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Livros da guerra colonial

Miandica terra do outro mundo


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

MEMÓRIAS DUM MECÂNICO DE ALOUETTE EM MOÇAMBIQUE POR ABDUL OSMAN

O Alouette III sobre a estepe africana
Fui ao jantar dos Índios (NR: Esquadra 503 - Moçambique) em Monsanto em 2004, o meu primeiro encontro com muitos elementos da esquadra que não via há muito tempo. Alguns havia 28 anos.
Entrei, começo a olhar. Quem é quem? É? Será?...
Alguns vou reconhecendo: Queiroga, Azevedo, Braga, Barbosa, Branco, Carreira (que já tinha encontrado em Sesimbra no Verão de 80 e nunca mais nos vimos), Branco que encontrava muitas vezes no cacilheiro) Magalhães, Tavares, Mourão, Oneto, Ferreira Neto e muitos elementos que não reconhecia...
Distribuímos-nos  pelas mesas e oiço o meu amigo Oneto a dizer : "Abdul, passaram-se muitos anos, procurei por ti e nunca soube onde paravas... queria dizer-te uma coisa, que ainda hoje está aqui guardado. Tenho a dizer-te: nunca vi uma pessoa com tanta coragem, como tu tiveste numa evacuação que fizemos na picada do Sagal. Ainda hoje estou a ver-te a andares na picada, com a maca debaixo do braço e debaixo de fogo. Os paraquedistas tinham caído numa emboscada e tinham um elemento ferido,  que foste buscar.  Com um "pára" que estava entrincheirado, os dois meteram o ferido na maca e carregaram-no até ao helicóptero. Nunca vi um ato de coragem tão grande."
Depois de ouvir o que ouvi, pensei "eu fiz isto?!" Fiz tantas evacuações, fui a tantos buracos, a tantas picadas fazer evacuações... Aliás nunca fui sozinho, tinha de ir com um piloto. O risco era sempre dos dois. Passados dias fui à minha caderneta de voo, procurei a data dessa evacuação que foi a 9 de agosto de 1974  (Mueda - Picada do Sagal - Mueda; 15 minutos). Está registado que no dia 9 de agosto fizemos voos operacionais (evacuações) de Mueda para Sagal e volta.
Meu amigo Oneto: se houve um ato  heróico da minha parte, esse ato não foi só meu, mas também teu. Meu por lá ter ido buscar o ferido e teu por estares dentro do helicóptero, à espera. Eras um alvo fácil e durante o tiroteio podias ter sido atingido. Felizmente nada aconteceu. "Alguém" nos protegeu e cumprimos com a nossa missão, que era salvar mais uma vida...
Tinha a minha caderneta de voo bem guardada. Quando lhe mexi, ao ler as datas e locais para onde voei, as recordações começaram a surgir e… vou passar para o papel todos os momento que posso recordar.
Novembro de 1971, estava eu em Lourenço Marques, depois de ter estado dois anos lectivos em Tomar. Na conversa com um dos muitos alunos da Escola Industrial, decidimos ir para a Força Aérea Portuguesa (FAP). Queríamos tirar o curso de mecânico de aviões. Esse era o nosso sonho.
Fomos buscar as papeladas e falei com o meu pai, dizendo que queria ir para a FAP pois queria ser mecânico de aviões. Como já tinha os papéis preparados, assinou mas foi dizendo que não gostava muito da ideia.
Em Dezembro desse mesmo ano, fui à inspecção e em Janeiro de 1972, partimos para a Beira para a BA10, onde estivemos uma semana à espera de embarque para Portugal. Depois de uma semana à boa-vida, embarcámos no Boeing 707 da FAP. Nesse voo, veio pessoal que já tinham feito a comissão, outros que iam de férias e uma série de feridos que estavam a ser evacuados. Chegámos a Lisboa de madrugada e numa carrinha, fomos para a Base Aérea nº2, Ota. 
Aí começámos a recruta e em Março fizemos Juramento de Bandeira. Entrámos uns dias de férias e no regresso, sei que não vou para o curso que tinha pedido. Enviaram-me para o curso de comunicações. Chumbei logo no 1º período, pois não conseguia apanhar morse, aquela coisa de traço ponto, ponto, ponto traço etc.

O curso de Mecânicos de Material Aéreo na BA2
Acabei por ir para o que queria, o curso de MMA (Mecânico de Material Aéreo). No fim do curso, em maio de 1973, venho a saber que tinha ficado em 45º lugar entre 60 elementos. Então não?! Pouco estudava, queria passar fins de semana em Lisboa e matava muitos" reforços" (serviço de sentinelas que os instruendos tinham de fazer). Assim ganhava umas coroas.
Tal como os últimos quinze elementos, tinha de ir tirar o curso de helicópteros. Fiquei magoado. Fiquei chateado. Não queria ir para os helicópteros, pois nessa altura ou um pouco antes, tinha sido abatido um helicóptero em Moçambique com seis comandos a bordo. Nessa noite, depois do jantar fui para o bar apanhar uma piela e só dizia "esses fdp querem mandar-me para a morte", até que tive de ir para a cama completamente "anestesiado".

De volta do Artouste IIIB na BA2
Passados dias, lá nos enviaram os quinze para as OGMA em Alverca. Já estava mais perto de Lisboa. Não sei porquê, comecei a gostar de conhecer o Alouette III (ALIII) e fui interiorizando o gosto pela máquina. Fiquei em segundo lugar e houve quem chumbasse, pois não queriam nada com essa máquina. Penso que fomos dez elementos estagiar para BA3 em Tancos. Uns foram para a manutenção, outros para a linha da frente durante uns tempos. Depois  trocávamos. Fui para a linha da frente primeiro, onde conheci muitos mecânicos que já tinham feito a comissão, por isso já tinham bastante experiência. Ouvi muitas histórias. Histórias do que o mecânico e o piloto passavam durante o voo. Comprei um bloco de bolso e "encostei-me" ao mecânico Raimundo, que ao princípio não queria ensinar os segredos da máquina, mas lá acabei por o convencer. Ensinou-me todos os segredos que sabia. Eu fartava-me de tomar nota dos tipos de avaria, o que deveria saber e as causas.
Geralmente as avarias eram no arranque.
Depois do estágio fui colocado no Montijo à espera de embarque para Moçambique. Acabei por embarcar no dia 9 de Outubro de 1973 e chegar (a Moçambique) a 10 de Outubro.
Com o curso de manutenção e linha da frente de ALIII e Artouste IIIB (motor) e com o meu bloco de notas, estava pronto e convencido que iria parar a Tete ou a Nacala. 
Entretanto, enquanto espero colocação e estou sem fazer nada na BA10, para matar tempo vou indo ao hangar onde estavam dois helicópteros e começo a conversar com o mecânico que lá estava, o Carlos Alberto, mais conhecido por Joe, a quem tinha dito que tinha o curso de helicópteros. 
Num domingo o Joe vem à minha procura e pergunta-me se queria ir voar. Fazer uma evacuação. Eu disse logo que sim e não pensei em mais nada. Fui voar. Estava nas "minhas sete quintas". 
Fomos para a Cabeça de Carneiro e depois para uma largada de tropas. Isto com dois helicópteros. Passado um bocado, vem um com um cadáver de um soldado, que tinha levado um tiro na nuca e a parte da frente do pescoço tinha desaparecido. Quando vi fiquei impressionado. O Joe veio ter comigo e disse para me ir habituando que isto não era nada. 
Trouxemos o morto até à Beira.



As evacuações de feridos e mortos em Alouette III

Passados alguns dias,  qual não é a minha surpresa: sou colocado na BA10 – Beira. Bem bom, longe da guerra... e a lavar os trens de aterragem dos Nord´s.
Não, não era trabalho para mim. Queria mais, queria viver as histórias que tinha ouvido em Tancos. Era jovem, queria aventuras, queria saber se era verdade o que tinha ouvido.
Por não saber estar calado, tinha mesmo que dizer a todo a gente que tinha o curso de helicópteros. Tinha saudades de voar e o "prémio" foi ir para a Esquadra dos "Índios". A 27 de Outubro de 1973 fui por isso transferido para a Esquadra 503.


Fui da  Beira  para Nampula e depois  Nacala, para apresentar-me. Voltei depois a Nampula, onde estava sediada a Esquadra 503. Dois dias depois estava em Mueda.
No dia que cheguei a Mueda, apareceram os mecânicos e o pessoal todo, para ver o Cheka que tinha acabado de aterrar e para dar as boas vindas.
Levo a minha tralha para o quarto e volto ao hangar. Assim que lá chego e sem tempo de conhecer o Aeródromo de Manobra (NR: AM51), vou com outro mecânico para ser "largado".
Ia com muita energia, cheio de muita vontade de saber e de ver. Curioso com o que ia encontrar. Todo operacional lá vou. Chegamos ao "buraco" (local onde se podia aterrar num matagal que era feito pelo exército). Ainda estávamos altos. Saltei com a maca enquanto o héli aterrava. Com a maca aberta e com o ferido, voltei a entrar no héli, quando vejo a cara do ferido. Tinha um lençol a tapa-lo e ao querer levantar-se, destapou a cara. Fiquei em choque. Via dois buracos no lugar onde em tempos foram os olhos. O cheiro de sangue, pólvora e vomitado. Fiquei sem energia.

