8.7.2. Ameaças de Jorge Jardim
Jorge Jardim constituía-se num dos inimigos que era necessário desafiar inexoravelmente. Impunha-se aplicar, mais uma vez a teoria de Amílcar Cabral para contornar as suas tentativas de neo-colonização do nosso país. Fizemos menção ao seu ambicioso plano, de criar "uma Dui". Apostando numa série de contactos com vista a convencer os seus aliados em Moçambique, Malawi, Zimbabwe, Zâmbia, África do Sul e Portugal. Jorge Jardim acabou equipando grupos de mercenários e infiltrá-los no nosso País, nas vésperas da Independência Nacional.
Recorrendo à amizade que tinha desenvolvido com o presidente malawiano Hastigs Kamuzu Banda, além da criação de uma base logística para fazer face à Frente Niassa, como vimos, utilizou um centro de preparação militar malawiano, para treinar mercenários e introduzi-los em Moçambique. Um documento da nossa representação naquele país, dirigido ao Presidente Samora Machel, nas vésperas da Independência, fez o seguinte alerta:
No dia 25 de Abril de 1975 tivemos informação que os reaccionários encabeçados por Jorge Jardim vinham distribuir forças neste País, para as Províncias de Tete, Zambézia e Niassa. No dia 28 de Abril de 1975 houve em Mangochi uma reunião convocada por CASCAO - braço directo de Jorge Jardim. (...) Há mercenários treinados no Campo Militar de malawianos emZomba. Neste local tinham chegado três carros com números de matrícula SD 3710; este carro estava cheio de brancos;TG 3785 e 153-158 A. Estes últimos estavam carregados de material diverso. No dia 2 de Maio de 1975 chegou ao Malawi o próprio Jorge Jardim e teve reunião com os mesmos elementos junto ao CASCAO.
De entre as acções levadas a cabo para conter estas ameaças, a FRELIMO, materializando as palavras de ordem por si emanadas, "UNIDADE; TRABALHO; VIGILÂNCIA ", realizou comícios populares em zonas fronteiriças estratégicas, como Nsange e Nchalo, no 3º Sector da Província de Tete. De igual modo, esta matéria foi encaminhada Sebastião Marcos Mabote, no Comando de Operações do Departamento da Defesa, que após a avaliação do seu contexto global, foram tomadas as devidas medidas oportunas, que se resumem na contenção das investidas do inimigo
.png) |
| Jorge Jardim (de chapéu preto) |
9. Religião na Luta Armada de Libertação Nacional
O aspecto marcante no relacionamento entre a FRELIMO e a Religião foi a laicidade do Movimento e o respeito pela diversidade cultural do País. Neste domínio, o enfoque desta abordagem será referente à forma como o sistema colonial aliou-se à religião para combater o nacionalismo moçambicano, e inclusive, a progressão da Luta Armada e, por outro, como a FRELIMO reagiu às manobras coloniais para se apoderar da fé, para perpetuar a colonização dos moçambicanos.
Em 1964, pouco antes da eclosão da guerra no nosso país e, procurando afastar a mentalidade dos moçambicanos do nacionalismo dos angolanos, cuja luta começara a 15 de Março de 1961, assistiu-se a muitas campanhas anti-nacionalistas. A título de exemplo, Custódio Alvim Pereira, bispo auxiliar da cidade de Lourenço Marques, emitiu uma "circular sangrenta", da sua autoria, para todas as igrejas e seminários de Moçambique, da qual extraí as seguintes passagens:
A independência é uma coisa indeficiente para o bem-esta dos homens. Só é boa quando se verificam as condições geográficas e culturais que a pressupõem. estas últimas ainda não estão realizadas em Moçambique. (...) Quando o movimento é terrorista, o clero tem a obrigação não só de se abster, mas até de se opor (...). O slogan África para os africanos é uma monstruosidade filosófica e um desafio à civilização cristã (...).
 |
| Monsenhor Custódio Alvim Pereira, Bispo Auxiliar de Lourenço Marques |
Em 1965, aquando das celebrações do 25º Acordo Missionário, Portugal assinou um tratado em que o destino da maioria da população passava para a responsabilidade da Igreja Católica. A FRELIMO condenou veementemente esta atitude, devido ao seu carácter discriminatório. Com efeito, o Acordo, no seu artigo 15, refere que "as missões católicas fundarão escolas (...) colégios masculinos e femininos (...) instituições do ensino secundário e, profissional" O Estado Português abstém-se absolutamente de intervir na actividade das missões.
De igual modo, a FRELIMO denunciou a cumplicidade entre a Igreja Catóica e o colonialismo Português, ao se envolverem em acções que procuravam desviar os moçambicanos da visão independentista. Neste contexto, no Boletim Nacional nº 20, lê-se:
Os missionários, em cooperação com as autoridades portuguesas, procuravam por todos os meios adormecer a tendência revolucionária do Povo. Tudo está bem, no melhor dos mundos, dizem eles. Se há negros e há brancos, e se os brancos dominam os negros, é porque essa é a vontade de Deus Ominisciente, Resignemo-nos pois.
A contra-revolução dos missionários foi mais longe, ao placar no lado mais sensível do ser humano , o espiritual. Com efeito, através do seu Bolerim Nacional, a FRELIMO denunciou acontecimentos ocorridos em Cabo Delgado, salientando que:
Os nossos militantes que, no seminário de Mariri, os missionários, a pretexto da confissão, induzem os estudantes a revelarem as suas ligações com o movimento nacionalista, a FRELIMO, e informam depois o administrador. Dezenas de estudantes foram presos e torturados por este processo.
Depois do início da Luta, em 1964, houve uma maior aproximação do governo colonial às instituições coloniais. Vendo o seu Império Colonial no início do desmoronamento, Portugal fez de tudo para salvá-lo, mas em vão. Como sublinha D. José dos Santos Garcia, o primeiro bispo da Sociedade Missionária da Boa Nova e da Diocese de Porto Amélia, as "As autoridade do Governo tinham pedido aos Missionários para denunciarem qualquer movimento subversivo e quaisquer notícias que interessassem à ordem.
Como referi, no seio da Igreja Católica, algumas figuras distanciaram-se do colonialismo, repudiando-o como um sistema anacrónico à liberdade e desenvolvimento dos povos. O exemplo mais badalado em Moçambique data da década de 1940, em que D,Sebastião de Resende, bispo da cidade da Beira, condenou fortemente o regime colonial.
Aliás, o próprio Papado Romano e uma série de sacerdotes portugueses, de estrangeiros sem tradição colonial, assim como os laicos, viriam a reconhecer o posicionamento de Resende, e não só. pronunciando-se a favor do que designaram por novos tempos de reflexão. Estávamos realmente, perante momentos de mudança no seio da Igreja Católica.
É interessante notar que alguns jovens, antes de ingressarem nas fileiras de libertação nacional, foram formados pelas missões católicas, aceitando-se deste modo, a sua contribuição, ainda que involuntária, para a formação de uma consciência nacionalista. Sobre este assunto. esclarece-se que "em Angola quer em Moçambique, muitos militantes e dirigentes dos movimentos de libertação passam pelas escolas e missões e muitos tinham estudado para padre ou para pastor.
O Planalto de Mueda está repleto desse tipo de exemplos, a partir da fuga para a FRELIMO de combatentes como Alberto Chipande e Raimundo Pachinuapa , precipitada pelo alerta que lhes foi feita por alguns padres católicos, face às perseguições perpetradas pela PID/DGS. O movimento nacionalista que existiu no Planalto de Mueda foi apoiado largamente pelos missionários monfortinhos e salesianos, em defesa da independência e autodeterminação dos povos. Eu próprio, como referi, fui estudante em missões, e testemunho a entrada para a FRELIMO de tantos outros camaradas, ex-seminaristas, como Modesta Daniel.
Modesta constitui, um exemplo de mulheres que apoiaram militarmente a FRELIMO, dentre outras que tiveram formação missionária na Missão de Mariri, onde pretendia qualificar-se como irmão de caridade, não tendo porém, terminado o curso, devido à eclosão da guerra em Cabo Delgado. Assim, acabou parando na missão de Nangololo, de 1964 a 1965, onde conviveu com as irmãs da Consolata, congregação de origem italiana e padres monfortinhos, organização de origem holandesa, exercendo o professorado. Esta Missão continuou a funcionar, mesmo depois da morte do padre Daniel Boormans da Congregação de S. Luís Monfort, da Holanda.
 |
| Memorial de Homenagem ao Padre Daniel Boormans |
O padre Daniel estava em Nangololo havia somente 8 dias, No dia 24 de Agosto os missionários cumpriam uma tradição de retiro anual, na Missão do Sagrado Coração de Jesus de Nangololo. Pretendendo reforçar a refeição, o padre decidiu ir à caça, porém, ao regressar, foi atacado por 7 elementos do grupo que tinha recriado o MANU. Chipande destaca entre os assassinos, nomes como Lucas Mbundi e Atanásio Chitama. Este acontecimento foi assumido por algumas pessoas mal informadas, como tendo sido o marco do início da Luta Armada, envolvendo a FRELIMO. Porém, como uma forma de distanciamento, este Movimento, condenou vigorosamente este ataque bárbaro, tendo feito inclusive, uma aproximação aos missionários, para o seu esclarecimento. Para o efeito, enviou um mandatário à Missão de Nangololo. Simão Carlos Virgílio Minga, o emissário em causa, prestou a seguinte informação:Quando ocorreu o assassinato do padre Daniel nós encontrávamos-nos a preparar o início da luya em Cabo Delgado. Na sequência deste acontecimento o meu chefe Raimundo Pachinuapa orientou-me para deslocar à Missão de Nangololo, a fim de explicar aos padres a falta de ligação entre a FRELIMO e a morte deste clérigo. Cheguei à Igreja num Domingo, dia de missa. Como não dominasse o ambiente que me rodearia, levava comigo uma bússola e uma pistola, escondidos nos bolsos. Já entre os crentes, em plena missa, apareceram 4 soldados. Um deles reparou tanto para mim e eu, para ele. Continuou com a circulação no seio da Igreja. Receando ser suspeito, chegada a hora da comunhão levantei-me, fingindo que ia fazer p mesmo, porém, saí pelo portão reservado às mulheres. De repente, encontrei-me com o padre Kapalesse. A este informei que vinha a mando do Pchinuapa, para lhe informar que o padre Daniel não tinha sido morto pela FRELIMO. O padre Kapalesse perguntou-me onde estava o Pachiuapa e o Chipande, ao que respondi que estavam na Tanzânia. Quis saber eu tinha andado, pois, desaparecera da região por muito tempo. respondi que andava nas montanhas. Pareceu-me ter percebido a minha mensagem, isto é, que tinha me juntado à FRELIMO. A seguir perguntou-me se conhecia o Chitama, para depois afirmar que ele estava presente no momento do assassinato. Que ele era um dos implicados.
