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Livros da guerra colonial

Miandica terra do outro mundo


segunda-feira, 22 de julho de 2024

BIOGRAFIA E ENTREVISTA A VALERIANO BAÚLQUE . FURRIEL MILICIANO DA 6ª COMPANHIA DE COMANDOS DE MOÇAMBIQUE

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Texto retirado do livro de Dalila Cabrita Mateus:Memórias do Colonialismo e da GuerraEntrevista a: Valeriano BaúlqueFurriel Miliciano da 6ª Companhia de Comandos de Moçambique.BIOGRAFIA:Nasceu em ZAVALA, em 1950. Em 1971, completou o curso geral do Comércio, em Lourenço Marques.
Ao completar 21 anos, foi seleccionado para um curso de Comandos, vindo a integrar, como furriel, de Agosto de 1972 a Agosto de 1974, a 6ª Companhia de Comandos de Moçambique.
Esteve no grupo de Comandos que, ao lado da PIDE/DGS, participou na carnificina de WIRIYAMU.
Nos levantamento dos colonos  em 7 de Setembro de 1975, teve um papel destacado na defesa da cidade e da população negra.
Após a independência, participou na reunião da direcção da FRELIMO com os chamados "COMPREMETIDOS"
De 1984 a 1986, a pedido de Samora Machel, integrou o grupo de Comandos que dirigiu a reorganização do Exército Moçambicano, na cidade de Maputo.

Oficiais da 6ª CCMDS Moçambique. À Dirª, o Alferes Antonino Melo
ENTREVISTA: P- Não há problema nenhum, se não me quiser dar o seu nome. De qualquer modo, o senhor já foi filmado, já houve uma informação para a televisão. Foi filmado pelo Antonino Melo, não foi?
R- Sim, em 1984
P- Mas se não quiser dar o nome, digo apenas que foi antigo comando.
R- Sim, fui comando. Pertenci à 6º Companhia de Comandos de Moçambique. Não vejo inconveniente em dizer o nome, porque aquilo que vou dizer é aquilo que sei e vi.
Chamo-me Valeriano Baúlque e pertenci à 6ª Companhia de Comandos
P- Nasceu em...
R- Nasci em Moçambique, na província de Inhambane. Sou natural de Zavala e nasci em 18 de Janeiro de 1950
 P- Onde estudou? 
 R- Estudei aqui em Lourenço Marques, onde fiz o Curso Geral do Comércio. Acabei o curso em 1971
P- Tinha, então 21 anos. Estava, pois, na altura de ir para a tropa?
R- Exactamente
 P- É aí que vai para o sector especial?
R- Chegada a altura de cumprir o serviço militar obrigatório, incorporei-me em Boane no ano de 1971. Como apresentei a documentação escolar um pouco atrasada, transitei para 1972. Fui seleccionado para o 6º curso de Comandos e quem me seleccionou foi o Major Glória Belchior. Fui para o curso e fiquei apto. Eu e os outros formámos a 6ªCCMDS de Moçambique, desde 9 de Agosto de 1972 a 9 de Agosto de 1974. Altura em que terminámos a nossa missão como militares.
P- Como estavam organizados os Comandos da 6ª Companhia?
R- A Companhia estava organizada em seis grupos e cada grupo era constituído por vinte e cinco homens. Os vinte e cinco homens formavam cinco equipas, cada uma das quais com cinco homens. Cada equipa era liderada por um Furriel coadjuvado por um cabo, sendo o comandante de cada de cada grupo um Alferes. Tínhamos, portanto, seis Alferes, que eram comandantes de seis grupos e um comandante de Companhia, quer dizer, os seis grupos formavam uma Companhia, quer dizer, os seis grupos formaram a Companhia que foi comandada pelo Capitão Gonçalo Fevereiro.

Gonçalo Fevereiro a ser condecorado na época da sua comissão na 4ª CCMDS de Lamego. Esta Companhia esteve no Niassa de Dezembro de 1966 a Novembro de 1968

P- Qual era o seu posto ?
R- Fui Furriel Miliciano.
P- Então, o seu recrutamento foi precisamente como se fosse para a tropa. E os outros foram todos recrutados assim?
R-  Os critérios de recrutamento eram os mesmos. Todos éramos recrutados para a tropa normal. E durante a fase de treinamento, a fase de formação dos instruendos, havia a selecção para a tropa especial. Nós fomos seleccionados para essa tropa especial, não é? E outros foram seleccionados para outros grupos especiais, tais como GEP(Grupos Especiais Para quedistas)e os GE (Grupos Especiais), para além da tropa normal que também tinha a especialidade de Infantaria. Havia outras especialidades como motoristas, engenharia e outras. Mas nós fomos para os Comandos.
 P- Era um treino difícil?
R- Difícil e perigoso, disso não restam dúvidas.
 P- Era muito violento?
R-  Era sim senhor, muito violento. mas isso tinha a sua razão de ser, porque o rigor e também as exigências que nos eram impostas, era para sermos preparados para fazer face à nossa missão.
P- Quer dizer, homens preparados para tudo!

R- Exactamente. Quem entrasse para o curso de Comandos, no início tinha receio de não ser capaz de chegar ao fim. Mas, a meio do curso, já ganhava outra mentalidade. Mas isto, dado a quê? A uma espécie de campanha psicológica que o próprio curso tinha e que se incutia nos instruendos, para que assumissem o curso e tivessem a imagem de que é o inimigo. Definia-se o inimigo, e este devia ser enfrentado mais ou menos nessa base. Acabávamos, assim, por pertencer àquela especialidade.
P- Pode dar o exemplo de um treino que tenha sido complicado, difícil. Para poder ficar a saber se passavam fome ou sede. Diga-me, mais ou menos como era.

Um Grupo de Instruendos do Curso Comandos, após a prova de sede

R-  Dos treinos que tivemos, a prova mais difícil que enfrentámos foi a prova de sede. São seis dias em que os instruendos tem que aguentar as vinte e quatro horas com um cantil  de água. Um cantil de água é um litro só e aquele litro era água para a higiene pessoal e para aguentar os dias em treinos intensivos. Fazia muito sede, porque éramos largados num campo onde nos dias anteriores tinha sido queimado o capim, ficando só a cinza, e nós tinha-mos de acampar nesse local, montando aí as nossas barracas, que faziam um envolvimento ao campo de treino. E davam-nos um litro de água por dia, isto durante seis dias. Era o treino mais difícil que tínhamos
 P- Falando de treinos, referiu o campo de treino. Onde é que ficava concretamente o campo de treinos?
R- Ficava no meio do mato. O curso de Comandos era ministrado no Norte, na Província de Cabo Delgado, todos os treinos se efectuavam lá. Este treino era dado a cerca de cinquenta kms acima do quartel.
P- Sei que os Flechas eram recrutados pelo Daniel Roxo. Ouviu falar dele? Conhece alguma coisa?
R-  Ouvi falar dele, sim senhor. 
Nota do BLOG: Em Moçambique nunca houve Flechas. Os homens comandados por Daniel Roxo era dado o nome de Mílicias
 P-  Sabe que um antigo preso político viu o Daniel Roxo ir aqui à Cadeia da Machava levar homens à força. Sabe se, habitualmente, as populações ou os presos das cadeias eram obrigados a ir com ele?
R- Não. Confesso que a missão do senhor Roxo, não a cheguei a conhecer, embora tenha ouvido falar dos Flechas. Mas como eram recrutados, confesso que não sei.
P - Esteve por acaso em WIRIYAMU ou ouviu falar de Wiriyamu? 
R - Ah! Sim. Feliz ou infelizmente, fui participante. O meu grupo participou na carnificina de Wiriyamu, na província de Tete, em Dezembro de 72 ou 73.

Luís Wiriyamu, um dos sobreviventes do massacre, Em 16-12-1972, tinha 25 anos


P - Foi-vos dada uma missão e vocês sabiam à partida o que iam fazer? Ou só quando chegaram ao local é que se aperceberam do que tinham que fazer?

R - A instrução dada foi a de assumirmos uma operação que tinha como objectivo dar cabo duna zona. Não nos disseram que era um aldeamento, não nos disseram que havia lá pessoas a viver. Era uma zona suspeita, a partir da qual o inimigo actuava. Quando lá chegámos apercebemos-nos de que era um aldeamento já formado. Sabe o que é um aldeamento?   
P - Sei sim.
R - Quando lá chegámos apercebemos-nos que já era um aldeamento formado. Mas a nossa operação foi dirigida directamente pelos elementos da PIDE/DGS. Fomos largados de helicópteros. Éramos dois grupos da Companhia. O meu grupo e o outro fomos largados de helicóptero. Mas no dia anterior já tinha sido largado um grupo para fazer o envolvimento à zona. Fomos largados com os membros da PIDE/DGS, que andavam mais ou menos pelos 20 homens
P - Lembra-se de o nome de algum?
R - O Chico
P - O Chico feio?! Incrível, esse era o carrasco aqui da Vila Algarve e da Machava
R - Havia lá um outro Chico, que liderava o grupo, mas não me recordo do nome de nenhum deles. Fomos largados, juntámos as populações e quem fazia as investigações e as perguntas às populações eram os pides
NOTA DA AUTORA: Trata-se CHICO KACHAVI, agente negro da PIDE/DGS, conhecido pela sua muita força, e muito temido pelas torturas de que se encarregava na prisão de Tete 
P - Então vocês estavam ali a proteger os pides?
R - Sim, praticamente isso, porque quem tinha o papel, quem tinha as orientações fundamentais, era esse grupo da PIDE/DGS. Concentraram as populações, fizeram perguntas e a dada altura... os pides também estavam armados.
P - Ah! Estavam armados!
R - Armados, sim. Chegou uma dada altura em que eles começaram a dar porrada a algumas pessoas da população e a lançarem granadas. Quando nos apercebemos daquela desordem, o nosso comandante teve de intervir.

