Bem vindo

bandeira-portugal-imagem-animada-0007 bandeira-mocambique-imagem-animada-0006

Livros da guerra colonial

Miandica terra do outro mundo


segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

OMAR -- 1 de AGOSTO de 1974.

A Traição de Omar fez correr lágrimas a Spínola!

A Traição de Omar fez correr lágrimas a Spínola!
O significado da queda Nametil * (Omar)
Rompia a manhã a 1 de Agosto de 1974, no aquartelamento do exército colonial, chamado de «OMAR»,mas cuja
 verdadeira designação era NAMEtTIL. Estava no seu comando interino o alferes José Carlos Monteiro. Para eles, certamente, a guerra já tinha acabado, perdidos num ermo de Cabo Delgado, com uma vista monótona para a fronteira com a Tanzânia. Haviam mesmo começado a destruir algum material, pois estava previsto o seu encerramento. Ignoravam que eram, há muito, objecto de especial atenção, e que iriam ficar registados na história.
Em Naschingwea, face ao impasse negocial, depois das falhadas negociações de Junho, era necessário realizar uma acção capaz de acelerar a marcha dos acontecimentos. Escolhe-se o posto de Omar. Estudam-se as suas envolventes e chega-se mes­mo a fazer uma maqueta do aquartelamento. Ou a operação re­sultava em pleno ou as suas consequências poderiam ser sérias e reacender a guerra, quando da parte de uma das partes existe um estado de cessar-fogo. Samora Machel, pessoalmente, estabele­ce a táctica. E recomenda, com alguma estranheza para alguns, que a acção seja gravada em som e imagem. A 31 de Julho as forças da FRELIMO, as FPLM, tinham cercado por completo o aquartelamento. Inclusivamente colocado artilharia. Era respon­sável por esta operação no terreno o comandante Salvador Mtu-muke. Bem próximo do local, numa montanha, encontravam-se, em atenta observação, o adjunto do Departamento de Defesa, Alberto Joaquim Chipande, assim como o comandante do de­partamento de Defesa de Cabo Delgado, Raimundo Pachinuapa. Tinham instalado um sistema de comunicações entre a fren­te de operações, a base de comando e a Tanzânia, onde Samora Machel aguardava com grande impaciência o desenrolar do pla­no estabelecido.
Quando rompe a aurora do primeiro dia 1 do mês de Agosto de 1974, os cento e quarenta soldados do aquartelamento de Nametil são acordados por megafones solicitando a sua rendição  Todos estes pormenores da tomada de Nametil foram gravados. A guarnição militar rende-se. Cento e quarenta homens são feitos prisioneiros e três conseguiram fugir. Seguirão para a Tanzânia, onde chegam a 6 de Agosto. Independentemente da controvérsia, se a rendição resultou de um equívoco ou simplesmente da tomada de decisão mais sensata do seu comandante de não combater, face à situação política que se vivia e mesmo tendo em causa a desproporção do equipamento e das armas, a tomada do quartel de Nametil (Omar)  não pode deixar de ser mencionada pelos reflexos que teve. Mais do que uma vitória militar era uma vitória política.
O presidente Spínola, com condição para uma ronda nego­cial, que se inicia a 15 de Agosto, em Dar-es-Salam, exige que a FRELIMO apresente desculpas pelo ocorrido em Omar. Samora que engenhosamente tivera a percepção de tudo gravar, faz com que a delegação chefiada por Melo Antunes escute essa grava­ção. O que foi suficiente.
O que se passou a 1 de Agosto, nesse aquartelamento, poder-se-ia passar em qualquer outro ponto do país. Havia, da parte do exército português, a total falta de vontade de dar mais um tiro e muito menos de continuar uma guerra. Há factos indesmentíveis dessa realidade. O próprio general António de Spínola o admite e escreve que a tomada de Omar era «uma arma decisiva para Samora Machel na mesa de negociações. De militar para militar efectivamente assim o foi.
494 António de Spínola, País sem Rumo – Contributo para a História de uma Revolução. Ed. Editorial SCIRE, p. 302
In MOÇAMBIQUE 1974 – O fim do Império e o Nascimento da Nação, de Fernando Amado Couto(2011)
*Omar, para as autoridades portuguesas.
NOTA:
Se se comparar este texto com o que o Comandante Almeida e Costa relata, tanto Almeida Santos, como Melo Antunes mentiram ao General Spínola, além de não lhe fazerem a comunicação imediata dos acontecimentos de 1 de Agosto de 1974.
Diz Almeida e Costa: “Não só pelas três sessões de trabalho mas, sobretudo, pelo teor das surpresas que os esperam. A começar pela notícia de que a Frelimo tinha capturado uma companhia inteira de militares portugueses em Omar, no norte de Moçambique. Como se isso não bastasse, Samora insistiu que se ouvissem as gravações e as entrevistas feitas com os soldados capturados, apelando à rendição das forças portuguesas. «Foi muito confrangedor», explica Almeida e Costa. Incluindo para o terceiro-mundista Melo Antunes, que não resistiu a um desabafo: «Merda, assim não se pode fazer nada». In http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2005/08/1_de_agosto_de__2.html
Assim a cassete veio para Portugal a 3/4 de Agosto e não a 17/18 de Agosto.
Porque a não apresentaram de imediato ao General Spínola?
Escreve o General Spínola:
“Assim, quando em 15 e 16 de Agosto, a Delegação Portuguesa (13) se sentou à mesa das negociações em Dar-es-Salam, a facção predominante do MFA, ali repre­sentada pelo Major Melo Antunes, já estava ao lado do chamado Movimento de Libertação e, para que ainda se retirassem às forças políticas todas as possibilidades de soluções razoáveis, recorreu-se a formas de pressão impen­sáveis e só possíveis num quadro de alta traição.
“Na mesma ocasião fui informado de que aquela reunião havia sido aberta com a audição de uma fita gravada da «rendição» de uma companhia metropoli­tana no Norte de Moçambique, num cenário concertado com as cúpulas marxistas do MFA e conhecido pela «traição de Omar» (14), gravação que ficará a assinalar uma das páginas mais vergonhosas da História do Exér­cito Português ao oferecer a Samora Machel, na mesa das negociações, uma arma decisiva. As afirmações pro­duzidas no «acto da rendição», designadamente as sau­dações à FRELIMO, como libertadora de Moçambique e do próprio povo português, constituíram prova irrefu­tável do índice de prostituição moral a que haviam che­gado alguns militares portugueses.” (In O PAÍS SEM RUMO, de António Spínola).
Ora, a fita gravada, segundo Almeida e Costa, já fora ouvida por ele e Melo Antunes na anterior estadia entre 31 de Julho e 3 de Agosto.
Agora escutem o que Almeida Santos diz sobre a reunião de 15/16 de Agosto à SIC emhttp://www.macua1.org/blog/sicalmeidasantos.html
Para quê este “teatro”?
Mas porque é que “Samora Machel, pessoalmente, estabelece a táctica. E recomenda, com alguma estranheza para alguns, que a acção seja gravada em som e imagem.”(In Moçambique 1974, de Fernando Amado Couto)
Porque era preciso impressionar e levar o General Spínola a aceitar o que há muito já estava combinado entre o PS, PCP e FRELIMO, desde uma célebre reunião em Paris, onde, entre outros, a FRELIMO esteve presente. Recorde emhttp://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2010/04/a-outra-face-do-25-de-abril.html#more
E, para que não restem dúvidas, o autor da Newsletter aqui reproduzida, ainda felizmente vivo, me confirmou todo o seu conteúdo.
Resta ler-se a entrevista do Alferes Comandante em OMAR na altura, para se poder comparar do que é real do que é ou foi forjado.
Negando o então Alferes comandante de Omar ter proferido as afirmações que lhe são atribuídas por Almeida Santos, porque nunca foi tornada pública a cassete apresentada ao General Spínola? Será que ainda existe? Porque nunca foi ouvido qualquer dos elementos da companhia aprisionada?
OMAR e WIRIAMU são dois acontecimentos cuja génese ainda não foi totalmente dissecada. Mas que serviram na perfeição para a descolonização que foi feita.

