Bem vindo

bandeira-portugal-imagem-animada-0007 bandeira-mocambique-imagem-animada-0006

Livros da guerra colonial

Miandica terra do outro mundo


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

PERIPÉCIAS "I" DA CCAÇ. 4141 NO LUNHO

Peripécias

O pessoal sujeito a alimentação como aquela que se verificava tinha uma necessidade incrível de vitaminas. Também estas faltavam e de quando em quando apareciam uns concentrados de vitaminas em embalagens mas a quantidade era pouca e só eram distribuídas aos mais necessitados ou aos mais amigos.


A foto em cima são os graduados do 1º Pelotão da CCAÇ 1558. A foto de baixo é de soldados da CCAÇ 4141, em 1972, sentados no mesmo local da foto de cima. Curiosidades!!!


Sim, este posto de socorros era efectivamente uma miséria. Havia um soldado que precisava de ser injectado, faltava o álcool e etc...
Anda tudo cheio de micose, doença que só existia nos soldados de Portugal e no Ultramar. Em parte, esta epidemia que afectava o derme testicular era benéfica para aqueles que nada tinham que fazer.
Mas, deixemo-nos de brincadeiras. Eu direi que não era nada agradável ter que andar com toda aquela comichão no órgão genital, riqueza mais nobre que o homem poderá possuir.
Mas não era isto que queria dizer mas, eu começava a dissertar e por vezes chegava mesmo aquilo que nem tinha em mente, uma série de asneiras, Sucedia, que as pomadas, os pós, os líquidos antimicóticos não existiram para sarar esta enfermidade que era geral.
Estávamos mal servidos de tudo e doentes para tratar não faltavam.
Conforme os doentes, assim o tratamento o diferia, Um soldado poderia esperar mesmo que protestasse, o furriel era atendido se refilasse, o alferes era atendido sem refilar, o sr. capitão era atendido por alguém de bata branca e por último o 1º sargento era tratado no seu quarto. Contudo eu era de carne e osso e as divisas ou galões, pouco me diziam..
O Retiro dos Desenfiados

No Lunho, as operações militares eram feitas com muita regularisade, quer ao nível de Companhia, quer ao nível de Grupos de combate.
Alguns dos militares que eram escalados para participar numa rotineira operação no mato, de imediato desencadeavam um processo de "baixa" `enfermaria, que passou a ser  denominada o RETIRO DOS DESENFIADOS".. Este título foi dado por alguém e era muito apropriado.
Se não, vejamos, o militar que era "sorna" ou "reguila", que se queria safar das operações militares, picagem de itinerários ou capinagem, serviam-se das mais variadas simulações de doenças, para "baixarem" à enfermaria  (Retiro dos Desenfiados) para assim se safarem dos trabalhos acima descritos,
Como o "Centro de Saúde" não dispunha de material suficiente, para poder avaliar as maleitas dos militares, a maior parte das vezes o Enfermeiro era levado ao engano, embora com muitas reticências.
Acontecia, algumas vezes, que o enfermeiro tinha os seus amigos e sempre dava um jeito de os safar de irem para o mato. Afinal vivíamos num país onde as "cunhas" reinavam.
Cozinha para as praças no Lunho

No Lunho, a preparar o rancho geral
No Aquartelamento do Lunho havia as Messes de Oficiais e Sargentos e os Praças recolhiam a sua refeição na cozinha e iam comer na caserna em cima das suas camas.
Na cozinha existia um memorial com uma frase lapidar "DIETA OBRIGATÓRIA".
Efectivamente, como tinha amor à saúde cumpria à risca a máxima em causa.
Os funcionários (soldados cozinheiros) que me serviam eram os melhores do Lunho, faltava apenas o casaco branco e as boas maneiras de todo o empregado que se batia para a "gorja". Um deles ao  pedido de uma cerveja respondia com uma colher que trazia vinho

