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Livros da guerra colonial

Miandica terra do outro mundo


segunda-feira, 5 de setembro de 2022

11 - O “CACHICHA” (SOLDADO GE, MACONDE) (Zona de Pundanhar)

11 - O “CACHICHA” (SOLDADO GE, MACONDE) (Zona de Pundanhar)

Todos os soldados do meu Grupo Especial (GE) eram macuas muçulmanos, à excepção de dois que eram macondes e católicos, o Cachicha e o Chitapata. Esqueci-me completamente do nome do primeiro e se agora ainda a minha memória o chama de Cachicha é culpa minha, assumidamente minha, porque o nicknomeei assim mesmo, de Cachicha. E à força do hábito e facilitismo de assim o chamar, este nome virou verdade, o outro ficou esquecido.
Ele, o Cachicha era de estatura baixa, afável, sempre com um sorriso na sua cara tatuada e de dentes afiados. Do seu uniforme camuflado apenas o quico lhe enchia a cabeça, o resto, calças e camisa sobravam muito para além da altura breve do seu corpo. Aceitou prontamente a alcunha, imposta como castigo, por querer partilhar sempre uma das minhas latas de salsicha, uma das poucas viandas que se tragavam na ração de combate para além da sardinha portuguesa e da enlatada carne de vaca” Fray Bentos” made in South África.
O Cachicha, maconde e como tal “católico”, não tinha problemas em comer carne de porco. Os outos macuas islamizados dispensavam o pecado por respeito a Alá, embora outro tanto não fizessem em relação à cerveja, quando esta aparecia no pacote. Este pecado do álcool, talvez Alá tolerasse. Talvez, por ser um pecado mais líquido, mais fluido, menos encorpado, mais evaporável. As salsichas eram sólidas, de aspecto fálico e eram mesmo o pecado da carne, da carne do sujo porco.
Era comum entre macuas e macondes a troca de latas de sardinha por latas de salsicha, cambio sempre inflacionado a desfavor dos macuas. A Manutenção Militar do Exército nunca teve em conta a confecção das rações de combate em função da religião destes soldados. Eles como não comiam as pecaminosas salsichas, ou as deitavam fora ou teriam de aceitar o preço de troca imposto pelos macondes que geralmente só abriam mão de uma de sardinha em troca de duas ou até três de salsicha.
O Cachicha gostava de comer. De tudo comia na ração de combate. Seus dentes afiados de maconde davam-lhe todas as vantagens nessa tarefa. E mesmo depois de barganhar aos seus camaradas macuas duas ou três latas de salsicha, por apenas uma de sardinha, quase sempre abeirava-se de mim com o mesmo discurso:
- Siliva, nosso pai, anipe cachicha moja.( Silva dá-me uma lata de salsicha)
Depois de tantas vivências de tantos perigos partilhados, de tantos minutos com estatuto de horas, de tantas esperanças de que o pior não iria acontecer e que o melhor estaria sempre para chegar, eu já entendia a outra língua, para eles mais espontânea, mais corrida, mais natural.
Neste crioulo suaíli-macua-português, eu o Silva que me orgulhava de ser tratado de pai por todos eles, macuas e macondes, acabei por entender: Silva, nosso pai dá-me uma lata de salsicha. Deste saboroso crioulo e do engraçado modo como corrompia a palavra salsicha, e ainda porque o seu original nome maconde se tornava difícil ao meu chamamento, assim mesmo o renomeei: Cachicha.
O Cachicha aceitou. E Cachicha ficou “oficialmente” a ser Cachicha.

. Cachicha, digo-te que hoje eu já não sei se recordo a guerra, ou já recordo as recordações da guerra. Na minha memória há uma linha ténue onde se misturam e confundem as vivências passadas com os pesadelos presentes. Nessa bruma esbatida ainda te revejo camuflado na tua demasiada farda, de G3 aperrada ao peito de olhos e ouvidos sempre em alerta.
Cachicha gostava de ver-te, de abraçar-te, de falar contigo em Suaíli ou português. Sei que a vossa esperança de vida aí em Moçambique é curta, e tu eras bem mais “kokuana” do que eu. Possivelmente já por aí não estás, mas onde quer que te encontres quero deixar-te um abraço e manifestar-te a minha gratidão. Gratidão pelas vezes que me salvaste a vida com os conselhos e avisos de quem sabia de cor cada palmo dessa terra, porque nela nasceste, cresceste e te fizeste soldado, talvez no lado errado da guerra se é que essa guerra teve algum lado certo. Foram os anos onde os jovens do meu e do teu país morriam e matavam por razões que nem eu sentia, nem tu entendias. Bem hajas Grande Cachicha! Tenho “maningue” saudades vossas.

