
Pediu para beber e foi-lhe negado. Pediu depois para defecar. O agente deu-lhe
então uma lata de leite condensado por abrir e em cuja tampa existia um pequeno
orifício. “A merda tem de entrar por aí”, ouviu. Matias respondeu que era impossível;
o pide ameaçou-o com mais chicotadas e avisou-o de que não poderia “sujar o
chão”. “O signatário acocorado”, lê-se no auto, “chegou a lata ao ânus e
defecou, mas obviamente sujava o chão. Durante esta operação tentou ainda com a
mão livre recolher um pouco da sua própria urina para aplacar a sede.”
Foi depois novamente ajoelhado com os braços
abertos. O inspector Borges regressou à sala e perguntou se o preso já tinha
assinado a “confissão”. “Este gajo tem sangue-frio”, respondeu o agente, “mas vai
confessar como os outros.” Os dois homens levantaram-no e ordenaram-lhe que se
mantivesse apoiado apenas numa perna, com a outra flectida, proibido de se
mexer. Matias recorda-se de ter pedido então aos pides para que lhe batessem no
pescoço porque queria morrer. “Nós sabemos onde se deve bater, você não morre
assim, mas se vier a morrer a responsabilidade não é nossa”, disse-lhe o
inspector.
Sem conseguir suportar mais torturas, pediu para se
sentar e anuiu em assinar a confissão forjada. Borges disse-lhe que teria de o
fazer em pé porque não tinha “direito a estar sentado”. Matias escreveu o seu
nome e pediu para o levarem para o hospital. Mas o agente carregou-o para a
cela de isolamento da subdelegação, onde foi mantido por mais uma semana, sem
qualquer assistência médica.
Quando o transportaram novamente para Nampula, deu
entrada no Hospital Egas Moniz com diversas lesões — “contusões com hematomas
nos braços e nas nádegas”, “escoriações e feridas na região dorsal superior e
nas nádegas”, “vista esquerda obliterada devido a hematoma periorbitário
sofrido por traumatismo” e “diminuição da acuidade auditiva no ouvido
esquerdo”, lia-se no relatório médico feito a 21 de Novembro de 1972.
A
captura de pouco mais de meio milhar de pides na Operação Zebra (8 de Junho)
permitiu aos militares da comissão interrogar, sobretudo entre Julho e Agosto,
os funcionários sobre os quais recaíam suspeitas de actos criminosos. Muitos
deles tinham trabalhado na subdelegação de Porto Amélia (Pemba), uma cidade
portuária localizada numa península no Nordeste moçambicano.
As
queixas sobre as práticas brutais executadas pelos elementos daquelas
instalações incluíam detenções ilegais, a tortura da “estátua”, espancamentos e
choques eléctricos. Chafim Abacar, estivador, contou ter ficado seis horas “com
a boca fechada apertada com uma mola”; José Gamo, empregado comercial, foi
privado de comida e de água durante cinco dias; muitos confessaram ter sido
coagidos a chicotear os seus companheiros de reclusão. Houve reclusos, que
perderam a audição, outros a visão, todos tinham ainda cicatrizes e marcas no
corpo para mostrar aos militares e aos médicos que elaboravam os “exames de sanidade”
em 1974.
Mais crueldade
A
maioria das queixas referentes à actuação criminosa da PIDE em Porto Amélia
situava-se entre os anos de 1968 e 1972/73, durante a chefia de Eduardo Avelino
Borges, um inspector que foi depois transferido para a direcção da cadeia
política da fortaleza de Ibo, lugar onde prosseguiu os seus métodos violentos e
cruéis. A comissão inquiriu-o a 6 de Agosto de 1974, na cadeia da Machava, onde
se encontrava preso. Previsivelmente, negou ter alguma vez ordenado, consentido
ou perpetrado “qualquer ofensa corporal na pessoa dos detidos”. Alguns dos seus
subordinados, agentes de 1ª e 2ª classe (João de Almeida. Eduardo Figueiredo
Marques e António Sousa Moreira), disseram o mesmo. O agente João Joaquim
Magro, porém, divergiu daquela unanimidade, admitindo que recorria à violência
e a “tratamentos menos dignos” – “até por uma questão de nervosismo mesmo até
de saturação dos interrogatórios que eram em elevado número”, alegou.
