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Livros da guerra colonial

Miandica terra do outro mundo


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

O RAPAZ ESTAVA FRACO


Samuel Peixoto em Messenguece

O RAPAZ ESTAVA FRACO

Daquele céu cor de chumbo a água não parava de cair inclemente há vários dias.
O silêncio era quebrado apenas pelo chapinhar das botas pisando o tapete verde do capim que após a época seca, começava a brotar da terra fértil e virgem.
O furriel Duarte limpou com a mão a cara molhada da chuva, olhou á sua volta ao mesmo tempo que consultava o relógio. Faltavam alguns minutos para as quatro da tarde.
Aproximava-se a hora de procurar um local para passar mais uma noite. Mais uma noite chuvosa para não variar…
Avistou uma elevação no terreno e acelerando o passo ultrapassou os dois camaradas que seguiam á sua frente e ordenou ao guia que se dirigisse para aquele local.
Alguns minutos depois alcançaram o local referenciado.
Como era habitual, o grupo instalou-se em círculo. Depois de observar os arredores, o graduado fez a
distribuição dos turnos de sentinela, redigiu uma mensagem breve para o aquartelamento dando as coordenadas daquele local e que o Azevedo telegrafista se encarregou de enviar. Por vezes, Duarte gostava de ser ele a entrar em contacto com o comando, mas naquela tarde deixou que fosse o companheiro a fazê-lo. Depois atirou para o chão com violência o saco que trazia às costas e que continha uma manta e várias embalagens de ração de combate. Duarte não se encontrava nos melhores dias. Depois sentou-se num tronco de uma árvore caída talvez pela acção de qualquer vendaval ou derrubada por algum grupo de elefantes.
À sua volta o restante pessoal começou por abrir os sacos. Estava na hora de enganar o estômago.

Em Muram à chuva que caía copiosamente
“ Merda de tempo!”, Resmungou o Duarte ao sentir os pingos da chuva que caíam em bica sobre o seu nariz através do encharcado “quico”.
O rapaz sentia-se cansado. Cansado física e psicologicamente. Não conseguia compreender o que há
quase vinte e dois meses andavam a fazer. Aliás, há muito tempo que não compreendia nada.
Apesar da chuva, o ar estava quente. Alguns companheiros despiram mesmo os casacos camuflados e de tronco nu, parecia que estavam a ter um duche na melhor das casas de banho.
Duarte sorriu.
Sentia-se também quente. “ Estarei com paludismo?” –
Pensou o rapaz. Nunca tinha sofrido daquela maleita e por isso não sabia os sintomas que aquilo dava Abriu o saco e começou a remexer nas latas da ração que ainda restavam. Desistiu. Tinha fome, mas
paradoxalmente não lhe apetecia comer.
Notou então um vulto que se mantinha em pé à sua frente. Olhou e reconheceu o “professor”.
-Posso sentar-me? – Interrogou o recém-chegado.
Duarte olhou à sua volta, voltou a olhar e por fim, respondeu:
- Estás a ver alguma tabuleta a dizer “ reservado”?
- Não….
-Então, senta-te e pede a ementa. Está na hora de jantar…ou – olhando para o relógio continuou – ou do lanche?
O rapaz olhando de soslaio para o graduado, sentou-se torcendo o nariz.
-Ó Duarte… não o estou a conhecer….
-Porquê? É por ter a barba crescida?
-Ora… parece-me que está com um humor do catano…
- Não… estou feliz! Diz-me lá, não estás feliz também?
O “professor” não respondeu. Olhava para as embalagens da ração e avaliava se iria comer “carne guisada com vegetais”, ou “sardinhas em azeite picante”.
-Quando regressamos à base, furriel?
-Porquê?
-Porque não sei se coma uma ou duas latas…. Mas, que coisa é essa de estar feliz?
-Deixa lá… não penses nisso. Devemos regressar daqui a dois dias…
-Dois dias?!
- Sim, a menos que queiras caminhar dia e noite…
-Isso não… bem, eu não me importava muito, mas com esta chuva…
-Olha lá ó “professor”, já tiveste paludismo?
O rapaz olhou para o graduado e sorrindo exclamou:
- Paludismo? Se tenho tido… paludismo…. Cagufa….Tefe-tefe… sempre que saio lá do aquartelamento, fico sempre“doente”…
-Porra! Não é desse paludismo catano! Paludismo mesmo! Doença! Tás a compreender?
-Ah! Não. Desse nunca tive. Tomo sempre aqueles comprimidos que o furriel enfermeiro distribui. Sabe, há por aí malta que os deita fora. Depois… lixam-se.
-Pois…acho que estou com isso.
-Porquê?
-Sinto-me quente. Não sei se estarei com febre…
O “professor” levantou-se, aproximou-se do furriel, e…
-Com licença!...- colocou a mão na testa do camarada de
armas.
-Ná! Não me parece…
Também és licenciado em medicina, é?
-Não…. Chamo já o “Yazalde” enfermeiro…
-Deixa estar, isto não é nada de certeza. É de estar cansado.
-Como queira… mas eu achava melhor pedir ao enfermeiro para o ver. Ele deve trazer na mala um
termómetro e veria se está ou não com febre…
- Que se lixe! Isto passa.
Samuel Peixoto na Macossa

O “professor” olhou novamente para o graduado e abrindo uma lata de ração começou a mastigar. As gotas da chuva pingavam do “quico” e misturava-se com o molho das sardinhas.