ENTREVISTA DO ALFERES JOSÉ CARLOS MONTEIRO,COMANDANTE INTERINO DA 1ª COMPANHIA DO BATALHÃO DE CAVALARIA  8421

Ex-comandante da Base de Omar desmente Almeida Santos e chama-lhe traidor
Almeida Santos está na mira de tiro dos militares portugueses que, em Agosto de 1974, caíram nas mãos dos terroristas da Frelimo, em Omar (Moçambique). 
No centro da polémica está o segundo volume do livro «Quase Memórias», há diaspublicado, onde o dirigente socialista acusa de «traição» os homens da 1a Companhia de Cavalaria-Batalhão 8421. A versão relatada por um dos principaisresponsáveis pela trágica «descolonizaçã exemplar» é rejeitada liminarmente por quem viveu «in loco» os acontecimentos. Chocado e indignado, mais de trinta anos depois o ex-alferes miliciano Costa Monteiro, à altura comandante interino da Base de Omar, dispôs-se a abrir a «gaveta» das memórias em nome da verdade.De «traição à Pátria» o antigo militar acusa Mário Santos, Melo Antunes, Otelo Saraiva de Carvalho e o próprio Almeida Santos

O DIABO — O que é que realmente aconteceu em Omar na madrugada de 1 de Agosto de 1974?

COSTA MONTEIRO — Nessa madrugada, na orla da mata do estacionamento ouviram-se vozes, através de megafones, que diziam: «Atenção aquartelamento de Omar, nós não estamos contra vocês, lutamos contra o fascismo e o colonialismo, e esses terminaram no dia 25 de Abril. Queremos falar com vocês. Mandem um mensageiro à pista, pois nós estamos sem armas. Não queremos mais derramamento de sangue». 
Em consequência destas palavras, insistentemente repetidas, o soldado Joaquim da Silva Piedade ofereceu-se como voluntário para ir à pista como mensageiro. O restante pessoal continuou nas valas e em diversas posições de fogo. Quando o nosso soldado estava próximo da pista, voltaram-se a ouvir vozes, igualmente através de magafones, pedindo para que o comandante fosse também à pista. Perante a insistência acedi deslocar-me com o soldado Piedade. Surgiu, então, cerca de uma dezena de indivíduos, desarmados, munidos com gravadores portáteis, máquinas fotográficas e de filmar. Quando me encontrava a conversar com o comandante do grupo, este pediu, pelo megafone, para falar com os soldados da Companhia na pista. Face à insistência e recordando-me da mensagem 2008/01/74, do Comando do Sector B, sugeri que poderiam entrar e falar com todo o pessoal no interior do aquartelamento. A minha proposta não foi aceite alegadamente por recearem qualquer reacção das nossas tropas ou da Força Aérea. Como não foi notada a presença de indivíduos armados, aceitei que parte da Companhia fosse até à pista, ficando nas posições as secções de obuses 8,8, morteiros e postos de sentinelas.Quando uma parte dos nossos militares estavam na pista, surgiu uma força de cerca de cem homens, que pela porta de armas traseira, entraram de assalto, tomando as nossas posições no interior do quartel. A reacção das secções de obus não era possível, pelo que o grupo da força invasora entrou obrigou o pessoal das restantes posições a sair. No mesmo momento em que o quartel foi tomado, outra força, emboscada
na orla da mata da pista, cerca todo o pessoal que ali se encontrava. A Companhia não se entregou e muito menos se bandeou com a Frelimo, como alguns políticos e meios da comunicação social referiram. Foi emboscada. Se não fosse o 25 de Abril isto não teria acontecido.

Que instruções recebeu na mensagem que referiu?

Era a transcrição da mensagem 7165/P da 5.a Repartição, que dizia: «Devem todos os comandos tentar criar condições locais passíveis de conduzir ao cessar fogo na sua ZA. Para o efeito lançarão campanhas de panfletos, cartas deixadas no mato, e acima de tudoservir-se como intermediários, bem como todos os meios achados convenientes. Só deve ser prometido respeito e confiança mútuos e desejo para a paz. Todos os militares serão esclarecidos destes acontecimentos e finalidades, tendo em vista evitar quaisquer incidentes ou atitudes inconvenientes e todos os resultados alcançados serão comunicados a este Comando». Baseado nesta mensagem e sob o mesmo espírito, o Comando Militar de Mocimboa do Rovuma elaborou um comunicado para ser distribuído durante os patrulhamentos efectuados por forças do BCAV 8421, onde era referido que «as Forças Armadas estão dispostas a não atacar o povo da Frelimo, se esta força não atacar as picadas e quartéis portugueses».

Os militares portugueses foram feitos prisioneiros?
A fuga dos cinco

O cativeiro dos militares de Ornar iniciou-se a 1 de Agosto, em Moçambique, e terminou a 19 de Setembro, na Tanzânia.Daquela guarnição militar cinco soldados lograram fugir.

Ainda se recorda dos nomes desses militares que conseguiram escapar às garras da Frelimo?