Os Praças. no Lunho, a caminho da caserna com a sua lauta refeição
 Para completar as refeições, dado que, o jantar era bastante cedo, preparavam lautos banquetes para as três horas matinais. Apetecia então, um frango no churrasco, desviado, mesmo em vida da machamba, Hoje um, amanhã outro, e lá se foram duas dúzias de galinhas. O jantar para quem era Praça, era servido muito cedo, cerca das 17 horas, porque não havia condições para ser servido com luz artificial, necessitando de se aproveitar a luz solar.
O meio era tão pequeno que nada se fazia sem se pensar na mínima coisa, embora insignificante, sem que todos os componentes deste grupo belicoso o soubessem. Chegavam-se mesmo a apontar feitos e não feitos a militares que até em tal nunca pensaram quanto mais executar.
Segundo informações colhidas e oriundas de fontes credíveis, contavam que não passavam pelo estreito só as galinhas, mas também os ovos que as mesmas fabricavam.
Os "licenciados" em guerra burocrática, dado que eram veteranos nestas andanças, serviam-se de uma rede informadora, que funcionava vinte e quatro horas, incluindo a hora a que os galináceos eram ingeridos, chegando mesmo a saber, quem e quantos participavam no banquete, os restos, que seriam provavelmente para os cães, fossem enterrados ou comidos. Restos que nunca apareceram, mas as galinhas desapareceram.


Sentinelas no Lunho
Os homens de sentinela, ou eram comprados, ou entravam na "dança", chegando mesmo a mudar de posto, para poderem coordenar melhor os movimentos dos "pilhas galinhas":