 |
| Simão Mingas, Chefe das Operações da FRELIMO, 1966-1968 |
Com o assassinato do padre Daniel, a Missão tentou dispor de um pelotão de militares coloniais, fortemente armados, os quais conviviam com o corpo docente e de missionários. Foi em aproveitamento desse ambiente de convivência que a Modesta chamou para si, o espírito patriótico e o colocou ao serviço da conquista da independência dos moçambicanos. Sobre este assunto, ela prestou o seguinte depoimento:
Quando estava na Missão de Nangololo convivia com muitos soldados. Como em qualquer guerra existem pessoas destemidos, também existem os medrosos. Em conversas, eles revelavam-nos alguns segredos militares. Poe exemplo, quando houvesse missões, como a busca de mantimentos em Mueda, ou de outra índole, alguns medrosos vinnham se esconder onde estávamos e, passavam-nos , involuntariamente, informações sobre o dia da passagem dos soldados para um certo lugar. Eu tomava nota em folhas de papel, dobrava-as e enrolava cuidadosamente nas capulanas de alunas da nossa confiança, para as fazerem chegar a determinados camaradas que viviam nas proximidades da Missão e estes, por sua vez, encarregavam-de de as passar rapidamente para as bases, especialmente, a Base Licumbi, na altura comandada por António Saide. Este camarada era bastante destemido, aspecto, que levou a ser popularmente conhecido por "Kwandie ngwele". Em Shimaconde idto significa que quando o macaco vai à caça nunca volta sem nada, uma conotação aos sucessos militares que obtinha, sempre que entrava em confrontos com a tropa inimiga.
 |
| Igreja Católica de Nangololo |
Nos dias 27,28 e 30 de Junho de 1970, decorreu em Roma, a Conferência Internacional de Solidariedade aos Povos das colónias portuguesas, em que participaram 64 países e 117 organizações de diferentes países. Terminado este encontro, no dia 1 de Junho como se disse, o Papa Paulo VI recebeu no Vaticano, alguns dirigentes nacionalistas africanos, nomeadamente os camaradas Marcelino dos Santos de Moçambique, Agostinho Neto de Angola e Amílcar Cabral da Guiné-Bissau. Os três nacionalistas entraram para o lugar de audiências, a "Sala dos Paramentos", acompanhados pela SRº Marcela Glisentini, Presidente da acção italiana "Presence Africaine" e conversaram com o Sumo Pontífice durante 7 a 8 minutos. Avaliando o conteúdo das entrevistas os nacionalistas, após este encontro, depreende-se que o Papa reconhecia a legitimidade da luta dos seus movimentos. A respeito do conteúdo da conversa com o Papa numa conferência de imprensa, Amílcar Cabral, referiu-se aos seguintes aspectos:
O Papa disse compreender as dificuldades com que se debatem os povos africanos (...) O Papa expressou o seu desejo de ver solução pacífica para estes problemas e afirmou que a questão mais importante de momento é a promoção de homens que possam conduzir a evolução da situação.
A propósito Marcelino dos Santos acrescentou que:
Paulo VI reza pelos povos que lutam pela sua Liberdade e formulou a esperança de que os católicos portugueses compreendam esta mensagem, pois, insistiu Paulo VI receber os representantes legítimos de Moçambique, Angola e Guiné-Bissau
As reacções a este encontro foram feitas a título individual, de governos e dos mídia, tendo circulado amplamente pelo mundo. Como era de se esperar, por um lado, houve elogios à atitude do Papa e, por outro lado, condenações. A primeira figura a tomar uma reacção drástica foi Monsenhor Valillance, informador oficial do Vaticano, ao demitir-se, logo depois do encontro. O Estado Português foi o mais atroz nas suas reacções. Com efeito, o Presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano, falando à imprensa no dia 7 de Julho, proferiu as seguintes palavras
Em todo este caso se revela, mais uma vez, a diabólica perfídia com que os 3 inimigos manobram contra Portugal e contra a sua política ultramarina (...) Aproveitando-se de um acto de rotina da vida do Pontífice, como é a audiência colectiva semanalmente concedida aos visitantes, infiltraram-se os terroristas em S,Pedro, colocam-se no caminho do Papa como católicos e cristãos, travam com ele um diálogo que mal se ouve e tiram depois daí efeitos especuladores para comprometerem o nosso País.
Outras condenações não tardaram. O Arcebispo de Luanda é citado pelo Diário de Notícias de 7 de Julho de 1970, como tendo tomado a seguinte reacção: "Estou certo de que se o Santo Padre tivesse sabido da sua identidade antes da audiência não os teria recebido".
Em Moçambique, também houve uma reacção. O jornal da Arquidiocese da cidade de Lourenço Marques, citado pelo "Lusitanea", a 8 de Julho, minimizou este encontro nos seguintes moldes: "Paulo VI condena e não abençoa terroristas".
O acolhimento ao encontro veio de fora, como do interior do Vaticano, manifestamente, através de algumas explicações sobre as dúvidas e especulações que iam surgindo. Com efeito, o jornal italiano IL TEMPO, do dia 3 de Julho, no esclarecimento sobre a lucidez do Vaticano, relativamente ao encontro com os nacionalistas, disse "que o Papa conhece não só os nomes e os apelidos de cada um deles, mas também as suas qualidades políticas e as suas actividades revolucionárias". Por sua vez, o jornal oficioso do Vaticano, o "Osservalore Romanoo", de 4 de Julho, rearrma a pré-disposição do Papa para este reunião com os nacionalistas, dizendo que o Sumo Pontífice "como parte da sua missão, recebe quem quer que lhe peça o conforto da sua bênção"
A rádio Vaticano, comentando a respeito da crise instalada entre o Vaticano e os defensores do sistema colonial e, esvaziando a tese de oportunismo dos nacionalistas, no dia 6 de Julho disse que "as audiências não têm lugar para serem previamente aceites"
O Papa não estava, na verdade, de alguma maneira distraído, nem equivocado, como pretenderam dar a conhecer alguns fazedores de opinião pública, visando minimizar os esforços por ele empreendidos na libertação dos povos do jugo colonial. O Papa sabia, certamente, que estes nacionalistas tinham apoio, mesmo na Itália. de partidos socialistas, com os quais mantinham relações amistosas. A respeito desta questão, o jornal IL TEMPO refere que a 3 de Julho de 1970, estes nacionalistas tiveram encontros com importantes partidos locais, nomeadamente o Partido Socialista Italiano de Unidade Proletera (PISUP) e o Partido Socialista Italiano (PSI)
O catolicismo, diferentemente do protestantismo, era defensor do colonialismo, sobretudo o selvagem. Consequentemente, a sua postura acabou tendo uma conotação negativa devido à forma desumana de lidar com outros povos. Essencialmente,enquanto os católicos se associavam ao modelo de colonização directa, de substituição de culturas nativas pelas dos colonizadores, sob pretexto da civilização, os protestantes defendiam um modelo de colonização indirecta, o respeito pelas culturas nativas, acreditando na sua sustentabilidade, pois, eram reconhecidas como suportes do seu desenvolvimento multiforme. Face a esta visão , os protestantes, foram assumidos como um problema no seio da Igreja Católica. Foi assim que passaram por várias restrições e obstáculos no desenvolvimento das suas actividades. Relativamente à Luta Armada, reconhecendo-a como um acto cultural que era, os protestantes desdobraram--se no seu apoio, entrincheirando-de, às vezes nas nossas raízes culturais para ludibriar as autoridades coloniais. Com efeito, na Missão de Nangololo chegaram a criar um cancioneiro revolucionário, normalmente apresentado nas visitas de Estado.
Algumas canções sobreviveram por muito tempo, até que fossem entendidas e banidas pelas autoridades coloniais, alegadamente porque despertavam a consciência dos moçambicanos, face ao colonialismo. uma das canções memoráveis é a seguinte:
Sou pretinho Makonde; Pretinho de feição; Sou pretinho Makonde; Pretinho de de coração; Ah....ah..... também toco violão; Ah...ah... também sei manejar; Gosto de brincar muito na minha povoação: Também gosto de tomar banho dentro do meu Quintal; Gosto de caçar com espingarda junto do meu País.
Alguns missionários de Nangololo envolveram-se em obras de caridade, prestando cuidados médicos e assistência alimentar aos guerrilheiros. Quando os guerrilheiros, vítimas da guerra, se apresentassem às unidades sanitárias locais, eram aconselhados a não revelarem as razões reais da origem das enfermidades, mas as remetendo aos acidentes mais comuns na comunidade, como o mau uso da catana, pancadaria, etc... De igual modo, os missionários preparavam, clandestinamente, Kits de mantimentos e faziam-nos chegar às nossas bases. Atitudes semelhantes foram tomadas por alguns missionários da Missão de Imbhuo, pois, prestaram apoio substancial à FRELIMO. Sobre este, Bispo José Garcia refere que:
A menos de 200 metros das casas da Missão de Santa Teresinha de Imbuho instalou-se um grupo de cerca de 100 terroristas que compravam alimentação na Missão e lá eram tratados os seus feridos. - Tudo se passava com conhecimento dos Padres e Irmãs.
.png) |
| D. José dos Santos Garcia |
João Facitela Pelembe, combatente, salientou que quando estava na Frente de Tete, teve apoio de missionários. referiu-se nos seguintes termos:Durante o tempo que permaneci na localidade de Chifombo (Tete), tive dois encontros clandestinos no mato com o Padre da Missão Coração de Jesus de Ucanha, de origem espanhola, de nome Alberto Fonte, o qual nos fornecia algumas informações soubre o inimigo. Num desses encontros disse-me que a situação na missão não estava boa, devido à situação da guerra.
Em relação ao Islamismo, é de sublinhar que a sua expressão anticolonial é associada ao nacionalismo árabe, no Médio Oriente, África do Norte e África Oriental, influenciando sobremaneira o nosso país. Aliás a circulação de mercadores árabes em Moçambique é bastante antiga, datando do século VIII, altura em que se estabelece, a arábica e a indiana. Foi nesta rede de comercialização que, em períodos historicamente mais recentes, começaram a circular ideia nacionalistas no Mundo Árabe.