Sim, ainda me lembro. José António Cardoso Gonçalves, Joaquim da Silva Piedade e Vasco Ponda, que vieram a apresentar-se no dia 2 em Nangade; Sumail Aiupa e Laquine Puanhera, que se apresentaram no dia 3, igualmente em Nangade, e no mesmo dia apresentou-se Mário Andrade Moiteiro, em Mocimboa do Rovuma.

Como foi possível o êxito da cilada montada pela Frelimo?

A nossa Companhia estava — como reconheceu Melo Antunes no livro «Melo Antunes — O sonhador pragmático» — numa situação extremamente delicada e difícil, junto à fronteira com a Tanzânia, praticamente isolada, sem grandes possibilidades de informação e de comunicação. A mensagem oficial que havíamos recebido e que anteriormente referi, chegou a notícia de que, na sequência dos contactos havidos entre as autoridades militares e civis portuguesas com os dirigentes da Frelimo, estava-se à beira de atingir o desbloqueio das negociações então em curso e que a paz era dada como certa. Quanto ao êxito de que me fala, deveu-se às condições que acabo de referir e à mensagem 7165P da 5.a repartição.

O que é que lhe disse o comandante dessa operação da Frelimo?

Quando lhe perguntei o que é que se passava, ele respondeu que iria falar com o comandante Joaquim Chipande, que estava no interior da mata. Pouco depois fomos levados para uma base avançada da Frelimo, de que eram responsáveis Silésio e Joaquim Chipande. No dia 2 seguimos para outra base da Frelimo, onde permanecemos dois dias. Aí tivemos a primeira reunião com uma comitiva da Frelimo, chefiada pelo Chipande. Foi-nos lido o teor das con-versações de Lusaca onde Chipande havia estado presente. Aquele comando da Frelimo explicou-nos, então, que a razão ou uma das razões porque tinham tomado Omar foi pelo facto de não só ser uma base de importância vital, mas também porque já haviam escrito uma carta ao Comandante do Sector B/AV (Mueda), tenente-coronel Andrade Lopes, onde a Frelimo exigia como condições a retirada de determinados quartéis e a reunião dos mesmos em Mueda. Como não foi satisfeita essa exigência e a Frelimo sabia, pelo barulho de rebentamentos e por uma mainato civil, que desertara da nossa Companhia, que Omar estava a destruir material de guerra. Após esta explicação seguimos, escoltados por guerrilheiros da Frelimo, para outra base dos guerrilheiros, onde nos juntamos aos outros soldados, pois havíamos sido divididos em dois grupos. No dia 5 levaram-nos para o Distrito de M'Napa, onde pernoitamos. No dia seguinte rumámos em direcção à base Limpopo, da Frelimo, onde nos distribuíram sopa, arroz e água. No dia 7 de Agosto estávamos em território tanzaniano. Trocaram os nossos uniformes por fardamento presumivelmente pertença do exército da Tanzânia. No mesmo dia fomos transportados em viaturas do exército tanzaniano para Newala, onde pernoitamos numa prisão em construção. No dia seguinte houve um encontro dos prisioneiros com o presidente da Frelimo, Samora Machel, que fez questão de nos cumprimentar, um por um. Na tarde desse mesmo dia fomos levados para Nashinguwea. Ficámos instalados num quartel do exército da Tanzânia, onde permanecemos presos até aos dia 19 de Setembro de 1974.

Quando regressaram a Moçambique quem é que vos recebeu e que tratamento tiveram?

Fomos recebidos em Nampula pelo coronel Travassos, na altura comandante do Sector B. Fomos bem acolhidos. Deram-nos novos fardamentos e dinheiro.





AVILTADA E TRAÍDA
A sua CompaNHia foi traída?

Foi aviltada e traíDA. Se querem saber a verdade sobre o que aconteceu na madrugada de 1 de Agosto de 1974, em Omar, consultem os arquivos militares portugueses. Lamento que ninguém se tenha preocupado em transcrever o que está registado no Arquivo do Exército sobre os acontecimentos de Omar. A verdade de Omar não é a que Almeida Santos escreveu.

Recorda-se do nome do comandante da força da Frelimo que capturou a guarnição militar portuguesa de Omar, também conhecida por Namatil?

Salvador Mutumuke.

Essa acção da Frelimo em Omar terá tido alguma influência nas conversações de Lusaca?

Desconheço. Mas poderá ter servido de moeda de troca em termos de prisioneiros.

No livro que escreveu, Almeida Santos faz alusão à existência de uma cassete de vídeo que supostamente prova que os militares portugueses se entregaram voluntariamente à Frelimo. É verdade?

Não sei de que cassete se trata. Não tenho conhecimento da existência de qualquer cassete. Nunca vi nem ouvi esse registo. O que tem sido escrito sobre o que aconteceu em Omar não corresponde à verdade.

Escreve também Almeida Santos que o general Spínola, então Presidente da República, terá ficado «perturbado» com a audição da cassete, que entretanto fora entregue a Melo Antunes pela Frelimo. Segundo as palavras de Almeida Santos, o
general Spínola recusou aceitar que tão vergonhosa rendição traduzisse o espírito das
Forças Armadas portuguesas em Moçambique. Como comenta?

As ordens transmitidas pelo general Spínola não foram cumpridas pelos seus emissários e isso é que, certamente, o terá enfurecido.

Na qualidade de comandante interino da guarnição de Omar foi ouvido pela hierarquia militar?

Não.

E pelo poder político?

Também não.

Foi-lhe instaurado algum inquérito ou sofreu alguma punição pelo que aconteceu em Omar?

Nada.
«Os verdadeiros traidores»
Fica claro das suas palavras que os militares portugueses estacionados em Omar e que o senhor comandava não foram traidores.

Nós, os militares portugueses em momento nenhum fomos traidores. Traição houve por parte do poder político português da altura, no quadro da trágica descolonização das ex-províncias ultramarinas.

Quer referir os nomes?


Mário Soares, Almeida Santos, Melo Antunes e Otelo Saraiva de Carvalho, entre outros. Estes é que são os grandes e verdadeiros traidores da Pátria portuguesa.

O que é que acha que Almeida Santos procura com o livro que escreveu?

A meu ver procura encontrar bodes expiatórios, procura sacudir a água do capote, eximir-se às muitas responsabilidades que teve.

Ainda por cima recorrendo a mentiras...