Texto de:
Bernardino Peixoto
Soldado da CCAÇ.4141







segunda-feira, 7 de outubro de 2019

MEMÓRIAS DA MINHA VIAGEM PARA A GUERRA COLONIAL 1972 a 1974





No dia 12 de Novembro de 1972, embarquei para a região militar de Moçambique, num avião dos transportes aéreos militar até à cidade da Beira. Onde desembarquei, à minha espera estavam viaturas do nosso exército, para me transportar para a Unidade militar da cidade, onde estive à espera de embarque para outro destino. No dia 15 de Novembro, embarquei com o 1.º escalão, num avião fretado, com destino a Nóva Freixo. No mesmo dia fui transportado, para a estação dos caminhos-de-ferro, onde embarquei num comboio velho, puxado a carvão, que se encontrava lotado, por homens, mulheres, e crianças Africanas, de raça negra. Fiquei estalado na carruagem da frente, junto à locomotiva, onde seguia o arrebenta minas. Segui um dia de comboio, para percorrer os sete centos e tal quilómetros de via-férrea, com os soldados que iam junto ao rebenta minas, a fazer a protecção, iam constantemente aos tiros de G.3 todo o trajecto, eu era chéca vivi momentos de muita ansiedade, e medo, vi várias carruagens tombadas nas ravinas, junto da via-férrea até Vila Cabral, capital da Província do Niassa, conhecida na gíria da tropa, (ESTADO DE MINAS GERAIS). Daqui eu ainda percorri cerca de 12 horas, os 60 quilómetros que faltavam até Meponda, junto do lago do Niassa, estrada em que foram “picados,” todos os palmos de terra, que os rodados das bérlietes, haveriam de percorrer. A coluna chegou ao seu destino, desembarquei e me dirigi para a linda praia, onde vi a água do Lago do Niassa, muito limpa sentei-me, descalcei as minhas botas, para refrescar os meus pés, que estavam tão cansados, de imensas horas de viagem. A refulgência do astro rei, deixara de brilhar, sobre a linda praia, para dar lugar à escuridão da noite, vislumbrei um guarda-sol, construído em palha, onde jantei, a dita (ração de combate), o alimento que me acompanhou nesta longa viagem. Depois deitei-me sobre o areal da praia, debaixo do guarda-sol, onde adormeci com o som das ondas do lindo Lago do Niássa. 19 De Novembro de 1972, quando o sol, se declinava suavemente, como uma bola de fogo, sobre as cálidas águas do Lago do Niássa, vislumbrei junto do areal, uma lancha da marinha, para transportar mais uma companhia de militares, que iam povoar as densas e perigosas matas do Lunho. O veículo que me ia transportar, seguiu a sua marcha, abandonou aquele local, dando lugar não menos belo crepúsculo, que encontrei com lividez, a lancha baloiçava suavemente, sobre o atapetado manto, formado pelas águas do Niassa. Vi o rosto dos meus camaradas, debruçados sobre o tombadilho do veiculo, observando atónitos, a algazarra que recrudescia, à medida que se aproximava de uma outra praia, a quem lhe chamavam Metangula. O ar trépido estampado, no meu olhar, quando desembarquei para terra, vi os soldados já velhinhos, que ali se encontravam, com o seu camuflado, todo gasto e roto, transportando nas mãos, latas e garrafas de cerveja. Saltando de alegria, ao verem mais uma companhia de tropas, com o seu camuflado reluzente, acabados de chegar da Metrópole. Aqueles velhinhos, nos deram vários conselhos, e nos avisaram que o Lunho ficava a Noroeste do Niássa, era um sítio muito duro de roer. Contudo no meu íntimo uma perene esperança, confidenciou-me que o meu regresso seria uma incerteza. Aproximou-se a hora de abandonar aquele local, fui encaminhado para uma das viaturas, que formava já na picada. Uma coluna auto as viaturas, começaram abandonar aquele local, segui o seu destino por uma picada muito perigosa, que cheirava a trotil e a morte, onde vi soldados apeados, na frente das viaturas, com uns paus onde tinham, uns pequenos ferros afiados na ponta, fazendo a picagem, para detectar algum engenho explosivo. Passei por um aldeamento, a quem lhe chamavam de Nova Coimbra, vi várias palhotas ,onde viviam homens, mulheres, e crianças de raça negra. Vi um aquartelamento das nossas tropas, que à nossa passagem gritaram bem alto! chéka é pior que turra! vai para o mato vai para o inferno do Lunho. A coluna lá seguiu em marcha lenta, e já se notava a refulgência do astro rei, a deixar de brilhar sobre a picada, foi então quando vi um aglomerado bairro de latas, em chapas de zinco, e outras em artesanal, em blocos de cimento, e tijolos, cercado por matagal. A coluna chegou ao destino, desembarquei segui para o interior do aquartelamento, onde encontrei no seu interior, e exterior, repleto de militares, emprestava há aquele ambiente, um misto e policromia, quadro irradiado das fardas camufladas, onde o brilho da minha farda ainda reluzente envergada, no meu corpo, sobressaía das do “Kokuánas” (velhos) já desbotadas com muitos meses de uso. Tinha acabado de chegar, era chéka de todo, era a palavra que em Moçambique designava por maçarico, o novato, o recém-chegado. Estava no período de adaptação à guerra propriamente dita, até ali não passava de teoria, depois as coisas foi mesmo a sério, muito diferente de tudo o que eu tinha aprendido, durante meses de prática, no pacífico rectângulo Europeu. Agora era mesmo a minha vida que se encontrava em jogo. Os conselhos dos velhinhos, eram escutados atentamente, cada um procuravam tirar, destes conselhos o maior partido possível. “Velhinhos” eram os militares que nós chékas, íamos render às respectivas missões, e que já tinham muitos meses de guerra, e por isso muita experiência. Ouvi-los era um ato de muita inteligência, e pelo menos me poderia trazer alguma vantagem. Os heróis do arame farpado, limitavam-se a fazer as tarefas, que o Comandante da Companhia designava. 


O corneteiro, Bernardino Peixoto, à direita, no seu posto de sentinela
Eu Bernardino Peixoto tinha a especialidade de corneteiro, fui colocado, num grupo de combate fiz guarda à ponte do Lunho, fiz picagens para detectar minas e armadilhas, fiz protecção à pista de aviação, patrulhamentos, capinagens, e parti para o mato à procura do inimigo, para não se aproximarem, do bairro de latas. Ouvi as granadas do morteiro 82, a estoirar perto de mim. Mas a tropa era assim mesmo, manda quem pode, e obedece quem deve. A companhia de caçadores 41 41 os gaviões, foi colocada no pior buraco mais famoso do Niassa, havia elementos, que com a sua inteligência, passando a graxa ao chefe para se desenfiar da guerra, passando, uma verdadeira instância turística. A minha indignação, ia para além dos directamente visados nesta artimanha. O Lunho era um foco de civilização, onde se conseguia evitar a morte. No Lunho encontrei um conterrâneo, que era de São Paio Ermesinde, de nome “Carlos Outeiro” da Companhia de caçadores 33 92, companhia que eu fui render, que à minha chegada me abraçou, me conduziu à sua caserna, e me ofereceu a sua cama, e uma caixa em madeira, para eu colocar os meus haveres. Fiquei triste quando o meu conterrâneo, teve de abandonar aquele local, e seguir outro destino com os seus camaradas. Passados 45 anos, nos encontramos dia 08 de Abril de 2017, no Maia Shopping. Demos um grande abraço e conversámos relembrando todos estes momentos