Durante a instrução GE no Dondo (Beira) Julho de 1973

Manuel Neves Silva Ex Furriel Miliciano de Armas Pesadas

Contos da Guerra Colonial -Cabo Delgado -Moçambique 1972.1974


segunda-feira, 22 de agosto de 2022

10 O CABRÃO E A CAPULANA (Zona de Pundanhar

 

10  - O CABRÃO E A CAPULANA (Zona de Pundanhar)

   

Aquele bode impunha “respeito”. Era corpulento e bravo, investia e marrava como um touro e provocava danos aquele cabrão.
Assim, era perigoso afoitar-me a passear pelas ruelas entre as palhotas do aldeamento de Pundanhar, coisa de que eu tanto gostava, interagir com aquela gente, os familiares dos meus soldados GE, as crianças e as lindas marussi, as donzelas da terra. Era mais uma forma de acelerar o tempo rumo ao fim da comissão, em direcção a Portugal e adormecer os pensamentos daquela guerra, de patrulhas, de colunas militares, de minas, de mortos, de feridos, de estropiados e de muito sofrimento.
Aquele bicho mbuzi 1 cirandava livre, solto e defendia o seu território à cornada e penso que teria qualquer coisa contra mim em especial, pois era sempre eu o escolhido pelos seus retorcidos cornos. Nunca soube quem seria o dono, o responsável pela rês, seguramente alguém que não gostava muito da tropa.
Naquele dia corria um fim de tarde calmo, cálido e luminoso. Muitas manamuca 2 chegavam das machambas 3, as crianças chilreavam suas alegrias e os homens rodeavam a mesquita (palhota sagrada de lama com tecto de palha) para as orações da tarde, quando uma vez mais resolvi embrenhar-me naquela urbe. Caminhava descansado, ia desfrutando do bulício, da vida e da cor daquele lindo linguajar macua, quando vi o bicho a acelerar na minha direcção. Não tinha onde me enfiar, não tinha para onde fugir. Ripei de um colorido trapo que secava num monte de lenha e qual toureiro enfrentei a besta. Eu fiquei incólume. O trapo saiu rasgado, não tinha estatuto de capa de tourear, era frágil.
Fiquei anestesiado da adrenalina desta acção e ainda mal me tinha recomposto, quando direita a mim e vinda do nada aparecia agora uma manamuca elegante e bonita dama, gesticulando e berrando palavras naquela língua que eu não entendia. Estava brava a mulher, mais agressiva que o bode e nem aquele som agudo parava nem eu o entendia. Eu tinha-me livrado dos cornos do caprino diabo. Agora teria que gerir este outro desafio.

O soldado GE Emílio que com a ajuda de outros tinha recolhido a besta, abeirava-se de mim, quando eu já descia da segurança do topo do monte dos gravetos, onde me tinha refugiado.
-Ela está dizer que Furriel Siliva estragou capulano e agora tem que ir ”na depósito de janéros” comprar novo pra ela.
Porra, os astros não estavam conjugadas a meu favor. Livrei-me da marrada, agora tinha outra “ péga”. Tinha ido um bode, vinha agora uma cabrita.
A cambada que entretanto aqui se foi juntando, ria, divertia-se com a situação. Eu tomei o caminho da loja seguido pela mulher, agora mais calma e pela algazarreante canzoada, turba ávida de voyeurismos. Dobrado, debaixo do meu braço seguia o vestido estropeado.
O depósito de géneros era uma fonda, uma havanesa gerida pela tropa e onde havia de tudo um pouco, mercearias, petróleo, bolachas tabacos, tecidos e além de muitos eteceteras, também havia capulanas. Ao entrar a mulher apontou a prateleira onde estavam os tecidos. O Cabo de serviço naquele posto, despejou sobre o balcão uma boa meia dúzia delas. Ela foi decidida, rápida a escolher. Pegou e enrolou-se na mais cara luzindo de felicidade. Quedou-se então ainda mais bonita a elegante macua.
Desembolsei para as mãos do caixeiro trinta Moçambicares Escudos e pareceu-me que o milando 4 estava sanado. Mas não estava. A tourada ainda prometia durar. Esta picada estava mesmo a ficar mais esburacada.
Acontecia agora algo que me parecia não enquadrar. A Senhora envolta no colorido adereço novo, perdia de novo o brilho da sua beleza e tentava arrancar à força de debaixo do meu braço o trapo velho, retomando a gritaria naquele estridente registo de agudos que me feriam os tímpanos. Eu, surpreendido, ia dizendo na cara dela, convencido da minha razão e da justeza do acto que acabava de praticar:

Este é meu. Se estraguei velho e paguei novo, então este fica para mim.
Mas a mulher não me queria entender, não desarmava, tinha outro conceito de justiça e não largava a peça. E ali ficámos a puxar cada um por sua ponta do vestido rasgado. Larguei o farrapo, quando ouvi a meu lado e aparecido não sei de onde nem como, a voz do capitão da companhia:
Oh Silva! Para que quer você essa merda. Dê lá isso à mulher, porra!
Tinha razão o comandante. A minha teimosia em reter aquela capa de toureio era um negócio de caprina lana. Nada valia o pano agora rasgado pelos duros caprinos chifres. Radiante, a macua senhora seguiu com as capulanas, uma posta e a outra na mão, muito agradecida e sorridente para com o Capitão, que acabou por ficar bem melhor que eu neste retrato. Eu fui calmar o stress numa fresquinha Laurentina, aquela loira e sempre eterna amiga, companhia de alegrias e muitas mais amarguras.
No dia seguinte, ao passar por mim a caminho da fonte, qual “Leanor pela verdura, “fermosa” e bem segura”, a manamuca, protagonista da véspera, exibindo uma alegre capulana novinha em folha cumprimentou-me com um lindo, rasgado e sincero sorriso:
Salama, Jambo, na Furieli Siliva! - ao que prontamente correspondi:
Bom dia Senhora!
Estava de facto resolvido o milando 4. . E eu estava feliz comigo mesmo. O registo de ontem estava avaliado e notado positivamente. Tinha sido feita a Apsic.Tinha acontecido mais uma picada nas longas picadas da minha vida, nestas terras de Moçambique. Raios partam o chibo. Longa vida ao Silva.

Notas: 1-Bode; 2-Mulher; 3.Campo de Cultivo; 4- Problema





segunda-feira, 8 de agosto de 2022

9 PUNDANHAR- A MÁQUINA DE SULFATAR (Pesadelo vivido em insónias depois da Guerra)

 

 9 - PUNDANHAR- A MÁQUINA DE SULFATAR (Pesadelo vivido em insónias depois da Guerra)

      Corria o mês de Setembro de 73. O sol flagelava-nos o rosto, uma atmosfera quente e húmida dificultava-nos a respiração e a marcha. Deslocava-me em patrulha com o meu Grupo de Combate, o Grupo Especial 214, integrado por soldados nativos. Estávamos a cerca de 15 Km a norte de Pundanhar em Cabo Delgado no norte de Moçambique. Ao fundo a paisagem Tanzaniana exuberante e assustadora para além do largo rio Rovuma. Era um corredor de infiltração de guerrilheiros da FRELIMO, vindos de campos de treino na Tanzânia. Foi também esta zona palco de escaramuças entre soldados portugueses e alemães durante a 1ª Grande Guerra. É uma terra que conhece a guerra, que tem marcas de guerra.