A
22 de Agosto de 1974, os oficiais da comissão em Porto Amélia não tiveram
dúvidas em abrir um processo-crime contra o “presumível delinquente” Eduardo
Avelino Borges, acusado de “ofensas corporais voluntárias”. Em causa estava o
teor de mais duas denúncias. Ema delas era de Matias Absalão Mandange, um
sargento de artilharia detido em Novembro de 1972 pela Polícia Militar,
entregue à PIDE e levado para Porto Amélia, onde foi sujeito a tratamentos
desumanos. Mandange chegara a apresentar queixa ao Exército português em
Janeiro de 1973, num relatório detalhado que entregou a um oficial superior e
ao qual apensou perícias médicas feitas em Nampula, mas nunca obteve qualquer
resposta. Por isso, a 27 de Junho de 1974 decidiu depor perante a comissão.
Depois de dar entrada na cadeia da subdelegação, foi-lhe negada comida
durante um dia e meio. Ao fim do segundo dia de reclusão foi levado para a sala
de interrogatórios: “à porta desta e inesperadamente, o inspector |Eduardo
Avelino Borges| segurou-o por trás, com as mãos em ambos os ombros, e deu-lhe
um pontapé nas costas, ao nível dos rins”. Quando Matias perguntou “mas o que
foi?”, o “agente Nogueira” (a documentação não identifica este funcionário, mas
é possível que se trate de Sousa Moreira), munido com um bastão de borracha de
pneu, agrediu-o nas costas. “Ao mesmo tempo e de frente, o inspector
desferiu-lhe uma série de socos na cara.” A violência ter-se-á prolongado por
uma hora. Matias sentia “a cara toda inchada”, tinha dores no corpo e visão
turva do olho esquerdo. Quando recusou assinar uma confissão escrita que o
identificava como “chefe de uma célula da Frelimo em Mueda”, Borges ordenou que
se despisse e se ajoelhasse com os braços estendidos na horizontal. Depois,
pontapeou-o nos cotovelos e bateu-lhe na cara. O rosto de Matias ficou “tão
inchado” que no dia seguinte, quando quis comer, teve de abrir a boca com os
dedos para conseguir meter a colher.
Exausto e dolorido, deixou cair os braços e, quando o fez, o agente
chicoteou-o nas costas, primeiro, e depois na zona da virilha, provocando-lhe
um desmaio. Matias ignorava quanto tempo esteve sem sentidos. Lembrava-se
apenas de quem quando acordou tinha um balde de água ao seu lado. Pediu para
beber e foi-lhe negado. Pediu depois para defecar. O agente deu-lhe então uma
lata de leite condensado por abrir e em cuja tampa existia um pequeno orifício.
“A merda tem que entrar por aí”, ouviu. Matias respondeu que era impossível; o
pide ameaçou-o com mais chicotadas e avisou-o de que não poderia “sujar o chão”.
“O dignatário acocorado”, lê-se no auto, “chegou a lata ao ânus e defecou, mas
obviamente sujava o chão. Durante esta operação tentou ainda com a mão livre
recolher um pouco da sua própria urina para aplacar a sede.”
Foi
depois novamente ajoelhado com os braços abertos. O inspector Borges regressou
à sala e perguntou se o preso já tinha assinado a “confissão”. “Este gajo tem
sangue-frio”, respondeu o agente, “mas vai confessar como os outros.” Os dois
homens levantaram-no e ordenaram-lhe que se mantivesse apoiado apenas numa
perna, com a outra flectida, proibido de se mexer. Matias recorda-se de ter
pedido então aos pides para que lhe batessem no pescoço porque queria morrer. “Nós
sabemos onde se deve bater, você não morre assim, mas se vier a correr a
responsabilidade não é nossa”, disse-lhe o inspector.