É vergonhoso! O livro descreve factos sem que ele, Almeida Santos, tenha procurado averiguar da sua veracidade. Escreveu coisas sem se preocupar em buscar a verdade. É lamentável e vergonhoso. Mas ainda há mais de uma centena de pessoas vivas, ex-mi-litares, que podem testemunhar toda a verdade.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

OPERAÇÃO "NÓ GÓRDIO"

Kaúlza de Arriaga e Armindo Videira, comandante do COFI

A situação em Cabo Delgado,em finais de 1969,era de acentuada pressão sobre os aquartelamentos militares Portugueses,com a minagem dos itenerários e ataques às colunas tácticas e logísticas,tentando a Frelimo expandir as suas acções para Sul do Rio Messalo.Espalhava-se a ideia de que o planalto central era zona inacessível às tropas Portuguesas depois de,no final desse ano,unidades de Páraquedistas e Comandos não terem coseguido alcançar as grandes bases da guerrilha,Gungunhana e Moçambique.No primeiro trimestre de 1970,verificou-se a intensificação da guerra,com a Frelimos a ultrapassar o Rio Messalo,em direcção ao Lúrio,e a confirmação de acções em Tete/Cahora Bassa.A actividade da guerrilha aumentou mais de 40%,continuando a caber a maior percentagem ao emprego de minas.O contínuo agravamento da situação militar e a impossibilidade de aumentar o esforço de guerra,quer em efectivos Metropolitanos quer em material de combate,levaram o Gen.Kaúlza de Arriaga,ainda como Comandante do Exército,a intensificar a formação de unidades de recrutamento local,que utilizaria intensamente como Comandante-Chefe.Nos finais de 1969 ,foi formado o Batalhão de Comandos e formada a 1ª Companhia de Comandos de Moçambique.



O famoso BIGONE a desfilar em Lourenço Marques, com os
seus GE de farda preta e boina amarela
Logo em Janeiro de 1970, a Região Militar anunciou a formação dos primeiros seis Grupos Especiais (GE) de milicias com o total de 550 homens.
Em Abril de 1970, foi referenciada a presença de Samora Machel em Cabo Delgado, para apresentar os planos de uma grande ofensiva a executar em Junho e Julho. Esta visita fez aumentar a actividade militar da Frelimo a nível nunca igualado. De facto, enquanto no segundo trimestre de 1969 o movimento realizou 154 acções, das quais 98 foram minas, no primeiro trimestre de 1970 essas acções subiram para 685, sendo 646 de minas e no segundo para 759 e sendo 652 de minas.
Com este cenário em pano de fundo, o Genrral Kaúlza deArriaga, já como Comandante-Chefe decide lançar a operação "NÓ GÓRDIO", atribuindo a sua execução ao Comando Operacional das Forças Armadasa (COFI), criado em Novembro de 1969 para o emprego conjunto de forças do Exército, Marinha e Força Aérea em missões de grande envergadura em situações de emegência e em operações especiais.
A preparação para a operação "NÓ GÓRDIO" foi iniciada com a primeira experiência do COFI em Maio de 1970, na condução de uma grande operação ao longo da picada Mueda -- Mocímboa da Praia, (OPERAÇÃO ZETA) envolvendo unidades de Comandos, Pára-quedistas e Fuzileiros, apoiados por artilharia e aviação, a qual serviu de treino ao Estado - Maior do COFI e permitiu aliviar a pressão sobre um território fundamental para o apoio logístico à grande operação que se preparava.
Entretanto desde a tomada de posse do General Kaúlza de Arriaga que o seu quartel general em Nampula trabalhava nos preparativos que iriam concretizar o seu conceito de manobra em acções de contra-guerrilha: executar operações de grande envergadura sobre objectivos materializados no terreno, com o máximo de forças. Para tal processou-se intensa actividade de reparação e reunião de materiais, sobretudo artilharia e auto metralhadoras; transferiram-se depósitos de munições, combustíveis para o norte; prolongou-se a pista de Mueda, de modo a nela poderem operar aviões FIAT G 91, e em Nangololo, para receber NORD-Atlas de transporte; deslocaram-se efectivos de sul para norte, incluindo algumas unidades em fim de comissão: receberam-se novos materiais, especialmente alguns detectores de minas e rádios; e preparou-se finalmente, um plano de acção psicológica destinado às populações e forças portuguesas.
O início da operação "Nó Górdio" foi marcado para o dia 1 de Julho de 1970, com a presença do General Comandante-Chefe e do seu Estado Maior em Mueda, prolongando-se até 6 de Agosto. Nela participaram mais de 8.000 homens, que representavam cerca de 40% dos efectivos das tropas de combate que eram de cerca de 22.000 homens, uma concentração que esgotou as reservas disponíveis, pois empenhou a totalidade das unidades de forças especiais, (Comandos, Pára-quedistas e Fuzileiros) e os Grupos Especiais (GE) recém criados, mais a quase totalidade de Artilharia de campanha, unidades de reconhecimento e de Engenharia.
O conceito da operação assentava num cerco e batida com grandes meios, prevendo o isolamento da área do núcleo central do planalto dos Macondes, onde se encontravam as grandes bases GUNGUNHANA, MOÇAMBIQUE e NAMPULA, através dum cerco ao longo dos itinerários MUEDA-SAGAL-MUIDUMBE-NANGOLOLO-MITEDA-MUEDA, com a extensão de 140 Kms e, após conseguido o isolamento da área, o assalto e destruição dos principais objectivos do núcleo central.

OBJECTIVO A -- BASE DE ARTILHARIA GUNGUNHANA
OBJECTIVO B -- BASE PROVINCIAL MOÇAMBIQUE
OBJECTIVO C -- BASE NAMPULA


A manobra seria apoiada no terreno com fogos de artilharia e de aviação, em acções de flagelação e de concentração sobre os objectivos
MAPA DA OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO
Para criar condições de aproximação a estes e actuar sobre eles, seriam organizados agrupamentos de forças para procederem à abertura simultânea de picads em direcção aos objecticos "A" e "B", o mesmo sucedendo posteriormente para atingir o objectivo "C" e, por fim, previa-se manter o cerco e continuar a bater e eliminar todas as organizações referenciadas ou a referenciar.
As acções militares deveriam ser conjugadas com intensa campanha de acção psicológica, para provocar a rendição e desmoralização do inimigo.
Os agrupamentos de cerco seriam constituídos por unidades de caçadores e por unidades de reconhecimento, realizando as primeiras emboscadas em permanência, enquanto as segundas patrulhariam os itinerários.
Os agrupamentos de assalto disporiam de uma composição inter-armas, do tipo task-force, incluindo unidades de de forças especiais, forças regulares, de apoio de fogos de artilharia e morteiros e de engenharia. A esta cabia papel de grande sacrifício e risco na abertura das picadas tácticas desde as estradas MUEDA- MITEDA e MITEDA-NANGOLOLO, até à proximidade dos objectivos, onde seriam criadas as bases de ataque para as forças de assalto.
A operação concebida como manobra de tipo convencional, em que se pretendia alcançar com uma ataque em força o que do antecedente não fora conseguido, empregando a surpresa. 