Como referimos na abordagem de matérias ligadas ao Catolicismo e a Luta Armada de Libertação Nacional em Moçambique, é preciso tomar em consideração dois eixos fundamentais. Por um lado, que não se deve envolver a religião muçulmana como uma estrutura ou entidade, na sua relação com o colonialismo. Por outro, que foi notório o envolvimento de figuras muçulmanas no apoio desinteressado à luta levada a cabo pela FRELIMO.
A relação de alguns muçulmanos com o colonialismo é associada por algumas fontes, ao despertar do nacionalismo árabe, como mencionei. Um dos seus exemplos foi a resistência, etíope, em 1896, contra a invasão italiana, a qual foi tomada como instigadora aos africanos, para se oporem contra todas as formas de manifestação colonial. Em Moçambique, este exemplo inspirou a um administrador de Nacala, em 1937, o qual exortou às suas chefias para estarem atentas a este fenómeno. Preocupado com esta situação , em 1944, o regime colonial posicionou-se contra uma série de pangaios que circulavam na costa moçambicana.
Em 1965, Romão Freitas, assumindo o carácter nacionalista do islamismo, preceituado no Alcorão, propôs ao Governo Português, a tomada de medidas que passassem pelo estabelecimento de uma aliança, entre o regime e algumas elites muçulmanas, para combaterem a FRELIMO. A partir de então, os governantes desdobraram-se em reuniões com essas elites, tendo as convencido a declararem, publicamente, o seu apoio ao regime colonial.
O carácter nacionalista fundamenta-se no dever dos seus fieis de combater a luta de classes, a discriminação social e as rivalidades étnicas, (XLIX-11 e 13). À semelhança do aproveitamento das autoridades tradicionais na chamada de pacificação do País, e seu desenvolvimento socioeconómico, em 1965, o regime colonial, ensaiou a maquinação de muçulmanos face à luta conduzida pela FRELIMO. Sobre este assunto, Freitas dirigiu-se nos seguintes termos:
Os chefes religiosos islâmicos têm relevância especial não só por o Islão ser abraçado por mais de 1 milhão nativos da Província (entenda-se Moçambique) como por serem mais arreigados às convicções dos seus adepto, o que lhes concede uma influência mais acentuada. (...) Uma atitude mais compreensão por parte da Administração (Colonial) parece passível de lhes conquistar a colaboração, relevante nomeadamente no combate à acção subversiva processada por elementos religiosos. (...) E na sua falta ou quando os existentes não colaborem, não parece difícil fabricá-los e lançá-los no seio da Massa.
A partir deste depoimento, é possível notar que o combate a que os muçulmanos eram convidados a abraçar, incluía o interior da própria religião, onde supostamente existiam acções subversivas. Estamos assim, perante mais uma razão que alimenta o argumento da actuação de indivíduos e não toda a estrutura islâmica, nestas contrariedades.
Nos anos subsequentes, o Governador-Geral de Moçambique, Rebello de Souza, às vezes acompanhado pelo Comandante Militar, realizava encontros na Ilha de Moçambique, mobilizando e comprometendo alguns líderes muçulmanos, a se oporem à luta da FRELIMO. De igual modo, para ter os muçulmanos ao seu lado,o regime colonial criou, em 1971, o Grupo de Trabalho sobre os Assuntos Islâmicos, visando monitorar toda a actividade exercida por este grupo religioso.
 |
| O Governador Geral Rebello de Sousa acompanhado pelo Coronel Melo Egídio |
Em 1972, alguns representantes do Governo Colonial, reunidos com 21 líderes muçulmanos chegaram ao extremo de os convencer a editar as suas "escrituras", em língua portuguesa, para serem lidas nas mesquitas. O porta-voz do grupo declarou o seu apoio ao Governo Português, nas suas palavras "uno e indivisível"Sem pretender estabelecer uma relação de causa-efeito, refira-se que neste período, a Província de Cabo Delgado ressentia-se negativamente dos efeitos do Islamismo, onde surgiram algumas iniciativas defendendo o culto do Islão nas escolas da FRELIMO. Com efeito, na reunião de "Estudo sobre o Distrito de Palma", realizada de 1 a 12 de Março de 1972, esta matéria foi levantada nos seguintes termos: " Existem problemas criados pela religião Maometana, em exigir aos professores nas escolas da FRELIMO, além do programa de alfabetização, ainda darem aulas da religião Maometana".
No início da sua governação em Moçambique independente, a FRELIMO deixou em "pratos limpos" o seu posicionamento perante a religião. O Presidente Samora Machel, discursando na Sessão do Comité Central, na reunião de Inhambane, nas vésperas da proclamação da República Popular de Moçambique traçou limites claros entre a religião e o Estado, colocando a educação da sociedade, em geral, e da juventude, em particular, à responsabilidade da FRELIMO, cujas acções políticas estariam a cargo do Governo. Vincando o seu posicionamento, referiu que a igreja estava desprovida de qualquer autoridade política, o que implicitamente significava a reafirmação da separação entre o poder político e o espiritual. Samora dirigiu-se nos seguintes termos:
Nós discutimos aqui a religião. O Governo não é religião, não é Igreja. A Igreja não é Governo. Isto terá que ser claro. O trabalho da educação da juventude caberá à FRELIMO, através do seu Governo. Esta será a nossa política. A religião não é Estado. A religião não é Governo. A religião não é Estado. Igreja é Igreja, nãoé autoridade nenhuma, são duas coisas diferentes, diferentíssimas
Autores como Brazão Mazula, referem que um dos grandes erros cometidos pela Igreja, reside no facto de se imiscuir nos assuntos do Estado, no lugar de se embandeirar na sua missão profética, que lhe é reconhecida historicamente:
(...) as igrejas acabam por serem um instrumento do Estado, quer dizer que as igrejas devem ser colocadas na sua missão profética de libertação, onde for necessário, porque ela é uma consciência histórica. Acho que foi esse o grande erro da Igreja, o de ter perdido o seu papel de consciência histórica e de sociedade.
Síntese
A Luta tinha sido ganha no "teatro de operações militares", porém, surgiram resquícios da colonização e, visando o alcance de desígnios neo-coloniais, o que deu lugar ao surgimento de partidos políticos "cogumelos" ou fantoches. Mais uma vez, ficou clara a capacidade da FRELIMO, em saber resistir às intempéries e às vicissitudes do tempo, adaptando estratégias e metamorfoseado-se em funções das dinâmicas da Luta, sem sacrificar o essencial, a linha condutora para a Independência Nacional.
É desta forma que, aquilo parecia tsumani, caracterizado, mormente, por deserções e traições no regaço da FRELIMO, perdeu força vivificante. De forma mais terminante, a FRELIMO buscou na consciência libertária de todos os moçambicanos comprometidos com a causa nacionalista, os melhores meios de combater o seu inimigo.
As vitórias dos combatentes da FRELIMO, produzindo ecos nacionais e internacionais, tornadas evidentes na Operação Omar, propiciaram e precipitaram o acelarar ds nrgociações conducentes aos Acordos de Lusaka, a 7 de Setembro de 1974.
Longe de qualquer exibicionismo ou pretensão de puxar para mim o "Estatuto de Herói", a verdade é que, após o assalto ao Quartel de Omar, até ao processo negociável pré- Lusaka, não houve mais combate em todas as frentes. Assim, inequivocamente, este ataque ocupa um lugar relevante, nas acções que conduziram ao fim da Luta Armada de Libertação Nacional.
Com base nesta leitura, quatro ILAÇÕES podem ser retidas:
1. Em qualquer processo negocial, como se provou em Lusaka, é preciso estar em posição de vantagem e ter trunfos em manga, para não permitir chantagens e submissões por parte do opositor. Assim, as vitórias no combate libertador, especificamente, a captura dos 142 militares portugueses em Omar, colocaram a FRELIMO na dianteira negocial;
2. O sucesso das conversações provou que, embora a via militar fosse a principal, outras frentes, como a político-diplomática, desempenharam um papel importante, pois, difundiu as razões da nossa Luta, a nível internacional, esvaziando e desfazendo os ecos da propaganda eleitoral.
3. A conquista da Independência Nacional pelo povo moçambicano confirmou a validade da teoria segundo, a qual nenhum inimigo é capaz de impedir a consumação do desejo de um povo livre, desde que esteja unido e organizado em torno de uma Direcção lúcida, dotada de estratégias correctas;
4. De facto, nenhuma vitória acontece por acaso. Ela é fruto da arte organizativa, disciplina, perseverança e seriedade,, como nos ensina oo saudoso Presidente Samora Machel, na sua célebre frase "A vitória prepara-se; a vitória organiza-se"
10- Desafios Político- Militares e Valores fundamentais da FRELIMO
Um dos aspectos dignos de realce, mas pouco abordados na historiografia da Luta Armada, é o que se refere aos seus desafios político-militares. Esta situação tem vindo a alimentar correntes de pensamentos retrógradas, que procuram subterfúgios políticos e filosóficos para sustentar argumentos como a "guerra colonial foi um mar de rosas"; "que os traidores da Luta perseguiam objectivos nobres"; que a Independência Nacional foi-nos oferecido de "bandeja", pois, foi uma consequência lógica da vitória sobre o fascismo em Portugal, com o Golpe de 25 de Abril de 1974. Face aos principais desafios, os valores perseguidos pela FRELIMO foram fundamentais para a nossa Luta.
Assim, numa espécie de breve contextualização, irei debruçar-me a respeito dos desafios político-militares, acreditando não ser só impossível o seu esgotamento nestas singelas linhas, interessando-me porém, que este assunto possa motivar o seu aprofundamento, inclusive, noutros domínios, tais como político, social, económico e cultural. As dificuldades com que a FRELIMO se deparou foram mencionadas pelos seus diririgentes, ao mais alto nível, sobretudo os presidentes Eduardo Mondlane (1968) e Samora Moisés Machel (1968). De entre outras, merecem destaque as deserções, as traições, a indisciplina, a fuga de populações das zonas de conflitos militares, as balas doces e o surgimento de Movimentos Oportunistas.