Sem
conseguir suportar mais torturas, pediu para se sentar e anuiu em assinar a
confissão forjada. Borges disse-lhe que teria de o fazer em pé porque não tinha
“direito a estar sentado”. Matias escreveu o seu nome e pediu para o levarem
para o hospital. Mas o agente carregou-o para a cela de isolamento por mais uma
semana, sem qualquer assistência médica.
Quando o transportaram novamente para Nampula, deu entrada no Hospital
Egas Moniz com diversas lesões – “contusões com hematomas nos braços e nas
nádegas”, “escoriações e feridas na região dorsal superior e nas nádegas”, “vista
esquerda obliterada devido a hematoma periorbitário sofrido por traumatismo” e “diminuição
da acuidade auditiva no ouvido esquerdo”, lia-se no relatório médico feito a 21
de Novembro de 1972. História a três tempos
O processo-crime de 1964.
Tomás Lucas Manuel, Mário Jussa Jamal e Fernando
Murripa foram detidos em Março de 1964 na circunscrição de Sena, junto ao rio
Zambeze, a quase 400 quilómetros a noroeste da Beira. Todos trabalhavam na
Companhia Trans Zambézia Railways (como enfermeiro, telegrafista e auxiliar de
enfermagem, respectivamente) e nos primeiros ofícios da polícia o agente
Virgílio Francisco escreveu que se reuniam regularmente “para tratar de
assuntos relacionados com a organização subversiva Frelimo”. Transportados para
a Beira, foram encarcerados na cadeia da PSP, nas celas privativas da PIDE, sob
regime de isolamento. Nenhum tinha cadastro, comunicou a repartição dos
registos e do notariado de Lourenço Marques.
Documentos originais produzidos na subdelegação da
Beira relativos à captura de Tomás Lucas Manuel a 10 de Março de 1964. Na
“ordem de internamento” lê-se que foi detido para “averiguações”
Tomás Lucas foi submetido ao primeiro interrogatório
a 12 de Março, mas este auto de perguntas nunca chegou a Lisboa. A
direcção-geral leu apenas a inquirição feita a 4 de Maio pelo subinspector Joaquim
Piçarra Sabino e pelo agente Virgílio Francisco, na qual o enfermeiro
“confessou” ter angariado dinheiro para a Frelimo, à qual pertencia. Nesse
documento, dactilografado, vê-se a assinatura manuscrita de Tomás Lucas, a
caneta azul. Foi interrogado pelo menos mais quatro vezes, até meados de
Agosto, “instado para esclarecer total e concretamente todas as suas
actividades a favor” do movimento independentista, conforme se lê no processo.
Entre estes papéis há ainda cópias dos pedidos de
prorrogação dos prazos de prisão preventiva (legalmente prevista para três
meses), dirigidos ao governador-geral e justificados com a “gravidade e
multiplicidade dos factos criminosos” (não se especificava quais). A legislação
penal definia que o prazo poderia ser protelado por mais dois períodos
sucessivos de 45 dias, com a prévia homologação do Ministério do Interior, mas
Tomás Lucas e Fernando Murripa permaneceram reclusos mais de três anos, até
finais de 1967, sujeitos a “medidas administrativas de segurança” (um expediente
largamente usado pela PIDE para prolongar indefinidamente a prisão preventiva).

Em finais de Agosto, Virgílio Francisco assinou um
relatório concluindo que Tomás e Murripa eram dois dos “principais
responsáveis” da Frelimo em Sena, Mutarara e Bauè. Quanto a Mário, a polícia
não tinha conseguido recolher “elementos de prova”, pelo que propunha a sua
libertação. António Fernandes Vaz, o director da PIDE em Moçambique
(1960-1972), despachou favoravelmente o documento em Setembro de 1964 e ainda
nesse mês os autos foram remetidos para o Tribunal Territorial de Moçambique,
onde os acusados foram julgados por “actividade clandestina, instigação e
apologia à prática de crimes contra a segurança do Estado, visando a separação
da Província de Moçambique da Mãe-Pátria”.