Alferes Antonino Melo com uma criança ao colo


P -  O vosso  comandante era o era o Alferes Antonino Melo?
R - Sim. Antonino Melo chamou a atenção para o facto de aquela gente dever ser tratada doutra maneira, porque, no fim de contas, se aquele aldeamento não figurava no projecto de formação dos aldeamentos da ZOT, que era a zona operacional de Tete, porque recebíamos as instruções da ZOT, era melhor levar ao conhecimento do comandante da ZOT que ali existia um aldeamento com muita gente em vez de andarmos a fazer o que estávamos a fazer (está comovido)
NOTA DA AUTORA: esta versão é confirmada pelo Padre Adrien Hastings que afirma: Diz uma testemunha que um oficial militar tinga seguido via da clemência no sentido de conduzir aquela pobre gente para um possível aldeamento. Mas a voz sinistra do agente Chico fez-se ouvir ainda com mais furor: São ordens do nosso chefe: Matar a todos.
P - Quem era o comandante da ZOT?
Nota do Blog: O Comandante da ZOT, era o então Coronel Pára-quedista Armando Videira.
R - Esqueço-me o nome dele. Mas naquela confusão toda, ninguém deu ouvidos a ninguém. Começaram a atirar granadas contra as populações. Metiam as pessoas dentro das palhotas e atiravam granadas lá pare dentro.
P- Não percebo nada de armas. Como eram as granadas? Eram normais?
R - Sim, eram normais. Puchava-se uma cavilha e explodiam. E as explosões incendiavam uma palhota. A operação durou o tempo que durou e a verdade é que morreu muita gente.
P - Durou quanto tempo a operação?
R - A operação durou acima de duas horas, talvez três
P - Deve ter sido horrível?
R - Isso foi horrível. Foi horrível sim senhor, isso foi.
P - Não havia população a tentar fugir das palhotas?
R - Ah! Havia população que não era atingida , havia outras pessoas que eram mortas com espingardas. éramos portadores de G3. As populações fugiam, e nós que estávamos a envolver, a proteger o trabalho, quando a população aparecia ali, nada podíamos fazer, a uns até deixámos passar, porque víamos que era uma injustiça que estava a ser praticada.
Mas no fim, já no dia seguinte salvo erro, não dormimos ali. Tivemos de nos afastar do local onde se verificou o massacre. E fomos recolhidos por helicóptero.
Só que passado uma semana, salvo  erro, depois do resultado do trabalho que foi feito ter sido espalhado a nível de imprensa e chegado ao conhecimento de outras individualidades, os padres, que conheciam aquele aldeamento, fizeram questão de ir lá ver o que acontecera.
Foi quando voltámos a receber novas instruções, para voltarmos ao local e recolhermos e enterrarmos os cadáveres, para mostrar que nada tinha acontecido naquele local. Mas não foi fácil o trabalho de recolha dos cadáveres. Basta ver como, passado uma semana, fica um cadáver, como ficam os corpos. Fizemos o trabalho e voltámos (a voz é de uma tristeza indescritível)
Alferes Antonino Melo

P - Foi terrível para as pessoas que assistiram, porque vocês eram treinados para lutar contra um exército, neste caso os guerrilheiros. E não para matar a população civil.
R - Claro que não. A nossa especialidade era para fazer frente ao inimigo declarado, no caso concreto a FRELIMO, contra armas convencionais. Aquelas pessoas estavam indefesas, por isso não tivemos nenhuma acção, quando muito o trabalho que deveríamos ter feito era recolher aquela gente, criar condições para recolher aquela gente para um lugar mais seguro, era esse o trabalho que deveria ter sido feito. 
P - Pois. Mas, concerteza  que o comandante da ZOT, se calhr, sabia que aquela população daria guarida aos guerrilheiros ou os alimentava e, portanto, era necessário aniquilar a população, porque dava apoio aos guerrilheiros.?!
R - É possível, sim senhor.
P - Além desta carnificina, tomou conhecimento de mais alguma tenha sido cometida pela PIDE/DGS, ou pelo Exército Português?
R - Eh! Bom..!
P - Há pessoas que falam de JUWAU?!
R - Das carnificinas de que tenho memória, foi esta de Wiriyamu e outras que se comentavam cá fora. Dos Comandos, não.
P - Havia grupos de Comandos só de brancos?
R - De brancos e de negros, era uma mistura.
P - Como é que os negros eram tratados pelos brancos?
R - Ali tratávamos-nos por igual, não havia qualquer racismo.
Um Grupo de Comandos da 6ªCCMDS de Moçambique

P - E nas outras especialidades da Forças Armadas Portuguesas? Como é que, por exemplo, a Força Aérea olhava para vocês?
R - Essa é a duvida. As tropas especiais eram respeitadas e eram mesmo olhados como tropa de elite.
P - Eram mesmo olhados como tropa de elite, independentemente da cor da pele?
R - Ah! Isso sim, não havia qualquer diferença. Éramos todos tratados por igual. Isso era o resultado do curso de formação e era, também, um trabalho de bom relacionamento.
P - Durante o tempo que pertenceu aos Comandos, alguma vez se viu a utilização pelas tropas portuguesas de bombas de napalm, de gás laranja, de desfolhamento ou de outras bombas que fossem utilizadas contra a população civil?
R - Bombas de napalm foram utilizadas pela Força Aérea, recordo-me de algumas operações que fizemos terreno e a aviação, no ar. A aviação provocava as bases, e nós tínhamos de estar no terreno para acolher os provocados. Geralmente, quando  uma pessoa é provocada, tem tendência a fugir. Eram as tais operações conjuntas que fazíamos. A Infantaria com a Força Aérea, principalmente em Cabo Delgado.
Em Moçambique não tenho conhecimento de outro  tipo de bomba. Metralhadoras  da Força Aérea, sim. E bombas de napalm, sim.
A Força Aérea quando era incumbida duma missão, essa tinha que ser cumprida. E alguma bases foram mesmo atingidas. Existia a BASE BEIRA, a BASE GUNGUNHANHA e outras. Não era fácil a tropa penetrar lá.. Por mais que uma base fosse localizada, programar uma operação para a destruir não era tarefa fcil. Mas tudo se fez para tentar destruir o que houvesse
P - Só actuou lá em cima, Cabo Delgado
R - Andei por Cabo Delgado, por Tete e por Manica e Sofala.
P - Alguma vez foi ferido?
R - Felizmente, não.
P - Com certeza que o vosso grupo apanhou várias vezes guerrilheiros? Como é que o guerrilheiro era tratado?
R - Como guerrilheiro era mal tratado e não havia qualquer desculpa.
P - Mas não o matavam?
R - Dependia das circunstâncias em que era apanhado. Se fosse apanhado com uma arma, era morto. Da mesma maneira que nós os emboscávamos, também eles o faziam a nós.
Mas, felizmente a nossa companhia só teve um morto e três ou quatro feridos em 125 homens.
Havia uma diferença em relação às outras companhias em que as baixas foram mais de um quarto. Mas nós, não, até havia uma espécie de lenda segundo a qual as companhias pares sofriam menos que as ímpares. No caso concreto a 3ª e a 5ª CCMDS tiveram enormes baixas.
O Cap. Júlio Oliveira, CMDT do BCMDS de Moçambique,  a analisar o material de guerra capturado à FRELIMO pela 3ª CCMDS de Moçambique