CLIKA AQUI PARA LERES A CRÓNICA: "NÓ GÓRDIO" A VERSÃO DE QUEM LÁ ESTEVE

                                        
                          EXECUÇÃO DA OPERAÇÃO

Para  cumprimento do plano foram constituídos sete argumentos: dois  para o cerco (norte-Sul) e quatro de intervenção, um para cada objectivo  e um para reserva.   

 1 de JULHO. IInício. Os agrupamentos de cerco começaram a sua instalação. Os agrupamentos de assalto "A" e "B" principiaram o movimento para o objectivo. 
3 de JULHO. O agrupamento de assalto "B" (Pára-Quedistas) iniciou a progressão de Nangolo para o objectivo "B" Base Moçambique, com o apoio da Engenharia na abertura da picada desde CAPOCA até GOLE
4 de JULHO. O agrupamento de assalto "A" (Comandos) chegou à base de ataque, a 2 Kms do objectivo - base Gungunhana.
5 de JULHO.  Realizou-se a primeira tentativa de assalto à base Gungunhana, que não se encontrava na localização prevista.
6 de JULHO. Foi localizada e assaltada a base Gungunhana, que fora abandonada recentemente.
Estava localizada na encosta de uma pequena colina, na base Moçambique o interior de mata densa, ocupava uma área de 100x500 metros, dispunha de mais de 100 palhotas, era circundada por uma vala e tinha abrigos contra morteiros e ataques aéreos.
Foi assaltada a base Moçambique pelas forças Pára-Quedistas. Era constituída por cerca de 200 palhotas e encontrava-se abandonada há cerca de 2 meses
12 de JULHO. O  agrupamento de assalto "C" (Fuzileiros) iniciou o deslocamento de MUEDA para o objectivo "C" Base Nampula.
15 de JULHO. Foi atingido o objectivo "C" a base de Nampula era constituída por cerca de 50 palhotas e encontrava-se abandonada há cerca de 2 meses
16 de JULHO a 6 de Agosto.Realizaram-se acções de permanência. Após os ataques aos objectivos "A"-"B"-"C" foram organizadas bases temporárias nas suas proximidades e atribuídas áreas de responsabilidade aos agrupamentos de ataque, com a finalidade de eliminar da zona as unidades de guerrilha ainda activas. As forças de cerco mantiveram-se em posição até 2 de Agosto, realizando emboscadas e implementarem armadilhas, para completar e melhorar a manobra. Em coordenação com as acções militares.
Em coordenação com as acções militares foram realizadas operações psicológicas com a finalidade de separar as populações dos guerrilheiros, desmoralizar os combatentes e fomentar as apresentações, considerando que a Frelimo controlava cerca de 60.000 pessoas na zona do planalto.
Para esse efeito, foi instalada em MUEDA uma secção de apoio psicológico, constituídas equipas de recepção de refugiados em SAGAL, DIACA, MITEDA e MUIDUMBE e equipas de acção psico-social em MUEDA e SAGAL. Também as autooridades administrativas receberam instruções para armazenar reservas de víveres, a fim de fazerem face às necessidades imediatas de apresentados e capturados. 



A FRELIMO, apesar da Operação "NÓ GÓRDIO", não foi impedida de actuar em qualquer dos teatros de operações. A sua actividade no terceiro trimestre de 1970 provocou as seguintes baixas e destruição às forças portuguesas, nas zonas não abrangidas pela Operação.
No Distrito do Niassa: 17 mortos, 77 feridos graves e 14 viaturas destruídas
No Distrito de Cabo Delgado: 25 mortos, 70 feridos graves e 33 viaturas destruídas.
Distrito de Tete: 51 mortos, 192 feridos graves e 60 viaturas destruídas.







segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

COMO EU VIVI O 7 DE SETEMBRO DE 1974 EM LOURENÇO MARQUES

domingo, 12 de novembro de 2017


Eu sou o António Manuel Gomes Lopes, (Pintinhas), nascido a 10 de Junho de 1948 na linda Cidade de Lourenço Marques, no mítico Hospital Miguel Bombarda.


Vivi até aos 12 anos no carismático, bairro da Malhangalene. Mais tarde, vou viver para o bairro clandestino do Aeroporto paredes meias com a cidade do caniço. Daí a minha aproximação aos pretos de Moçambique, que sempre estimei e fui retribuído.
Em 1958 os meus pais vieram de licença graciosa para Portugal, Figueira de Castelo Rodrigo, na Beira Alta, onde tomo conhecimento do que era Portugal desses tempos. Um exemplo que jamais esquecerei era o do "Barbas", colega de turma, que no inverno ia descalço e o Toninho Cigano apresentava umas botas que fazia inveja a um rei.
Fiz por cá a 4ª classe e a admissão aos Liceus. Regressei a Lourenço Marques e vou para o Ciclo Preparatório na época a funcionar na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque. É aqui que nasce a minha alcunha de "Pintinhas", pela qual ainda hoje sou conhecido. Foi-me "dada" pelo professor de português, Pinto Martins, pessoa muito conhecida no âmbito escolar.
Ingresso na Escola Comercial  Drº Azevedo e Silva, na qual tiro o Curso Geral de Comércio. Finalizado o Curso, vou trabalhar nos escritórios da Cooperativa de Criadores de Gado.
Passei como bom COCA-COLA uma infância normal e feliz.