10.1. Deserções e Traições
Durante a Luta Armada tivemos vários casos de deserções e traições, inclusvé de indivíduos que eram abrangidos, simultaneamente, por estes dois fenómenos. As deserções e traições caracterizam as guerras em todo o mundo, sendo que as suas causas dependem de factores de natureza social, política e económicas cultural das sociedades envolvidas nas contendas. Na nossa luta há que destacar a transposição de problemas que sobreviveram à fusão da FRELIMO, sobretudo o tribalismo. A estes associaram-se outros, tais como, a fraca maturidade política, a ambição e a incorporação de infractores fugitivos das autoridades administrativas coloniais. A respeito das deserções, o Presidente Mondlane chegou a fazer o seguinte comentário:
O fenómeno da deserção não é uma característica específica da Luta de Libertação de Moçambique. Há deserções na maior parte dos países, mesmo quando estes não estão em guerra. No movimento de Libertação de Moçambique, as deserções têm várias causas. Muitos camaradas engajaram-se na Luta porque têm consciência política nacionalistas. Mas outros há, cujo sentimento nacionalista é fraco. Há outros, ainda que tendo cometido infracções receiam ser condenados pelas autoridades portuguesas (...) os indivíduos com um passado destes, muitas vezes, fraquejam, não conseguem suportar as dificuldades da vida dos guerrilheiros. Uma vez fora do movimento, começam a inventar desculpas para se justificarem. Uns lançam boatos para desacreditar os dirigentes, separá-los das massas e desintegrar a luta. As deserções são crimes graves. Os desertores são inimigos do povo moçambique.
Como se referiu, a FRELIMO surgiu da junção dos três movimentos, já mencionados. Porém,pouco tempo depois da sua criação, viriam a notar-se divergências encubadas nas formações politicas por detrás da sua formação. Consequentemente, criaram-se fissuras políticas profundas no seu seio, tendo sido geridas, algumas delas, até à independência Nacional, em Junho de 1975. Discursando no II Congresso da FRELIMO, o Presidente Eduardo Mondlane sublinhou, a este propósito, o seguinte:
Quase que dentro de alguns minutos depois da última sessão solene do I Congresso, enquanto o Presidente da nova organização ia do salão ao aeroporto, regressando para os Estados Unidos onde ia completar o seu trabalho como professor, alguns membros do Comité Central começaram a manobrar para expulsar do corpo directivo certos indivíduos. Desde esse dia até ao fim de 1962 o corpo executivo central da FRELIMO não conheceu paz nenhuma.
De acordo com a sua explicação, tal situação se devia à fraca experiência política e à fraca preparação intelectual dos seus membros, aceitando, igualmente, possíveis diferenças de alinhamento ideológico. Qualificando estes movimentos, os fundadores da nossa Frente "pecaram por falta de representatividade interna e externa". No entanto , é de sublinhar que alguns problemas eram realmente anteriores à formação da FRELIMO, tendo influenciado não só a sua gestação, como igualmente, o seu desenvolvimento.
Refira-se, a título de exemplo, que a MANU e a UDENAMO não tinham ultrapassado as suas divergências políticas, Algumas manifestaram-se a escassos dias da formação da FRELIMO, o que obrigou o Governo do Ttaganyika a intervir, face ao ambiente caracterizado por insultos e calúnias entre os seus membros. Com efeito, no dia 4 de Maio de 1962, realizou-se uma reunião de mediação de uma contenda entre estes dois movimentos, em que a MANU estava representada por Mateus Mmole e a UDENAMO, por Adelino Guambe. O mediador foi Óscar Kambona, então Ministro dos Negócios Estrangeiros do Tanganyika e Secretário Geral do Tanganyika African National Unity (TANU). Este dirigente chegou a ameaçar de expulsão da Tanzania, ao Guambe e seu movimento, tido como promotor da confusão.
A 26 de Maio, o jornal "Tanganyika Standard" publicou que Guambe anunciava uma reconciliação e que iria formar uma frente com a MANU, para combater um inimigo comum, segundo ele "o governo Português". De acordo com este jornal, o compromisso tinha sido feito perante Óscar Kambona e Koinange, Secretário Geral do "Pan African Freedem Movement of East and Central África" (PAFMRCA). Porém, a 19 de Julho de 1962, o "Jornal Ngurumo" publicou em letras garrafais que a MANU e a UDENAMO tinham dissolvido a sua união. Na verdade, não tinha havido qualquer união entre estes dois movimentos, mas o que me parece inquietante, é o domínio público das suas divergências, o que em minha opinião e, como veremos, iria influenciar os processos políticos subsequentes.
.jpg) |
| Eduardo Mondlano ao centro e à sua esqª Adelino Guambe |
Relativamente a estas diferenças políticas, a UDENAMO acusava a MANU de tribalista e o governo do Tanganyika de paternalista em relação à MANU, alegadamente por haver afinidades étnicas entre as suas lideranças. Outras opiniões sustentavam, ainda, a existência de ambições políticas por parte da Tanzânia, acusada de ter a pretensão de expandir o seu território para a Província de Cabo Delgado,especialmente, a região povoada pela etnia Makonde. Por sua vez, a MANU falava em haver ligações fortes entre a PIDE/DGS e a UDENAMO. Preocupado com o que chamou de muito barulho e pouco por parte de Adelino Guambe, no mesmo período, Mateus Mmole espalhou um panfleto, cujo teor é o seguinte:
Desejo dizer aos cidadãos de Moçambique que não devem perder o seu tempo a falar, em vez de actuarem contra o Dr. António Salazar e os seus sequazes em Moçambique. A liberdade é um direito para todo o ser humano na terra, seja onde for neste Mundo. Durante 460 anos Portugal tem-nos tratado mal. Palavreado simplesmente dará lugar a que Portugal continue a governar Moçambique, onde a sua lei é barbara. Quando estivermos unidos, não devemos esquecer o veneno que demora e dificulta a liberdade e a unidade africana, num continente abençoado, muitíssimo cobiçado pelos ocidentais. Os venenos que impedem ou desmoronam a nossa liberdade sã: tribalismo, prestígio,anseio de riqueza, anseio de cargos! (...) Francamente direi que essas pessoas que se opôem aos seus irmão, são como Salazar, que só pensa em si próprio e não no seu povo. Esta é a razão porque a colónia (Moçambique) é tão pobre e eu estou certo de que o próprio Portugal é o país mais pobre da Europa e a doença tem sido espalhada nos seus territórios ulamarinos. Moçambique será com certeza livre, um dia e nós utilizaremos todos os meios possíveis para alcançarmos esse objectivo (...) Filhos de Moçambique, chegou a hora de agir e não de falar.
As acções políticas de Adelino Guambe repercutiram-se, inclusive na realização do I Congresso da FRELMO, em que não se fez presente e,tomado este dado para não reconhecer a legitimidade do novo Movimento-a FRELIMO, que integrava a formação de que ele tinha sido presidente. Criada a FRELIMO, que integrava a formação de que ele tinha sido presidente, alguns dirigentes seus, como David Mabunda, então Secretário-Geral, Paulo Gumane, Vice-Secretário Geral, insurgiram-se contra a sua Direcção, impedindo os outros membros da organização de realizarem o trabalho da Frente. Consequentemente, foram expulsos do Comité Central, ao que se seguiu a uma contínua contradições de fundo, no seio do Movimento.
As deserções que ocorreram mesmo antes do início da Luta, e logo a seguir à insurreição geral armada, foram objecto de várias reflexões no seio da Frente. As primeiras contradições de relevo prendiam-se sem o modelo de independência que "teríamos acesso". Recorde-se que muitos membros fundadores da FRELIMO, antes viviam nos países vizinhos, de onde lhes veio a inspiração libertária, associada, como vimos, a factores de ordem nacional e internacional. Na maioria destes países, o modelo de independência foi pacífico, mercê da visão, diferente dos seus colonizadores tinham, relativamente a Portugal. No entanto, alguns camaradas eventualmente distraídos a respeito do falhanço deste modelo em Moçambique, continuaram a alimentar as suas esperanças, de uma independência "dada de bandeja", mesmo no período em que a Luta Armada já era uma realidade. "A guerra é um acto de sacrifício e não um convite para um jantar"
Ao se aperceber disto,a maioria dos primeiros chefes, conseguiu encontrar argumentos para dar costas ao Movimento por eles criado - a FRELIMO. Com mais detalhes, um documento do nosso Comité Central, traz-nos os seguintes comentários:
O Comité Centra, retomando a orientação da sua reunião anterior, de Abril de 1969 analisou a origem das contradições no seio da FRELIMO, que remontam ao tempo da sua criação. Nessa altura a contradição baseava-se fundamentalmente na diferenciada concepção sobre os métodos de alcançar a independência: alguns moçambicanos, baseados nos exemplos de vários países africanos, idealizaram a independência nos bancos da ONU, em conversações, negociações que teriam como resultado último a entrega a entrega da independência à FRELIMO, por parte do Governo português, numa cerimónia solene, na capital de Moçambique, com festejos e celebrações. Quando se tornou claro que esse método falhara e a independência preconizava a luta armada começou a esboçar-se, nesses moçambicanos que não estavam psicologicamente preparados para a luta armada (e que são a maior parte dos membros fundadores da FRELIMO), deserções da organização.
A nossa luta exigia realmente, um elevado sentido de patriotismo. pois, as dificuldades eram enormes, Dando exemplo de algumas, o Presidente Mondlane referiu-se ao seguinte:
Foi em Bagamoyo onde a peneira do tempo nos ajudou a seleccionar entre as centenas de recrutas moçambicanos aqueles que eram verdadeiramente nacionalista e que estavam prontos a fazer tudo, incluindo o sacrifício máximo da sua vida, para a libertação do seu país. Essa selecção e endurecimento dos militares moçambicanos, escassez de comida, resultando em militantes a passarem dias a comendo muito pouco, e as vezes mesmo sem comer nada, falta de roupa, fazendo com que muitos camaradas se vestissem de farrapos e fizessem exercícios duros, incluindo corridas e rastejo nas matas espinhosas, quase nus e descalços, e serviços médicos muito irregulares, etc...etc,,,
Voltando para as clivagens no seio da FRELIMO, refira-se que o Presidente Eduardo Chivano Mondlane era acusado de promover a exclusão dos líderes dos anteriores movimentos e, inclusive, de ter manipulado as eleições a seu favor, subornando os eleitores. No entanto, compulsando um documento que chegou às mãos da PIDE/DGS, datado de 22 de Dezembro de 1964, é notória a falta de conhecimento a respeito do percurso académico e profissional de Mondlane e, muito menos dos corredores político-diplomáticos por ele efectuados a nível internacional, a favor da independência de Moçambique. Neste documento lê-se o seguinte:
(...) Aqueles "leaders" acusavam Mondlane de ter subornado alguns delegados, apesar de não se terem provado as suas acusações, parece muito estranho que um homem que passou dez anos na América sem se ter pronunciado uma única vez contra o colonialismo português e que em 1961, ainda podia visitar Moçambique e ser recebido como um herói pelo Governador Geral, passado pouco tempo, ser escolhido como chefe do Movimento Nacionalista.