Alouettes no AM51 - Mueda
Toda aquela vontade de ajudar que possuía, tinha desaparecido naquele instante. "Meu Deus onde me vim meter!"
Enquanto pensava nisso, agoniado, com vontade de vomitar, puxei pelo meu chapéu e tentei vomitar. Não consegui. Entretanto o ferido queria levantar-se e eu comecei a dar-lhe palmadas no braço, para acalma-lo, para ele sentir que alguém estava perto. Passado pouco tempo estávamos no hospital de Mueda. Enquanto tirávamos o ferido, ele estremeceu e penso que deve ter morrido nessa altura. Regressámos ao AM (mais tarde soube que tínhamos ido para perto de Mocímboa do Rovuma). Eu sem forças, desiludido, só pensava que tinha de passar dois anos naquilo. Eu tão novo, com 20 anos. A minha juventude a ser enterrada na guerra.
Nessa noite fui "julgado". Não tinha vontade de nada, mas tive de aguentar e pagar as bebidas ao pessoal. Habituei-me e depressa. Só tinha que aguentar, pois ninguém iria pôr a minha vida cor de rosa. Estava na guerra.
No dia seguinte, fui ao quartel do exército à procura do meu irmão mais velho acabei por encontrá-lo e a outros amigos da minha infância. Uma surpresa.
Com as voltas todas que tinha dado - Nacala, Nampula - acabei por deixar um par de botas em Nampula. Restavam-me as botas mais usadas, roupas e um par de sapatos. Em Mueda as botas começaram a abrir pela frente e não fui de modas. Toca a cortar a borracha da base e acabo por andar com meia borracha. Que esperteza!!! Tinha de esperar uns tempos até voltar a Nampula, mas não deixei de usar as minhas botas.
No sexto ou sétimo dia, fui fazer uma evacuação a uma picada e trouxemos um soldado morto. Olhei para o par de botas que vinham em cima da maca. Falei com o piloto, mostrei-lhe as minhas botas e não estive com meias-medidas, toca a trocar. Acabei por fazer a comissão com esse par de botas.
O jornalista italiano, Ciancarlo Coccia, vítima de uma mina
Muitas evacuações, reabastecimentos e muitos voos fiz até ao Natal. Voávamos quase todos os dias, era raro não haver movimento no AM. Lembro-me dum fotógrafo italiano que andava com os comandos e com a tropa no mato a fotografar. Várias vezes o encontrei nas evacuações. Numa dessas evacuações, na estrada que ligava Macomia a Chai, numa coluna, uma viatura tinha pisado uma mina anticarro e esse fotógrafo acabou por ser ferido e evacuado.
Quantas vezes estava a almoçar e como estava de serviço tinha de ir, tinha de interromper o almoço. Avisava o cozinheiro que não tinha acabado de comer e ele preparava um bife quando regressasse. Mas por vezes a comida…
A 31 de Dezembro de 1973, preparámos petiscos para a passagem de ano. Fizemos uma festa no nosso quarto, outros faziam festa noutros locais (no abrigo, no bar). Eram 6 da manhã quando tivemos de ir fazer uma evacuação (foram dois ou três hélis) perto de Mueda, numa picada que passava por Nancatari. Uns elementos do exército tinham saído de Mueda e tinham ido a Nancatari, levar coisas para os elementos do exército que lá estavam. De regresso foram apanhados por minas ou emboscada. Houve quem visse (Camolas) e mais elementos do AM, pois estavam em cima do depósito de água e conseguiam ver tudo à volta. Deram logo o alerta e aí fomos nós. No meu helicóptero, trouxe um morto. Um enfermeiro, que uma explosão tinha separado o braço do corpo, pelo ombro.
Depois desse dia, até eu sair de Mueda, eram baixas todos os dias. Nas picadas de Pundanhar, Nazombe, Tomba de Nairoto, Omar, Sagal, Mocímboa do Rovuma. 
Muitos foram os locais por onde voei, quer em evacuações quer em reabastecimento.

Voo em formação de AL III da FAP algures em África     
A 15 de Janeiro de 1974, o Cap. Castelo diz-me para fazer a mala, pois a minha parte dessa comissão estava feita e iríamos para a Beira. No dia seguinte iria com ele num heli. Dia 16 de Janeiro, partimos para Nampula, com uma aterragem em Porto Amélia, para reabastecermos. Chegámos a  Nampula onde estive uns dias. Dez dias volvidos, arrancámos para a Beira com mais quatro helis, para efectuarmos heli-operações em vários locais, perto da Gorongosa, Carneiro, Vila Paiva de Andrade, Vila Gouveia etc. Voltei para Nampula e pensei "lá vou de novo para Mueda".
Acabei por não ir. Dois dias mais tarde, partimos para novas operações, mas dessa vez fomos para Vila Cabral, zona do Niassa. Fui avisado que iria fazer um destacamento de um mês nesse local. Acabei por ficar mais tempo. Saí de lá em maio de 1974.
Depois das heli-operações fiquei em Vila Cabral a substituir o F. Nunes, que já estava com nó (anos mais tarde fomos vizinhos na Cova da Piedade).

As "Mamas da Gina" -  

Lá fiquei, fui conhecendo as áreas, as serras Cornos de Unango, Mamas da Gina (NR: existiam várias formações montanhosas na zona de Unango batizadas segundo as estrelas de cinema da época - Gina, Sofia e Brigitte). Fiz inúmeras evacuações, reabastecimentos e caça grossa. Como éramos mais finos, caçávamos de heli, quando vínhamos de alguma missão.

O transporte de caça no regresso duma missão em AL III      
Conheci o famoso Daniel Roxo. Voámos muitas vezes para a milícia dele. Fazíamos evacuações e reabastecimentos. Recordando o Daniel Roxo, vêm-me à memória duas evacuações que fizemos para a milícia. Estávamos sossegados no AM, quando aparece o Daniel Roxo, a pedir que fossemos evacuar um elemento da milícia dele que tinha sido mordido por uma cobra. Lá fomos, depois de nos terem dado as coordenadas. Não conseguimos encontrar a milícia, que estava no mato, nem conseguimos estabelecer contacto com essa milícia. Resultado: regressámos. No dia seguinte, o Roxo vem ter connosco e traz um milícia para nos indicar onde estava a vítima que tinham deixado para trás. Fomos ao hospital, buscar um enfermeiro para prestar os primeiros socorros. Quando descolávamos, reparei que o mesmo dizia adeus às enfermeiras todo sorridente e lá fomos os quatro: eu, o piloto, o enfermeiro e o milícia.
Localizámos o local onde a vítima estava, abri as portas, disse ao enfermeiro para se preparar enquanto íamos buscar a vitima. Saí, retirei a maca e sem pensar nas consequências, se havia minas ou outras armadilhas e meti-me com o milícia pelo mato adentro. Colocámos a vítima  na maca e fomos directos para o heli. Descolávamos, quando reparo que o enfermeiro está mal disposto. Olhei para a saqueta da injeção com instruções, enquanto o enfermeiro estava a injetar o anti-veneno ao milícia, à volta da mordida (que eram dois buracos), não fosse ele incapaz de aguentar… Passado um bocado, o nosso amigo enfermeiro vomitava para cima do soldado que estava na maca. Chegados ao hospital, enquanto esperava pela maca, pedi um balde com água e dei um banho no interior do heli. O resto, teria que ser limpo no AM.
Passados tempos, vejo o Roxo no AM e pensei "lá vem desgraça" (lembrei-me de Mueda do amigo sinistro - sempre que havia evacuações o nosso soldado aparecia).
Era mais uma evacuação. Tínhamos de ir ao mato com o Daniel Roxo buscar um ferido. Quando chegámos ao local, era um ferido e um morto. 
Mais tarde soube que a milícia do Roxo tinha entrado num acampamento inimigo e a baixa tinha sido por causa de uma armadilha. Tinham metido uma granada por baixo duma camisa, que estava presa a uma árvore. O soldado viu a camisa, puxou e... BUMMM.
Alouette III com T-6 em fundo 

Março de 1974   

Depois de um voo e de preparar o heli para nova missão, saímos para jantar, eu o Zé Grande, o Barbosa e o Azevedo.
Como era o nosso costume, íamos à cidade ao restaurante Miralago comer o “Frango à Miralago”, beber tintol e ir ao cinema. O mesmo filme era projetado durante uma semana e como todos os dias íamos ao cinema era um fartote. “A mania das grandezas “cujo ator era o Luí de Funés “. Era para a "desgraça". Até entravamos a marchar! Era um gozo. Era bom, descomprimíamos a tensão depois de um dia de voo.
Numa dessas noites estava eu a dormir e comecei a sonhar que estava na placa do AM (NR: Aeródromo de Manobra) de Vila Cabral e ouvia o som do helicóptero. Ouvia o bater das pás, mas não o via e de repente ouço uma explosão e não ouço mais nada. Acordo a transpirar e cheio de medo com o coração a bater muito depressa. Acabei por sossegar e dizer para mim que era um sonho. Não comentei com ninguém e deixei andar, tinha sido um sonho. Só consegui adormecer horas mais tarde. 