P - Não sei a que tropas especiais pertenciam, mas não ouviu falar dos mandiocas;?
R - Bom, rastejar foi uma posição tomada na altura, se fosse necessário. Mas houve uma operação chamada Operação Mandioca.
P - O que foi a "Operação Mandioca"?
R - Operações que eram feitas  nas machambas dos guerrilheiros, que eram machambas de mandioca, daí o nome.
P - Alguém me contou que, no 7 de Setembro, o senhor estava aqui em Lourenço Marques e assistiu ao levantamento dos colonos, à forma como eles se organizaram. Segundo me contaram, o senhor teve nesse dia um papel importante em defesa da cidade e da população africana. Ma, ainda na véspera, estava ao lado das topas portuguesas. Nesse dia o que é que falou dentro de si? O sofrimento do seu irmão, o sentido de justiça?
R - Houve, de facto um levantamento em vésperas do 7 de Setembro , um levantamento de brancos que não acolheram a posição da independência, achando aquilo uma injustiça. Revoltaram-se, pois, contra a posição tomada pelo Governo da altura. Então o que é que fizeram?. Pois formaram grupos, que caçavam negros o sentido de vitória por terem ficado independentes. Esses colonos chegaram a tomar o Rádio Club. E nos bairros da periferia da cidade controlavam os movimentos dos negros.
P - Quer dizer, uma coisa era a guerra, outra...Começou a sentir-se mal?
R - Naturalmente que sim, porque, enquanto estivemos em guerra, eu queria era que acabasse a guerra. Ora encontrara-se o mecanismo para acabar com a guerra e, no entanto, havia pessoas que não acolhiam tal ideia, que não a acatavam, que não se conformavam. Iam começar outra guerra, para que estava farto de guerra, para que não tinha paciência nem coragem para pegar novamente em armas. antes pelo contrário. O trabalho devia ser mobilizar e explicar o que se passava às populações, que não estavam esclarecidas. esse foi o papel que tivemos ao nível dos nossos bairros.
P - Dos Comandos, sei que foi o senhor e um outro Comando que tiveram um papel importante na defesa da cidade e na protecção à população negra.
R - Bom, nos Comandos havia sempre camaradagem e solidariedade . Fui eu e outros.
P - Ah! Não foram só dois? É que me falam só de dois.
R - Não. Não. Houve mais. Um deles foi o Aurélio Lebon, que foi à Rádio e falou para que as populações se mantivessem calmas e aguardassem por instruções oficiais para pôr termo a todas aquelas movimentações.
P . Foi o senhor que ajudou o Amaral Matos?
R - Não, não fui eu. Foi um Comando, mas não recordo o nome dele.
P - em 1982, houve uma reunião com o presidente Samora Machel, onde os senhores estiveram, não foi?. O território de Moçambique estava a ser invadido pelas tropas de Ian Smith e já existiam as forças da RENAMO. Quem estava nessa reunião?
R - Estavam membros da antiga Assembleia Popular Nacional, informadores da PIDE, elementos dos GEP, dos Comandos, do Movimento Nacional Feminino,  e outros que não me recordo agora.
P - Onde é que a reunião se realizou?
R - Foi na Escola Josina Machel.
P - Lembra-se se havia brancos entre os pides que lá estavam?
R - Não, eram só negros.
P - Qual foi a sensação que tiveram, quando vos foi dito para se concentrarem na escola para terem uma reunião? O que é que passou pela cabeça do senhor?
R - Pensávamos que estávamos mortos, que íamos ser fuzilados.
P - E depois?
R - Enquanto a reunião se desenrolou, o decurso da foi sempre ameaçador. O presidente Samora dirigia-se-nos num tom de ameaça, o que alimentava em nós o desespero, porque tinham informações pormenorizadas de elementos de cada um dos grupos e fundamentalmente da antiga ANP e dos pides. Ao mesmo tempo que dizia que tinhamos sido instrumentalizados pelo Exército Colonial.
De modo que o presidente Machel insistia sobretudo na ANP e na PIDE com base nas investigações que fizera a estas duas organizações.
Pensávamos que no final, haveria um fuzilamento global.
P - Lembra-se se estava alguém da imprensa a assistir?
R - Não. Ele não permitiu que a imprensa assistisse.
R - Mas acho que havia por ali jornalista estrangeiros
R - A verdade é que o presidente Samora disse abertamente que a imprensa não entrava lá.
P - Ah. disse mesmo!
R - Disse, sim. Não chegámos a ver jornalistas. Não queria a imprensa ali. Era uma conversa connosco, os comprometidos.
P - Estava alguém do Bureau Político da FRELIMO a assistir? Ou era só o presidente Samora?
R - Estavam só do Bureau Político, mas este estava quase em peso.
P - Quem era mais duro? O Bureau Político ou o presidente Samora.
R - Era o presidente Samora. No Bureau Político circulavam papelinhos, algumas perguntas vinham deles. O Bureau Político colaborava com o interlocutor directo, que era o Presidente Samora Machel.
Houve um grupo que estudou o que fazer, não é?! Programou a reunião e foi investigando. Alguns fulanos foram escorraçados dali para fora, porque quiseram ocultar aquilo que sabiam, portanto isso agravou a articulação da reunião. Eram tirados da sala e iam presos
P - Foram presos muitos?
R - Posso dizer que não chegaram a dez. Cada grupo tinha as pessoas marcadas.
P - Quantos dias demorou a reunião?
R - Cinco dias, durou cinco dias, salvo erro.
P - E quando chegou ao fim, o que pensaram?
R - (Risos) Até ao último minuto, tão desesperados estávamos. Mas ele anunciou que já não éramos comprometidos, que tínhamos passado a pertencer à sociedade moçambicana, que não devíamos ser tratados como comprometidos e como filhos de Moçambique, que tudo quanto se passara era para esquecer e que passávamos a fazer parte integrante da sociedade moçambicana. E pronto! Aí foi uma alegria.
Olhe alguns de nós até perderam quilos durante aqueles cinco dias. Quando íamos para lá de manhã, comentávamos não saber qual o fim daquele encontro. Estávamos realmente desesperados.
P - E depois? Não foram para nenhum campo de reeducação?
R - Não, não fomos. O que aconteceu depois daquela reunião foi um pedido formulado pelo próprio presidente Samora, fundamentalmente aos Comandos, porque ele reconheceu o papel e a aptidão dos Comandos, quer dizer a prontidão combativa e operativa dos Comandos.Portanto.disse que íamos ser solicitados para reorganizar o Exército. Dito e feito. Dois anos depois,, um grupo de doze, fomos seleccionados para fazer parte da reorganização do Exército, aqui na cidade de Maputo. Fiz parte desse grupo. Fizemos um belíssimo trabalho, pondo em prática o que tínhamos aprendido no Exército português. Apreciaram muito o nosso trabalho.
Exigimos condições, não só para nós, mas também para os nossos instruendos. E o nosso trabalho foi de qualidade, só que foi sol de pouca dura. Estivemos lá de 1984 a 1986. Ele morreu. e aquilo dissolveu-se.
Por causa da guerra da Renamo é que o Presidente quis reorganizar o Exército, para fazer face à Renamo. A guerra civil começou em 1978 e só terminou em 1992. Quando entrámos na reorganização do Exército, já a Renamo estava a progredir.
P - Como se preparavam os homens?
R - Foi uma reorganização administrativa. Depois até chamaram, ao nosso quartel, um quartel-modelo.
P - Pensava que também tinham feito treino militar?
R - Não, passou a haver um regulamento, portanto a estrutura de um quartel, com a logística, a polícia militar, etc...É verdade que, ao passar por aqui, era também preciso passar por algumas das fases de quem vai para a guerrilha, não é? Algumas partes de formação também tínhamos de as dar. Mas era quase uma escola para os outros quarteis.
P - Desligou-se completamente da vida militar?
R - Nada melhor que esta vida, não é?
P - Conheceu algum;flect;?. Nota do blog: E Moçambique não houve flechas;. A autora quererá referir-se a  MILÍCIAS
R - Pessoalmente, não. Eles actuavam no Niassa, Nota do Blog: No Niassa havia as MILÍCIAS de Daniel Roxo. E também estiveram na reunião
P - Não aconteceu nada a nenhum  flecha?
R - Não. Olhe, dos comandos, os poucos que lá estiveram não tiveram coragem de relatar o que se passou em Wiriyamu. Feliz ou infelizmente, recaiu em mim e, no fim, as culpas caíram na PIDE/DGS. Relatei lá o que se passara, como o relatei agora aqui.

Monumento erigido em Wiriyamu pelo Estado Moçambicano

P - Samora mandou colar fotografias dos comprometidos, nos sectores do trabalho. Cada um tinha lá a sua fotografia, não era?
R -  Foi na altura que se constituíram as assembleias do povo, em que os comprometidos não podiam eleger ou ser eleitos. Mas, tinham que colar s fotografias, no local de trabalho e no bairro onde viviam, d estar sob vigilância, quer no trabalho, quer no bairro. Isto desde 1978 até à reunião na Escola Josefina Machel.
Nessa fase é que me senti isolado. E aquilo teve repercussões na vida profissional das pessoas

Entrevista concedida e gravada na cidade de Maputo em Agosto de 2000.






segunda-feira, 15 de julho de 2024

O MASSACRE DE MUEDA EM 16 DE JUNHO DE 1960

 Entrevista:

O MASSACRE DE MUEDA EM 16 DE JUNHO DE 1960

DEPOIMENTO DAS TESTEMUNHAS
Apresentação de Yussuf Adam e
Hilário Alumasse Dyuti




O Massacre de Mueda é um acontecimento utilizado pelos historiadores contemporâneos de Moçambique para ilustrar a natureza do Estado colonial e a oposição das populações ao sistema.
A documentação escrita publicada noutro lugar deste neste número ilustra a interpretação do massacre pelas diversas camadas de funcionários do Estado colonial. As camadas mais altas do aparelho
de Estado português encararam o massacre não como resultado de conspirações internacionais e da subversão mas como consequência das políticas repressivas da administração. As fontes da administração colonial são omissas quanto ao número de mortos e à reacção da população.
Para alem de relatos em primeira mão, o testemunho daqueles que presenciaram o massacre traz também interpretações que têm bastante a ver com as versões oficiais dos desenvolvimentos políticos
na zona. O conteúdo das reivindicações apresentadas é transformado para corresponder ao catecismo político da actualidade: alegadamente, a reivindicação dos partidos políticos era de uma independência total de Moçambique (e não apenas de Mueda), de libertação de todos os moçambicanos independentemente da cor, credo religioso, etnia, etc.
Porém, o conteúdo dos programas políticos das diversas organizações que actuaram em Mueda antes da Frelimo faz parte de uma questão ainda em aberto. Algumas dessas organizações
encaravam Mueda como parte da Tanzania e naturalmente participavam na dinâmica independentista daquele país vizinho. Outras queriam apenas libertar os macondes.
E, no entanto, todos os informadores se manifestam como tendo estado contra a MANU desde o início, como tendo sido sempre anti-tribalistas e anti-racistas. É negado, portanto, aquilo que seria lógico e natural: o surgimento de um movimento local de base étnica defendendo a integração da região na Tanzania.
ARQUIVO. Maputo (Moçambique), 14:117-128, Outubro de 1993. 117
Assim, Mueda permanece sobretudo como ilustração do funcionamento do sistema colonial, das suas contradições internas e da necessidade de violência que o Estado colonial tinha para se manter quando já não era capaz de responder às pressões populares.
Apresentamos aqui alguns depoimentos de pessoas que presenciaram os acontecimentos de 16 de Junho de 1960, em Mueda. O primeiro e o segundo, respectivamente de Daniel Muilundo e
Cornélio João Mandanda, procuram dar uma versão cabal dos acontecimentos. O de Mandanda foi, aliás, dactilografado pelo próprio e depositado na Direcção Provincial de Educação e Cultura de Cabo Delgado, em 1977. O terceiro, de Rachid Katame, ilustra bem o mecanismo "ideológico" atrás referido, de atribuição clara, desde o início, da reivindicação de independência nacional para todo o
Moçambique em 1960, por um grupo de camponeses macondes situado nos confins do território setentrional de Cabo Delgado.
Finalmente, o testemunho de Jacinto, Ornar ilustra claramente a ligação do massacre de Mueda com a formação da Frelimo e o desencadeamento da luta armada de libertação nacional. Ligação essa, aliás, que constitui um dos pilares da leitura que a historiografia nacionalista faz de todo este processo: o massacre de Mueda cristaliza o conjunto de indicações segundo as quais o regime colonial nunca
abdicaria do poder pacificamente e, portanto, só pela força das armas poderiam os moçambicanos aspirar à sua independência.
Memorial em Mueda aos mortos do massacre de Mueda em 16-6-1960

1. DANIEL MUILUNDO
(Aldeia Comunal de Mualela, Palma, Cabo Delgado, 21 de Julho
de 1981).
Fui a Mueda assistir às conversações entre o governo colonial e o Faustino [Vanomba]. Saí no dia 15 de Junho de Mualela para Imbuhu e pernoitei lá. No dia 16 cheguei a Mueda. Quando lá cheguei as
pessoas já se encontravam concentradas. Havia homens, mulheres e algumas crianças. Muitas pessoas estavam bem vestidas. Havia pessoa de diversas raças: indianos, brancos e pretos. Momentos depois os colonialistas içaram quatro bandeiras. O administrador de Mueda pediu à população que fosse participar no içar das bandeiras. Mas a população negou-se a içar [a bandeira] dizendo que tinham ido lá para ouvir as palavras do Faustino [Vanomba] e do Kibiriti [Divane]. Oibiriti e o Faustino estavam de baixo de uma mangueira.
11 8 ARQUIVO. Maputo (Moçambique), 14:117-128, Outubro de 1993.
Informaram-nos que o governador só chegaria às 15 horas, mas quando chegou às 15 horas o governador saiu de casa do administrador. O governador escolheu dois padres da Missão de
Imbuhu, um indiano conhecido por "China" e também os régulos para se concentrarem na varanda da secretaria [da administração]. O governador ordenou a um dos padres que abençoasse o grupo do
Faustino ao mesmo tempo que o pretendia matar! Um soldado saiu para fora e explicou ao povo que o Kibiriti seria morto porque cometeu um erro.
Depois, o governador chamou-os individualmente lá para dentro. Porém, não conseguiram matá-lo [ao Kibiriti] e em seguida chamaram o Faustino Vanomba e tudo se repetiu porque ele nã morreu. Os dois saíram amarrados para o carro e nós apanhámos o carro e dissemos que "esse carro não vai avançar. Fizeram isto com os do primeiro grupo, da Modesta, mas hoje isso não vai acontecer".
Foi neste momento que a população reclamou, começando a atirar pedras. Então o governador mandou abrir o fogo. Como os soldados estavam próximos da administração, abriram fogo e mataram um dos meus conhecidos, de nome Kanjigwili, natural de Mueda. Quando istaconteceu fugimos e eu esqueci-me lá da minha bicicleta. Fiquei durante algum tempo [na aldeia de Mpeme] e voltei mais tarde para ir buscar a bicicleta. Quando lá cheguei vi por volta de 17 pessoas mortas.
Depois do massacre andavam os cipaios de casa em casa a recolher as nossas armas e a mandarem-nos depois para Nangade, para registo das armas. O Faustino e o Kibiriti foram levados para Pemba.



2. CORNÉLIO JOÃO M ANDANDA
(Mueda, Cabo Delgado, 1977).
Foi em 1959 que chegou Faustino Vanomba a Mueda, onde permaneceu dois dias, findos os quais pediu para falar com o senhor administrador da Circunscrição de Mueda sobre a independência do povo moçambicano. Ora o senhor administrador não aceitou este pedido do Faustino Vanomba. Mandou-o regressar para a Tanzania, onde estava refugiado. O administrador organizou cipaios para irem
[com ele] ao Posto de Mocímboa do Rovuma. Saíram. Tendo chegado a esse ponto de referência, o Chefe do Posto recebeu-os e organizou
ARQUIVO. Maputo (Moçambique), 14:117-128, Outubro de 1993. 119
mais pães [mantimentos para a viagem?] e ordenou a mais cipaios que o acompanhassem até à fronteira, no rio Rovuma.
A razão que levou os portugueses a procederem desta forma foi a seguinte:
a) talvez o Faustino Vanomba tivesse deixado mais companheiros pelo caminho;
b) se ele começasse a tomar qualquer posição de força sobre o "Uhuru" os cipaios matá-lo-iam. Assim,
fizeram o Faustino Vanomba atravessar a fronteira de Moçambique
para a Tanzania.
No mesmo ano, poucos dias depois, chegou o segundo grupo vindo da Tanzania. Este grupo era chefiado por uma mulher, filha de Neva, e assim chamada Binti Neva [filha de Neva]. Este grupo veio a Moçambique depois de se ter encontrado com o Faustino Vanomba, quelhes deu um relatório sobre a sua viagem, tendo afirmado que os portugueses "resistem até hoje e comigo não chegaram a nenhum acordo". O grupo, que era constituído por dois homens e uma mulher, esta a responsável, dirigiu-se directamente para a Circunscrição de Mueda, para a sua administração. Encontraram-se com o senhor administrador, que lhes perguntou:
- De onde é que vocês vêm?
- Nós somos moçambicanos refugiados na Tanzania.
- Se vocês vieram da Tanzania, o que vieram cá fazer?
- Nós chegámos aqui para vos dizer que deverão dar a independência ao povo moçambicano e vós devereis ir para a vossa terra, Lisboa. Esta terra é para os moçambicanos.
Este grupo trazia mandioqueiras [e uma mensagem para os moçambicanos]:
- Nós trazemos estas estacas de mandioca para irem plantar na vossa terra, símbolo de que já regressámos à nossa terra. E vós, a partir de hoje deveis pegar na enxada para plantar estas estacas de
mandioca e ficar a saber que esta terra não é dos colonialistas portugueses mas sim dos moçambicanos!
Depois destas palavras, proferidas pela Binti Neva, o administrador disse:
- Vale [mais] a pena dar a independência a um macaco do que um moçambicano como tu. Tu, mulher, o que é que tu sabes para te dar independência?... Nós sabemos muito bem que vós sois enganados pelo Nyerere, mas fiquem a saber que esta terra é dos portugueses e ali é a Tanzania. Portanto aqui estão sob controlo dos portugueses.
120 ARQUTVO. Maputo (Moçambique), 14:117-128, Outubro de 1993.
Os colonialistas portugueses, tendo em vista esta reivindicação de libertação, decidiram prender todos os moçambicanos que ali se encontravam. Durante a acção, quando o grupo era mandado para a
prisão, Binti Neva exprimiu as seguintes palavras:
- É bem sabido o que nos vão fazer. Podem-nos prender e massacrar mas os moçambicanos são muitos e têm o objectivo de libertar moçambique, a nossa terra.
Este grupo foi preso e encarcerado na cadeia. Em seguida, o senhor administrador fez um encontro (banja) junto dos régulos,capitães-mores e população, tendo-se dirigido [a eles] nos seguintes
termos:
- Quero informar a todos vós aqui presentes que deverão ficar alerta com as pessoas que vêm da Tanzania; elas trazem muitos problemas porque são enganadas pelo Nyerere, que lhes diz "vão a
Moçambique falar com o governo português para vos dar a vossaterra". Essas pessoas são muitas e, portanto, quando aparecerem devem amarrá-las e mandá-las para a administração; quando encontrarem pessoas que levam bengalas são do mesmo grupo e deveis trazê-las à administração; as que falam língua swahili, como as que têm rádios, devem ser presas, porque são as mesmas pessoas que
querem estragar o mundo. Quando chegarem hóspedes a vossas casas deveis informar os régulos e capitães-mores para ficarem a par da situação.
Depois do encontro o administrador organizou um grupo no seio dos régulos e capitães-mores, para andar de povoação em povoação recolhendo informações para a administração. Isso deu-se
nos fins de 1959.
Tendo chegado ao país irmão da Tanzania [notícia] que o grupo que seguira para Moçambique tratar do problema do "Uhuru" (independência) fora preso pelos colonialistas portugueses, muitos
Moçambicanos organizaram o terceiro grupo.
No dia 11 de Junho de 1960 chegou o terceiro grupo chefiado pelo Kibiriti [Divane], Faustino Vanomba e Modesta [?] a uma povoação do régulo Mbavala, perto da Circunscrição de Mueda.
Passaram a noite toda na povoação desse régulo. No dia 12 de Junho de 1960 avançaram até à Circunscrição de Mueda para falarem com o administrador. Depois de chegarem à administração entraram em contacto com os cipaios para que eles fossem comunicar ao senhor administrador a chegada deles e o que queriam fazer. Os cipaios responderam:
As bengalas dos Régulos:LIDIMO; MBAVALA; NDYAKAL