Como se estivesse a dar explicação para este assunto
(...) A habilidade diplomática de Mondlane, a sua figura de impacto mundial e a sua visão estratégica e a prazo, que a sua formação académica e a sua experiência adquirida nas Nações Unidas constituíaram as forças que lhe permitiram liderar um movimento heterogéneo em várias vertentes da sua composição.
De facto. o Presidente Eduardo Mondlane, lidou com uma série de problemas complexo, sendo de destacar a gestão da figura de Leo Clinton Aldridge, que se apresentou como Leo Milas, um cidadão americano infiltrado no Comité Central da FRELIMO, tebdo sido eleito no I Congresso, como Secretário de Informação, Propaganda e Segurança.
Existem diferentes versões sobre as falsas origens de Leo Milas em Moçambique, contudo, todas coincidem no que se refres às dificuldades que este cidadão americano tinha na indicação com a devida exactidão da sua terra de proveniência dentro do nosso país. Raimundo Pachinuapa indica que Milas dizia que tinha origens algures, em "Inhambane, com a única particularidade de que ele não sabia que Distrito era, pois, os seus pais tinham ido para os Estados Unidos, havia muito tempo" Por sua vez, Bernabé Ncomo afirma que Milas fes-se passar por um moçambicano por origem macua, mas, quando questionado sobre a exactidão da sua nacionalidade, oferecia muitas dificuldades. Esta situação levantou suspeitas, a ponto de se ordenar uma investigação para se apurar as veracidades dos factos.
A introdução de Milas na FRELIMO constitui uma matéria que já "gastou muita saliva " mesmo no tempo da luta e, ainda promete "gastar muita tinta". Sobre este assunto, Eduardo Mondlane prestou a seguinte informação, ao II Congresso da FRELIMO.
Ao mesmo tempo que estas manobras dos inimigos da Luta de libertação se processaram outro tipo de acção do mesmo inimigo se operava no seio do Corpo Central da FRLIMO. Refiro-me aqui á ingerência de elementos estrangeiros na estrutura central do movimento, tais como Leo Milas, que, tendo sido introduzido na organização pelo seu amigo Adelino Guambe, conseguiu ludibriar os membros do Comité Central e fazer-se passar por moçambicano, quando na verdade ele era negro americano (...) Leo Milas podia ser um dos agentes contra-revolucionário que o inimigo de vez em quando empregava para destruir o nosso movimento (...) o Presidente da FRELIMO mais tarde conseguiu contactar os seus pais e confirmar a descoberta.
 |
| Raimundo Pachinuapa e sua esposa |
A respeito desta investigação, Pachinuapa oferece dados, focalizando a sua origem americana e a actuação sob as ordens da CIA, Destacou que "Leo Milas, em Dar-es-Salaam, andava com uma pasta bonita, e sempre perguntava a cada um de nós (Companheiro o que é que comeu hoje, quer dinheiro ou não?) Tinha muito dinheiro, distribuía dinheiro (...) quando Mondlane se encontrou com os pais de Milas, perguntou-os se eram de Moçambique e eles disseram:
- Nós não somos de Moçambique, que Moçambique? - Mas vocês não são africanos? - Não, nós somos americanos - Não conhecem nenhum país de África? - Não. - Mas vocês têm um filho chamado Leo Milas? - É um vagabundo que anda por aí ... e nem sabemos onde se encontra.
Foi assim que descobrimos que temos um espião da CIA
Ncomo retomou este debate, desdobrando-se entre a acusação do Presidente Mondlane e Adelino Guambe, entre as pessoas responsáveis pela vinda de Milas para a FRELIMO. Para algumas pessoas incautas, era realmente fácil fazer a ligação entre o Mlas e o Modlane, pelo simples facto de este ter vivido nos EUA. No entanto, parece que Ncomo exteriorizou as suas próprias convicções, ilibando o Presidente Mondlane, ao assumir que:
apesar que tudo indicar que Milas entrara na FRELIMO pela mão de Adelino Guambo, difícil foi para Mondlane e seus apoiantes convencer os demais, para muitos (Milas foi produto de Mondlane) e os dois haviam se conhecido nos Estados Unidos da América muito antes da fundação da FRELIMO.
Joaquim Chissano, que foi foi Assistente do Presidente Eduardo Mondlane, decidiu entrar neste debate. Começa por estabelecer uma ligação Adelino Guambe e o Milas, cujo nome, Guambe escamoteou aquando de uma conversa consigo, em representação da União Nacional de Estudantes Moçambicanos (UNEMO). Guambe era Presidente da UNEMANO e a conversa com Chissano girava em torno de se recuperar os quadros moçambicanos na diáspora, convidando-os a integrar e impulsionar o novo equipamento em debate; que seria a FRELIMO. Chissano refere que depois da conversa, viria a saber que o nome escamoteado por Guambe era Leo Milas, que o propusera ao Presidente Mondlanne, tendo este, desatentamente anuído. Finalmente, salienta que depoisde se descobrir as falsidades do Milas, Mondlane seria conotado ca a sua integração na FRELIMO.
Chissano referiu que durante a conversa, Guambe falou de alguém que:
ele achava ser muito importante, que em breve iria chegar a Dar-es-Sallam. Este teria ido havia muitos anos aos Estados Unidos onde se encontrava a viver na Califórnia. Guardou o nome em segredo. Viemos a saber mais tarde que se tratava do controverso Milas, porque Guambe veio a pedir a Mondlane que procurasse por ele lá nos Estados Unidos. Mondlane encontrou-o e infelizmente deixou-se levar. Tomou-o a sério. Mas a sua origem moçambicana veio veio a tornar-se duvidosa quando já era dirigente da FRELIMO (...) Quando os problemas surgiram já não se dizia que o Guambe trouxera este indivíduo. Dizem que Mondlane é que tinha infiltrado o espião negro americano,
O exemplo das traições e deserções é espelhado pelas constantes mudanças na composição do Comité Central da FRELIMO, desde a sua eleição, no I Congresso, em 1962, até ao II Congresso, em 1968.
Porém, o aspecto mais importante a reter neste processo é a característica principal da FRELIMO, nomeadamente a sua extraordinária capacidade de resistir na manutenção dos seus ideais. Com efeito, desde o I Congresso, definido como da "Unidade" do Povo Moçambicano, passando pelo II Congresso, baptizado por "Congresso da Vitória" a FRELIMO foi transformando as grandes dificuldades que encarava em desafio, até à conquista da Independência Nacional.a 25 de Junho de 1975.
Outro exemplo, entre os mais badalados de traição e deserção, é de Mzee Lázaro Nkavandame. Como tivemos ocasião de referir, Nkavandame desempenhava um papel importante no incentivo ao nacionalismo na Circunscrição dos Makondes, através da Liigwilanilo. Porém a forte e exagerada ambição pelo enriquecimento ilícito, viria a prejudicar a sua carreira política. Sobre ele, pesam várias acusações já documentadas, com destaque para a tentativa de sabotagem da realização do II Congresso da Frelimo e o seu envolvimento no assassinato de Paulo Samuel Khankomba, 22 de Dezembro de 1968. Volvidos mais de 50 anos do seu protagonismo político, este homem ainda é indesejado por alguns anciãos do Planalto de Mueda. A seu respeito, Musa Chilangade Pilimita, cidadão de 91 anos, pronunciou-se nos seguintes termos:
.jpg) |
| Joaquim Chissano discursando na tomada de pose do Governo de Transição |
No tempo do Nkavandame existiam cooperativas, onde se produzia mandioca milho e mapira, mas ele queria explorar as pessoas como faziam os colonialistas portugueses. Por isso, a relação entre ele e o Chibirite era como de entre gato e rata.
Em relação à estratégia militar defendida pela Direcção da FRELIMO, Lázaro Nkavandame insurgiu-se profundamente. Além dos aspectos já caracterizados, relativos à guerra prolongado ou não, esteve contra a participação da mulher na Luta Armada.
A travessia da fronteira pelos guerrilheiros da Frelimo, transportando material letal, em algum momento transformou-se num problema crítico para a manutenção da Luta Armada. A este respeito, Calisto Migico Malido, Sub-Secretário e Chefe do Departamento de Defesa Provincial de Cabo Delgado, reportou a, 16-08- 1968, os constrangimentos que o levaram a ficar retido na fronteira, durante 4 dias, tentando a travessia do rio Rovuma para Moçambique. Este constrangimento estava centrado no "Velho Lázaro" como era tratado Lázaro Nkavandame,
Outro documento foi datado de 14 de Julho de 1969, exortava aos camaradas para se prevenirem das acções inimigas, visivelmente encabeçadas por Lázaro Nkavandame. Este documento referia, entre outros aspectos, as demarches feitas por alguns infiltrados, tanto no interior de Moçambique, como na Tanzânia, nos seguintes termos:
(...) quero informar o Departamento de Defesa que a vinda de muitos elementos no nosso seio, com a capa de desertores do Portugal carece de vigilância em todos os nossos passos; estes formam uma rede Lázaro ou são anzóis para pescar algumas pessoas no nosso seio. Prova evidente: antes de chegar cá em Tanzânia, um dos grupos enviados declarou de que o que está em Nangade e tem por missão ir em Tanzânia onde contactara Rutamba, em Dar-es-Sallam e saberá da situação de todos os que se encontram em Dodoma (chaiman, a via a usar seria por onde o Sr. Lázaro tem passado ... assim se deu.
Como foi referido, Nkavandame desertou da FRELIMO, a 16 de Mio de 1969. Doravante passaria a dedicar-se às acções associadas aos serviços psicossociais do regime colonial, como a produção e distribuição de panfletos, convidando as populações para aderirem aos aquartelamentos portugueses
Aquando da visita do Ministro do Ultramar a Moçambique, Baltazar Rebello de Sousa, em 1974 e a sua deslocação ao Distrito de Cabo Delgado, foi notório o elevado nível de subserviência e submissão de Nkavandame às autoridades portuguesas. Na mensagem de saudação por ele apresentada, fes questão de tratar a Província de Cabo Delgado como uma zona isolada do resto do país, renovando a sua antiga, mas sempre presente ambição de uma independência unilateral para esta região. Reiterou a paternidade portuguesa e junto do seu "pai" (Rebello de Sousa) defendeu a indissolubilidade da dependência politica e moral de Moçambique em relação ao colonialismo português e condenou veementemente a Luta conduzida pela FRELIMO. Porém, estava-se numa altura em que havia sinais de que a bandeira da Independência Nacional estava quase a hastear-se em todo o território nacional. A defesa ferrenha de Nkavandame ao colonialismo português é atestada na carta que se segue:
A respeito das traições, o Presidente Samora Machel, numa visita efectuada à base Limpopo, na Província de Cabo Delgado, a 22 de Fevereiro de 1968, fez referência à infiltração de agentes do inimigo. Chamando a atenção dos camaradas, assim de dirigiu:
Devem vigiar muitos elementos que vêm das zonas de arame farpado do inimigo, muitas vezes declaram-se terem fugido desses arames farpados, mas na realidade foram enviadas disfarçadamente pelo inimigo, espionaram-nos e desorganizarem-nos. Muita cautela neste aspecto!