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

"CHEKA"


           

A chegada de um cheka caloiro na arte espartana era deveras interessante e divertida para aqueles que não estavam habituados a grandes obras de divertimento.Apareceu numa terciária, todo enfiado amarelo branco pálido, bem uniformizado de galões ou  divisas a brilhar, A cara, deixou transparecer o  seu cogito, a sua alma. Na alma, que transparecia no rosto lia-se adeus vida, adeus namorada, adeus civilização, estava no Lunho, estava no buraco, estava simplesmente tramado.


Não era preciso ser-se psicológico, bastava-me  fazer um exame introspectivo com efeito retroactivo e avaliar o que comigo se passou, Diziam os velhinhos, que cheka era pior que turra, não chegarei a tanto, porque o cheka era mais benevolente que o turra, embora fosse mais ignorante. Os velhinhos, começaram a fazer a sua psico. Chegaram a incutir na massa cinzenta do recém chegado, que poças com origem nas intemperes, passagem de viaturas, natureza do terreno eram resultado de explosões de material inimigo. Enfim uma gama de coisas sem nexo.
Mas, o cheka começou a ficar velhinho (KOKUANA) . Um dia era um voluntário escalado para tomar parte em mais uma rotineira passeata por Mepotxe. Comandou um grupo com todas as precauções teóricas que os seus instrutores lhe incutiram na memória. Os soldados dado que já eram veteranos na mata começaram a rir-se e a ver com ar ridículo as atitudes do cheka. Contudo, o cheka foi mesmo ao objectivo dado que  é caloiro. Necessitando de meter "gasolina" no aparelho digestivo, mandou montar um pequeno alto para o efeito. O Zé turra gostava muito de seguir as nossas tropas e nesse dia foi o que sucedeu. Entre os nossos houve um que vê aparecer no meio do capim aquelas cabeças com cabelo encarapinhado. Avisa o seu comandante de secção que era das operações difíceis. Fez a pontaria e esperou a aproximação do alvo e prime o gatilho na hora exacta. Foi mais um dos elementos subversivos que tombou. Era ainda manhã o sol ainda não se tinha afastado do horizonte. O moribundo trazia na mão além da arma que não chegou a utilizar uma cana de açúcar com a qual tomava o seu pequeno almoço. O cadáver caiu por terra e a sua mão abriu e a cana ficou entre os dedos do moribundo. O caçador especial que atingiu o rebelde foi procurar a arma, viu a cana, viu o sangue, viu um homem sem vida, viu os buracos dos projecteis da sua arma. Voltou para junto dos seus camaradas de campanha a transpirar mas sentindo bastante frio que lhe causou arrepios.


Sentiu glória, sentiu frustração, sentiu remorsos, sentiu-se mal, sentiu uma mistura de reacções que acabou por ficar emocionado. A operação tinha terminado, voltamos ao aquartelamento e na hora da chegada, parecia mais um grande hotel que um bairro de latas. O homem das operações difíceis levou o seu troféu do campo de batalha. Os que ficaram no aquartelamento rodearam o homem que matou para não morrer. Pediram explicações ele falou mas, notou-se que estava emocionado. Sentou-se à mesa, não comia, pensava, meditava e pronunciava palavras como: O seu pequeno almoço era uma reles cana de açúcar e os seus sapatos eram tão velhos como ele, a suafugir, tudo isto  arma não funcionou, logo fui eu que o fiz tombar. Sim, é difícil descrever o que um inofensivo sente depois de matar um homem. Acto esse que nunca tinha praticado. Tudo isto podia ter sido evitado se o guerrilheiro não tenta-se fugir, tudo isto seria evitado se ele o moribundo não tivesse abraçado conscientemente ou inconscientemente a vida da rebeldia. Nunca a perceber porque razão havia gente que viveu na mata, gente que viveu primitivamente, gente que estava em pé de guerra e só porque não queriam viver em paz à sombra da bandeira verde e vermelha.