ARQUIVO. Maputo (Moçambique), 14:117-128, Outubro de 1993. 121
- O que vamos informar? Nós sabemos que vocês são as pessoas que vêm da Tanzania para estragar o mundo.
Aqueles elementos insistiram muito, até que os cipaios, por fim, foram informar o intérprete da administração. O intérprete, por sua vez, saiu para ver quem eram eles. O mesmo perguntou o que
queriam falar com o senhor administrador. Eles responderam:
- O nosso assunto não é consigo. Nós queremos falar com o próprio administrador.
Ele saiu e foi ter com o senhor administrador. Tendo chegado a
palavra ao senhor administrador este disse-lhe para os ir chamar. E o
administrador perguntou-lhes:
- Vocês precisam de mim? O que é que vocês querem falar
comigo?
Responderam aqueles homens:
- O objectivo da nossa vinda não é diferente do dos nossos
companheiros que vieram anteriormente. O objectivo é o mesmo.
-Qual é?...
- Queremos a independência da nossa terra. O senhor administrador, depois de ouvir estas palavras, disse-lhes:
- Bem, se todos vós têm essa intenção única e se os vossos objectivos são os mesmos, terão que regressar para casa e compareçam cá no dia 14 de Junho de 1960, para nós podermos preparar [as
coisas] e chamar os régulos, os capitães-mores e a população, para podermos perguntar se o povo moçambicano quer a liberdade. Para vos dar a vossa terra, para transferirmos para vocês o poder na
presença de todos.
Em seguida a delegação saiu para Muatide, onde estavam outros elementos que vendiam cartões. Os portugueses não sabiam que o grupo se dirigiu para onde era a base deles.
Nesse dia as populações, não foram informadas de que haviam chegado da Tanzania elementos da organização moçambicana.
Poucos participantes foram a Mueda. Muitas pessoas pensaram que os portugueses fariam uma manobra para poder matá-los. Assim, apareceram em Mueda no dia 14 de Junho de 1960 apenas os régulos,
capitães-mores e cipaios. Ora, chegada a delegação diante do administrador, este, vendo que não chegara muita gente, decidiu dispersá-los, determinando assim o dia 16 de Junho de 1960 para de novo se encontrarem. Ao mesmo tempo apelou aos régulos e capitães-mores que fossem fazer um encontro maior para transmitir às populações que não faltassem no dia marcado. A delegação da
organização moçambicana tornou a regressar para onde estava
hospedada, Muatide.


122 ARQUIVO. Maputo (Moçambique). 14:117-128, Outubro de 1993.

O dia 16 de Junho chegou. Compareceu neste dia, jurando ser o dia da independência, muita gente. Quando acabaram de chegar as populações, os régulos e capitães-mores, o administrador dividiu-os em
grupos. Régulos e capitães-mores de um lado, e as populações do outro.
Finalmente, ordenou que os cipaios formassem um outro grupo em volta das populações ali presentes.. Todas as pessoas estavam em frente da administração.
A tropa do exército português havia-se enfiado nas cavernas do monte Chudi, organizada para defender as autoridades governamentais e fascistas do colonialismo português.
Tudo pronto. O administrador informou os elementos da delegação, cerca das 10 horas desse dia que deviam ter a conversa pelas [15 horas] porque estavam a aguardar a chegada do senhor
governador do Distrito de Cabo Delgado.
Saíram os cipaios para fora a informar as populações de que a conversa se iria iniciar pelas [15 horas] porque se aguardava [a chegada] do governador fascista. Aguardando a chegada, as populações nem se podiam mexer. Nesse dia chovia torrencialmente mas as populações não se retiraram do lugar.
Chegado o governador, o senhor administrador entendeu que se deveria manter uma boa posição para saudarmos o "nosso governador e, ao mesmo tempo, saudarmos a bandeira da República Portuguesa.
No mesmo momento em que os portugueses quiseram saudar a bandeira as populações começaram a desprezar a lei, dizendo que
"nós não viemos com este objectivo, o nosso objectivo hoje é ouvir aquilo que vão dizer aos nossos irmãos Kibiriti e seus companheiros.
Não temos nada a ver comia bandeira colonialista portuguesa."
Os colonialistas portugueses, com os seus sequazes, saudaram a bandeira. Depois da saudação à bandeira portuguesa, acompanhada de muitos gritos das nossas populações reclamando que não queriam essa bandeira. Outros, porque confiavam na religião dos mandamentos da lei de Deus, em que matar é pecado mortal, e além disso devido à presença dos padres, sentiam-se seguros de que nada lhes aconteceria.
Todavia, Kibiriti foi chamado para o gabinete do senhor governador, acompanhado pelos cipaios. Mal entrou, o governador
ARQUIVO. Maputo (Moçambique), 14:117-128, Outubro de 1993. 123
começou a perguntar-lhe:
- De que precisas? O que vieste cá fazer? Qual é o teu objectivo, uma vez que tu és da Tanzania? És vadio? Queres estragar o mundo?
Kibiriti respondeu:
- Eu não sou filho da Tanzania, mas sim sou moçambicano.
Estou aqui porque quero liberdade. Sinto bastante ver o meu povo a ser torturado, massacrado, fazer o trabalho forçado nas machambas de Mpanga, desde o amanhecer até ao pôr do sol. Vale mais a terra estar nas mãos do povo moçambicano, para ele se governar a si próprio. Portanto, venho da Tanzania. O que me levou a ir instalar-me naquele país foi a exploração que se verifica aqui em Moçambique. No
entanto, para hoje quero a liberdade e nada mais. Bem sei que o povo não estudou e não saberá governar-se, mas mesmo assim esta terra pertence-nos.
Mediante esta locução do senhor Kibiriti, o senhor governador
disse:
- Independência, independência, não! Eu penso que o problema é de estabelecer a paz no país. A partir de hoje faremos o  seguinte:
a) havemos de aumentar os preços de todos os produtos;
 b)havemos de vos dar carros, lojas, etc.; 
c) comeremos juntos; 
d) hão-de casar-se com os brancos; e) a partir de hoje todos vocês são
portugueses.
Aquele delegado respondeu:
- Não nos fale do que não pedimos. O nosso objectivo não está centrado nas boas coisas, comer junto convosco, haver casamentos entre os pretos e os brancos, aumento de salários e dos preços dos nossos produtos. O nosso objectivo é dar independência ao povo moçambicano, para ele se governar a si próprio. Tudo o que se trate daquilo que nos falou havemos de organizar nós mesmos.

Neste meio tempo, quando o governador acabou de falar, chamou o Faustino Vanomba e, lá fora, as populações estavam em grande silêncio. Mal chegou o Faustino Vanomba ao pé do governador, este perguntou-lhe [o mesmo] pela primeira vez. E o Faustino Vanomba logo respondeu:
- Os objectivos que tenho são os que foram aqui apontados pelo meu amigo Kibiriti.
Percebeu o senhor governador e fez um aviso aos delegados,
da seguinte maneira:
- Sei bem que a vossa palavra é a única. Ide para fora.
124 ARQUIVO. Maputo (Moçambique), 14:117-128, Outubro de 1993.
Eles foram conduzidos pelos cipaios para a varanda. Em seguida, o governador saiu do seu gabinete para fora, para informar as populações qual tinha sido a conversa na sala, com o Kibiriti e o
Faustino Vanomba. Tendo parado no meio de toda a população, o senhor governador disse-lhes:
- Conseguimos tratar de bons assuntos que vão manter a paz na nossa terra de Moçambique. A partir de hoje todos vós sois portugueses; os vossos produtos serão vendidos a preços muito bons;
terão maior salário; terão carros, casas, estarão bem vestidos; haverá casamentos no seio dos pretos e dos brancos.
Nesta altura em que o senhor governador falava, o Kibiriti, o Faustino Vanomba e a Modesta eram amarrados com algemas. As populações, quando viram tudo isto não deram ouvidos às palavras de
senhor governador e preferiram salvar os seus irmãos. Gritaram, dizendo: "Vale mais a pena sermos amarrados todos!" Ao mesmo tempo outras populações começaram a agarrar o carro em que seguiam os irmãos, e outras pessoas começaram a lançar lama, areia e pedras em sinal de protesto pela prisão de seus irmãos Kibiriti, Faustino Vanomba e Modesta. As populações, zangadas por ter resposta negativa, voltaram a empurrar o senhor governador ao mesmo tempo que eram arrancadas as divisas que ele trazia. Neste momento o senhor governador, quando se sentiu apertado pêlos nacionalistas de Moçambique, ordenou aos seus cipaios que abrissem fogo contra as populações indefesas.
Choveram muitas balas e todas elas incidiram nos corpos das populações. Neste espaço de tempo as populações, agarrando o carro em que estavam para seguir os delegados da organização
moçambicana, tiveram a coragem de dizer: Não deixemos seguir os irmãos!
A princípio as armas eram disparadas para o ar e ultimamente apontavam as populações ali muitas. A população caiu como se fossem mangas em tempo de ciclone. Parecia que os tiros dessas armas incidiam nos seus corpos. Metade da população começou a fugir... para onde?!... poucas pessoas se salvaram e mais de 500 foram mortas barbaramente.
Depois de cessarem os tiroteios os padres saíram de batina para a frente dos corpos tombados, alegando que prestavam os últimos sacramentos. Foram os seguintes padres que participaram no massacre de Mueda: Guilherme Kiples, da Missão de Imbuhu, Guy Humberg, da Missão de Bomela (Lipelwa), e um padre da Missão de Nangololo, de que desconhecemos o nome.