Em 1969, vou cumprir o serviço militar obrigatório. Faço a recruta em Boane. Este Centro de Instrução era o local de incorporação dos mancebos da Província de Moçambique. Frequentei o Curso de Sargentos Milicianos (CSM).
Nesse ano começaram a ser formadas companhias de Comandos de Moçambicanos em Montepuez, e os Grupos Especiais (GE). Ambos na época só para voluntários.
Decidi pelos GE por uma questão simples. O Alferes e o Furriel que vieram a Boane recrutar pessoal para os GE tinham sido meus colegas na Escola Comercial.
Quando acabámos o Curso de GE já sabia que tinha como destino a Companhia de Caçadores de Mocímboa da Praia.
Fiz algumas operações com esta companhia enquadrada com os GE de Palma, até que sou chamado a formar o Grupo de Nangade, o 205.
Sou graduado em Alferes e durante 26 meses fui conhecido pelo Alferes Pintinhass.
Em Agosto de 1972, termino a minha comissão em Cabo Delgado.
Alferes "Pintinhas"
A convite do general Kaúlza de Arriaga, fiz como capitão, um contrato de dois anos e, fui para o conhecido "TRIÂNGULO BRANCO"; Portugal, Moçambique e Rodésia do Sul. 
Eram comandados por mim na vila rodesiana de Kayemba, 2 alferes e quatro praças moçambicanos todos de raça negra. A nós juntaram-se 23 rodesianos. 
As reuniões de planeamento operacional eram efectuadas na cidade de Tete ou em Kyembe.
A 28 de Abril de 1974, a cooperação terminou, mas no entanto o grupo português ainda ficou por lá  até Junho desse ano. Neste mês regresso a  Lourenço Marques, à espera do que fariam da minha carreira militar.
Precisamente nessa época, sou convidado por dois portugueses radicados à longos anos em Lourenço Marques. Foram eles o Dr. Velez Grilo, que tinha sido meu médico pediatra e o Trajano da Mata, ambos muito amigos do meu pai. Foi a pedido deles que o meu pai me contactou para ter uma reunião com estes altos dirigentes de um partido, mais tarde vim a saber que era o FICO.
A primeira reunião, foi efectuada no restaurante do Aeroporto de LM, era um local que eu bem conhecia. Em caso de algo correr mal, eu estava em casa, pois vivi nove anos no bairro clandestino do Aeroporto. Paredes meias com a cidade do caniço. Por ter lá vivido convivi e fiz muitos amigos pretos e falo o seu dialecto.
A primeira reunião foi para os ouvir e ter a certeza, que o objectivo se coadunava com os meus princípio, mais ainda eu não poderia interferir directamente no assunto, pois ainda era militar.
Sucederam-se reuniões e numa esteve presente o sr. Rodolf  Botha que era da CID, (Centro de Inteligência e Defesa), sul-africana, que mais tarde me abriu as portas da África do Sul.
Havia uma sintonia perfeita para a construção em Moçambique de uma sociedade multirracial que a FRELIMO, Samora Machel que, assim não entendia. Houve uma tentativa de acordo antes da assinatura dos Acordos de Lusaka de encetarmos uma conversação com a própria FRELIMO através de um amigo de infância e de estudos que passarei a tratá-lo por "M".
Na época já se sabia quem era ou não pró FRELIMO e este meu  amigo que ainda o considero, apoiava a FRELIMO, mas não o radicalismo.
Três semanas depois, através dele tivemos como resposta um contundente, NÃO!
Sentimos-nos de mãos atadas e tomei a liberdade de falar com adidos militares de quatro países, que partilhavam as nossas ideias.. Mas, mesmo esses nada puderam prometer e muito menos fazer.
Gostaria que ficasse bem explicito que nas nossas conversas nunca se pediu armamento ou apoio militarizado. Queríamos apenas consensos. Eu e muitos outros moçambicanos brancos já íamos na terceira e quarta geração.
Alf. Alberto Chissano  e ALf. Toni Pintinhas
No entretanto acendeu-se uma luz ao fundo do túnel, o adido militar norte-americano, disse-nos para termos calma pois algo estava para acontecer que poderia levar a um entendimento.
As conversações continuaram e já com partidos cujos líderes eram dissidentes da FRELIMO. Homens e mulheres bem conhecidos que tinham pertencido aos quadros da FRELIMO.
Tivemos uma reunião numa residência no Alto Maé, não sabíamos o que se estava a passar. Estávamos apavorados.
Esperávamos que por parte do Governo português, que não houvesse um lavar de mãos, um abandono, mas foi isso que aconteceu, com a assinatura do Acordo de Lusaka entre o governo português e a FRELIMO. 
As promessas feitas pelo PCP e por Mário Soares à FRELIMO foram cumpridas. Com o Acordo, Portugal entregou Moçambique à FRELIMO e abandonou a população branca, para eles colonos.
No dia 6 de Setembro de 1974, sou procurado pelo Trajano, em casa dos meus sogros que moravam muito perto das antenas da Matola, contando-me o que se estava a passar em LM. A nossa bandeira estava a ser estropiada e davam-se vivas à FRELIMO e com ameaças à população branca.
Combinámos, não enfrentar os arruaceiros, porque não queríamos-nos colocar à sua imagem.
O interessante, é que os que estropiavam a nossa bandeira pela avenida da República, eram pessoas de uma família muito conhecida em Lourenço Marques, pelos seus dotes desportivos e passados dois anos foram corridos pela FRELIMO e foram viver para Portugal, que tanto ofenderam.