Texto de:
Bernardino Peixoto
CCAÇ 4141

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

A CCAÇ 1558 EM NOVA VISEU

A CCAÇ 1558 em NOVA VISEU

                            Relatório de acção

Referência: Directivas HC e HC 18 do COM.SEC. A
1- Acção -    Intervenção no Sector A em cumprimento das directivas em referência.-8 
Este frontispício do processo encontra-se assinado pelo Cmdt. de Sector,Brigadeiro Abel Barroso Hipólito.
Neste documento o Chefe da Repartição escreveu:
No período da acção da CCAÇ 1558, entre Junho e Julho de 1968 na região de Nova Viseu, foram destruídos 25 acampamentos com 320 palhotas, onde foram capturados 9 homens, 30 mulheres 3 37 crianças.
Foram apreendidas 5 armas e 5 granadas.
2- Descrição da acção : Deslocação para Nova Viseu
A 11 de Maio de 1968, a CCAÇ 1558 a 3 GC. saiu do Alto Molócué às 06h00, com destino a Iapala, de onde sairiam em comboio para o Catur, donde partiria em coluna auto para Vila Cabral.
Em representação do Comandante do Batalhão deslocou-se a Iapala o Oficial INF/OP, o qual assistiu à partida da CCAÇ 1558 e teve a oportunidade de observar a boa disposição e espírito de disciplina e de missão que todo o pessoal da companhia partiu para aa Intervenção, embora já tivesse terminado os dois anos de Comissão.
A CCAÇ 1558 partiu de Vila Cabral pelas 15 Horas do dia 25 de Maio de 1968 em 10 Berliets da Companhia de Transportes nº 1577.Por volta das 16 horas foi necessário fazer um alto para socorrer o Soldado Baltazar da Costa Esteves,que ficara ligeiramente ferido nas mãos e no queixo em consequência do rebentamento dum detonador.Foram consumidos três pensos individuais no seu tratamento e um GCOMB,em três viaturas,regressou a Vila Cabral levando o ferido,enquanto o restante pessoal continuava a viagem,chegando a MUEMBE pelas 18horas.O GCOMB acabou por chegar a essa localidade pelas 20h30 e aí se pernoitou.Choveu toda a noite e, no dia seguinte,pelas 06h00,quando se iniciou a viagem ainda chovia,mas com mais ou menos dificuldade conseguiu-se chegar a CHICONONO,pelas 10h00.

Vista geral de CHICONONO
A 10 Kms além de Chiconono avaria-se uma Berliet que é preciso deixar ficar e já que a estrada estava impraticável devido à chuva que continuava a cair e já que os arros tinham grandes dificuldades em vencer as inúmeras rampas do trajecto,resolvi regressar a Chiconono e aguardar que a chuva parasse e o terreno secasse.Pelo que eu sabia da picada de NOVA VISEU,seria asneira continuar.
Na verdade,como se tratava de uma chuvada extemporânea,deixou de chover durante a noite e no dia seguinte fez sol.No dia 28 pelas 06.00H reiniciei o percurso,com o terreno mais seco,e chegou-se à ultima ponte antes da picada,onde a nona viatura ia caindo,devido a ter-se partido uma das longarinas da ponte.Ao cabo de 2 horas conseguiu-se tirar a viatura não sem primeiro se ter partido o guincho da berliet MG 16-13,enquanto puxava a primeira.Pelos ruídos consegui saber que a coluna para Valadim estava empanada na primeira ponte a seguir à picada de decidi prestar-lhes auxílio. Chegado ao local verifiquei que só por milagre a berliet não tinha caído da ponte.
Pelas 14H conseguiu-se recolocar a viatura sobre a pontem mas durante esta operação partiu-se o gancho da berliet MG 12-67, a mesma viatura que ao patir-se a ponte anterior, entortara a tampa da jante que tapa as polies.
 A coluna de Valadim seguiu o seu caminho e partimos para Nova Viseu. A picada está semeada de troncos de árvores e num deles ressaltou a berliet MG 23-73, batendo num ramo com o pára-brisas resultando ficarem os vidros partidos.
O resto da viagem fez-se sem incidentes tendo chegado ao destino pelas 19H. De 29 a 31 de Maio procedeu-se à instalação de pessoal e aos preparativos para a primeira operação.
Em NovaViseu a Companhia fica instalada em tendas de campanha ,apesar de dentro do aquartelamento da CART 2374.Durante o período de permanência nessa região efectua contínuas Operações  durante as quais capturou 5 armas,munições e recuperou muita população causando várias baixas ao inimigo e destruindo ainda muitos acampamentos, machambas e utensílios vários.