O helicanhão     
Passado tempos, fazemos uma nova operação em Tenente Valadim, pois a zona de ataque era numa zona chamada Serra Cortada, onde o inimigo estava. Dou saída ao helicanhão que era pilotado pelo Cap. Castelo e levava como atirador o Sarg. Vaz Carvalho (o sonho vem-me à memória). Durante a largada o helicanhão dava protecção à tropa e aos helis. Como tal, tinham de se meter no fogo do inimigo. 
O helicanhão é atingido. Ao retirar o atirador à chegada, sinto o cheiro de pólvora e carne queimada. É um cheiro característico. Penso de imediato. O Vaz foi atingido e queixa-se de uma perna. Foi evacuado para Nampula. 
Finda a operação voltamos para Vila Cabral. 
Há uma nova operação em Niassa. Quando soube que a mesma ia ser repetida e era para o mesmo local, preparei tudo que era necessário para a operação: óleos, massas, macas e ferramentas. 

Linha da frente de AL III em África         
Chegam quatro helicópteros e no dia seguinte, partimos para as novas operações para a Serra Cortada. Entretanto, surge o mau tempo e acabamos por ficar no aquartelamento em Tenente Valadim. 
Enquanto aguardávamos que o mau tempo levantasse, ficámos a jogar às cartas, então o que eu gostava jogar: à Lerpa. Não me recordo de todos os jogadores, mas era eu, o Mendonça e o Manel da milícia do Roxo, que estava a perder muito até à hora do jantar. Depois de bem comer e beber, regressamos às cartas. Nessa altura, a minha sorte mudou: comecei a ganhar. Consegui ter um saldo positivo. À meia-noite acabou-se o jogo. Não perdi, também não ganhei muito. Ficámos todos satisfeitos. Aguardávamos o dia seguinte. 
Que foi feito desse tal Manuel? Era engraçado quando contavam as histórias dele. Lembro-me que o queriam promover a alferes e ele recusou-se pois preferia ser sargento, que tinha mais riscos.
Às seis horas da manhã já estávamos no refeitório a tomar o pequeno almoço e depois fomos para a pista preparar os helicópteros e os T-6. Foi uma noite mal dormida, em cima duma espécie de colchão.
As minhas máquinas (helis) eram o helicanhão e um de  transporte que estavam em Vila Cabral. Começo por dar saída ao canhão que era pilotado por Cap. Fernando Castelo e o atirador era o V. Carvalho. Pensei que ia haver vingança da operação passada. Fizemos a inspeção antes de voo, depois de darmos a volta à máquina. O capitão senta-se e coloca o cinto de segurança e eu verifico e bloqueio o cinto. Digo que o cinto não estava bloqueado, o capitão faz um sorriso e pisca o olho. Desbloqueia como quem diz que "está tudo bem". Largo o heli depois de ver se tinha fugas, quer de óleo quer de combustível. Como estava tudo bem, por sinais digo ao Castelo que estava tudo bem e vou para outro helicóptero, faço as mesmas operações e dou o OK.
O heli do Castelo, é o primeiro a descolar. Depois vão todos os outros. Quando o último descola, ao ouvir o som dos helis, recordo-me do sonho que tinha tido. 

As evacuações de feridos e mortos em AL III       
Passados minutos, aterra um helicóptero a dizer que o Capitão tinha sido abatido. Eu não acredito! Afinal o sonho estava a realizar-se. Sou dos primeiros a querer ir para o local da queda. Não deixam. Vai um outro mecânico (Mendes) que é largado no local da queda e retiram o atirador mais uma vez ferido e o corpo do Capitão.
Retiro o corpo do Capitão do heli à chegada. A maca é colocada no solo. Olho para o corpo. Só se ouve o barulho dos helicópteros e dos aviões no ar. O vento sopra e agita a ponta dos bigodes do Capitão. Fico a olhar. Um fio de sangue seco no canto da boca. Uma raiva de revolta surge em mim. Penso em tudo. Quero vingança. O meu Capitão está estendido numa maca e morto. MALDITOS! Isso não vai ficar assim penso eu, mas não estava tudo nas minhas mãos…
Começo a voar com pistola e a minha metralhadora uma Pepshaware (arma capturada ao inimigo). Passado poucos dias, devolvo a pistola, pois só me incomodava. Preferia ter a metralhadora. Saio com o Barbosa para uma evacuação de “zero horas". A rapar as copas das árvores, passamos por Nova Viseu e vamos à procura do local para efectuarmos a evacuação, pois as coordenadas eram para algures perto de Nova Viseu. 
Voámos para vários sítios. Enquanto procurávamos a tropa, que estava no mato, bem os tentámos encontrar através de chamamento da rádio: "terra, terra é a Mosca". Não conseguimos localizá-los. Voltámos a Nova Viseu para nos confirmarem o local, mas não conseguiram dar mais informações.  Regressámos por isso para Vila Cabral, e passados três dias voltámos para o local, com novas coordenadas. Conseguimos localizar o pelotão, aterrámos e quando ia sair com a maca, entregam-me um saco de lona ensanguentado e com um cheiro horrível, pois foram três dias à espera de ser retirado do local. 
Regressamos a Vila Cabral com um cheirete dentro do heli. Como tinha levado o meu desodorizante pusemos o lenço que trazíamos à volta do nariz e comecei a pôr o spray. Passámos o voo a gastar o meu rico desodorizante. Tinha sido bem caro,  tinha-o comprado em Nampula. 
Aterrámos no hospital. Como de costume, apareciam muitos civis e militares a quererem ver o que o heli trazia. E nós "mascarados". Era um voo diferente. 
Aparecem os maqueiros para retirarem a maca e eu entrego-lhes o saco como mo entregaram. Assim que acabo de entregar o corpo despedaçado dentro do saco, uma mulher pergunta o que era aquilo. Eu por linguagem gestual digo "o corpo de uma pessoa". 
A mulher abriu a boca e caiu para o lado. 
Fiz sinal para o maqueiro, a indicar a mulher caída. 
Regressámos à base de portas abertas, para não termos de aguentar mais o cheiro.
Os "buracos" em que muitas vezes os AL III se metiam      Foto: Autor desconhecido
Abril de 1974
 Estava no hangar e na conversa com outros elementos que estavam em Vila Cabral em comissão, quando surge o Braga a dizer que tínhamos uma evacuação de “Zero Horas” para fazermos. Com o heli preparado, e com um T-6 a proteger-nos, lá fomos para mais uma missão de Soberania. 
Depois de hora e pouco de voo, chegamos ao local da evacuação. Preparo-me para dar indicações ao piloto, quando noto que o espaço era muito apertado para conseguirmos entrar no "buraco". Eram árvores altas, uma delas estava seca e representava um perigo se batêssemos com as pás principais.  Transmito ao piloto que não dava para aterrarmos, ele responde que dá, eu aceitei, abri a porta, pus meio corpo para fora do heli e comecei a dar indicações para aterrar.
Aterramos e qual não é o meu espanto, quando percebo que o ferido era um inimigo. Vinha com o soro metido no braço. Meti-o no heli e começámos a descolar. Estava eu a dar indicações para sairmos em segurança, quando de repente ouvimos um estrondo e sentimos o heli a estremecer. Tínhamos batido com as (pás) principais. Foram frações de segundo. Olhámos um para o outro e rapidamente perguntámos "que foi esta merda?"...
O Braga ficou pálido, a voz sumiu-lhe e eu a mesma coisa. Tivemos sorte, conseguimos sair do "buraco" e com um barulho esquisito enquanto voávamos, comunicámos ao piloto do T-6 que estávamos com problemas. Responde ele que estava a ouvir o barulho das pás. Pensámos em aterrar algures, pois o heli estava com muitas vibrações e lá fomos até um aquartelamento no mato, para “Nova Viseu”. Enquanto íamos, verifiquei que a agulha do soro tinha saltado. Eu com a minha boa-vontade voltei a meter a agulha no inimigo. Nem quis saber se estava bem ou mal colocado, pois ainda estava com a revolta, raiva, pois a morte do capitão Castelo era recente e o sentimento de vingança estava vivo.