Foi uma noite sem dormir, houve uma enorme explosão nos paióis da Forças Armadas no bairro de Benfica. Pensei o pior. O Trajano telefona-me para casa dos meus sogros. Tínhamos combinado na reunião anterior que iríamos mais o Ferreira para as antenas do RCM na Matola,
Depois de muitas escaramuças, o povo, a 7 de Setembro de 1974, toma posse do Rádio Clube de Moçambique, já lá estávamos nas antenas para proteger a emissão do RCM.
Edifício das antenas do RCM, na MATOLA
Chego ao edifício das antenas por volta das 11 h, já havia pessoas a tentar entrar para o cercado onde ficava  o edifício de controlo de emissão das várias estações do RCM.
Uma pequena reunião com o Trajano estabelecemos logo as prioridades. Eu fiquei com a segurança.
Fecharam-se os portões, contra a vontade do povo, mas tinha que haver disciplina. Só entrava quem o Trajano e o Ferreira desse autorização, visto que eu não conhecia muitos dos indivíduos que colaboravam na causa, Tínhamos quatro pessoas da nossa confiança, que geriam a entrada e saídas.
O Trajano telefona ao Manuel (locutor), para que este através dos microfones do RCM convocasse para a Matola todos os GE (Grupos Especiais), pois o alferes "Pintinhas" os convocava.
Era uma manobra de diversão, os GE estavam no Norte.  Apareceram três ex-furriéis, , a primeira coisa  que me perguntaram foi: "armas", disse-lhes muito simplesmente que não havia armas porque não íamos fazer guerra.
Havia que vigiar as estradas  que davam acesso às antenas. Para as que vinham de Lourenço Marques ou de Boane, pela estrada velha da Matola, não foi difícil a vigilância, visto que havia um restaurante perto da passagem de nível, falei com o proprietário, para estar atento a qualquer passagem de viaturas militares com destino à Matola nos informasse por telefone.
A vigia na nova estrada da Matola também foi fácil. Um funcionário da SOVIM, que tinha aderido ao movimento, entrou em contacto com um colega para este os informar se havia movimentações militares na estrada.
A estrada que ligava a Matola a Boane era a mais problemática. Não conhecia ninguém nessa zona. Sendo assim um dos meus homens parte para Boane, fala com uns cantineiros e tudo fica resolvido. Assim, o perímetro das antenas  estava protegido e defendido. 
Só faltava sabermos o que de importante se passava no Quartel General. no Esquadrão, e no BCAÇ18. Tínhamos que  contactar com militares da incorporação moçambicana, entre os quais tínhamos muitos amigos. Para esse efeito, contactámos com alguns dos seus familiares e estes por sua vez pediram-lhes que se algo de anormal se passasse nas sua unidades que nos informassem.
Notícias vindas de LM, davam-nos conta que o RCM estava a abarrotar, o aeroporto tinha sido ocupado por ex-paraquedistas, da Cadeia da Machava tinham sido libertados os agentes da PIDE/DGS.
Estava convicto que até certo ponto tínhamos atingido o objectivo de tentar convencer o governo português que também éramos moçambicanos, não queríamos mais guerra, queríamos um Moçambique multiracial e unido. 
No dia 8, ao raiar do sol começam a aparecer boatos de todas as formas e feitios por exemplo: a vinda de armamento proveniente da África do Sul, para nos armar. eu sabia que isso era impossível,pois nas conversas havidas meses antes entre nós e o BOSS, ficou claro que eles jamais deixariam passar armas para Moçambique.
O 8 de Setembro foi um dia de muito diálogo, via telefone, entre Rádio Clube de Moçambique em Lourenço Marques e as antenas na Matola  do RCM, soube-se que a OPVDC, também se alia à causa. O comandante desta força, Tenente Coronel Vasconcellos Porto, era um pessoa sobejamente conhecida e de grande carácter. Privei com ele durante 2 anos em Nangade em Cabo Delgado.
Junto aos portões do edifício da antenas da Matola, era uma mole humana. As pessoas traziam comida, palavras de apreço e de confiança. Não sei porquê, o meu instinto de defesa em movimentações militares, dizia-me que íamos ter problemas, as chefias militares portuguesas já me tinham desiludido várias vezes.Sabendo eu que o MFA, apenas olhava para o seu "umbigo" e não queriam saber dos portugueses que nasceram, viveram e trabalhavam nas Províncias Ultramarinas.
Nangade 1971. General Kaúlza a passar revista aos novos GE,
acompanhado pelo Alferes "Pintinhas"
Recebemos um telefonema do restaurante da estrada velha da Matola, avisando-nos que uma viatura militar, com soldados armados de deslocava na nossa direcção, friamente pensei: quem quer que seja vou falar com eles.
Pedi ao povo para se afastar dos portões e que não molestassem oral e fisicamente os militares.
Esperámos por eles mais de uma hora e nada. Recebemos um novo telefonema do restaurante, dizendo que eles tinham voltado para trás. Mas tarde, soubemos que a cerca de um Km das antenas o oficial mandou a viatura de regresso a LM, tinha recebido a informação do condutor da viatura, que o RCM informava que os GE`s estavam tinham montado segurança às antenas.