Carvalho junto algumas das armas capturadas em Nova Viseu.
Operações da CCAÇ 1558 em 
Nova Viseu
Junho de 1968       Julho de 1968
01 a 02 Op. "CHACAL"             01 a 02 Op. "JASMIN"
03 a 04 Op. "CANÁRIO"           03 a 04 Op."Orquídea"
05 a 07 Op. "TÁGIDES"            05 a 07 Op. "Tulipa Negra"
08 a 11 Op. Musa Ardente        08 a 10 OP. "5 Terroristas"
12 a 15 Op. "LUA CHEIA"        11 a 14 Op. "PRIMAVERA"
16 a 17 Op. "MARIPOSA"        15 a 17 Op. "Sol Poente"
17 a 18 Op. "CUPIDO"             18 a 20 Op. " Fúria"

                                                  19 a 20 Op. "ASCENSÃO"


Finalmente,de salientar a maneira disciplinada,dinâmica e eficiente como todo o pessoal da CCAÇ 1558,cumpriu a missão que lhe foi atribuída,apesar de a ter iniciado já com 25 meses de Comissão,12 dos quais passados no inferno de Nova Coimbra,revelando em alto grau um espírito de sacrifício de corpo e de Missão dignos de louvor,designadamente o recebido pelos Cmdt.do Batalhão,como pelo Comt.do SECTOR "A" e até pelo General Cmdt.da Região Militar de Moçambique.
                                                                 
                
O Comandante da CCAÇ 1558
Daniel Pereira Delgado
Cap. Milº de Infantaria      

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

"MATA-BICHO" DA CCAÇ 1558 EM NOVA VISEU DE MAIO A JULHO DE 1968.

Quando a 14 de Fevereiro de 1968, o meu G.C., comandado pelo Alferes Monteiro saiu de Nova Coimbra integrado no 1º escalão do BCAÇ 1891 a caminho do Alto Molócué (Zambézia) onde chegámos a 18 do mesmo mês, pensávamos que estávamos livres do pesadelo da guerra em Nova Coimbra, Lunho e Miandica.
Recordo que no dia seguinte à nossa chegada assistimos, no Club local, aos festejos do Carnaval.

19 de Fevereiro de 1968. 3ª Feira de Carnaval no Club do Alto Molócué
Como foi inevitável eu e o Alferes Monteiro fomos ao ao Ile-Errêgo  visitar os nossos bons amigos locais, sendo primeiramente recebidos pelo Zé Rodrigues e depois pelo Marques o então chefe dos Correios naquela localidade. Pelo Marques e por sua esposa foi-nos oferecido um opípero jantar,
Nessa noite pernoitei na casa da família do sr. Pereira e o Alf. Monteiro pernoitou onde mais gostava, numa palhota....
Já com a 1558 instalada no Alto Molócué, a pedido do alferes Pontes voltei às origens, integrando o seu GC. (Eu e o Alferes Pontes, desde os tempos da Metrópole não nos entendíamos e o Capitão Delgado achou por bem bem, logo após a nossa chegada a Moçambique, transferir-me para o pelotão do alferes Monteiro).
Recordo, como poderei esquecer o fatídico dia de 24 de março de 1968 onde, num desastre de viação perderam a vida o Higino Cunha e o Zé Martins.
Já integrado no pelotão do Alferes Pontes, nos primeiros dias de Abril fomos destacados para o Gurué onde estivava CCS do Batalhão. Aqui, a nossa missão era passar uma semana em Lioma, onde se trabalhou bastante e outra semana no Gurué. E assim sucessivamente....
No Gurué, como é do conhecimento como é do conhecimento de quem por lá passou, era diversão: A piscina, o Clube local, visitas às fábricas de chá, jantaradas de marisco no restaurante do Aeroporto e muita actividade nas inúmeras "boites" existentes nos arredores da vila, feitas de capim e colmo.... Aqui um Furriel do pelotão teve um percalço, porquanto não se cuidou....
Depois do "Céu" adveio o "Inferno" e a 8 de Maio de 1968, quando já tínhamos terminado a Comissão, recebemos ordem para regressar ao Molócué.