ARQUIVO. Maputo (Moçambique), 14:117-128, Outubro de 1993. 125

Neste mesmo dia, quando a população foi dar esta informação aos padres da Missão de Nangololo, um dos padres disse:
- Um elefante não se compara com uma formiga. Se essa formiga tentar gabar-se, será esmagada. Este ditado testemunhava, no nosso caso, que nós não respeitámos as autoridades portuguesas.
Momentos depois de os padres terem acabado o seu trabalho diante dos corpos mortos, apareceram ali as tropas que dispararam para todos os cantos. Terminado o disparo a tropa começou a abrir grandes covas onde cabiam dezenas e dezenas de corpos dos moçambicanos mortos inocentemente.
O senhor governador, mal acabou de responder ao povomoçambicano através de balas, tornou a regressar para a sua capital de Porto Amélia (Pemba).
Não foi o fim. O processo continuou. No ano de 1962 já haviam sido formadas as forças com o mesmo objectivo.

3..RACHID KATAME
(Aldeia de Namaua, Mueda, Cabo Delgado, 6 de Fevereiro de
1982).
Medo não tínhamos. Porque o nosso interesse era de obter a independência. Nós estávamos cansados de ser colonizados e por isso chorávamos pela independência. Tínhamos confiança de que os portugueses iriam sair através das palavras desse grupo vindo da Tanzania. Por isso quando a administração convocou essa reunião todos decidimos participar. (...) Eles andaram a avisar de povoação em
povoação.
Diziam que tinham chegado a Mueda pessoas importantes vindas da Tanzania, para discutir os problemas da independência do país. (...) A primeira vez que convocaram as pessoas não foram.
Foram quando se convocou a segunda vez. E foi dessa vez que ocorreu o massacre. O primeiro encontro foi restrito entre o grupo de Kibiriti e o administrador de Mueda. Só no segundo encontro é que fomos convocados todos nós para poder participar na reunião. (...) A guerra começou quando o administrador tomou a decisão de prender o grupo de Kibiriti. Esse grupo estava na secretaria. Mas quando os macondes se aperceberam da situação quiseram entrar à força para tirar os seus dirigentes. Foi nessa altura que o governador de Pemba ordenou às tropas que começassem a disparar e a matar pessoas.
126 ARQUIVO. Maputo (Moçambique), 14:117-128, Outubro de 1993.
Os soldados que estavam na secretaria tiveram que saltar para sair para fora, utilizando a janela. Eu encontrava-me debaixo do carro.
Estava escondido debaixo do carro e só assim escapei da morte. (...)
 Nós tínhamos ido pedir a nossa independência. Nós próprios queríamos governar o nosso país. Mas
também dissemos aos portugueses que quem quisesse ficar, muito bem, podia desde que aceitasse as nossas ordens. Os portugueses podiam ficar em Moçambique na condição de estrangeiros. Ao
dizermos isso os tipos opunham-se e consideravam-nos como gajos que não sabiam nada, sobretudo escrever. Nós queríamos a independência do nosso país, Moçambique. O Nkavandame tinha a
ideia [da independência do Rovuma até ao Messalo] mas nós não. 
Nós fomos pedir a independência de todo o nosso território.
 A independência que nós fomos pedir não era só para os macondes 
ou macuas, mas para todos os moçambicanos.

4. JACINTO OMAR
(Aldeia de Muatide, Mueda, Cabo Delgado 10 de Julho de 1981).
Quando os portugueses efectuaram o massacre de Mueda eu pessoalmente assisti. Nessa reunião estiveram todas as populações de toda a região. Estiveram ern Mueda velhos, mulheres e nós, jovens,
que seguíamos os nossos pais. Quando começaram os disparos eu presenciei e tive que fugir. Corri até casa. Chegado a casa quis voltar de novo para Mueda mas os velhos disseram que não devia. Falaram
comigo alguns velhos que também tinham estado em Mueda. Os velhos sabiam da perda de vidas em Mueda.
Depois disso, os velhos que haviam escapado ao massacre de Mueda, e mesmo aqueles que não tinham ido a Mueda, decidiram fazer várias notas e confiaram em mim para as levar para Dar-es-
Salaam Tãnzania). Os velhos disseram que tinham confiança em mim por eu ser esperto. 
E disseram também que comigo era possível fazer chegar as notas ao destino na Tanzania.
Na Tanzania, cheguei primeiro a Lindi, onde deixei a primeira nota.
Depois fui para Dar-es-Salaam deixar outra nota e finalmente fui para Tanga deixar última nota. Quando eu passava as pessoas perguntavam sobre o massacre de Mueda e eu explicava.
Depois disso regressei de novo para aqui. Logo a seguir ao meu regresso apareceu o senhor Ntwahumu que veio revistar as minhas malas, que continham roupa.
ARQUIVO. Maputo (Moçambique), 14:117-128, Outubro de 1993. 127
Ele estava a suspeitar que eu tivesse cartões da Frelimo. Na verdade eu tinha os cartões só que ele não os conseguiu localizar. A partir daí os velhos tiveram mais confiança na minha pessoa, por ver que o
senhor Ntwahumu não conseguiu saber onde se encontravam os cartões da Frelimo. Os velhos diziam que eu era esperto demais e decidiram que eu fosse regularmente à Tanzania apresentar aos
dirigentes os problemas que afectavam a vida de Moçambique. Portanto, os velhos depositaram toda a confiança em mim.
128 ARQUIVO. Maputo (Moçambique), 14:117-128. Outubro de 1993.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

O norte e a companhia do Niassa 1891-1929

 

O norte e a companhia do Niassa 1891-1929

NIASSALÂNDIA. HOJE DISTRITOS DE NIASSA  E CABO DELGADO

A origem da companhia do Niassa esta ligada à necessidade da ocupação efectiva. Portugal, desprovido de capitais para investir as suas colónias, optou por ceder, temporariamente, parte dos seus demónios a favor de capitais estrangeiros. A Companhia do Niassa nasceu em 1891. A base da exploração capitalista nesta companhia, na época, consistência na cobrança de imposto de palhota e venda da forca de trabalho para o estrangeiro (Ex. região do Shabba no Zaire) e para outras regiões do país.

O objectivo central consiste em garantir a ocupação efectiva pela via de armas, sobretudo para opor a ordem colonial nas terras de Mataka Chisonga, que manteve praticamente independente até 1912. O território da companhia no Niassa ocupava os actuais territórios de Cabo Delgado e Niassa, e administrou desde 1891 até 1929.

Em 1890, os Portugueses montaram uma expedição fluvial pelo rio Lugenda que acabou sendo derrotado pelas forcas de Mataka. Nas suas campanhas realizadas entre 1899 e 1901, a companhia foi criando alguns postos, desde a costa até ao lago Niassa. Seguidamente tentou cobrar impostos, mas sem sucesso. Em 1908, foi criado um consórcio de interesses mineiros sul-Africanos, que fundou a Nyassa Consolidated que assumiu o controlo da companhia do Niassa.

As principais formas de exploração na Companhia do Niassa eram: emissão de selos, cobrança do imposto de palhota, monopólio de taxas aduaneiras de importação e exportação, comércio de armas de fogo, fabrico e venda de bebidas alcoólicas, exportação de esponjas, corais, pérolas e âmbar da costa e ilhas situadas na área sob sua jurisdição; utilização do trabalho forcado, geralmente não pago para machambas de administradores da companhia e dos capatazes, para o transporte de mercadoria; exportação de mão-de-obra para alguns países e territórios vizinhos; para as minas da África do sul até 1913, para as minas de cobre do Zaire (Catanga-Chabba), para o kenya, onde era utilizado na construção do porto de Mombaça e para algumas companhias de Zambézia.

Na cobrança dos impostos,era revertido a favor dos chefes locais. Na generalidade, o imposto de palhota era pago em géneros de exportação (borracha, café, goma, cera e marfim). A cobrança coerciva deste imposto teve como consequências a saída ou fuga da população local para às outras zonas de Moçambique ou para o estrangeiro (Malawi, Tanganyika, etc) e os principais mercados externos eram a Franca, Zanzibar e Holanda

O Islão difundiu-se nesta região, em particular na classe dominante, e os missionários cristãos tiveram algum sucesso em Montepuez e junto ao lago Niassa.