Nenhum documento nesta pasta informa sobre a data do
julgamento ou a pena a que foram condenados. Os últimos fólios são telegramas
da direcção em Maputo para a filial da Beira sobre a libertação de Tomás e
Fernando e o seu regresso a casa, com termo de residência.
A denúncia em 1974.
Em seis páginas dactilografadas, com data de 15 de
Junho, Tomás Lucas escreveu aos “excelentíssimos senhores da Comissão
Investigadora de possíveis crimes cometidos pela PIDE/DGS” sobre os seus dias de
cativeiro dez anos antes. Começava por nomear os alvos da queixa: Alberto da
Natividade (chefe de brigada), Virgílio Francisco e um subinspector cujo nome
não se lembrava (era Joaquim Piçarra Sabino
A denúncia de Tomás Lucas Manuel sobre os actos
criminosos praticados por três dirigentes da PIDE/DGS da Beira resultou numa
investigação da comissão de inquérito que incluiu perícias médicas
Contou que, no primeiro interrogatório feito numa
sala da moradia de Ponta Gea, foi espancado com chicote e palmatória por
Natividade, Francisco e mais quatro auxiliares (desconhecia as identidades).
Quando desmaiava despejavam-lhe baldes de água fria sobre a cabeça. “Cheguei ao
ponto de pedir ao chefe de brigada a própria morte, o qual ele respondeu-me que
não era preciso pedir que tinha já a morte na porta.”
Em todos os interrogatórios foi agredido e torturado
e no fim de cada um “era coagido pelas torturas a aceitar as acusações graves”,
assinando sempre um “auto de acusação”. Ficou num estado tão deplorável que
teve de ser levado para o hospital da cidade (Rainha D. Amélia), mas regressou
à cadeia antes de estar restabelecido — mal chegou foi novamente espancado e
isolado no “segredo”, uma cela privada de luz. Às refeições davam-lhe um prato
de farinha e peixe podre, e a água era “insalubre”. “[A comida] era-me atirada
como se fosse uma fera e a porta da cela logo fechada.”
Foi mantido três meses no “segredo”, sob “um grande
sofrimento e angústia”: “Quase que me levava à loucura, desejando a morte”,
escreveu. “Pela minha profissão e conhecendo matéria do corpo humano, acredito
que vivi por milagre.” Ao fim desses meses, levaram-no para uma cela
sobrelotada, com apenas um balde para as necessidades. Não havia refeitório e
consumiam a comida ali mesmo.
A comissão militar conseguiu recuperar as fichas
originais de presos de Tomás Lucas Manuel e Fernando Murripa, podendo assim
confrontar as denúncias com os registos da polícia política
No último interrogatório, encontrou Fernando
Murripa, que era seu primo, na mesma sala. Ambos foram espancados ao mesmo
tempo por Virgílio Francisco, que usou uma palmatória e bateu-lhe “até se
cansar”. Em Setembro, foi transferido para a Machava e presente a tribunal
militar, tendo tido como advogado de defesa António de Almeida Santos, que,
aliás, defendeu muitos presos políticos moçambicanos. Os juízes absolveram-no,
o “promotor de Justiça” recorreu da sentença para a Relação de Lisboa e Tomás
Lucas voltou a ser ilibado pela instância de recurso. (Nas suas Quase
Memórias, Almeida Santos, advogado dos Democratas de Moçambique, escreveu
não ter “a menor dúvida” de que os tribunais militares condenaram “muitos
inocentes”, sublinhando que as acusações eram “pouco consistentes” e quase
sempre fundadas na “confissão” obtida por “coacção física”.)