Ao chegar a esta localidade deparei com a companhia revoltada e altamente desmoralizada, mas como sempre foi uma Unidade disciplinada e trabalhadora, acatou sem problemas a autoridade do Capitão Delgado.
Acontecera que fora determinado que 3 Grupos voltavam para o Niassa para a intervenção. Foi decidido que o GC que ficava no Molócué era o do Alf. Monteiro. Não concordei e fiquei deveras irado. Fiz saber junto do Capitão as minhas razões pelas quais pensava, e ainda penso, que não era justa a minha ida para a intervenção. O meu argumento era que tinha feito grande parte da comissão (a totalidade em Nova Coimbra e Miandica) integrado no pelotão daquele oficial, do qual saí já no Alto Molócué e a convite do Alf. Pontes. De notar que no pelotão do Alf. Monteiro tinham ingressado dois "Chekas".
Apesar dos meus veementes argumentos e desmoralização e o facto dos chekas somente terem chegado à companhia em Janeiro de 1968, o Capitão foi irredutível na sua decisão argumentando que precisava a seu lado de Furrieis experientes.
Assim, a 11 de Maio os três Grupos de Combate, comandados pelo Capitão Delgado, saíram do alto Molócué com destino a Iapala onde, de comboio seguimos até ao Catur e depois, em coluna auto, rumámos a Vila Cabral..
Estação ferroviária de IAPALA. Quem a viu e quem a vê.
Toda a viagem foi muito atribulada, uma vez que as tropas estacionadas no percurso, nomeadamente Nova Freixo, Catur e Messangulo, onde se situava o "célebre caracol", não entendiam a razão de nós, após três meses de termos saído do Niassa e já com a comissão terminada, termos voltado para Vila Cabral para actuar na intervenção. Corria o boato, o maldito boato que fere como uma lâmina, que o Higino Cunha tinha sido assassinado e por isso a companhia fora castigada. Esta atoarda doía-nos bastante e não a conseguíamos vencer porque poucos ou nenhuns acreditavam na nossa versão, a verdadeira. O Furriel Cunha morrera de desastre de viação, como atrás referi.
Os três G.C. ficaram instalados durante alguns dias em Vila Cabral, onde o tal Furriel, "que não se cuidou" no Gurué, se encontrava em desespero total, uma vez que a medicamentação não sortia o efeito desejado, piorando de dia para dia. Valeu-lhe uma injecção de Penadur 600 que o fez arrastar uma perna durante dias, para gáudio dos seus companheiros.
Entretanto, encontravam-se em Vila Cabral algumas companhias de Chekas, que já tinham ouvido falar do tal boato do Cunha.
Na Messe de Sargentos os Furriéis dessas companhias olhavam-nos com espanto e de soslaio.
Na verdade, o aspecto que apresentávamos e os diálogos que mantínhamos não eram os melhores. Gozávamos com a sua inexperiência e perplexidade.
Como Kokuanas (Velhos) sentíamos-nos no direito de fazer as refeições na 1ª mesa. Eles os chekas (Novos) raramente respeitavam o nosso direito. Fomos avisando: vocês querem "maningue milando" (muita zanga) e vão tê-lo. E tiveram mesmo. Num belo dia quando entrámos na messe a mesa já estava ocupada. Num impulso virámos esta de perna para o ar com toda a refeição a ser derramada sobre as pernas dos chekas. Acabou em definitivo o "milando" mas, não nos livrámos de uma forte reprimenda do nosso capitão.
Os chekas abandonaram Vila Cabral onde nós ainda permanecemos alguns dias fazendo patrulhas com os nossos amigos da 4ª Companhia de comandos.
Entretanto, rumámos até Nova Viseu onde fomos confrontados  com uma realidade a que não estávamos habituados. Ao chegar ouvimos com estupefacção, o Capitão Marques da Silva, comandante da Companhia residente a  CART 2374 aos berros a ordenar: fechem tudo não há nada para esses gaijos. Ficámos perplexos com tal recepção. E de facto nada tivemos até ao dia da nossa saída em 27 de Julho de 1968. Dormíamos no chão em tendas cónicas. Só podíamos comer na messe depois dos oficiais e sargentos da companhia residente terminassem as suas refeições e estes não nos emprestavam os pratos e talheres e por isso utilizávamos as marmitas dos nossos soldados depois de estes terem comido. 
Oficiais e Sargentoa da CART. 2374, na sua Messe. 
O dinheiro tinha-se esgotado em Vila Cabral e há muito que não recebíamos o soldo e o correio, por isso não podíamos frequentar a cantina para beber seja o que for. Foram algumas semanas de total abandono e desespero e por isso a moral desmoronava-se em grande velocidade. face a este quadro o capitão resolveu alugar às nossas expensas um Táxi-Aéreo e ir a Vila Cabral resolver definitivamente o problema do dinheiro e do correio.
Nova Viseu, o poço onde lavávamos a nossa pouca roupa.
Para elevar o moral do pessoal, o capitão Delgado juntava à noite, o pessoal na parada para várias cantorias, entre elas o famoso "HINO DO LUNHO" onde o ESTOU FARTO DELES saia do fundo dos nossos peitos, com total estupefacção dos Chekas. Mas o mais paradoxal era nas noites quentes do Niassa quando entoávamos o TOMBE LA NEIJE de Adamo.
A nossa actividade em Nova Viseu está bem expressa na crónica intitulada A CCAÇ 1558 EM NOVA VISEU, publicada na crónica anterior a esta. Entre elas destaco uma em que consistia em acompanhar um oficial de Engenharia que ia estudar um determinado ponto do rio (?) para a construção de uma ponte a qual, presumo eu, iria encurtar a distância entre Vila Cabral e Tenente Valadim. A passagem para a outra margem era difícil e perigosa. O rio tinha pouca água, mas era muito rápidoe o seu leito estava repleto de pedregulhos.
Havia hesitações e receios na passagem para a outra margem, pois é bom recordar que já tínhamos 27 meses de comissão. Depois de muito silêncio compreensivo, eu num assomo de "parvoíce", ofereci-me como voluntário para atravessar o rio e criei assim condições objectivas para que o trabalho de engenharia fosse efectuado.