AL III e T-6 em formação sobre África       Foto: Autor desconhecido
Aterramos em Nova Viseu e somos rodeados pelos soldados que lá se encontravam. Saio do heli e faço-os recuar. Começo a ouvi-los a quererem saber o que se passava eu digo que trazemos um ferido, sem referir que era um inimigo.
Entretanto, chega o Alferes e nós comunicamos que trazíamos um inimigo ferido. Abro as portas do heli, e os soldados com pronúncia dos Açores começam a dizer “olha um turra, deixem-me matar esse fdp”. Entretanto, o alferes manda retirar o ferido para a enfermaria.
Vou ver o que tinha acontecido e verifico que na ponta das pás os saumons  (ver a parte laranja  na foto abaixo) estavam completamente rebentados. Viam-se os veios com contra-pesos. Estavam  com as pontas dobradas. Chamo o piloto e digo: "nem imaginas a sorte que tivemos, mais 2 cm para dentro e a pancada tinha sido nas pás e tínhamos ido desta para melhor".


O nosso protetor T-6 seguiu para Vila Cabral. Nós passámos lá a noite. Mataram um galo que lá tinham para o jantar e durante a refeição vieram muitas conversas, muitas histórias. Soube que numa das evacuações que fiz, o corpo completamente desfeito que vinha num saco de lona era a de um soldado que era o relojoeiro dessa unidade. Nessa noite soube o que tinha acontecido:
Durante uma operação de reconhecimento, o Alferes Ribeiro ia à frente e quando iam a chegar ao rio, o relojoeiro disse ao alferes que ele iria para a frente. Deu uns passos e logo se ouviu uma grande explosão. Tinha sido uma mina antipessoal, reforçada com uma mina anticarro. Tiveram que recolher os bocados do corpo que estavam espalhados pelas árvores (fizemos a evacuação quatro dias depois do jantar, tivemos de ir para a pista, pois tinha sido pedido uma evacuação a uma empresa de táxi aéreo, que apareceu para levar o ferido (inimigo). Os soldados ficaram revoltados, pois se fosse com eles, tinham de aguentar que os helis ou aviões da FAP os viessem evacuar. A psicologia estava a funcionar. Os nossos militares tinham de aguentar e o inimigo não. Tínhamos de mostrar que não estávamos ali para os matar  (por isso o avião civil para evacuar o ferido).
Enquanto esperávamos pela manhã, ouvíamos as aventuras e momentos desse pessoal. Uma delas  ficou-me na memória, pois fartei-me de rir:
Eram os inimigos a gritarem para os soldados, a dizerem para irem embora, porque "a terra não era deles" e "o que estavam lá a fazer". Respondiam os nossos soldados com sotaque açoriano: "turras excomungados" que "largassem as armas", etc. Quando havia ataques à morteirada, os soldados só ouviam as explosões a quilómetros, pois o aquartelamento estava entre dois montes e o inimigo ao lançar morteiradas, atirava para outra colina e vice-versa.
Nessa noite, ficámos à espera de um ataque do inimigo, pois um heli destruído era sempre um troféu apetecido. Fui tentar dormir, não consegui, sempre com um olho aberto e outro fechado em estado de alerta à espera da manhã.
No dia seguinte, pela madrugada, depois de tentar tirar os restos dos saumons, para evitar muitas vibrações, o que era impossível. E eu a imaginar a porca e os contra-pesos a saltarem durante o voo e nós a batermos com o "focinho" no chão. O que vale é que foi só imaginação durante o voo. Chegados a Vila Cabral, passados dois dias, já o heli já estava operacional. Tinham sido enviadas de Nampula as três pás para substituir.
Nunca senti uma sensação como aquela. Foram uns segundos em que a minha vida esteve por um fio. Anos mais tarde vim a saber o que tinha acontecido: as árvores eram altas e a deslocação de ar, fez com que as copas das árvores fechassem e criassem um vácuo… e na descolagem o heli ia perder a sustentação.

Sempre com a protecção do T-6, dias mais tarde fomos fazer reabastecimento à tropa que estava no mato, perto de Tenente Valadim e de regresso, passámos pela picada que liga Tenente Valadim, Nova Viseu a Vila Cabral. Vejo uma série de inimigos na picada, digo ao piloto que podíamos fazer uma passagem e fazíamos fogo. Só que o piloto preferiu comunicar ao T-6, que fez uma rapada e disse que não viu nada.
Nessa noite em Vila Cabral e depois de um jantar bem regado no Miralago, fomos ao cinema ABC e qual não é o meu espanto, ao ver o Alferes Ribeiro de Nova Viseu e uns soldados. Fomos ter com eles que nos disseram que tinham vindo de coluna, buscar abastecimento para o aquartelamento. Disse-lhe que tinha visto uns inimigos na picada, em determinado local, perto de uma viatura Berliet, que estava destruída. Para estarem atentos. 
Passados dias tivemos de ir a Nova Viseu. Mal saí do heli, fui rodeado de soldados a agradecerem o meu alerta, pois tinham tirado da picada oito minas anti-carro!


Como sempre, o pessoal dos helis, tinha de estar continuamente de prevenção. Nunca sabíamos quando éramos chamados para uma evacuação, nem onde.
Eu, o Zé Grande, o Barbosa e o Azevedo mais conhecido por Zbdum (estes últimos eram pilotos), estávamos em destacamento em Vila Cabral.
Pela altura da Páscoa, estávamos a limpar o guincho do helicóptero, quando o Pimpão (piloto de T-6) diz que vai fazer acrobacia aérea e descola. Começa a subir, depois começa a exibição. Passados 5 minutos vemos o avião entrar a pique a rodar sobre si e dissemos "está a cair, ele não vai aguentar". Deixámos de o ver, ouvimos o barulho do motor e logo de seguida um violento estrondo.
Pusemos o heli em marcha, veio um piloto e com mais elementos fomos até ao sitio onde tinha caído o T-6. 
Cheguei perto, chamei pelo nome do piloto, quando vejo o capacete vermelho dentro da carlinga e um bocado mais atrás a asa por cima. Voltámos para ir buscar mais pessoal e a maca, o Zé Grande disse que era a vez dele ir…
Mais um amigo que tinha "partido".
Conheci o Pimpão em 1969. Estudámos na Escola Industrial e Comercial de Tomar. Ele no curso de electricista ou carpintaria, eu no curso de serralheiro. Foi nos anos 69/70 e 70/71, quando estive no Colégio Nuno Álvares e tinha aulas no exterior, pois queria frequentar o curso industrial.
A História não acaba aqui. Quem sabe se um dia mais tarde volto a pegar na caderneta de voo e…

Texto: Abdul Osman, Ex-MMA






segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

SETE e DEZ

Base da Frelimo Micuinha a arder
Aquele dia estava prestes a findar. Para nós.
O sol inclemente que durante toda a jornada nos tinha
castigado começava a dar tréguas.
O maldito saco que trazia às costas parecia pesar toneladas e
fazia que o casaco camuflado se colasse às costas ensopadas de
suor e poeira.
Com os olhos embaciados e molhados pelas gotas de
transpiração que qual nascentes desciam pela testa até aos olhos,
boca e pescoço para finalmente desaguarem no meu alagado peito,
olhei para o imenso mar de capim ondulante que nos rodeava.
Naquela época do ano o capim estava já amarelecido o que
me fez lembrar imensas searas de trigo maduro.
As poucas e raquíticas árvores que se mantinham de pé
pareciam fantasmas com grandes braços acenando para aquele
punhado de homens que indiferentes nem tinham vontade de
retribuir tal saudação.
Mais á frente a alguma distância dali descortinei algumas
árvores, estas com folhagem verde pelo que imaginei haver por ali
algum resquício de regato.
E havia.
Deparámos com o leito de um pequeno ribeiro onde restavam
uns pequenos charcos de água. Pela quantidade e variedade das
pegadas existentes à volta daquelas poças, muitos animais
certamente disputavam aquele precioso líquido. As árvores
formavam uma abóbada de verdura e frescura e após conferenciar
com os outros graduados resolvemos passar ali a noite.
O dia tinha sido bastante cansativo. Tínhamos sofrido alguns
esporádicos ataques e flagelações á distância e certamente
estaríamos a ser seguidos. Por isso todos estávamos tensos e a
noite seria boa companheira para aliviar tensões.
A segurança foi organizada e depois de me certificar que
estavam todos bem, finalmente sentei-me.
Era tempo de jantar….
À minha volta os companheiros tagarelavam animadamente
como era habitual enquanto se desenvencilhavam das tampas das
latas de conserva. Alguns trocavam entre si vários tipos de ementas
Jantar! Há quanto tempo era a mesma ementa? Porra. Que
saudades da galinha de churrasco das cantinas ….
Abri o saco, revolvi as várias latas que me restavam e fui
lendo os rótulos que eu já conhecia há muitos, muitos meses.
Algumas conservas eram compradas á África do Sul, e logicamente
vinham em inglês….”Corned beef”…. “Stew vegetable beef”….