Duarte olhou à sua volta e viu os vultos dos companheiros esbatidos por entre a neblina que começava a aparecer, parecendo fantasmas. Um ou outro conversava, mas a maior parte comia em silêncio. O que pensariam aqueles seus camaradas? Não estaria certamente enganadose dissesse que os pensamentos daqueles jovens se situariam a muitos milhares de quilómetros dali.
Abriu o saco, olhou para as embalagens mas desistiu.
Olhou para o “professor” que entretanto depois de ter despachado as sardinhas, se atirava agora á carne guisada. E pela maneira como comia, dava a ideia que não iria ficar por
ali.
- Ó “professor”… estás mesmo com fome, cum catano…olha que ainda temos dois dias pela frente, se não houver merda por aí…. Comes tudo hoje, depois lerpas com fome.
-Nem pense nisso. Tenho aqui muito material…
-Como é isso? Já andamos aqui há quatro dias…
- Tenho aproveitado o que aqueles gajos não querem – e sorridente mostrou ao furriel a “reserva” no fundo do saco.
Depois sorrindo continuou,
-Sabe o que dizem na minha terra?
-Sei lá…
- Quem não é para comer, não é para trabalhar…
-Estou a ver…
Entretanto a carne guisada tinha desaparecido e uma lata de salada de frutas estava na mira do “professor”.
Duarte, talvez contagiado por aquele apetite devorador do companheiro, abriu uma embalagem de leite com chocolate e lentamente foi beberricando.
-Só vai comer isso? – Perguntou o soldado fazendo uma careta de admiração.
-Daqui a pouco se me apetecer como algo mais, não te preocupes comigo….
Depois de alguns momentos de silêncio durante o qual a salada também desapareceu, o “professor” voltou a falar:
-Ó Duarte… a sério, não o estou a conhecer…
-É pá! Outra vez essa conversa? Porra. Sou o mesmo.
Porque é que não me conheces ao fim destes meses todos?
-Porra furriel! Você depois de vir do hospital não parece
o mesmo Duarte. Ná! Está diferente.
-Impressão tua…
-Impressão minha, o tanas! Pergunte ali àqueles camaradas…. Vá! Pergunte. Todos comentamos que o furriel não é aquele Duarte que era antes de levar com os
estilhaços…
-Com que então a comentar nas minhas costas, hein?
-Não é a dizer mal… nada disso, sei lá, estranhamos.
Você era um gajo bem-disposto…sempre pronto a dar uma palavra de ânimo e agora, parece que quem precisa de ânimo é o Duarte.
- Achas?
-Acho. Quero dizer, achamos todos. Se não déssemos por isso, não falávamos.
-Andam a ver mal… “professor”… - ripostou Duarte.
-Não me lixe Duarte….
O furriel não respondeu de imediato. Olhou novamente para aquela chuva que não parava, viu novamente o vulto dos outros camaradas, coçou o bigode encharcado a fim de o limpar da água da chuva e depois de ter acabado de beber o leite, virou-se novamente para o companheiro.
- Vou confessar-te uma coisa. És capaz de guardar um segredo?
O soldado franziu a testa e abanou a cabeça num gesto de confirmação.
-É pá! Ó furriel… um segredo? Não me diga que… Não!
Não pode ser… engravidou a Julieta? É por isso que anda preocupado e…
O furriel não deixou o companheiro continuar, e quase gritou:
-Vai-te foder, ó “professor”! Vocês andam a pensar isso de mim? É isso? Seus…. Seus…. Não. Não é nada disso.
-Bom… pensei que era qualquer coisa do género…. Mas também não era nada de anormal, não é?
-Nada de anormal? Tu és maluco ou quê?!
O “professor” encolheu os ombros e continuou com um sorriso matreiro
-Todos sabem onde o furriel passa a maior parte do seu tempo livre….
-Mas vocês andam a seguir-me seus sacanas? Ando pensativo, mas não é por isso.
-Então porquê, furriel?
Duarte ia responder mas ao ver o companheiro meter a mão no saco, não se conteve.
-D asse! Vais dar ao serrote outra vez?
O “professor” encolheu os ombros.
-A conversa abriu-me o apetite… mas diga lá, Duarte, que segredo quer que guarde? Sou um túmulo para essas merdas. Já sabe.
-Estou a ficar com medo, “professor”…
O rapaz parou de mastigar, olhou para o graduado, arqueou as sobrancelhas num gesto de dúvida e sorriu:
- Está com medo? Agora sou eu a dizer, “não me lixe”…Porra, você, um gajo, desculpe o termo, um gajo que nunca virou a cara a nada, está onde é preciso e às vezesnem precisava de estar… levantou aquela merda de mina…
-Nem sabes o que me custou levantá-la…
-Faço ideia…
-Não fazes não… mas isso são águas passadas. E sabes quando comecei a ter medo?
O soldado limpou a boca ao lenço sebento e abanou a cabeça negativamente.
-Fiquei com medo depois de ter estado no hospital.
-Porra…. Não percebo. Depois de ter estado em Nampula é que ficou assim? Por onde andou? Arranjou uma namorada e está com medo de não a voltar a ver….
- Chiça! Só pensas em namoradas….