Tomada de posse do I Governo provisório a 16 de Maio
de 1974. António de Almeida Santos, ao lado de Mário Soares, tomou posse como
ministro da Coordenação Interterritorial Alberto Gouveia
Ao fim de três anos de reclusão, quando Tomás Lucas
regressou a casa, a Trans Zambézia Railways recusou readmiti-lo (o mesmo
aconteceu com Murripa e Jamal). Tinha marcas de chicotadas nas costas,
cicatrizes na cabeça, estava quase cego do olho esquerdo e tinha mazelas no
tórax. “Considero a minha vida encurtada”, escreveu. Terminava a queixa escrita
pedindo uma indemnização de 1250 contos pelos “danos psíquicos, físicos e económicos
em consequência das torturas e anos de prisão” e juntava a cópia de uma carta
dos seus antigos patrões que garantiam ter entregado um cheque no valor de sete
contos (o salário que não reclamou por ter sido detido) a um subinspector da
Beira (não identificado) — cheque que nunca lhe foi dado.
O que fez a Comissão.
Abriu um processo de averiguações, começando por
pedir exames de corpo de delito e ordenando a inquirição de duas testemunhas,
precisamente Fernando Murripa e Mário Jussa Jamal. Os dois ex-reclusos não se
limitaram apenas a corroborar o depoimento de Tomás, mas reviveram também as
violências sofridas na subdelegação. “(…) a maneira como os interrogatórios
eram feitos era o mais desumano possível, com sucessivas sovas com
cavalo-marinho, palmatória, pontapés e murros. Que finalmente e depois de,
assim, serem obrigados a confessar e a fim de se livrarem daqueles maus tratos
aceitavam como verdadeiras as acusações que lhes eram feitas. Que no final dos
interrogatórios eram obrigados a assinar sem que o que havia sido escrito lhes
fosse lido e para tal, a maior parte das vezes, era necessário que o agente lhe
pegasse na mão, tão feridas e magoadas se encontravam”, disse Murripa, então
enfermeiro no Hospital Rainha D. Amélia.

Exterior do Hospital Rainha D. Amélia em 1909. Hoje
chama-se Hospital Central da Beira e é um dos mais antigos de MoçambiqueANTT
Ouvido a 24 de Julho, Mário Jussa começou por falar
nas “paredes manchadas de sangue” que viu na sala de interrogatórios (algo
também mencionado por Tomás e Fernando) e da pancada que sofreu com rabos de
raia. Numa das sessões de tortura deste homem, que foi libertado ao fim de seis
meses de reclusão por falta de provas, deitaram-lhe álcool sobre as pernas e
lançaram fogo, “do que ainda hoje apresenta cicatrizes”, escreveram os
instrutores militares. “(…) logo à entrada se lembra de ter sido avisado pelo
agente Virgílio que se não confessasse como verdadeiras as suspeitas que sobre
ele recaíam iria apanhar muita pancada e que não assumiam a responsabilidade
pela vida de alguém que entrasse naquela sala.”
A comissão juntou aos autos mais uma inquirição:
Manuel António Abreu, um escriturário de Vila Pery (actual Chimoio), não era
testemunha das sevícias infligidas a Tomás Lucas, mas era uma das vítimas de
Virgílio Francisco. Detido em Setembro de 1965 para “averiguações”, foi privado
de água e comida durante os primeiros três dias de reclusão e nos
interrogatórios foi obrigado a estar ajoelhado e imóvel durante horas sobre
dois rolos de madeira, sendo espancado quando se mexia.
A perícia médica feita a Tomás Lucas, requerida
pelos militares, chegou em finais de Julho: “Diminuição da visão do olho
esquerdo (…); cicatrizes em número de sete do dorso resultantes de ferimentos
profundos provocados por chicotadas; cicatriz linear da região frontal acima da
arca superior esquerda; cicatriz com sulco da região parietal esquerda (…). As
lesões cicatriciais referidas são resultantes de traumas e violências como as
referidas pelo examinado e delas resultam incapacidade para o trabalho”,
registaram os médicos António Leitão Pereira Marques e Fernando de Azevedo Vaz.