A companhia desenvolveu-se em quatro períodos distintos, a saber:

Periodização da História da Companhia do Niassa e principais acontecimentos

A companhia explorava cerca de  do território Moçambicano (todo o extremo norte) compreendia a área Entre-Os-Rios Rovuma (o norte) e Lúrio (o sul), oceano Indico (a este) e a depressão do Niassa (a oeste). Compreendia, as províncias de Niassa e Cabo Delgado.

A resistência maconde foi uma das últimas resistências eliminadas pela companhia. Devido a este feito, que outrora os Portugueses não haviam delegado (resistência maconde). Em forma de reconhecimento, Portugal agradeceu aos proprietários da companhia do Niassa, concedendo-lhes privilégios majestáticos de explorar a região por um período de 35 anos (1891-1929).

Primeiro período (1891-1898)


A história da companhia de Niassa começa em 1891 com a definição da fronteira norte e atribuição das províncias de Niassa e Cabo Delgado para a Companhiade Niassa, inicialmente concedida a Bernardo Doupas que não conseguiu reunir os valores exigidos para a fiança. Assim, a carta de concessão foi dada a um grupo de Portugueses e em 1892/93 a carta foi comprada pelos capitais ingleses e franceses, passando a direcção da companhia de Lisboa para Londres. Em 1894, o grupo tomou posse. De 1894 a 1898, a companhia tentou obter mais fundos em Londres e Lisboa.


Segundo período (1899-1913)

De 1897 a 1908, o controle da Companhia do Niassa não foi estável, mudando frequentemente de grupos financeiros. O primeiro foi a Ibo Syndicate que, em 1897, comprou a maior parte das acções da Companhia. Nesse período foi reorganizado a administração da Companhia e a vila do Ibo passou a ser sua sede. Em 1899 o controle da companhia passou para um novo grupo, o grupo de Ibo investimento Trust, que chegou a organizar uma expedição em direcção a Leste do lago Niassa, mas por falta de lucros este grupo também dissolveu-se em 1902.

Em 1903, fazem os primeiros contactos com a WENELA cujo objectivo era o recrutamento da mão-de-obra para as minas da África do sul, é o período da intensificação da exploração da região. Com a intervenção da WENELA tornou-se mais vantajoso exportar a mão-de-obra do que utiliza-la localmente

Em 1912 houve forte resistência do Mataka, mas foi derrotado, tempo emigrado para Tanganyika, mas a resistência continuou embora de forma descoordenada. Entretanto, em 1905, iniciava-se a exportação da mão-de-obra para a África do sul, em 1913 houve uma interrupção do trabalho migratório para África do sul, aumentando a crise financeira.

Terceiro período (1914-1918)

É o período da primeira guerra mundial. É neste período que um consorcio Alemão (consorcio bancário) obtem grande parte das acções da companhia do Niassa, ao administrar a Niassa consolidated. Foi um período de baixas na produção da companhia, pois, verificam-se neste período conflitos constantes entre as tropas Alemãs, Portugueses e Ingleses.



Quarto período (1919-1929)

Foi o período de uma ocupação efectiva, nesta altura as companhias procuravam a todo custo explorar o território. Assim, não se interessavam em desenvolver o território sob sua tutela economicamente.

A companhia intensificou a exploração da mão-de-obra, obrigando cada vez mais, a população a cultivarem as culturas obrigatórias.

Em consequência destes actos, Portugal mandou Cessar, em 27 de Outubro de 1929 as actividades da companhia e implantou uma administração igual a outras regiões sob controlo da administração Portuguesa.

O papel dos grupos financeiros:

1 Custear as despesas das missões, escolas primárias e de artes e ofícios;

2 Receber nos primeiros cinco anos, mil familiares do reino enviados pelo governo, fornecendo-lhes alojamento, alfaias e sementes;

3 Pagar ao governo Português  do lucro líquido total ou  quando o dividendo pago em acções subia para mais de 10%.

4 A companhia obrigava os camponeses a cultivar oleaginosas, pau-preto, borracha, marfim que eram exportados para Franca e Holanda; café, urzela, pau-preto, borracha, levados para Zanzibar; milho, arroz, mexoeira, goma, copal feijão, etc, que em pequenas quantidades  exportavam para o sul de Moçambique.


As formas de exploração dos grupos financeiros

Inicialmente, a companhia do Niassa foi entregue a um grupo de Portugueses e em 1892/93 a carta foi comprada pelos capitais Ingleses e Franceses. Entre os consórcios não havia consenso sobre quem iria controlar a companhia, enquanto isso, os consórcios Franceses e britânicos abriam escritórios em Londres. Só a partir de 1897 é que foi formada uma administração controlada pelos accionistas britânicos.

Para melhor rentabilizar o seu investimento, a companhia usou as seguintes formas de exploração:

1 Cobrança de imposto de palhota (auxiliado pelos chefes locais que recebiam 5% do montante recebido, com frequência cobrado em géneros de exportação (borracha, café, goma de cerra, mel);

2 Exportação de mão-de-obra para África do Sul (até pelo menos 1913), para as minas de cobre do Catanga, Mombaça, Zanzibar e baixa Zambézia;

3 Utilização do trabalho forcado, com frequência não pago, para as machambas dos administradores, capatazes, companhias e transporte de mercadoria.

4 Monopólio de taxas aduaneiras de exportação e importação, do comércio de armas de fogo, do fabrico e venda de bebidas alcoólicas, de exportação de esponjas, corais, pérolas e âmbar da costa e ilhas situadas na área da sua jurisdição.


Estrutura administrativa

Localmente, governador da majestática e o seu secretário-geral dirigiam as forças políticas e de milícias da companhia e os funcionários administrativos eram dirigidos pelo conselho administrativo, composto por dez (10) membros: seis (6) administradores que viviam em Lisboa e quatro (4) que viviam em Londres. Em cada sede dos distritos administrados pela companhia havia um tribunal de província, instanciá e Tribunais administrativos sob responsabilidade do Estado Português.

A contratação de funcionários do Estado Português, que serviam nas administrações autónomas da companhia era regulada pelas portarias ministeriais de 22 de Maio de 1900 e de 26 de 09 de 1914.

O governo colonial conferiu á companhia do Niassa, o direito de construir e explorar estradas, caminhos-de-ferro, canais, portos, cais e pontes. Também lhes conferiu-o direito de, no espaço concedido, navegar, emitir acções, cobrar impostos, administrar exercer comercio e actividades industriais.

Declínio da companhia

O estabelecimento do estado novo em Portugal depois da revolta militar de 1926 e o início da crise económica de 1926, abalou definitivamente a companhia. Face a isso, o novo governo colonial Português, passou para si a administração dos territórios da companhia, contudo, o período concebido a companhia para exploração também estava a terminar. Outras razões foram:

1 As terras menos promissoras as da companhia de Moçambique;

2 Não conseguiu atrair investimentos (capitais);

3 A resistência de Yao e dos Macondes elevaram os custos de administração;

4 A cobrança ou aumento de impostos conduziu ao despovoamento dos seus territórios.

Pelo diploma legislativo numero 182, de 14 de Setembro de 1929, os territórios de Cabo Delgado e Niassa, passaram a ter uma estrutura administrativa nos moldes dos territórios administrativos directamente por Portugal.

De harmonia com o diploma, foi mandado Cessar em 27 de Outubro de 1929 a 26 de Novembro, estava na posse de Portugal. Era o fim da companhia do Niassa.

 

 