Estou farto destes enlatados ... mas tenho que os comer
Estava farto daqueles enlatados. Farto e enjoado, diga-se.
Encontrei uma carcaça, rija como corno e lentamente fui
trincando pequenos pedaços do pão. Para ajudar ia bebendo
pequenos goles de água. Sempre ajudava a ensopar.
Enquanto mastigava olhei para aquele grupo disperso. A boa
disposição tinha voltado passado que foi a dureza da jornada. Ao
olhar para aquelas caras tisnadas pelo sol de muitos meses, as
barbas de vários dias por rapar, dei comigo a pensar, “Que é feito
daqueles rapazinhos que um dia nos reunimos em Penafiel para
constituir a Companhia?”
Desses rapazinhos, nada restava. Passaram a homens de
uma forma cruel. Já nada restava da juventude perdida. Perdida
naquelas matas do norte de Moçambique. Recordei um dia em que
o Dias, um rapaz que estava a passar por grandes dificuldades
psicológicas me olhou fixamente e perguntou: - “ Furriel… és
casado?” – Respondi não. – “Tens namorada?” – Voltei a
responder, não.
Continuou a olhar, abanou negativamente com a cabeça e
disse, - “ Estás velho! Depois desta merda, já não vais encontrar
ninguém que te queira… “
A alguns metros de mim, o Ruben Chongo, um dos africanos
do meu grupo tinha tirado do saco todas as latas que lhe restavam.
E reparei que eram todas de salsicha. O rapaz olhava para elas
com um ar desiludido. Lembrei-me que a sua religião proibia o
consumo de carne de porco. E as salsichas eram de …. Carne de
porco!
Interroguei-o com um aceno de cabeça como quem diz, “ que
se passa pá?”. Encolheu os ombros, resignado. Ele nos dias
anteriores foi comendo as de carne de vaca e restavam-lhe as
“proibidas” pela religião.
Dei-lhe as que tinha.
Acabei a “refeição” bebendo uma lata de leite com chocolate.
Para acabar mesmo em beleza, chupei um dos grãos de café
que vinham numa pequena embalagem na caixa da ração de
combate.
Verdade!
Cada unidade de ração trazia os dois grãos de café. Um para
o almoço, outro para o jantar. Ah! Além do papel higiénico….
A noite já era uma realidade.
Sentia-me cansado. Não me apetecia falar. O Alves, perto de
mim, ainda tentou conversar, mas não estava com disposição.
Olhei para o relógio. Marcava seis e meia.
Os meus pensamentos naquele momento voaram para muitos
milhares de quilómetros dali.
Lá longe, na Metrópole, como se dizia, as pessoas
começavam a regressar a suas casas. Daí a pouco seriam horas de
jantar e nas cidades e aldeias os pais iam chegar a casa e abraçar
as mulheres e os filhos.
E nós ali, perdidos algures no meio do Niassa, longe de casa,
da família, dos amigos, sei lá, longe de tudo!
E novamente me senti cansado.
Aconcheguei a velha manta em redor do corpo e aspirei
profundamente. Chegou-me às narinas um odor azedo de
transpiração. Já nem me lembrava há quanto tempo não tomava um
banho. Água só para beber. E pouca.
Com a esperança que tivessem passado várias horas
consultei novamente o relógio. Eram sete horas e dez minutos.
-“Sete e dez! Bolas… nunca mais passa a noite. “ – Pensei.
Tentei adormecer e fechei os olhos.
Mas naquele momento tudo se transformou á minha volta.
Vinda não sei de onde a metralha começou a fazer-se ouvir. Á
nossa volta as “costureirinhas” rugiam. Percebia também o
matraquear de metralhadoras pesadas.
O inferno estava a cair sobre nós. Os longos riscos das balas
tracejantes passavam por cima de nós e perdiam-se para lá das
árvores.
- Ninguém faça fogo! – Gritei
Não podíamos dar a conhecer a nossa posição.
A meu lado, o Alves segredou-me com o ar mais natural deste
mundo,
- Furriel, não sei das minhas botas!
- Vai-te foder ó Alves! Para que queres agora as botas? Diz!
.- Queres ir atrás deles agora? Aguenta-te como estás.
A metralha continuava e aquele gajo preocupado com as
botas….
O matraquear das armas parou tão de repente como tinha
começado. Agora só o silêncio nos rodeava. Até os sapos e outros
animais nocturnos se tinham calado. Pudera!
- Alguém está ferido? – Perguntei.
Não. Estavam todos bem. Felizmente os gajos não sabiam
onde estávamos e fizeram tiro ao acaso.
Aos poucos as conversas recomeçaram.
- Os filhos da puta, não têm sono…. – Dizia o Alves
- Foi para ver se nós respondíamos á fogachada – dizia o
“professor” – D´asse! Aqueles riscos das balas até me puseram o
cabelo em pé. Nunca nos tinham visitado de noite… filhos da mãe –
concluiu o rapaz.
Virei-me para o Alves.
- Já tens a merda das botas?
- Já estão calçadinhas…. Estava a sentir-me tão bem. Filhos
da puta!
Estava tudo a voltar ao normal.
Foi então que o “professor” me chamou
- O que é agora, caralho?
- Parece que temos ali ao fundo uma fogueira….
- Uma fogueira?
Levantei-me e olhei na direcção indicada.
Com efeito o capim estava a arder.
-Porra! Para que querem eles uma fogueira? – Fui dizendo
para os meus companheiros.


De súbito do outro lado do improvisado acampamento alguém
gritou que havia fogo.
Olhei á minha volta e observei melhor. Com efeito,à nossa
volta o capim estava todo a arder. Já se ouviam os estalidos das
canas a arder como se fossem tiros muito fraquinhos
- Ai os filhos da puta… querem-nos queimar. Agora, furriel é
que estamos fornicados de verdade – comentava o Alves.
A intensidade do fogo aumentava e a ligeira aragem trazia até
nós o cheiro característico de erva queimada.
O vento não era muito forte e isso estava a nosso favor. Por
enquanto. Ainda estávamos a algumas centenas de metros das
chamas, mas a verdade é que vinham mesmo na nossa direcção. E
se chegassem até nós, então sim. Estávamos mesmo fornicados. O
pequeno riacho não nos dava grande protecção porque o capim
seco era abundante.
Opiniões não faltavam. A certeza que eu naquele momento
tinha era que estávamos verdadeiramente tramados.
Foi então que o Alves me gritou:
- Furriel, tenho uma ideia!
Pensei logo, “Vai sair merda….” Aquele Alves tinha por vezes
umas tiradas que nem ao diabo lembravam.
- Que raio de ideia é a tua, ó Alves?
- Uma vez lá minha aldeia vi os bombeiros atacarem um
incêndio com outro incêndio… Não me lembra como eles diziam
mas que o fizeram, eu vi.
Então lembrei-me.
A ideia do rapaz era fazer o que se chama “contra-fogo”.
O tempo era escasso e tínhamos que avançar com a ideia.
Eu e alguns voluntários fomos rastejando até o mais próximo
possível das chamas, lançámos fogo ao capim em vários locais e
retirámo-nos novamente a rastejar.
Rezei para que os deuses que dominam o fogo estivessem do
nosso lado.
Observámos as chamas que nós tínhamos ateado a
aproximarem-se das outras e quando as labaredas se juntaram
houve um ruído surdo. As chamas entrelaçaram-se, subiram mais
alto na noite escura e para nosso espanto e alívio foram diminuindo
de intensidade, lentamente, muito lentamente até se extinguirem
totalmente.
O Alves tinha sido nessa noite o nosso deus do fogo.
Foi abraçado por todos
-Bom trabalho, Alves, disse-lhe eu com uma pequena
palmada nas costas.
-Pessoal, vamos dormir. Amanhã cheira-me que vai ser um
dia muito mais quente. E tu, Alves, faz favor de não te descalçares.

Nota: “costureirinha” – termo utilizado pelos combatentes para designarem os tiros
provenientes das automáticas Kalashnikov, arma de origem soviética.