A propósito das acções do inimigo, visando a desorganização do decurso da Luta Armada, refeira-se que estas tinham sido detectadas mesmo nos primeiros anos da Luta Armada. Um documento datado de 12 de Dezembro de 1966, assinado por Joaquim Munheque, reporta um ambiente de manifesta vontade de aprendizagem de muitos camaradas, mas devido à agitação de um pequeno número deles, acabou-se criando uma situação de desorganização a nível do Campo de Instrução Militar de Kongwa.
Enquanto alguns camaradas se recusavam a aderir à instrução prática, alegando cansaço porque tinham estado a combater no interior, outros alegavam doença, uma situação que tinha levado ao surgimento junto ao Posto Médico, do que o relatório designa por "Depósito Geral de Doentes", em alusão às enchentes, `procura da Junta Médica, na altura passada pelo camarada Hélder Martins. O clima tinha-se deteriorado a tal ponto que os comissários políticos eram tratados por "espiões da FRELIMO" e os instrutores por " funcionários da FRELIMO"
Caracterizando a situação que se vivia no 1º Sector em 1973, Aníbal Malichocho, seguindo o pensamento do Presidente Eduardo Mondlane, reconhecia que os problemas existentes eram intrínsecos a qualquer guerra e que a da FRELIMO não poderia ser uma excepção.
Sustentava que a infiltração dos agentes do inimigo tinha como objectivos, criar confusão no seio da população, desconfiança e boatos, bloquear as fronteiras, para evitar o abastecimento do exterior.
A propósito dos desafios, a reunião do 3º e 4º Sectores de Cabo Delgado, realizada a 28-12-1973, concluía que havia suspeitas de infiltração de agentes pelo inimigo, o que se justificava pelo facto da tropa colonial tomar conhecimento dos planos de ataque, com antecedência e fuga de soldados ou recusa de participar em combates. De igual modo, num relatório sobre as situação em Cabo Delgado datado de 18-05-1972 refere~se à infiltração em massa de agentes do inimigo, para perturbar e desorganizar; descobrir os pontos, destacamentos, bases, novas armas pesadas e os camaradas que as manejavam. Acrescenta-se que o inimigo fomenta o tribalismo, divisionismo e boatos, para liquidar os dirigentes da FRELIMO,,
Um aspecto levantado com grande preocupação é o uso de veneno em comprimidos, envolvendo especificamente mulheres, que o escondiam em roupa íntima. Estes comprimidos eram ingeridos logo que fossem apanhadas, às vezes morrendo, antes de divulgarem os seus segredos político-militares
O maior apoio prestado pela mulher no âmbito da Luta Armada foi no transporte do material e na produção alimentar. O transporte era um trabalho árduo, em que as mulheres percorriam vários quilómetros com carga à cabeça, à noite e descalças, sujeitando-se a vários obstáculos, como arbustos e pedregulhos. Devido ao cansaço, admite-se que algum material fosse abandonado pelo caminho, como forma de se aliviarem do seu excessivo peso, pois, nem sempre se chegava ao destino com material completo, não obstante a vigilância dos milicianos e dos guerrilheiros. Aliás, visando proteger o material, existia um slogan, segundo o qual "quando alguém estivesse para cair, primeiro deveria descarregar o material e depois cair".
Elucidando sobre os casos de desvio comportamental, um relatório confidencial do Departamento da Defesa refere-se à emboscada em que ia cair o Presidente Samora Machel, em Outubro de 1972, na visita que fazia ao interior do País, acompanhado por Hashim Mbita, Secretário Executivo do Comité de Libertação de África. Outros em casos gritantes fazem alusão ao ao envolvimento de combatentes nossos na indicação, ao inimigo, dos nossos acessos, da Tanzânia para o interior de Moçambique e vice.versa; a retirada de minas por nós colocadas em certos carreiros, para dificultarmos a livre circulação do inimigo e, ainda, a colocação de minas, nos nossos próprios corredores, emboscando, assim,, os combatentes.
No que concerne à indisciplina, refira-se que Samora Machel exortava sempre aos guerrilheiros e militantes a respeito do impacto negativo das motivações de alguns camaradas, para participarem na guerra. Enfatizou que existiam os que perseguiam objectivos nobres, tais como, a libertação da pátria do jugo colonial. Porém, outros era de procedência duvidosa e que tinham encontrado na guerra um refúgio para o seu comportamento pouco digno. Outros ainda haviam praticado crimes nas zonas de origem e que o seu mau carácter viria a se manifestar durante a luta. Associava-se, assim, ao pensamento do Presidente Eduardo Mondlane, já mencionado. Samora chegou a sublinhar que " cada um de nós seguiu o seu próprio percurso para se juntar á FRELIMO, uns pelas boas razões, outros porque na terra, no lar, haviam criado conflitos por culpa própria",
10.1,2 Zonas de conflitos militares e balas doces
Durante a Luta Armada e, particularmente aquando da operação Nó Górdio, nalgumas vezes a mobilidade das populações traduziu-se em problemas de índole milita. Este aspecto explica-se pelo papel que as massas desempenhavam na operacionalização da máxima de Tsu Lan, de que a população, é para o guerrilheiro, assim como a água é para o peixe. Neste contexto, é fácil entender a travessia do rio Rovuma, à busca de território mais seguros afectava sobremaneira a eficácia da Luta.
Com o objectivo de se contrariar esta tendência, o relatório da tado de 27.071970, de uma brigada da FRELIMO que integrava, entre outros, Alberto Chipande e Jonas Namashulua, mostra um debate havido em Mtwara, com as populações saídas de Namatili (Omar), alegando fugirem das balas inimigas, da fome e, procurando acolhimento social (assistência em educação e saúde) para as suas crianças.
 |
| Jonas Namashulua, Representante da FRELIMO em Mtwara |
As "balas doces" constituíram-se num dos desafios que vale a pena recordar. Associado à nossa Luta, este conceito se refere ao tipo espionagem que a tropa portuguesa recorria à infiltração de mulheres no nosso seio, um fenómeno que deixou alguns camaradas "caídos em armadilhas", atraídos pelas raparigas introduzidas pelo inimigo. Antes de partirem para as missões, as meninas recebiam um carrinho entre as nádegas, como forma de identificá-las, aquando do regresso para as fileiras militares coloniais.
Este fenómeno não era desconhecido, pois, no mundo já existiam experiências do género. Refira-se que a espionagem militar é um fenómeno antigo, objectivo de estudo do chinês, Sun Tzu, estando reflectido na obra "A arte da Guerra". Este autor remete-a para a Antiguidade, por volta do Século IV Antes de Cristo. Anotações da Bíblia Sagrada se referem, igualmente, a este fenómeno, em que se afirma que Moisés, sob a orientação divina, numa missão de espionagem, teria enviado a 12 agentes para Canaã, a "Terra Prometida". Porém, os testemunhos mais documentados sobre o envolvimento de mulheres na espionagem militar datam da Primeira Guerra Mundial.
10.1,3 Surgimento de Movimentos Oportunistas
O Embrião que deu origem à FRELIMO resultara, como foi referido da síntese das experiências e aspirações proto-nacionalistas e nacionalistas, inspirados em outros acontecimentos a nível regional, continental e internacional. No entanto, depois da sua formação, algumas contradições internas resultaram em tentativas de ressurgimento de dois movimentos que tinham participado da fusão da FRELIMO. Dada a relevância de que se reveste esta matéria na história da Luta Armada de Libertação Nacional, parece-nos importante discorrer sobre ela, ainda que em voo rasante.
Recorde-se que a FRELIMO resultou da fusão da UDENAMO, MANU e UNAMI. Porém, alguns membros dos dois primeiros movimentos viriam a criar um protagonismo que de certo modo teve implicações negativas para Luta Armada. Como já foi frisado, as contradições prendiam-se com a diferenciada concepção sobre os métodos de alcançar a Independência Nacionl, assim como a falta de preparação política e psicológica para a Luta -- as razões de fundo das deserções,
Liderados por Guamo depois aboliram-na, alguns desertores anunciaram o ressurgimento da UDENAMO e depois aboliram-na, dando lugar a FUNIPAMO. Um ano depois, este novo movimento era substituído pela COREMO, uma fusão entre a FUNIPAMO e o MORECO, um movimento que existia, havia passado um ano. Posteriormente, o mesmo grupo criou, no MALAWI, a União Nacional Africana da Rumbézia (UNAR), cujo objectivo era de desarmar os guerrilheiros da FRELIMO e negociar com as autoridades portuguesas, a independência da região compreendida entre os rios Rovuma e Zambeze. Tratava-se de um projecto com a mão do presidente malawiano, Hastigs Kamuzu Banda que alimentava o seu sonho de estender o Malawi para o Oceano Índico,anexando a província da Zambézia. Considerando estas circunstâncias,hoje, Moçambique estaria confinado ao Sul do rio Save. valeu a pena o esforço da FRELIMO no sentido de se contrariar essa tendência.

O Coremo teve, por sua vez, apoio do presidente zambiano Kenneth Kaunda, no âmbito da sua diplomacia ambígua, já mencionada, pretendendo ter acesso ao porto da Beira, no seu comércio internacional. Neste quadro, Kaunda fez esforços, inglórios, no sentido de unir a FRELIMO à COREMO. A sua proposta foi redondamente rejeitada pela Direcção da FRELIMO, dada a irrelevância política. O COREMO procurou, inúmeras vezes, desestabilizar a Luta da FRELIMO, a partir da Província de Tete, saindo do Malawi. Nas suas incursões, realizadas na segunda metade da década de 1960 e início de 1970, acabou comprometendo a Zâmbia, perante Portugal, ao protagonizar raptos e assassinatos de cidadãos indefesos. A estas acções os portugueses retaliaram, bloqueando o uso do porto beirense, por parte da Zâmbia. Outro incidente ocorrido em 1971, manifestamente, o roubo de um boi por homens do COREMO e sua atribuição ao OPV ( milicianos criados pelos portugueses), junto das populações, teria conduzido a um ataque aos homens do COREMO, pelos milicianos. Esta situação obrigaria a Zâmbia a retirar-lhe o apoio, o que precipitou o seu fim.