A comissão pediu ainda um relatório clínico ao hospital da Beira, onde Tomás
fizera uma cirurgia ao olho, mas nada consta no processo.

Finalmente, num telegrama sem data, mas que seria de
finais de Julho ou princípio de Agosto de 1974, os auditores pediram, através
do Serviço de Justiça Militar, a detenção de Virgílio Francisco, que deixara a
PIDE “há vários anos”, mas estava “indiciado por ofensas corporais graves”.
Este foi o último documento agregado ao processo, entregue no Comando
Territorial do Centro a 12 de Setembro.
Telegrama onde se lê que o agente Virgílio
Francisco, indiciado por ofensas corporais graves, “pode ser detido pelas
autoridades militares”
Desfecho.
Nestas investigações, os militares não obtiveram
mais informações sobre Virgílio Francisco ou sobre o subinspector que teria
ficado com os sete mil escudos de Tomás Lucas. Mas numa pasta referente a outra
denúncia encontram-se documentos que comprovam que Francisco não saíra da
corporação “há vários anos”, mas antes fora demitido em Janeiro de 1973, na
sequência de um processo disciplinar (não são indicados os motivos). Em 1974,
estava a trabalhar numa firma em Nampula. (Neste processo, a comissão procurava
os paradeiros de Virgílio Francisco e de “Virgílio Maia”, julgando tratar-se de
dois agentes, quando, na verdade, eram a mesma pessoa, conforme se verifica na
relação de quadros da PIDE no Ultramar.)
Sobre o dirigente superior que recebera o cheque da
Trans Zambézia Railways, presume-se que tenha sido Joaquim Piçarra Sabino, um
dos pides que interrogou Tomás Lucas em 1964. Em meados de Maio de 1974, o
comando-chefe em Moçambique emitiu ordem para deter este subinspector, entre
outros funcionários da cúpula policial, por suspeita de “abusividades de
autoridade”. Piçarra Sabino conseguira fugir do país (provavelmente nos últimos
dias de Abril), mas foi capturado em Lisboa. Em Maio de 1976, a Comissão de
Extinção da PIDE/DGS decretou a sua libertação, com termo de identidade e
residência.
Na ordem de libertação por ele assinada lia-se que
estava proibido de “frequentar certos meios ou locais frequentados
habitualmente por pessoas vítimas da repressão das ex-PIDE/DGS ou Legião
Portuguesa.” No seu caso, não corria esse “risco”.
A “SALA DO INFERNO”
Os presos chamavam-lhe “sala do inferno”. Era uma
divisão pequena, sem janelas, apenas com um pequeno postigo de ventilação,
contígua ao posto antropométrico. Estava praticamente vazia — tinha uma
cadeira, alguns sacos de cimento num dos cantos e do tecto pendiam duas argolas
de ferro, atravessadas por um toro de madeira escura.
Num dia de Maio de 1971, um operário de 32 anos que
trabalhava na Açucareira de Moçambique entrou nesta sala e foi obrigado a
despir-se. Um auxiliar da polícia prendeu-lhe os pulsos com uma tira de
serapilheira e depois com uma corda, mandou-o subir para uma cadeira, amarrou a
corda à trave de madeira e retirou a cadeira, deixando-o suspenso pelos braços.
O homem, José Andimo, não sabe quanto tempo passou até começar a chorar de
dores. Quando o fez foi agredido com um pau. Daí a pouco entraram na sala três
pides. Um deles disse-lhe que se “não queria falar teria que continuar
pendurado”.