Dedicado a todos os que viveram este acontecimento na noite de 23 de Setembro de 1971

TEXTO e FOTOS de:

Samuel Peixoto
Furriel Miliciano da CART. 2785











quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

O RAPAZ ESTAVA FRACO


Samuel Peixoto em Messenguece

O RAPAZ ESTAVA FRACO

Daquele céu cor de chumbo a água não parava de cair inclemente há vários dias.
O silêncio era quebrado apenas pelo chapinhar das botas pisando o tapete verde do capim que após a época seca, começava a brotar da terra fértil e virgem.
O furriel Duarte limpou com a mão a cara molhada da chuva, olhou á sua volta ao mesmo tempo que consultava o relógio. Faltavam alguns minutos para as quatro da tarde.
Aproximava-se a hora de procurar um local para passar mais uma noite. Mais uma noite chuvosa para não variar…
Avistou uma elevação no terreno e acelerando o passo ultrapassou os dois camaradas que seguiam á sua frente e ordenou ao guia que se dirigisse para aquele local.
Alguns minutos depois alcançaram o local referenciado.
Como era habitual, o grupo instalou-se em círculo. Depois de observar os arredores, o graduado fez a
distribuição dos turnos de sentinela, redigiu uma mensagem breve para o aquartelamento dando as coordenadas daquele local e que o Azevedo telegrafista se encarregou de enviar. Por vezes, Duarte gostava de ser ele a entrar em contacto com o comando, mas naquela tarde deixou que fosse o companheiro a fazê-lo. Depois atirou para o chão com violência o saco que trazia às costas e que continha uma manta e várias embalagens de ração de combate. Duarte não se encontrava nos melhores dias. Depois sentou-se num tronco de uma árvore caída talvez pela acção de qualquer vendaval ou derrubada por algum grupo de elefantes.
À sua volta o restante pessoal começou por abrir os sacos. Estava na hora de enganar o estômago.

Em Muram à chuva que caía copiosamente
“ Merda de tempo!”, Resmungou o Duarte ao sentir os pingos da chuva que caíam em bica sobre o seu nariz através do encharcado “quico”.
O rapaz sentia-se cansado. Cansado física e psicologicamente. Não conseguia compreender o que há
quase vinte e dois meses andavam a fazer. Aliás, há muito tempo que não compreendia nada.
Apesar da chuva, o ar estava quente. Alguns companheiros despiram mesmo os casacos camuflados e de tronco nu, parecia que estavam a ter um duche na melhor das casas de banho.
Duarte sorriu.
Sentia-se também quente. “ Estarei com paludismo?” –
Pensou o rapaz. Nunca tinha sofrido daquela maleita e por isso não sabia os sintomas que aquilo dava Abriu o saco e começou a remexer nas latas da ração que ainda restavam. Desistiu. Tinha fome, mas
paradoxalmente não lhe apetecia comer.
Notou então um vulto que se mantinha em pé à sua frente. Olhou e reconheceu o “professor”.
-Posso sentar-me? – Interrogou o recém-chegado.
Duarte olhou à sua volta, voltou a olhar e por fim, respondeu:
- Estás a ver alguma tabuleta a dizer “ reservado”?
- Não….
-Então, senta-te e pede a ementa. Está na hora de jantar…ou – olhando para o relógio continuou – ou do lanche?
O rapaz olhando de soslaio para o graduado, sentou-se torcendo o nariz.
-Ó Duarte… não o estou a conhecer….
-Porquê? É por ter a barba crescida?
-Ora… parece-me que está com um humor do catano…
- Não… estou feliz! Diz-me lá, não estás feliz também?
O “professor” não respondeu. Olhava para as embalagens da ração e avaliava se iria comer “carne guisada com vegetais”, ou “sardinhas em azeite picante”.
-Quando regressamos à base, furriel?
-Porquê?
-Porque não sei se coma uma ou duas latas…. Mas, que coisa é essa de estar feliz?
-Deixa lá… não penses nisso. Devemos regressar daqui a dois dias…
-Dois dias?!
- Sim, a menos que queiras caminhar dia e noite…
-Isso não… bem, eu não me importava muito, mas com esta chuva…
-Olha lá ó “professor”, já tiveste paludismo?
O rapaz olhou para o graduado e sorrindo exclamou:
- Paludismo? Se tenho tido… paludismo…. Cagufa….Tefe-tefe… sempre que saio lá do aquartelamento, fico sempre“doente”…
-Porra! Não é desse paludismo catano! Paludismo mesmo! Doença! Tás a compreender?
-Ah! Não. Desse nunca tive. Tomo sempre aqueles comprimidos que o furriel enfermeiro distribui. Sabe, há por aí malta que os deita fora. Depois… lixam-se.
-Pois…acho que estou com isso.
-Porquê?
-Sinto-me quente. Não sei se estarei com febre…
O “professor” levantou-se, aproximou-se do furriel, e…
-Com licença!...- colocou a mão na testa do camarada de
armas.
-Ná! Não me parece…
Também és licenciado em medicina, é?
-Não…. Chamo já o “Yazalde” enfermeiro…
-Deixa estar, isto não é nada de certeza. É de estar cansado.
-Como queira… mas eu achava melhor pedir ao enfermeiro para o ver. Ele deve trazer na mala um
termómetro e veria se está ou não com febre…
- Que se lixe! Isto passa.
Samuel Peixoto na Macossa

O “professor” olhou novamente para o graduado e abrindo uma lata de ração começou a mastigar. As gotas da chuva pingavam do “quico” e misturava-se com o molho das sardinhas.

Duarte olhou à sua volta e viu os vultos dos companheiros esbatidos por entre a neblina que começava a aparecer, parecendo fantasmas. Um ou outro conversava, mas a maior parte comia em silêncio. O que pensariam aqueles seus camaradas? Não estaria certamente enganadose dissesse que os pensamentos daqueles jovens se situariam a muitos milhares de quilómetros dali.
Abriu o saco, olhou para as embalagens mas desistiu.
Olhou para o “professor” que entretanto depois de ter despachado as sardinhas, se atirava agora á carne guisada. E pela maneira como comia, dava a ideia que não iria ficar por
ali.
- Ó “professor”… estás mesmo com fome, cum catano…olha que ainda temos dois dias pela frente, se não houver merda por aí…. Comes tudo hoje, depois lerpas com fome.
-Nem pense nisso. Tenho aqui muito material…
-Como é isso? Já andamos aqui há quatro dias…
- Tenho aproveitado o que aqueles gajos não querem – e sorridente mostrou ao furriel a “reserva” no fundo do saco.
Depois sorrindo continuou,
-Sabe o que dizem na minha terra?
-Sei lá…
- Quem não é para comer, não é para trabalhar…
-Estou a ver…
Entretanto a carne guisada tinha desaparecido e uma lata de salada de frutas estava na mira do “professor”.
Duarte, talvez contagiado por aquele apetite devorador do companheiro, abriu uma embalagem de leite com chocolate e lentamente foi beberricando.
-Só vai comer isso? – Perguntou o soldado fazendo uma careta de admiração.
-Daqui a pouco se me apetecer como algo mais, não te preocupes comigo….
Depois de alguns momentos de silêncio durante o qual a salada também desapareceu, o “professor” voltou a falar:
-Ó Duarte… a sério, não o estou a conhecer…
-É pá! Outra vez essa conversa? Porra. Sou o mesmo.
Porque é que não me conheces ao fim destes meses todos?
-Porra furriel! Você depois de vir do hospital não parece
o mesmo Duarte. Ná! Está diferente.
-Impressão tua…
-Impressão minha, o tanas! Pergunte ali àqueles camaradas…. Vá! Pergunte. Todos comentamos que o furriel não é aquele Duarte que era antes de levar com os
estilhaços…
-Com que então a comentar nas minhas costas, hein?
-Não é a dizer mal… nada disso, sei lá, estranhamos.
Você era um gajo bem-disposto…sempre pronto a dar uma palavra de ânimo e agora, parece que quem precisa de ânimo é o Duarte.
- Achas?
-Acho. Quero dizer, achamos todos. Se não déssemos por isso, não falávamos.
-Andam a ver mal… “professor”… - ripostou Duarte.
-Não me lixe Duarte….
O furriel não respondeu de imediato. Olhou novamente para aquela chuva que não parava, viu novamente o vulto dos outros camaradas, coçou o bigode encharcado a fim de o limpar da água da chuva e depois de ter acabado de beber o leite, virou-se novamente para o companheiro.
- Vou confessar-te uma coisa. És capaz de guardar um segredo?
O soldado franziu a testa e abanou a cabeça num gesto de confirmação.
-É pá! Ó furriel… um segredo? Não me diga que… Não!
Não pode ser… engravidou a Julieta? É por isso que anda preocupado e…
O furriel não deixou o companheiro continuar, e quase gritou:
-Vai-te foder, ó “professor”! Vocês andam a pensar isso de mim? É isso? Seus…. Seus…. Não. Não é nada disso.
-Bom… pensei que era qualquer coisa do género…. Mas também não era nada de anormal, não é?
-Nada de anormal? Tu és maluco ou quê?!
O “professor” encolheu os ombros e continuou com um sorriso matreiro
-Todos sabem onde o furriel passa a maior parte do seu tempo livre….
-Mas vocês andam a seguir-me seus sacanas? Ando pensativo, mas não é por isso.
-Então porquê, furriel?
Duarte ia responder mas ao ver o companheiro meter a mão no saco, não se conteve.
-D asse! Vais dar ao serrote outra vez?
O “professor” encolheu os ombros.
-A conversa abriu-me o apetite… mas diga lá, Duarte, que segredo quer que guarde? Sou um túmulo para essas merdas. Já sabe.
-Estou a ficar com medo, “professor”…
O rapaz parou de mastigar, olhou para o graduado, arqueou as sobrancelhas num gesto de dúvida e sorriu:
- Está com medo? Agora sou eu a dizer, “não me lixe”…Porra, você, um gajo, desculpe o termo, um gajo que nunca virou a cara a nada, está onde é preciso e às vezesnem precisava de estar… levantou aquela merda de mina…
-Nem sabes o que me custou levantá-la…
-Faço ideia…
-Não fazes não… mas isso são águas passadas. E sabes quando comecei a ter medo?
O soldado limpou a boca ao lenço sebento e abanou a cabeça negativamente.
-Fiquei com medo depois de ter estado no hospital.
-Porra…. Não percebo. Depois de ter estado em Nampula é que ficou assim? Por onde andou? Arranjou uma namorada e está com medo de não a voltar a ver….
- Chiça! Só pensas em namoradas….