Com um percurso político bastante sinuoso, o COREMO espelhava a manifesta falta de clarividência estratégica do seu leader, Adelino Guambe, o qual nunca encontrou alicerce popular para as suas intervenções. Neste sentido, mais do que dirigente de um movimento militar, Guambe apresentou-se como um simples individuo cuja actividade era um exercício político de ensaio de nomes de organizações, do que verdadeiramente de direcção de um movimento político-militar, enraizado nos anseios do povo moçambicano, Criou a NOVA UDENAMO, ou UDENAMO MOÇAMBIQUE, Mozambique Revololution Council (MORECO) , UDENAMO MONOMOTAPA, Frente Unida Anti-Imperialista Popular Africana (FUNIPANO), Conselho Revolucionário de Moçambique (COREMO), MOPEMO.
Dentre outros movimentos que surgiram, figua o PAPOMA, criado em 1967, no Malawi, por Calvino Mahlaieie, com a participação do polémico Leo Milas; o Movimento de Libertação de Moçambique; (MOLIMO), sediado no Quénia, fundado em 1970 por, Almeida Magaia e Henrique Nhancale; o Exército Revolucionário do Povo Moçambicano (FREPOMO); Frente Unida de Moçambique (FUMO) liderado por Narciso Mbule, cujo Vice-Presidente era Vasco Campira; e Mozambique African National Congress (MANC) ou Congresso Nacional Africano de Moçambique. Todos estes movimentos não chegaram a constituir uma base popular, o que lhes valeu um fim prematuro.Enquanto isso a FRELIMO ia cumprindo a sua missão histórica, de libertar o povo moçambicano do jugo colonial.
10.1,4 Valores Fundamentais da FRELIMO
Os desafios a listapolítico-militares foram superados e a FRELIMO conduziu a Luta até à derrocada do colonialismo português em território moçambicano. este feito marcante da nossa história explica-se pelos valores fundamentais criados e disseminados pela Frente de Libertação de Moçambique. Dentre esses valores, destaca~se a Solidariedade, Unidade Nacional e a Noção do Inimigo.
A solidariedade é o valor em que repousou a essência da FRELIMO, tendo se constituído numa fonte inesgotável de inspiração dos seus combatentes. É realmente numerosa a lista de razões que conduziram à contestação da ordem política--administrativa colonial, fizemos menção. Refira-se, porém, que nos finais da década de 1950, o sistema colonial tinha feito emergir uma acentuada diferenciação rácica e de oportunidades entre os moçambicanos.
Não obstante, algumas pessoas tinham encontrado o mecanismos para a melhoria das suas condições de vida, havendo na altura, enfermeiros e professores espalhados pelo país. Havia, igualmente, moçambicanos com nível de formação médio e superior, ainda que poucos. Porém, a esmagadora maioria da população vivia debaixo da exploração desenfreada e da segregação dos agentes administrativos colonial, nos locais de trabalho, no comércio, nas zonas de residência, nos locais de culto, por aí em diante..
Vendo os seus concidadãos em sofrimento, estes moçambicanos decidiram prescindir das oportunidades que tinham dentro do sistema colonial e, solidarizando-se com os demais, juntaram-se à causa da libertação nacional.Durante a Luta Armada, não tínhamos salários, fardamento militar condigno e, quase tudo faltou-nos, mas o ideal da conquista da nossa soberania, como um povo, sempre esteve presente, tendo sido expresso pela nossa Solidariedade.
A Unidade Nacional foi a coluna vertebral da ideologia da FRELIMO e baluarte da sua vitória. a maior contrariada que a FRELIMO encontrou durante a Luta foi a gestão da diversidade ético-cultural do País, sabido que a cultura carrega consigo diferentes maneiras de ser e estar, diferentes motivações, emoções e paixões, tanto a título de grupo como individual. Era preciso congregar esta diversidade, em torno dos objectivos da nossa Luta, clarificando o nosso horizonte, a vitória sobre o colonialismo português. Este desiderato só seria possível alcançar, uma vez unidos, tendo em conta o espírito de crítica e autocrítica, como a ferramenta necessária para a promoção deste valor-mor.
A noção do inimigo foi um assunto. igualmente estruturante da luta da FRELIMO. Inicialmente, a noção do inimigo esteve bastante ligada à raça e, conotada com a raça branca. Assim, era tido por inimigo, todo o indivíduo desta raça. Aliás, o próprio Presidente Mondlane foi vítima desta concepção, pelo facto de sua esposa, Janet Mondlane, ser uma branca.
 |
| Eduardo Mondlane e sua esposaa norte-americana Janet Mondlane |
Concordando com Pelembe, durante a Luta Armada não foi fácil introduzir nas populações o verdadeiro conceito do inimigo, dissociado do branco. Aliás, mesmo no nosso seio como combatentes, este exercício foi realmente difícil. Recordo-me que nas sessões de educação política que tivemos em Nachingwea, orientadas por especialistas chineses, este assunto foi tratado com profundidade. Reagindo de forma psicológica, e recorrendo ao que ficou conhecido por narrativa de sofrimento, era-nos explicada a noção do inimigo, partindo primeiro de uma pergunta. Quem é o vosso inimigo? Todos nós, ou pelo menos a maioria respondia, é o branco!... Reagido a esta resposta, os instrutores afirmavam que iriam regressar para a sua terra, porque eram brancos, que a luta da FRELIMO tinha o apoio de brancos.
A seguir, os instrutores diziam que cada um de nós deveria procurar lembrar-se de algo negativo que lhe tenha ocorrido na vida, de forma directa ou indirecta. Podia ser a morte de um parente ou outro acontecimento triste. Depois de se recordar, deveria fazer uma narrativa de sofrimento sobre esse acontecimento, focalizando a relação causa-efeito; ou seja, entender as razões que teriam conduzido ao tal sofrimento.
Depois, de ouvida a diversidade de experiências, os instrutores introduziram a seguinte pergunta: Agora que é o inimigo de cada um de vocês?. A partir da narrativa passámos a compreender que o nosso inimigo é todo aquele que nos causa distúrbios, sofrimento, independentemente da sua raça, religião, etnia, etc...
No caso concreto da Luta, o nosso inimigo era o colonialismo português. Com efeito, em Outubro de 1964, a FRELIMO trouxe explicação sobre o nosso inimigo, nos seguintes termos:
É o maior inimigo da humanidade, o colonialismo em todo Mundo, como em Moçambique, tem um fim;
-- Criar e desenvolver uma mentalidade de medo, obediência e desesperança do povo colonizado;
-- Estabelecer e fazer aceitar uma 2ª Classe, de povo colonizado;
-- Escravizar todo o povo.
A nossa clarividência a respeito da noção do inimigo conduziu ao reconhecimento internacional da nossa Luta Esta era orientada para o sistema colonial e não necessariamente para os soldados portugueses, em tanto que tais. Passámos a saber que eles, à nossa semelhança, eram vítimas do sistema social-fascista e tudo fizemos para a sua protecção, quando capturados. Na nossa Luta, não há registo de mortos de soldados portugueses capturados, tanto mais que a FRELIMO pautou pela entrega de prisioneiros são e salvos. Contrariamente, não tenho memória de devolução de guerrilheiros, capturados pelo Exército Colonial.
Como frisou o Presidente Mondlane, a contenda entre Portugal e Moçambique era meramente política. É prova disso, o facto do nosso povo nunca ter massacrado os colonos brancos portugueses . em qualquer das áreas em que se estendiam as batalhas pela libertação nacional.
Síntese
Durante a progressão da Luta Armada de Libertação Nacional, o mais difícil foi conviver com as "minas retardadas" e o surgimento de movimentos oportunistas cogumelos, uma combinação de forças negativas, que se opunham à nossa Independência. Por isso, por isso impunha-se redesenhar estratégias, a nível diplomático, para remover as barreiras da construção de um Moçambique independente.
O povo moçambicano, que sempre esteve do lado da FRELIMO, não vacilou e, compreendeu quão era importante consentir sacrifícios. Neste prisma, contando com o seu povo, a Direcção da FRELIMO traçou desafios, construindo pilares políticos estratégicos que culminaram com a libertação do povo moçambicano do jugo colonial em 1975.
A realização do meu sonho sobre a libertação dos moçambicanos e seu desenvolvimento sócio-económico, político e cultural, começou a tomar forma com a minha filiação à FRELIMO, como foi referido em 1965. Conquistada a Independência Nacional, participei, igualmente, no processo de reconstrução do País, em vários domínios, especialmente, na garantia da inviolabilidade das fronteiras nacionais e na manutenção da soberania do estado Moçambicano.
Os meus ideais estão em alinhamento com a visão da FRELIMO, expressa, sobretudo , nas Resoluções e Decisões do seu II Congresso, realizado em Matchedje, Província do Niassa, de 20 a 25 de Julho de 1968. Além da conquista da Independência Nacional, fortemente defendida por este órgão, as outras áreas defendias foram as da Educação, Saúde, Agricultura e Indústria, Estes sectores continuam a estruturar as estratégicas governamentais da FRELIMO, tendo como fim último, a satisfação cada vez melhor das condições de vida dos moçambicanos. É o meu sonho em marcha, desde a década de 1960.
Ordem do Cessar-Fogo da luta Armada de Libertação Nacional
Frente de Libertação de MoçambiqueP.o box 15274
Dar-es-Salaam -- Tanzânia
Mensagem do Presidente da FRELIMO, Camarada Samora Moisés Machel, para o povo de Moçambique e Forças Armadas Portuguesas, em Moçambique,
Moçambicanas e Moçambicanos
Oficiais, Sargentos e Praças do Exército Português
Ontem dia 7 de Setembro momentos depois da assinatura solene do Acordo de Paz entre Moçambique e Portugal um pequeno punhado de brancos reaccionários a soldo do imperialismo internacional apossou-se das instalações do RCM em Lourenço Marques
Este bando de fascínoras, composto por criminosos de guerra, agentes da PIDE/DGS e conhecidos representantes das forças exploradoras, tenta desesperadamente opôr-se à vontade de Paz do Povo moçambicano e do Povo português.