No Verão de 1974, Andimo continuava a ignorar quanto
tempo ficara “pendurado” na “sala do inferno” da subdelegação da PIDE na Beira,
mas tinha ainda marcas nos pulsos e cicatrizes no corpo por causa dos
espancamentos feitos com chambocos de pele de hipopótamo. A polícia suspeitava
que este homem e um outro, José Sive, submetido às mesmas torturas, angariavam
dinheiro para a Frelimo através de um pequeno clube de futebol do qual faziam
parte.
Ficha original de preso de José Sive agregada ao
processo de investigação militar. No verso foram registadas informações sobre o
seu casamento, colhidas numa edição de Agosto de 1973 do jornal “Voz Africana”
Em Outubro de 1971, cinco meses depois de terem sido
presos, Andimo e Sive foram libertados. A comissão conseguiu obter uma cópia da
ordem de soltura, na qual se lê não ter ficado provado que os dois homens
tivessem “desenvolvido quaisquer actividades violentas a favor da Frelimo ou
mesmo que tivessem contactado com elementos terroristas da referida
organização.”
O autor do parecer, promulgado pela direcção em
Maputo, era Calisto Vasconcelos, chefe de brigada, preso na Operação Zebra
e duas vezes ouvido pela comissão, contrariando sempre o que ele próprio tinha
escrito três anos antes: Andimo e Sive eram, afinal, dirigentes de uma
“associação secreta” da Frelimo, declarou. Também negou o emprego de qualquer
violência ou “meios coercivos” nos interrogatórios, apontando apenas que eram
“longos” porque era preciso “persuadir os presos a confessar”.
Neste mesmo processo, os instrutores diligenciaram
ainda a inquirição de uma dactilógrafa da PIDE, Maria de Lurdes Miranda Velez,
que trabalhara na Secção Reservada da Beira, um gabinete próximo da “sala do
inferno”. A funcionária afirmou que “pouco ou nada sabia dizer” sobre as
práticas de torturas e desconhecia “absolutamente tudo” o que acontecia naquela
divisão, mas admitiu ter ouvido, “por voltas de 1964”, agentes a “esbofetearem
os presos”.
As denúncias apresentadas por José Andimo e José
Sive originaram mais audições, desta vez de funcionários africanos. Um
intérprete, Pedro Muguio, e dois guardas prisionais, Manuel Tanjune e Ernesto
Tonela, confessaram as agressões e admitiram ter participado das mesmas.
“Queimavam os presos na cara e no corpo com a ponta do cigarro”, disse Tonela,
contando ainda que muitos “não conseguiam comer” por causa dos espancamentos:
“Vomitavam por não conseguirem suster a comida no estômago.” Já nos
interrogatórios feitos fora das instalações policiais, “não se batia” nos
prisioneiros, “porque poderia haver outras pessoas que ouvissem ou
assistissem”, explicou.
Em finais de Agosto, a comissão identificou e
convocou mais quatro testemunhas para fundamentar solidamente a acusação sobre
os ex-pides, mas estas diligências nunca chegaram a realizar-se devido ao fim
abrupto dos trabalhos.
Centenas de queixas sobre as violências perpetradas
pelos elementos da PIDE na Beira tiveram o mesmo fim. Além das torturas,
tratamentos cruéis e condições indignas de reclusão, foram também denunciados
casos de assassinatos, roubos de bens e de dinheiro, extorsão, destruição de
património e de documentos públicos. Quanto aos desaparecidos, em número
impossível de apurar, qualquer possibilidade de saber os seus destinos
perdeu-se para sempre nas fogueiras onde desapareceram os arquivos.

A “ sala do inferno”
Os
presos chamavam-lhe “sala do inferno”. Era uma divisão pequena, sem janelas,
apenas com um pequeno postigo de ventilação, contígua ao posto antropométrico.
Estava praticamente vazia – tinha uma cadeira, alguns sacos de cimento num dos
cantos e do tecto pendiam duas argolas de ferro, atravessadas por um toro de
madeira escura.