Regresso ao quartel em Marrupa

-Ora, em que posso pensar mais? É a única coisa boa que nos resta. Não vale a pena pensar na chuva que nos está a ensopar o pêlo…Não vale a pena pensar na porcaria das rações que comemos….
Duarte interrompeu o discurso do companheiro largando uma gargalhada.
-Porcaria de rações? Bem, pelo que tenho estado a ver, não devem ser assim tão más…
- Um gajo tem que comer, não é? Mas… ia dizer que ficou com medo depois de Nampula…
-Isso mesmo. Tu fazes ideia do que é o hospital?
-Não faço grande ideia. Bom quer dizer, deve estar cheio de malta como nós…uns feridos…outros a recomporem-se…
-É isso mais ou menos. Desejo que nunca possas estar naquele hospital. Depois de ver tudo fiquei com medo de ficar como muitos dos que lá estão. Não tenho medo de levar um tiro e… puff! …Lerpar! Tenho medo é de ficar como muitos deles. Tenho medo de ficar sem pernas, ou sem braços.
Tenho medo de ficar cego. O que vai ser a vida daqueles nossos camaradas? O inferno que vai ser a vida deles, e a vida dos familiares…Viram-nos sair de casa inteiros e recebem-nos estropiados, sem pernas, sem braços… alguns sem juízo…outros num caixote de madeira, como o nosso
Pereira….
Ao recordar o Pereira, o furriel Duarte parou de falar. O seu pensamento voou numa fracção de segundos até ao local onde a Catarina, mulher do Pereira, se encontraria.
Conseguia adivinhar o drama que aquela mulher estaria aviver. Estava a ver o filho do Pereira crescer sem ter conhecido o pai. E o que diria aquele miúdo quando lhe perguntassem pelo pai…
Duarte teve a sensação que algumas lágrimas teimaram em se misturar com as gotas da chuva que lhe caíam na cara.
Foi chamado á realidade quando a seu lado o “professor” recomeçou a falar.
-Ò furriel.posso também dizer um segredo?
-Tu? Segredos? Boa… conta…
- Neste momento estou a ter inveja dos “turras”…
Duarte olhou para o companheiro franzindo a testa interrogativo.
-Inveja? D´asse! Por causa deles estamos aqui encharcados, perdidos nesta imensa mata….
- Será por causa deles?
-Claro… Bom… não falemos disso. Diz-me porque é que tens inveja deles?
O rapaz suspirou comicamente.
-Olhe… neste momento devem estar nas palhotas deles, a aquecerem-se nas fogueiras, acompanhados das mulheres e…
-É pá! Logo vi. Já cá faltavam essas tuas ideias….
-E não tenho razão? Se fosse ao contrário? E se fossemos nós que estivéssemos numa palhota…uma
mulheraça na esteira e…
O furriel interrompeu o entusiasmo do companheiro.
-Chega! Chega!...
No entanto Duarte reconheceu que aquele rapaz tinha razão. Efectivamente seria muito mais agradável estar deitado numa palhota onde não chovesse do que estar ali sentado a apanhar chuva.
E mais uma vez os seus pensamentos voaram daquele local húmido, mas desta vez, porém, não foram para longe dali. Dirigiram-se para o aldeamento e imaginou-se deitado,não numa esteira, mas sim na cama macia da moça que ele visitava diariamente. E imaginou estar a acariciar aquele corpo cor de chocolate, muito macio e suave da rapariga e brincar com os mamilos escuros dos pequenos e firmes seios.
Duarte sentiu-se naquele momento extremamente excitado, mas voltou á realidade quando viu um vulto caminhar na sua direcção. Era o telegrafista Azevedo.
Leu com dificuldade o teor da mensagem recebida.
-Boas notícias, “professor”…
-Vamos para casa? Acabou a comissão?
-Nada disso. Vamos regressar ao aquartelamento amanhã. As viaturas vêm recolher-nos na ponte do rio Messalo….
-Estão muito generosos… não acha furriel? Bom, sendo assim vou petiscar mais alguma coisita…estou com fome. É servido furriel? Devia comer alguma coisa….
Duarte olhou para o companheiro e não pôde deixar de sorrir.

Texto e fotos de
Samuel Peixioto
Furriel Milicino da CART. 2785


                         


domingo, 15 de dezembro de 2019

COMPANHIA de CAÇADORES ESPECIAIS 264

                                                  NAMIALO
                          
                                                                    
                                  O COMEÇO

A COMPANHIA DE CAÇADORES ESPECIAIS 264
No dia 11 de Abril de 1961 dei entrada no Batalhão de Caçadores 5, em Campolide-Lisboa, para cumprir o serviço militar obrigatório. Na formatura do dia seguinte o Comandante do Batalhão de Caçadores Especiais 260 traçou logo o nosso destino. Não sabem mas vão ficar a saber que estão  todos mobilizados para o Ultramar, disse ele. Depois foi a recruta e o aprender as mil e uma maneira de combater a guerra de guerrilha. Foram tempos muito duros que me iam dando cabo do físico.
Até que chegou o 23 de Agosto de 1961, o dia do nosso embarque para Moçambique, fazendo parte da Companhia de Caçadores Especiais (CCE) 264.
Embarcámos no Paquete "Príncipe Perfeitos" e foi uma viagem quase turística com paragem em Luanda, Lobito, Cape Town, Lourenço Marques, Beira e Nacala e aqui desembarcámos e por via férrea fomos até à povoação de Namialo, no Distrito de Moçambique, onde chegámos, no dia 16 de Setembro.
Comandaram a CCE 264:
Capitão António Tomás da Costa
E os oficiais:
Alferes António Carlos Fernandes Gomes
Alferes Milº José Manuel Mota Tavares Ferreira
Alferes Adelino da Costa Santos Leite
Alferes Milº José António Bertão ribeiro
Alferes Milº José Maria Braga F. Soares de Brito
Alferes Milº Emanuel Nunes
Alferes Milº Médico Henrique José Gonçalves
.
             O QUARTEL (CIRCO) NO NAMIALO

O Quartel no Namialo (CIRCO)
O Namialo não tinha quaisqueres condições para uma companhia do Exército. Quase nada havia à nossa espera . Não havia quartel, não havia viaturas, não havia armamento( apenas existiam meia dúzia de Mausers),
Ficámos alojados nos armazéns e nas casas que a Companhia dos Algodões nos cederam. O meu Pelotão ficou no posto médico. Não havia quartel, (estava a ser construído), não havia viaturas e não havia armamento para  distribuir. Enquanto ajudávamos na construção do quartel, ia-mos fazendo todo o serviço que o dever militar nos obrigava. Eram patrulhas de reconhecimento constantes

Na construção do quartel
O quartel foi por nós acabado de construir (esse quartel era conhecido por CIRCO devido a se parecer como tal).
Depois do quartel feito, o trabalho continuou e fomos fazer o parque das viaturas. Nas obras sempre tivemos o apoio da população para a sua execução.
Na primeira patrulha de que fiz parte fui armado com uma catana que um elemento da população me emprestou.
                                      A REDE CAMUFLADA           