-                                                   Crianças de Pundanhar 1974

A nossa atenção virava-se para todos os lados. Qualquer sinal, qualquer ruido suspeito eriçava-me os pelos, aumentava-nos a ansiedade, o medo. Teríamos sido detectados pelos Frelos? Puxo por um cigarro, o único antídoto contra a espera e o enervamento
De súbito salta-me à vista, colocado no cimo de uma árvore de grande porte, daquelas que ladeiam o rio, um cortiço (de cortiça mesmo),fechado de ambas as bandas e atado com sisal à mais alta braça da árvore. Instintivamente apontei-lhe a Valter. Medi a balística e desisti do tiro. Acto contínuo saco a G3 ao Chitapata o maconde, que estava a meu lado e "rajadeio " o insólito objecto. Ainda a rajada não ia a meio e já aquela merda explodia para todos os lados... e eram granadas... e bazucas e morteiros pelos ares. Quando dei por mim todos os homens estavam alapados ao chão: -Xiiiii………… Siliva você vai matar a gente….
Quando o ruído por fim terminou fui atingido na mona por uma máquina de sulfatar deformada, fumada e perfurada...uma obra de arte em latão que ainda hoje guardo como recordação daquele episódio, daqueles tempos, daquelas gentes, dos meus soldados macuas e macondes.

                                Equipa de Futebol de Furriéis de Pundanhar -1974?

Furriel Baltazar Damas em plena acção psicológica 
 
       
                                                        


segunda-feira, 25 de julho de 2022

MANUEL NEVES SILVA -HISTÓRIAS DA GUERRA (8º EPISÓDIO) Picada Nancarari - Muirite

  -PICADA NANCATÁRI-MUIRITE (Zona de Mueda)

Estávamos naquele tempo, em Novembro de 72. Corriam as chuvas da estação quente. A paisagem exalava o odor a terra molhada, terra vermelha como o nosso sangue, matope forte, consistente, pegajoso, que prendia em si as nossas botas e diminuía a estuga das caminhadas.
Tinhamo-nos deslocado de Mueda para Nancatári , a sul, com a missão de substituir um pelotão deste aquartelamento, que tinha saído numa operação de patrulhamento com a duração estimada de vinte dias.
Aqui em Nancatári iríamos permanecer durante pelo menos esses vinte dias, aguardando instruções.
Foi pois ao terceiro dia de estância nestas paragens, dia cinco de Novembro que ordens superiores ditaram:
Iríamos abrir, limpar de minas o trajecto até Muirite, ainda mais a sul, para a passagem segura da coluna de reabastecimento logístico, vinda de Porto Amélia, a capital do distrito.
Assim foi instruído o Alferes Bonina, comandante do Pelotão e assim fomos informados, nós os comandantes de cada uma das três Secções: Neves Silva, Duarte e Lopes.
De Nancatári a Muirite são cerca de vinte perigosos quilómetros. Sim, os quilómetros aqui em Cabo Delgado, levam o adjectivo perigosos, porque são mesmo perigosos os perigosos caminhos do norte de Moçambique. Bonitos não fora a guerra, perigosos porque é a guerra.
O perigo aqui, já o conhecemos bem, por experiência vivida. Tem duas versões: as traiçoeiras minam debaixo do chão e as flagelações das Kalashes1, dos turras 1 emboscados nos flancos.