Num dia
de Maio de 1971, um operário de 32 anos que trabalhava na Açucareira de
Moçambique entrou nesta sala e foi obrigado a despir-se. Um auxiliar da polícia
prendeu-lhe os pulsos com uma tira de serapilheira e depois com uma corda,
mandou-o subir para uma cadeira, amarrou a corda à trave de madeira e retirou a
cadeira, deixando-o suspenso pelos braços. O homem, José Andimo, não sabe
quanto tempo passou até começar a chorar de dores. Quando o fez foi agredido
com um pau. Daí a pouco entraram na sala três pides. Um deles disse-lhe que se
“não queria falar teria que continuar pendurado”.
No
Verão de 1974, Andimo continuava a ignorar quanto tempo ficara “pendurado” na
“sala do inferno” da subdelegação da PIDE na Beira, mas tinha ainda marcas dos
pulsos e cicatrizes no corpo por causa dos espancamentos feitos com chambocos
de pele de hipopótamo. A polícia suspeitava que este homem e um outro, José
Sive, submetido às mesmas torturar, angariavam dinheiro para a Frelimo através
de um pequeno clube de futebol do qual faziam parte.
Em
Outubro de 1971, cinco meses depois de terem sido presos, Andimo e Sive foram
libertados. A comissão conseguiu obter uma cópia da ordem de soltura, na qual
se lê não ter ficado provado que os dois homens tivessem “desenvolvido
quaisquer actividades violentas a favor da Frelimo ou mesmo que tivessem
contactado com elementos terroristas da referida organização.
O
autor do parecer, promulgado pela direcção em Maputo, era Calisto Vasconcelos,
chefe de brigada, preso na Operação Zebra e duas vezes ouvido pela
comissão, contrariando sempre o que ele próprio tinha escrito três anos antes:
Andimo e Sive eram, afinal, dirigentes de uma “associação secreta” da Frelimo,
declarou.Também negou o emprego de qualquer violência ou “meios coercivos” nos
interrogatórios, apontando apenas que eram “longos” porque era preciso
“persuadir os presos a confessar”.
Neste mesmo processo, os instrutores diligenciaram ainda a inquirição de
uma dactilógrafa da PIDE, Maria de Lurdes Miranda Velez, que trabalhara na
Secção Reservada da Beira, um gabinete próximo da “sala do inferno”. A
funcionária afirmou que “pouco ou nada sabia dizer” sobre as práticas de
torturas e desconhecia “absolutamente tudo” i que acontecia naquela divisão,
mas admitiu ter ouvido, “por voltas de 1964”, agentes a “esbofetearem os
presos”.
As
denúncias apresentadas por José Andimo e José Sive originaram mais audições,
desta vez de funcionários africanos. Um intérprete, Pedro Muguio, e dois guardas
prisionais, Manuel Tanjune e Ernesto Tonela, confessaram as agressões e
admitiram ter participado das mesmas. “Queimavam os presos na cara e no corpo
com a ponta do cigarro”, disse Tonela, contando ainda que muitos “não
conseguiam comer” por causa dos espancamentos: “Vomitavam por não conseguirem
suster a comida no estômago.” Já nos interrogatórios feitos fora das
instalações policiais, “não se batia” nos prisioneiros, “porque poderia haver
outras pessoas que ouvissem ou assistissem”, explicou.
Em finais de Agosto, a comissão identificou e
convocou mais quatro testemunhas para fundamentar solidamente a acusação sobre
os ex-pides, mas estas diligências nunca chegaram a realizar-se devido ao fim
abrupto dos trabalhos.
Centenas de queixas sobre as violências perpetradas pelos elementos da
PIDE na Beira tiveram o mesmo fim. Além das torturas, tratamentos cruéis e
condições indignas de reclusão, foram também denunciados casos de assassinatos,
roubos de bens e de dinheiro, extorsão, destruição de património e de
documentos públicos. Quanto aos desaparecidos, em número impossível de apurar,
qualquer possibilidade de saber os seus destinos perdeu-se para sempre nas
fogueiras onde desapareceram os arquivos.