Na foto, o Caldeira e o "Caparica" os autores da passarinhada
Quando me distribuíram o fardamento, para levar para Moçambique, dele fazia parte uma rede camuflada que servia para nos proteger dos mosquitos. Um de nós, que era como irmão, era o Caparica, que um dia chegou perto de mim e de rompante me perguntou:Gostas de passarinhos fritos?
Claro que sim, E há muito tempo que não os como.
Então vamos armar aos pássaros.
Resolvemos juntar as duas redes, a minha e a dele e fizemos uma rede de apanhar pássaros.
Como o meu amigo era pedreiro na vida civil, tratou logo de fazer uns bebedouros que todos os dias íamos encher de água e colocar migalhas de pão, para os acostumar ao lugar.
Depois de a passarada estar  acostumada foi altura de se armar a rede. Na primeira vez apanhámos 70, que depois de depenados e arranjados estavam prontos para fritar. E aqui surgiu o problema. Como os fritar. Fui ter com o cabo cozinheiro para ele entrar no petisco, com a condição de ele arranjar a frigideira e um pouco de azeite. E ele lá arranjou a frigideira, o azeite e acrescentou umas rodelas de chouriço. Foi feito o petisco que "marchou" bem regado com umas "bazucas" Laurentinas
                              FUTEBOL
A equipa de futebol da CCE 264. Sou o 1º  à esquerda e em baixo
No Namialo os dias iam passando quase todos iguais. Patrulhas de reconhecimento e contactos com as populações que viviam no mato eram constantes. Quando se estava no quartel não se estava escalado para qualquer serviço o futebol era o nosso entretenimento. Faziam-se torneios entre Pelotões, mas o que dava mais nas vistas era a equipa de futebol da Companhia  que ficou conhecida por todo o Distrito. por ter ganho ao Sporting e ao Benfica de Nampula..De tal maneira que o Sporting Clube de Nampula escolheu (digo escolheu porque  não era possível contratar) seis jogadores da nossa equipa, nos quais eu estava incluído. O Benfica escolheu quatro. E foi graças ao futebol que fiquei a conhecer muitas localidades do Distrito.

                             A AVARIA 
A "CANADIANA" avariada
Nos muitos reconhecimentos que tomei parte utilizávamos as viaturas que tínhamos. Eram as "Canadianas" (que tinham estado na 2ª guerra Mundial), alguns jeeps e Hunimogs. Quando se ia para o mato não se levava comida (ainda não havia por lá a célebre ração de combate)e todo o pessoal ia abonado com dinheiro para comprar comida, desde que houvesse onde a comprar. Num desses reconhecimentos, em que tomei parte, ia uma "Canadiana" e um Jeep. A certa altura a "Canadiana" avariou, mas logo numa de desenrascanço se passou um cabo como o Jeep a puxar. Só que o Jeeep, talvez devido ao "esforço" deu o "berro". Ficámos apeados em plena picada. Tentámos o contacto com o quartel, a pedir ajuda, mas só muitas horas depois de conseguiu o contacto. Entretanto a fome começou a apertar, pois estávamos numa zona onde nem mandioca havia. Um dos meus  camaradas teve que entrar no mato para fazer uma necessidade fisiológica e quando voltou vinha com uma abóbora. Foi de imediato assaltado e a abóbora soube a melancia.
Lá chegou a ajuda pedida, que reparou a a avaria e retomámos a viagem.
Chegámos a Quitaxe, uma povoação à beira-mar e fomos falar com o Administrador a quem se fez o relato do acontecido. O Administrador fez então uma pergunta:
E já comeram alguma coisa? O que o nosso Alferes, um pouco atrapalhado disse que sim.
Eu não me contive e contei toda a verdade. O Administrador apenas respondeu: Estejam à vontade que eu volto já. Quando regressou convidou todo o pessoal para ir para o salão, onde já estava uma mesa posta para todos nós. Ficámos em dúvida, pois o nosso aspecto não era o melhor para entrarmos naquele salão, mas perante a insistência do Administrador lá entrámos.
Apareceram os "Mainatos" (empregados) com várias travessas de comida. Peixe fresco da praia  local, cervejas, pão, frutas e doces.
Depois dos agradecimentos e da despedida confirmou-se o ditado: Não há fome que não deu em fartura.

                          AS GALINHAS
Devem pensar, mas esta malta só vivia para os petiscos. Nós éramos uns meninos na flor da idade e o apetite era maior do que a nossa idade.Nos vários patrulhamentos que se faziam comprava-se aos autóctones algo para o petisco, galinhas ou cabritos.
Uma vez comprámos alguns frangos, que andavam sempre à solta no quartel, comendo o que encontravam. Um dia, reparámos, que os frangos que já eram galinhas ou galos tinham desaparecido. alguém os comeu foi o pensamento. Mas não. Verificámos que uma das galinhas tinha aparecido com os pintos atrás. E lá foram crescendo, os pintos já eram grandes quando um dia fomos surpreendidos com a notícia que a Companhia tinha ordem para seguir para Nacala para rumar a Mueda. O transporte de Nacala até Mocímboa da Praia seria na fragata de guerra "D.Francisco de Almeida"

De Nacala para Mocímboa da Praia
Tratámos de preparar a bagagem, sem esquecer as ditas galinhas que iam num caixote arranjado para o efeito. Ao chegara a Nacala logo nos foi dito que as galinhas não podiam embarcar, só a bagagem pessoal de cada um. Resolvemos matar as galinha, fizemos uma fogueira no cais e toca a comer, perante a admiração dos presentes. E, foi assim que ass galinhas "embarcaram" connosco.
                                MUEDA
Vindos de Nacala desembarcámos em Mocímboa da Praia com destino a Mueda em Fevereiro de 1963.
Fevereiro de 1963 a CCE 264 a chegar a Mocímboa da Praia
A tranquilidade terminou quando nos deslocámos para Mueda a fim de reforçar a Companhia de Caçadores Especiais 367 que já lá estava. Aqui o nosso trabalho aumentou substancialmente. Conheci todas as aldeias e picadas do Planalto dos Macondes.
Era nosso hábito, quando alguém do nosso grupo fazia anos, tinha que haver festa de aniversário. Não havia bolos nem velas, mas havia sempre almoço ou jantar reforçado.  E em Mueda mantivemos o osso hábito. O petisco era sempre galinhas ou cabritos que se compravam nas patrulhas de reconhecimento. Um belo dia em Mueda um dos elementos do grupo, um 1º Cabo, natural de Matosinhos fazia anos. Temos que fazer o almoço, foi o pensamento geral. Mas tínhamos um problema, não havia galnhas nem tão pouco cabrito. Eu resolvo este "milando"- disse eu. Fui ter com o Administrador de Mueda, que tinha um rebanho de cabras e cabritos e contei-lhe o que costumávamos fazer.
-  O que é que o nosso Cabo pretende- perguntou
-Pretendia peir ao Sr. administrador que nos emprestasse um cabrito do seu rebanho  que nós, no próximo reconhecimento trazemos para o darmos ao Sr.
- Muito bem, assim seja, vou dar ordem ao guardador do rebanho para vos dar o cabrito.
O petisco foi realizado e comido no depósito de captação de águas de Mueda.

Posto de águas de Mueda. O cabrito foi aqui degostado
Foram muitos meses em Mueda, onde também pouca coisa havia e, entre o que havia citamos o quartel, a administração, a cadeia o aeroporto e o célebre China.
A Companhia recebeu ordens em 14 de Setembro de 1963 ordem para abandonar Mueda e regressar a Namialo e o pagamento do cabrito não foi cumprido. O Administrador, não se deve ter preocupado muito com isso, o seu rebanho era enorme.

              AEROPORTO DE MUEDA
No meu tempo em Mueda havia um pequeno aeródromo, que apenas tinha um avião que era pilotado pelo meu grande amigo, o Sargento Freitas, que teve a desventura de cair no mato, onde faleceu. O sargento Freitas, quando regressava de patrulha tinha o hábito de sobrevoar o quartel e com as suas acrobacias fazia a delícia do pessoal. Um dia, em que estava de serviço ao aeródromo, disse-lhe que não compreendia a razão de ao aterrar ter de ir até ao final da pista e depois voltar para trás e entrar no hangar. Bem observado respondeu ele, amanhã vou tentar entrar directo. Claro que não entrou, uma das asas do avião arrancou muitos metros da rede....Resultado, mas de um mês sem avião em Mueda.

               REGRESSO AO NAMIALO 
De regresso ao Namialo onde ficámos até 22 de Fevereiro de 1964. Neste dia deslocámos-nos para Nacala, onde nos espera o Paquete "Niassa" para nos trazer de volta a Portugal. Chegámos a Lisboa em 15 de Março de 1964.
No cais de Alcântara fui descartado como a mercadoria fora do prazo de validade.
Segui para casa com os meus familiares que estavam à minha espera, para no dia seguinte ir ao Batalhão de Caçadores 5, fazer o espólio do fardamento que me havia sido confiado.

Texto e fotos de:
António Caldeira 
1º Cabo da CCE 264





















































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