Regresso ao quartel em Marrupa

-Ora, em que posso pensar mais? É a única coisa boa que nos resta. Não vale a pena pensar na chuva que nos está a ensopar o pêlo…Não vale a pena pensar na porcaria das rações que comemos….
Duarte interrompeu o discurso do companheiro largando uma gargalhada.
-Porcaria de rações? Bem, pelo que tenho estado a ver, não devem ser assim tão más…
- Um gajo tem que comer, não é? Mas… ia dizer que ficou com medo depois de Nampula…
-Isso mesmo. Tu fazes ideia do que é o hospital?
-Não faço grande ideia. Bom quer dizer, deve estar cheio de malta como nós…uns feridos…outros a recomporem-se…
-É isso mais ou menos. Desejo que nunca possas estar naquele hospital. Depois de ver tudo fiquei com medo de ficar como muitos dos que lá estão. Não tenho medo de levar um tiro e… puff! …Lerpar! Tenho medo é de ficar como muitos deles. Tenho medo de ficar sem pernas, ou sem braços.
Tenho medo de ficar cego. O que vai ser a vida daqueles nossos camaradas? O inferno que vai ser a vida deles, e a vida dos familiares…Viram-nos sair de casa inteiros e recebem-nos estropiados, sem pernas, sem braços… alguns sem juízo…outros num caixote de madeira, como o nosso
Pereira….
Ao recordar o Pereira, o furriel Duarte parou de falar. O seu pensamento voou numa fracção de segundos até ao local onde a Catarina, mulher do Pereira, se encontraria.
Conseguia adivinhar o drama que aquela mulher estaria aviver. Estava a ver o filho do Pereira crescer sem ter conhecido o pai. E o que diria aquele miúdo quando lhe perguntassem pelo pai…
Duarte teve a sensação que algumas lágrimas teimaram em se misturar com as gotas da chuva que lhe caíam na cara.
Foi chamado á realidade quando a seu lado o “professor” recomeçou a falar.
-Ò furriel.posso também dizer um segredo?
-Tu? Segredos? Boa… conta…
- Neste momento estou a ter inveja dos “turras”…
Duarte olhou para o companheiro franzindo a testa interrogativo.
-Inveja? D´asse! Por causa deles estamos aqui encharcados, perdidos nesta imensa mata….
- Será por causa deles?
-Claro… Bom… não falemos disso. Diz-me porque é que tens inveja deles?
O rapaz suspirou comicamente.
-Olhe… neste momento devem estar nas palhotas deles, a aquecerem-se nas fogueiras, acompanhados das mulheres e…
-É pá! Logo vi. Já cá faltavam essas tuas ideias….
-E não tenho razão? Se fosse ao contrário? E se fossemos nós que estivéssemos numa palhota…uma
mulheraça na esteira e…
O furriel interrompeu o entusiasmo do companheiro.
-Chega! Chega!...
No entanto Duarte reconheceu que aquele rapaz tinha razão. Efectivamente seria muito mais agradável estar deitado numa palhota onde não chovesse do que estar ali sentado a apanhar chuva.
E mais uma vez os seus pensamentos voaram daquele local húmido, mas desta vez, porém, não foram para longe dali. Dirigiram-se para o aldeamento e imaginou-se deitado,não numa esteira, mas sim na cama macia da moça que ele visitava diariamente. E imaginou estar a acariciar aquele corpo cor de chocolate, muito macio e suave da rapariga e brincar com os mamilos escuros dos pequenos e firmes seios.
Duarte sentiu-se naquele momento extremamente excitado, mas voltou á realidade quando viu um vulto caminhar na sua direcção. Era o telegrafista Azevedo.
Leu com dificuldade o teor da mensagem recebida.
-Boas notícias, “professor”…
-Vamos para casa? Acabou a comissão?
-Nada disso. Vamos regressar ao aquartelamento amanhã. As viaturas vêm recolher-nos na ponte do rio Messalo….
-Estão muito generosos… não acha furriel? Bom, sendo assim vou petiscar mais alguma coisita…estou com fome. É servido furriel? Devia comer alguma coisa….
Duarte olhou para o companheiro e não pôde deixar de sorrir.

Texto e fotos de
Samuel Peixioto
Furriel Milicino da CART. 2785


                         


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