segunda-feira, 24 de junho de 2024

MOEDA INÉDITA DA COMPANHIA DO NIASSA

 MOEDA INÉDITA DA COMPANHIA DO NIASSA

POR: PEDRO BATALHA REIS

Dentre as concessões territoriais da Província de Moçambique, a da Companhia do Niassa foi sem dúvida uma das maiores e mais importantes. 
Os pródromos da fundação da Companhia do Niassa remontam, nos documentos oficia de Outubrois, a 1891, quando, pelo decreto de 26 de Setembro, se dizia conceder a administração e exploração de diversos territórios da Província de Moçambique à companhia português que fosse constituída pela firma Bernardo Daipias & Cª.
Constituída em 1893, com poderes majestáticos(1), só em 1894 a Companhia do Niassa  entrou na posse dos seus terrenos. Com efeito, foi pela portaria de 11 de Setembro de 1894 que o Governador Geral da Província foi autorizado a dar posse dos territórios do antigo Distrito de Cabo Delgado ao representante da Companhia do Niassa, o médico militar dr. JJoaquim Sanches Rollão Preto. Acontecimento que teve lugar na Vila do Ibo, aos 27 de Outubro daquele mesmo ano  de 1894, sendo o Governador representado pelo Governador do Distrito de Cabo Delgado, Capitão Caetano Joaquim Fialho dos Reis (2). Esses terrenos abrangiam largo território ao norte daquela província, no antigo Distrito de Cabo Delgado, separado da Zambézia pelo Rio Licungo.
(1), Pelo decreto de 9 de Março de 1893
(2),O que rectifica o que se que a esse respeito na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, s.v. Niass, Vol.XVIII, pág. 706, onde se afirma que a Companhia do Niassa tomou conta dos seus territórios somente em 1897
O Distrito de Cabo Delgado compreendia os Concelhos do Ibo, (fundado já pela Companhia do Niassa na Baía de Pumba) e as circunscrições de Macomia, Macondes, Mecufi, Mozimboa da Praia, Montepuez, Palma e Quissanga.
Tão largos eram os privilégios concedidos pelo Governo à nova Companhia do Niassa, que o seu erente, o inglês  George Wilson, resolveu, (não sabendo nós qual a consciência com o que fazia) mandar cunhar em  Inglaterra, na Casa da Moeda de Brimingham moeda privativa e selos postais, para serviços da companhia! E, tão grande foi a sua precipitação ao fazê-lo que, antes mesmo dos territórios serem entregues àquela Companhia , o Gerente dela tratou de conseguir a cunhagem das moedas, e a fabricação dos selos, de modo a que no mesmo mês de Outrubro de 1894, em que a posse do território se efectuou, logo seguiram de Londres para o Ibo as moedas e selos que ali haviam de correr.
Todavia, como tal resolução fora tomada sem o consentimento da Administração, assim que esta tomou conta do caso, ordenou energicamente para o Ibo que nenhuma daquelas espécies deveria ser posta em circulação.
Em Março de 1895, exonerado o Sr. Wilson, a Administração da companhia remeteu de Moçambique para Lisboa, consignados à Casa da Moeda, todos os caixotes com a moeda de bronze e os selos, >> dos quais - no dizer dum Relatório da Companhia do Niassa de 29 de Abril de 1895 - nem um só saíra dos caixotes e envolucros em que tinha ido.

                                                                


Esses valores deram entrada na Casa da Moeda em Julho de 1895, distribuindo-se as moedas por 136 caixotes e os selos em 2 caixotes apenas.
Podendo dizer-se que, na sua grande maioria, tanto uns como outros foram eliminadas da circulação - as moedas fundidas para a amoedação do cobre continental e os selos puramente inutilizados . Todavia, igualmente se pode afirmar que, tanto de uns como de outros, eistem alguns exemplares, ainda que raros.
Das moedas nos ocupamos adiante, e dos selos diremos que existem as taxas de 10, 20 e 25réis, tendo a caracterizá-los, ao centro uma torre circular com ameias ( a mesma que encontraremos no numisma que adiante descrevemos), tendo por cima: Cabo Delgado , e aos lados: Companhia - Nyassa (1).
Ao referirmo-nos à Companhia do Niassa é justo dizer que, se ela auferiu largos proventos de dispor majestaticamente dum território que em extensão é duas vezes o de Portugal Continental, prestou à Nação o alto serviço de não só reconhecer todo o vasto hinterland dos vastíssimos territórios do antigo Distrito de Cabo Delgado concedidos à Companhia, mas ainda submeter à bandeira portuguesa, duma forma directa, os povos do interior, cuja independência até então se pode dizer que era absoluta (2)
A mais antiga referência historiográfica que conhecemos acerca das moedas de Cabo Delgado, deve-se a D. Maria Guilhermina Garcia,que,ao publicar um desses exemplares,em meia dúzia de linhas sintetiza claramente o que representavam essas espécies monetárias (3)

(1) Estas informações filatélicas devemo-las ao nosso particular amigo Henrique Mantero, a quem testemunhamos o nosso agradecimento.
(2)Veja-se o folheto publicado pela própria Companhia, intitulado A Companhia do Nyassa -Factos e Documentos, Lisboa,1928, donde se colhe abundante e firme notícia do que foi a acção daquela Companhia.
(3) Vide Catálogo da Casa Liquidadora, Lisboa, 1902, pág. 44.

Todavia, a sua história pormenorizada fê-la 4 anos depois o fervoroso numismólogo Ma nuel Joaquim de Campos, quando há meio século, as publicou  no  O Archeologo Portuguez (1).
Mais tarde , em 1946, volta o Engº Raul da Costa Couvreur referir a essas moedas,de 20 réis  e de 10 réis, descrevendo com minúcia contabilística o número das que foram cunhadas e das que se pressupõe se nnão chegaram a fundir, mas com evidente desconhecimento das descrições anteriores, nomeadamente de Manuel Joaquim de Campos, a que não refere (2)
No entanto, todas essas notícias dizem respeito unicamente às conhecidas moedas de cobre de 20 e 10 réis.  (3) não havendo sequer uma alusão ou hipótese a outros valores, que poderiam completar a série das moedas mandadas cunhar pela majestática Companhia do Niassa. Por isso que a descoberta dum ensaio para a moeda de prata  dessa mesma série, foi por nós acolhida com alvoroço.
Assim, foi com surpresa que descortinámos, dentre um conjunto de espécimes do numerário que deveria circular nos territórios da Companhia do Niassa um ensaio e chumbo, uniface, da moeda de 500 réis!
Do mesmo modo dos 20 réis, e semelhantemente dentro dum círculo de pontos a legenda, separada do tipo pelo círculo liso: COMPANHIA DO NYASSA CABO DELGADO, 1984. Ao centro, uma torre circular, com largas ameias, entre a indicação do valor: 500 --REIS . Este cunho foi batido sobre um disco irregular de chumbo, onde a gravura se increstou com toda a nitidez.
À asserção de que se trata dum ensaio duma moeda de prata provém, evidentemente, do módulo que se ajusta ao dos Cinco Tostões do reinado de D. Carlos (de prata), ou seja, como convinha, o ensaio duma moeda que deveria entrar em concorrência com os quinhentos réis do reinado em que deveriam ter sido cunhadas.(4) 

(1) Sob a epígrafe: Moedas illegais destinadas à África Portuguesa, VolXI, 1906.

(2) Cfr. Boletim, da Sociedade de Geografia de Lisboa, nº 1-2, 1946, de que se fez separata.

(3) Cujos Rev, são idênticos aos Anv., não se podendo distinguir um do outro !

(4) O aparecimento deste novo valor da amoedação de Cabo Delgado faz-nos supor que a ideia seria de complementar o numerário da Companhia, semelhante ao do Estado Português. E como se  não contentaram com a moeda divisionária a que pertencem os conhecidos exemplares de 20 e 10 de cobre, uma vez que nos aparece o ensaio dos 500 réis, isso faz-nos supor que outros valores deveriam existir ( tais como os 200, 100 e 50 réis) para que ficasse completo o sistema monetário da Companhia do Niassa, à semelhança do da Metrópole,

Junto desse ensaio que descrevemos, encontramos outro da moeda de 20 réis, cunhado sobre uma placa de chumbo, e de configuração semelhante ao daquele. Completavam o conjunto alguns exemplares das próprias moedas de cobre de 20 e de 10 réis (1)
O aparecimento da torre circular com ameias, que figura neste precioso ensaio, e que igualmente encontramos nos selos daquela Companhia, ligada à designação de Cabo Delgado, levou-nos a supor, com justificada razão, que existiria presumivelmente, naquele Cabo, alguma torre, a que estes documentos aludiriam.
Todavia, por mais voltas que déssemos, consultando bibliotecas e pessoas conhecedoras do local, não conseguimos obter qualquer informação segura, que permitisse corroborara nossa suposição.
Teria a torre existido? e demolida pelos trabalhos de Porto Amélia, feitos pela Companhia?..
Dentre as pessoas consultadas, salientamos o Sr. Conselheiro Drº Ernesto  de Vilhena, último Administrado da  Companhia do Niassa, que me disse não  ter conhecimento de nenhuma torre nos territórios da Companhia (2).
Resta-nos admitir a hipótese que se tratasse de qualquer símbolo imaginário criado pelo antigo Gerente, Sr. Wilson, autor da genial ideia da amoedação de que nos ocupamos, assim como dos selos a que igual modo acima nos referimos.
A falta de menção nos documentos (3) deste novo valor das espécies monetárias de Cabo Delgado, deve provir de se não ter chegado a cunhar, e as referências dizerem respeito somente às espécies enviadas para Moçambique  a fim de correrem nos territórios da companhia do Niassa,
Como quer que fosse, aqui fica a notícia dum valor inédito dessa efémera amoedação de Cabo Delgado.
Como os maus exemplos se imitam facilmente, outros dois casos de amoedação particular na Província Ultramarina de Moçambique se deram posteriormente àquele, e a que em outra oportunidade nos referiremos nesta presente Revista da Sociedade Portuguesa de Numismática.
(1) Todos estes espécimes provêm dum ilustre titular que as possuía, como descendente dum dos Administradores dessa famosa Companhia do Niassa; e actualmente o ensaio de 500 Réis, que tivera sido adquirido pela Casa Bancária Almeida, Basto  Piombino &Cª , de Lisboa, encontra-se na posse do coleccionador da Capital, Jorge Ribeiro Borralho.

(2) Ao ilustre Administrador dessa antiga Companhia devemos o obséquio de nos haver oferecido o seu interessante e valioso trabalho acerca daquela famosa Empresa, intitulado: Relatórios e Memorias sobre os territórios da Companhia do Nyassa, Lisboa, 1905, a quem testemunhamos o nosso reconhecimento.

(3) Referimo-nos nomeadamente à publicação oficial do Ministério da Marinha e Ultramar, levada a efeito na imprensa Nacional, dos Decretos, Portarias, Regulamentos e mais Diplomas da Companhia do Nyassa, Lisboa, 1897



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