O objectivo destes elementos sem prática e sem ideal, é o de impedir a independência de Moçambique. para isso procuram provocar um clima um clima de conflito racial, de caos e anarquia que sirva de pretexto uma internacionalização da agressão do nosso Povo.
Neste quadro recrutaram forças mercenárias, buscaram o apoio de forças racistas e reaccionárias.
 |
| Ocupação do RCM em Lourenço Marques, 7 Setembro 1974 |
Moçambicanas e MoçambicanosOficiais, Sargentos e Praças do Exército Português
A presente agressão reaccionária não nos pode surpreender. Quem sempre viveu do crime e da exploração não se pode resignar pacificamente ao fim do seu reino terrorista.
Mas importa-nos agora compreendermos claramente as intenções do inimigo comum, para definirmos a nossa estratégia correcta.
Este pequeno bando deseja criar uma situação que leve à exploração da cólera popular, criar um clima que desencadeie um conflito racial.
Uma vez conseguido este objectivo, de desencadear uma luta entre raças, estaria criado o pretexto para se internacionalizar a guerra e sobretudo, comprometer o esforço comum de reconstrução nacional.
A FRELIMO, mais uma vez declara firme e claramente que não tolera nenhum conflito rácico. As massas populares neste momento grave, mais do que nunca devem distinguir este punhado de criminosos, da população branca, que na sua maioria esmagadora quer participar das verdadeiras aspirações da Nação, na construção de Moçambique independente.A
Os criminosos pretendem arrastar para a sua aventura louca e já condenada ao fracasso, os sectores menos esclarecidos da população branca.
A população branca constituída essencialmente por trabalhadores honestos, repetimos o que sempre dissemos: a nossa luta é a vossa, e a luta contra a exploração, a lutar para edificar uma Pátria Nova, o Poder Popular Democrático. Dizemos-vos sem ambiguidade que as forças criminosas da reacção colonial-fascista estão a querer vos utilizar para salvaguardar os privilégios dum punhado que também vos explora, comprometendo assim uma autêntica harmonia racial, no nosso País.
Aos países vizinhos que os criminosos desejam envolver no seu acto desesperado, queremos advertir que nem a FRELIMO, nem os aliados africanos do Povo moçambicano, nem a comunidade internacional, tolerarão o que será obrigatoriamente considerado uma agressão imperialista.
Não é nosso desejo iniciarmos uma nova guerra, quando acabámos de terminar dez anos de guerra. Mas também dizemos que não hesitaremos em fazê-lo, para defender a independência e integridade de Moçambique.
Oficiais, Sargentos e Praças do Exército Português
Desde as zero horas do dia 8, uma nova era de relações devia intervir entre a FRELIMO e as Forças Armadas Portuguesas, reconciliadas pelo espírito de amizade e democracia que sempre uniu os nossos Povos.
A presente acção, dum pequeno bando de facínoras destina-se a impedir a efectivação do Acordo de Cessar Fogo, a reacender o fogo da guerra em Moçambiquee, o que é contra a vontade dos nossos dois Povos.
É nosso dever honrar os Acordos de Lusaka, honrar a coragem e esforço do Movimento das Forças Armadas que em 25 de Abril restaurou a democracia e a dignidade de Portugal.
Ao assinarmos os acordos , lealmente vos estendemos as mãos, os reaccionários querem que retomemos a guerra.
Queremos-vos dizer que é a nossa vontade manter a nossa mão estendida.
Temos agora um inimigo comum, que juntos devemos inexoralmente combater: os inimigos da Paz, os inimigos da amizade e cooperação entre Moçambique e Portugal. Este inimigo é constituído pelas raízes ainda não extirpadas do regime colonial-fascista e Moçambique.
Moçambicanas e Moçambicanos
Em nome doo Povo Moçambicano, unido do Rovuma ao Maputo, sem distinção de etnias, de raças, sexo, origens sociais e crenças religiosas, dizemos:
1. População deve bloquear todo o abastecimento e comunicação para o pequeno grupo de aventureiros fascistas, fanáticos e desesperados
2. Os elementos inconscientes da população branca, que foram manipulados pelos fascínoras colonial-fascistas devem recolher imediatamente a suas casas, recusando-se a ser instrumento dos fascistas. É esta a melhor forma de defender os seus interesses legítimos, que a FRELIMO se compromete a proteger.
3. A FRELIMO apela às Forças Armadas Portuguesas nas zonas urbanas ainda não ocupadas pelas forças populares da FRELIMO para que neutralizem sem demora os reaccionários e agentes subversivo, impedindo assim que venham a repetir-se incidentes como os que acabam de ter lugar em Lourenço Marques.~
Moçambicanas e MoçambicanosOficiais, Sargentos e Praças do Exército Português
A FRELIMO respeita solenemente os seus engajamentos, a assinatura que firmou os Acordos de Lusaka.
No momento grave que atravessamos, queremos dizer ao nosso Povo que é nosso dever manter a todo o custo a linha política da FRELIMO, que nos guiou eem Dez anos de guerra.
A nossa luta não é, nem será uma luta contra uma raça, ou um povo. O Colonialismo não tem raça, o Capitalismo não tem cor, o Imperialismo não conhece Pátrias.
A nossa luta é a luta dos oprimidos contra os opressores, dos explorados contra os exploradores, a nossa luta é para edificarmos o Poder Popular no nosso Moçambique Independente.
Neste momento grave, impõe-se mais que nunca, o cumprimento integral da nossa palavra de ordem: Unidade intransigente do Rovuma ao Maputo, Vigilância activa, Disciplina revolucionária, Consciência política, Definição clara do inimigo.
Proclamamos solenemente, nesta ocasião histórica para o nosso povo, o cessar~fogo completo em todo o território moçambicano entre as forças da FRELIMO e o Exército Português. As Forças Populares de Libertação de Moçambique devem cessar imediatamente todas as operações militares dirigidas contra o Exército Português . Devem ao mesmo tempo manter a máxima vigilância activa e actuarem contra todas as actividades das forças reaccionárias, em colaboração com as Forças Armadas Portuguesas, dentro do espírito dos acordos de Lusaka.
VIVA OS ACORDOS DE LUSAKA
VIVA O POVO MOÇAMBICANO
VIVA A AMIZADE E COOPERAÇÃO ENTRE
O POVO MOÇAMBICANO E O POVO PORTUGUÊS
E ENTRE AS FORÇAS POPULARES DE
LIBERTAÇÃO DE MOÇAMBIQUE E AS FORÇAS
ARMADAS PORTUGUESAS
.jpg) |
| Acordos de Lusaka |
11. À guisa de conclusão
Feita a apresentação e análise dos assuntos abordados na presente obra, apraz-me concluir que, apesar das adversidades da Luta Armada de Libertação Nacional, que como era óbvio, a FRELIMO venceu o colonialismo português, fazendo nascer uma Nação Independente, em que os moçambicanos tornaram-se, de facto, moçambicanos obreiros do seu próprio destino.
Os caminhos que levaram à Independência militar, não foram rectilíneos, antes ladeirosos, marcados, às vezes, por traições e deserções, entre as demais dificuldades, próprias de uma guerra. Não obstante os desafios no seio da FRELIMO, o denominador comum entre os guerrilheiros, assentava no espírito libertário do povo moçambicano, sujeito à dominação colonial. Neste sentido, é essencial sublinhar que, não são correctas as afirmações de que qualquer um poderia ter sido guerrilheiro. Para a FRELIMO, ser guerrilheiro exigia condições específicas, qualidades que faltavam em muitas pessoas: patriotismo, honra fidelidade, coragem, solidariedade, subordinação, sacrifício e, disciplina, esta que é a sentinela da nossa Organização.
Sem estas qualidades nobres de guerrilheiro, não teria sido possível tirar "Omar do Mapa", muito menos inverter a roda da História. É fulcral reafirmar que a Operação Omar foi factor determinante nas difíceis negociações que culminaram com os Acordos de Lusaka e, consequentemente, o fim da Luta Armada. Os ecos e o impacto do assalto ao Quartel de Omar, ao percorrerem velozmente África e o mundo, como o vento demolindo obstáculos de toda a índole, fizeram acreditar aos mais cépticos, que a luta travada em Moçambique era séria, porque enraizada no seu povo.
Para que não haja distracção, nem dúvida sobre a essência da Operação Omar, devemos ter em mente que esta surgiu e foi posta em prática, em oposição à "Operação Referendo". A grande lição aprendemos de Omar, é que o nosso inimigo, o regime colonial-fascista português, jamais seria fiador da nossa liberdade e, tão pouco, nos daria a Independêcia Nacional de bandeja.
A grande lição desta obra é que volvidos 45 anos do assalto ao Quartel de Omar , a História mostra-nos que é preciso "excluir do mapa", as barreiras do presente, para que continuemos a dignificar as pegadas, entre outras, do grupo que pernoitou em Namatili a 1 de Agosto de 1964, no âmbito da preparação doo início da Luta e os efeitos de 1 de Agosto de 1974, claro, sem nos esquecermos, do sonho colectivo de 25 de Setembro de 1964.
Foi à luz deste princípio que, em Gorogosa, Filipe Jacinto Nyusi, Presidente da República de Moçambique, assinou nesta data histórica, 1 de Agosto de 2019 o Acordo de Cessação das Hostilidades Militares, com Ossufo Momade, Presidente da Renamo.
.jpg) |
À Esqª: Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi; À Dirº Presidente da Renamo, Ossufo Momade |
De igual modo, em prossecução do espírito de concórdia, o Presidente da República assinou com o Presidente da RENAMO, o Acordo de Paz da Reconciliação de Maputo, a 6 de Agosto de 2019. Esta data coincide com o encontro solene que teve com o líder da RENAMO. Afonso Dhlakama, em 2017.
 |
| Exibição das pastas do Acordo |
Estes entendimentos seguem-se aos anteriores, nomeadamente, a criação da Comissão Mista de Verificação (COMIVE), em 1992, entre o Governo de Moçambique, representado por Atanásio Salvador Mtumuke e a RENAMO, representada por Pascoal Nhalunga; o Acordo Geral de Paz, assinado em 1992, em Roma, por Joaquim Alberto Chissano, Presidente da República de Moçambique e Afonso Marceta Dhlakama, Presidente da RENAMO: a criação da Equipa Militar de Observação da Cessação das Hostilidades Militares (EMODHM), assinado em 2014, entre Armando Emílio Guebuza, Presidente da República de moçambique e Afonso Marceta Dhlakama, Presidente da RENAMO.
.jpg) |
| Contra capa do livro- |