O trajecto fazia-se em coluna de viaturas militares sempre atascadas, sempre atoladas no matope, sempre aos ziguezagues tentando evitar a lama. É assim quando chove nesta terra vermelha. Torna-se penosa a tarefa de fazer avançar os carros. Torna-se difícil descobrir as minas.
Os flancos do caminho alternavam entre abertas clareiras na savana e cerrados trechos de vegetação, misteriosos, enervantes e ameaçadores.
O calor era mais que muito e suava-nos o corpo, desidratava-nos a alma e secava-nos os cantis.
A minha secção, na frente das viaturas, vinha picando havia duas horas de trabalho monótono, repetitivo, cansativo. A progressão era lenta e pesada como o andar de um paquiderme. Todos os suspeitos palmos de terra, eram esquadrinhados, remexidos, com suavidade, com atenção, com medo, tentando sentir o toque do pontiagudo ferro da pica 3, no corpo da mina escondida.
Iam-se espetando as pontas de aço no solo aqui, além e mais além. Jogava-se a vida em cada metro de caminho.
Dura e perigosa esta missão de picador, de levantador de minas,de batedor, esta vida de morredor.
Estava na hora de se mudarem os jogadores desta “roleta russa”. Já nos doíam as botas atascadas na lama. Na ponta da vara dos pesquisadores os “pratos detectores”, obsoleta tecnologia sobrante da segunda grande guerra, iam incrementando o seu pesado peso com o passar das horas. Os ouvidos atezanavam com o silvo dos auscultadores. Nesta missão, o cansaço não é bom conselheiro, torna-se perigoso. Toda a atenção é sempre pouca. Era urgente a rendição dos meus homens.
O Furriel Avelino Duarte, o madeirense, na rectaguarda da coluna, ordenou aos seus soldados que fossem substituir a minha secção no batucar das picas e no manusear dos pesados detectores electrónicos de minas, enquanto fazia questão de ali continuar mais uns minutos, “mastronçando” ainda da sua ração de combate.
O Cabo Magalhães, nervoso, de espingarda descambada pelas descamisadas costas abaixo, pendurada na bandoleira, obedeceu reticentemente. Estava revoltado. O Comandante da sua secção, não o acompanhava no perigo. Não gostou de ouvir a ordem.
Marchou martelando as botas no pastel vermelho do chão, desabafando com a espontaneidade do que pensava ser sua verdade, a sua justiça:
Pois, vai lá atrás a lamber a piça e eu aqui á frente a trabalhar!
O Cabo Magalhães tinha cuspido uma frase forte, feia, alarve, palavrosa, ofensiva. Teria sentido alguma razão no seu sentido de lógica, pois como se diz: “O comandante não deve abandonar o barco e quando o faz deve ser o último a fazê-lo”.
Não gostou o Furriel de se ver assim apodado de cão. E a sua raiva saltou furiosa, “foçando” o registo da ofensa.
Tivesse o Cabo dito: -Vai lá atrás a coçar os colhões- e talvez a cólera tivesse ficado calma, na cabeça do Furriel. Pois coçar os colhões era um chavão, um lugar-comum, era quase um bordão na gíria militar e por isso, talvez mais tolerável para o Furriel.
Nesta guerra havia de facto muitas comichões a coçar, desde a do célebre”feijão-macaco” 4, até às repetidas “Comichões de Serviço” dos Primeiros e Segundos Sargentos, entre outros “Chicos” 5. Mas não foi isso que o Cabo disse ou quis significar. E as palavras ditas, ditas ficam, e a ocorrência ficou lavrada no Relatório da Acção e viajou pelas vias das hierarquias, até acima, ao Comandante, que após todos os autos, agiu de acordo com o RDM (Regulamento de Disciplina Militar).
E assim no dia Sete de Março de 73, quatro meses depois dos factos, sairia na Ordem da CCAÇ 4140:

Ordem de Serviço Nº 19 de 07MAR73 DA R.M.M. (Região Militar de Moçambique)

“ Puno com 15 (quinze) dias de prisão disciplinar agravada o 1º Cabo N/M 03946770, José Teixeira de Magalhães da C,Caç 4140/BC 15, por no dia 05NOV72,no percurso de picada de Nancatári-Muidine não ter obedecido prontamente à ordem do Comandante da força Fur. Milº SILVA DUARTE para que prosseguisse o trabalho da picagem e detecção de minas, ordem que acabou por cumprir, mas ripostando à mesma em alta voz, nomeadamente exclamando “Vão lá atraz a lamber a piça e eu aqui a trabalhar”. Mais tarde de regresso a Nancatári e estando a esclarecer os factos com aquele Furriel e o Alferes Bonina ao ser-lhe ordenado que se retirasse saiu batendo com a porta.”

E lá foi o Magalhães para as “enxovias” da prisão militar do Batalhão de Caçadores 15 (BC15),em Mueda, “atolar” as ideias e refrear a língua num estágio de duas semanas.
Ufanava-se o Furriel com castigo dado pelo Comandante ao Cabo quando naquela tarde na Messe de Sargentos entre as jogadas de King e as cervejas, comentava:
O cabrão deu-me rodas de cão. Agora vai ele quinze dias lamber a piça para a prisão.
Passaram-se mais tempos, e mais perigos e mais guerra, e mais minas, e mais mortos, e mais feridos, e mais dor e mais… e mais….Foram mais quatro meses de mais “tanto sofrer”.
E o Furriel Miliciano Avelino da Silva Duarte, o madeirense, meu camarada e amigo, iria ler quatro meses depois, na Ordem da mesma Companhia:

“Que agravo para 10 (dez) dias de prisão disciplinar agravada, a pena de 05 (cinco) dias de detenção dada pelo Snr. Comandante da C. Caç. 4140, ao For. Milº N/M 17135871- João Avelino da Silva Duarte por em 28Fev73 tendo por missão conjuntamente com o seu grupo de combate de efectuar uma picagem à pista de aviação de Mueda logo pela manhã, não o ter feito, alegando não ter acordado por motino de se ter deitado às 04H00 da manhã em consequência de uma festa, só vindo a fazê-lo quando chamado à atenção pelo seu Comandante de Companhia.”