O Carvalho com o armamento apreendido em Nova Viseu.
Depois de uma barragem de fogo para a outra margem, colocaram-me uma corda à cintura de modo a que se eu escorregasse num pedregulho não seria arrastado pela corrente. Depois de chegar à outra margem amarrei a corda a uma árvore e o pessoal fez a travessia do rio em segurança.
Depois do "paraíso" do Ile-Errêgo e dos "infernos" de Nova Coimbra e Miandica, resistimos, apesar de mal alojados e alimentados e psicologicamente bastante frágeis, ao pesadelo de Nova Viseu sem quais quer baixas e com vário armamento apreendido e muita população recuperada, com destaque para o meu G.C. 
A 27 de Julho de 1968, saímos de Nova Viseu em coluna auto, e para nossa surpresa embarcámos no comboio bem perto de Vila Cabral (talvez fosse em Nova Madeira) com destino a Iapala.
Chegámos a 29 de Julho exaustos, sujos, esfomeados. Sentei-me com a G3 sobre mim nas escadarias do Clube local. A descer as escadas um jovem que me olhou com desprezo. Fiquei de tal forma indignado que por muito pouco não lhe dei um tiro. Melhor para mim. Mas, não esqueço.
Nesse dia chegámos ao Alto Molócué, cansados, tanto física como psicologicamente, mas ao sabermos que a 11 de Agosto embarcávamos de regresso a Portugal, rapidamente superámos as nossas maleitas.

Ainda houve tempo para o alferes Pontes oferecer um jantar de despedida ao G.C. com o dinheiro que foi ganho com a captura das armas apreendidas.
O pouco tempo que nos restava só deu para embalarmos os nossos haveres e partir para Nacala onde nos esperava o Vera Cruz que nos trouxe de regresso a Lisboa onde chegámos a 4 de Setembro de 1968.


































Páginas

Páginas

Armamento e comunicações