O que terá feito nesses dez dias de pildra o Duarte Furriel? Terá lido o Regulamento de disciplina militar?
Ironias, outras histórias de guerra, a um tempo à margem e dentro da guerra.
Não duvidaria, nem por instantes, que em situações de perigo e foram muitas as que juntos vivemos, o Cabo Magalhães, perigasse a sua vida para salvar o Furriel Duarte e vice-versa.
De ambos estes homens eu guardo boas memórias.
Do Furriel, o facto de certo dia em Porto Amélia fazer questão de me acompanhar para minha protecção, num caminho que ambos desconhecíamos e “talvez” perigoso e que me propunha trilhar sozinho.
Do Cabo Magalhães, quando duma operação de assalto a uma base da Frelimo, e já na retirada e ainda flagelados a tiro pelos “Frelos” 6, sofremos um ataque de abelhas, ele deslocou-se junto de mim e debaixo de fogo me envolveu com o seu poncho 7, parando assim o cravejar dos ferrões. A guerra em Mueda também tinha estas guerras, estas nuances
Natal de 1972. Messe de Sargentos de Mueda. 
Furrieis Almeida, Gonçalves, Neves Silva, Camacho e Barata..

Quarenta e três anos se passaram. Nunca mais tive qualquer contacto com os então Furriéis do meu pelotão: Duarte e Lopes. Quanto ao Alferes Bonina, fui informado que se terá suicidado em Portugal, uns anos depois da guerra.

Notas

1. Espingarda automática russa.

2. Nome dado aos soldados da Frelimo. (Frente de Libertação de Moçambique).

3. Vara de madeira ou cana de bambu com um prego na extremidade, com que se picava o chão, procurando as minas.

4. Vagem parecida com a do feijão da qual se desprendiam pós irritantes para a pele

5. Militares de carreira.

6. Nome dado aos soldados da Frelimo´

7. Capa impermeável.
















segunda-feira, 11 de julho de 2022

MANUEL NEVES SILVA -HISTÓRIAS DA GUERRA (7º EPISÓDIO)

 

INHOCA* - A COBRA (Zona de Pundanhar) Norte de Moçambique - Memórias da Guerra Colonial

Corria o mês de Outubro, mês do Ramadão de 1973 e do caju maduro. O Sol queimava o aldeamento enquanto a tarde descaía em direcção ao ansiado frescor da noite. Protegendo-me da canícula, eu estava junto à messe de sargentos, uma casa de lama com telhado de zinco e onde os furriéis da companhia aqui aquartelada algazarreavam o jogo da sueca na mesa do bar, onde as cartas jogadas se misturavam com as laurentinas vazias. Passeava o meu olhar pelo renque arbóreo que circundava a aldeia, quando vindo do lado das cubatas, e acompanhado de mais alguns soldados macuas em passos lestos, martelados, decididos na minha direcção e de olhares postos em mim surge o Cabo Amidjai. Recostei-me na parede de lama da messe, acabei a laurentina fresca, deixei cair das mãos a garrafa vazia e esperei pelo contacto eminente, tentando adivinhar em vão qual grave urgência estava para urgir. Aparece então a palavra do Amidjai (o Mata Cobra, assim mesmo chamado pelos seus pares, por se recusar a usar botas de lona usando sempre e apenas botas de cabedal, mais seguras no mato e a que chamava, botas mata-cobra):-

-Siliva, nosso pai, nós quer ir em Palma ao Ramadão. Ramadão que é nosso natal.

Este aldeamento -aquartelamento de Pundanhar era partilhado pelo meu Grupo (GE214),cujos soldados nativos viviam com suas mulheres e filhos em cubatas na zona civil e por uma Companhia de Caçadores integrada por soldados metropolitanos e nativos comandados por um capitão miliciano

Manifestado o desejo de celebrar o Ramadão em Palma, o grupo esperava a minha decisão, que a bem de todos e da acção psicológica (APSIC) , teria que ser sim, afirmativa.

E assim mesmo e ali ficou decidido, não sem antes consultar via rádio o Comandante Geral dos Grupos Especiais (GEs) em Porto Amélia, Capitão Pessoa de Amorim que achou uma boa ideia. Seria ao mesmo tempo uma missão de patrulha e reconhecimento ao longo da picada Pundanhar – Palma. Partiríamos ao fim da tarde do dia seguinte. A noite seria para andar e descansaríamos um pouco durante o dia para podermos esconder as agressões do sol por cima das copas das árvores

Pundanhar dista cerca de 50 km de Palma, no litoral. É terra natal da maioria dos meus soldados muçulmano macuas, uma terra bonita, arborizada de palmeiras e coqueiros, beijada de modo suave e terno pelas águas do Índico. Já por lá tinha passado uns meses atrás em trânsito desde o Dondo na Beira até este aldeamento, onde fui colocado no comando destes homens. Seduzia-me agora a ideia de repetir uns mergulhos naquela praia e saborear à noite o marisco que generosamente aparecia nestas águas.

O percurso feito a corta-mato evitando assim pisar tanto quanto possível a picada e as minas que os Frelos nela semeavam, foi aparecendo pontilhado de sombrosos cajueiros ostentado aqueles bonitos e madurados frutos, uma delícia que fui provando, não sem o aviso avisado daqueles homens:

- Bah Siliva, vai ficar grosso.

Ignorando-os assim fui caminhando, colhendo e comendo aquelas “peras” de caju frescas, coloridas, sumarentas e doces. Um maná a calhar naquele fim de dia húmido e quente. Á medida que a tarde crescia e as árvores iam estirando mais e mais a sua sombra para o outro lado do sol, comecei a sentir na minha cabeça a quentura quente das bebedeiras. Afinal aqueles frutos tinham o poder das laurentinas, essas cervejas bazucas acompanhantes de luxo naqueles momentos em que tentávamos esquecer aquele inferno onde tínhamos caído.

E foi assim neste bem-estar induzido, nesta abulia anímica de pensamentos entorpecidos, enquanto avançava connoso, olhos postos no além e de cabeça agradavelmente oca, que os meus sentidos repentinamente despertaram com o som nervoso e desencontrado de várias vozes:



- Inhoca!…inhoca!…inhoca!…inhoca , baah! inhoca.

.Eram vocalizações num tom de susto e aviso. Segui com o meu olhar, os olhares daqueles homens, focados naquele ponto do mato, sombreado pela copa de um largo cajueiro e vi aquilo que eles há muito tinham descortinado: uma cobra de largo diâmetro e bom comprimento, num movimento lento desembrulhando-se. Passada a surpresa inicial de medo e respeito com tal bicho, num gesto impensado afaguei a G3,enquanto dirigia o ponto de mira ao dorso do ofídio. Preparava-me para premir o gatilho, quando de pronto num gesto vigoroso e seguro vi uma mão negra desviar-me o cano da arma, e bem perto de meu ouvido a frase nervosa, conhecedora e avisada, de quem sabe:

Baah Siliva,se mata nhoca,mata nhoca,agora se não mata nhoca é uma porra.

Depois do seu gesto consumado e de ter largado para mim o tubo, o cabo macua Amidjai foi dizendo, agora num tom bem mais calmo:

Lagarta não faz mal, agora se ferir lagarta ou pisar nos ovos da lagarta é uma porra

A cobra mirou-me, mirou-nos, desenroscou-se por completo e sumiu em ondulações lentas, rastejadas para lá do trilho, desaparecendo confundindo-se com o matizado verde do capim.

Foi um encontro fugaz. Inhoca seguiu o seu caminho. Nós retomámos o nosso, agora com os sentidos mais apurados e as armas ainda mais nervosas, não tanto pelas cobras, sim para evitar qualquer surpresa urdida pelos Frelos e pelo cantar irritante das suas kalashnikov.

E agora o Siliva já conhece o efeito analgésico da “pêra” do cajueiro.

* -Inhoca, significa Cobra na linguagem Bantu-Suahili


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