Texto retirado do livro de Ribeiro Cardoso e já publicado neste Blog

"O capitão Gardete dizia que bastava cortar o cabo que alimentava as antenas, acrescentando que para as silenciar não era preciso deitá-las abaixo -- e lá se organizou uma coluna com meia dúzia de viaturas militares de transporte cheia de soldados negros com capacetes de aço e armados de G3. Chefiada por um capitão cujo nome não recordo, e integrando dois ou três oficiais, entre os quais o capitão Gardete e eu próprio que nunca me vira em tais preparos e apertos, lá chegámos à Matola, onde tínhamos à nossa espera centenas de brancos armados de caçadeiras, algumas de canos cerrados, apontados na nossa direcção.
O comandante da nossa coluna (Hoje Major-General das FAP, Ribeiro Cardoso) falou com o chefe da multidão de brancos que diziam que estavam a defender as antenas e que não obedeciam a nenhum militar. Assim, ala que se faz tarde, regressámos com o rabo entre as pernas ao  QG, como teria acontecido numa digna guerra de Solnado.
A explicação foi a de sempre: não fazer correr sangue. Para além, claro, de entre nós não haver um único atirador ou especialista em combate"...

Hoje continuo a pensar que teria sido uma chacina pois os militares que seguiam na viatura eram soldados pretos de 2ª sem preparação militar. No, meio da multidão havia pessoas com armas de pequeno calibre.
As horas iam passando, dramáticas, não sabíamos o que se passava e o que no esperava. Recebíamos alguma informação via telefone  do RCM em LM, ou de populares que chegavam à Matola e nos informavam dos acontecimentos junto ao RCM. Neste caso e  devido à minha experiência não podia acreditar em tudo. O boato é o pior dos inimigos.
O Início do descalabro
Dia 9 de Setembro, já desgastados, a palavra dormir não existia no nosso vocabulário, o cérebro já não trabalhava na sua plenitude.
Cerca das 20 horas, alguém junto ao portão diz-nos que a tropa da Escola de Administração Militar de Boane (EAMB), vinha em direcção à Matola. Em 3 viaturas civis e fomos para a ponte da Matola. Para nosso espanto, a ponte tinha sido tomada por populares brancos, pretos e enfim de todas as raças, que apoiavam o nosso movimento. Percebi então, que as coisas iam dar para o torto. A noite estava fria e boa parte dos homens usavam gabardines, onde escondiam caçadeiras. Era difícil controlar, ainda pensei que estava a sonhar, mas não, era a verdade nua e crua.  Começo a ver a coluna militar e aquela multidão, enfrenta a coluna militar.
Alguém fala com o comandante e entre gritos e sei lá que mais. O comandante teve a consciência do que poderia advir, ou consultou via rádio os seu superiores e deu ordem de regresso a Boane,
Já amanhecia quando voltámos ao parque das antenas, onde nos esperavam outras notícia. O movimento começava a radicalizar-se. Pede-se com veemência "ARMAS", Estava a enveredar por um caminho pelo qual eu temia.
O comando no RCM em LM, ordenou-nos que fossemos ao Lingamo, perto do porto de mercadorias, onde havia um armazém com armamento do exército português, que tinha chegado antes do 25 de Abril.
Duas viaturas com sete homens, com experiência de guerra e uma mulher, que nunca mais a vi e não tive oportunidade de lhe dizer: GRANDE MULHER, e nem sei se era amiga de alguém que integrava aquele grupo.
Chegados ao Lingamo, procurámos em vários armazéns o armamento, mas em vão, nada encontrámos.
Dirigimos-nos para o RCM, no trajecto não vimos viva alma, uma calmaria absoluta, o que para mim era um mau presságio. 
Chegados ao RCM estávamos informados para entrarmos pelas traseiras do mesmo pois a aglomeração de populares em frente ao edifício do RCM não nos permitia chegar às portas.
À porta, um homem com cerca de 50 anos, entrega à nossa companheira de aventura, uma esferográfica de metal, daquelas de quatro cores, que estava transformada  em arma de tiro. Jamais me esquecerei deste gesto. Entrámos e surpresa total, era uma desorganização completa, toda a gente dava ordens, ninguém se entendia.
A reunião entre os nossos representantes e os do governo português foi um rotundo fracasso,. Havia que ter a cabeça fresca e não fazer disparates. Encontro o Daniel Roxo que o conhecia desde as reuniões em Tete. Um abraço sentido e uma troca de palavras ao ouvido. "Isto foi um fracasso", vamos dispersar. Eu e os meus três companheiros de "luta", fomos para o carro e um deles desafia-nos para passar pela Mafalala, visto que tínhamos ouvidoque "ELES" se estavam a organizar. 
Foi assim que os três combinámos que entraríamos na Mafalala pela Caldas Xavier e o condutor esperaria por nós junto à Praça de touros.
Atravessámos a cidade do caniço e não houve hostilidades, como estávamos perto fizemos outro périplo, fomos ao bairro do Aeroporto aonde viviam os meus pais e onde cresci. Chegados ao Bairro junto ao Clube, estavam alguns residente e entre eles o meu pai. Estava tudo calmo mas, havia apreensão. O meu pai chamou-me à parte e disse-me: O Malangatana veio cá a casa para te avisar que eles estão a organizar-se. Respirei fundo, contei aos meus companheiros o que o meu pai me disse e decidi pedir-lhes para irem comigo até à Vulcano, onde morava o meu amigo "M", companheiro de infância e de estudos. Entre o Bairro do Aeroporto e a Vulcano, junto à linha  de caminhos de ferro já pressentimos alguma insegurança, os negros olhavam-nos ameaçadoramente, não por nos conhecerem mas sim por sermos brancos.
Bati à porta do "M", veio logo e mandou-no entrar, ficando apenas o dono do carro junto a este. Então, o "M", detalhadamente avisou-nos que "Eles" estavam a organizar-se com a anuência do Governo português, seria melhor, para não haver sangue, retirarmos-nos ou então deixar Moçambique. Ele foi muito contundente: "Pintinhas" vocês perderam, como amigo quero-te vivo, mas foge.
Abraçamos-nos, agradeci e voltamos para a Matola. Ao chegarmos às antenas, já não havia por ali população, o Trajano disse-nos: que apenas esperara por nós, para abandonarmos. De lágrimas nos olhos, percorri os 2Kms que distavam das antenas à casa do meu sogro. O meu castelo desmoronava-se, mas não dei parte de fraco.
Ao chegar junto dos meus familiares, vi que estavam todos apreensivos, tinham notícias dos ataques à população branca na área. Decidimos ir todos para a minha casa em Lourenço Marques, perto da casa mortuária do Hospital Miguel Bombarda.
Em casa fiquei como prisioneiro, os meus familiares tinham medo que eu cometesse alguma loucura. Não ouvia rádio, e não podia contactar os meus pais, pois não havia telefone
                   A FUGA
Dormia há 24 horas, quando a minha  me veio chamar para me dizer que o meu pai estava na nossa casa e queria com urgência falar comigo. Fui para debaixo do chuveiro, deixei a água cair para relaxar, pois a vinda do meu pai não agoirava nada de bom. Vesti-me, jamais o esqueço, uns calções e uma camisa grená que eu adorava.
Cumprimentos de circunstância, eu ainda vivia um sonho, o meu pai dá uma desculpa à minha mulher e aos meus sogros, dizendo-lhes que o meu tio e padrinho estava doente e que eu devia ie vê-lo. Vi logo que havia problemas, os meus pais moravam no Aeroporto e, para ele ali estar é que algo de grave se passava. Tentei disfarçar o mais possível, dei um beijo a cada um, peguei no meu filho que tinha 11 meses, dei-lhe um aconchego muito grande, pô-lo no colo da mãe, afaguei-lhe a cabeça e saí de casa sem olhar para trás. A minha sogra, com a perspicácia que lhe era reconhecida, vira-se para a filha e diz: "o teu marido vai fugir", a minha mulher responde: que isso era impossível..
Instalados no carro do meu pai, iniciámos uma viagem sem regresso e sem eu saber para onde.
No trajecto, meu pai, conta-me que a Av. de Angola, estava a ferro e forro, que passara uma coluna supervisionada pela tropa. Um magote de ditos apoiantes da FRELIMO tinham atacado a esposa do sr. Mota que era camionista e vivia no Bairro do aeroporto, tendo-a violado, vindo-se a saber posteriormente que a senhora ficara paraplégica
Lourenço Marques, 10 de Setembro de 1974. O FIM. A debandadada
Continuámos a viagem e ao passarmos pela brigada de Trânsito, junto à missão de S. José, parou o carro e disse-me: Os gaijos andam à tua procura. Foram a minha casa e eu disse-lhes que não sabia onde estavas, queriam a tua morada e eu dei-lhes a da anterior casa, em frente ao Hospital Miguel Bombarda. Alguém nos telefonou para te avisar que tinhas que fugir, alguém te irá recolher perto das antenas da Matola (ironia do destino), era a mesma para paragem onde eu descia ou apanhava o machibombo quando ia namorar aa minha mulher.
Ao chegarmos ao local, o meu pai disse-me: é um VW que te vem buscar, quando chegares ao outro lado da fronteira, os sul-africanos deixam-te telefonar para minha casa, para instruíres como é que a tua mulher e o teu filho iam ter contigo (a minha mulher estava grávida de 3 meses). Esperei cerca de meia hora, a mais longa da minha vida, finalmente aparece o dito VW, com quatro pessoas que eu não conhecia de lado nenhum. Mandaram-me entrar e sentei-me no banco traseiro, no meio de dois indivíduos um pouco mais velhos que eu. Calados, seguimos em direcção a Ressano Garcia. Ao chegarmos a Boane, havia uma fila de automóveis, esperei pelo pior, visto que os militares estavam a revistar os carros e quando chegou a nossa vez, um alferes perguntou ao nosso condutor para onde íamos, não ouvi a resposta visto que para me disfarçar fingi que estava a assoar e olhava em volta, os militares eram pretos, com camuflados novos, o que queria dizer eram recrutas. O alferes mandou-me tirar as mãos da cara, olhou para mim, reconheceu-me. Tínhamos estudado na Escola Comercial,  embora sendo mais novo o que eu. Disse: Siga...sigam. Aliviados, fomos até Ressano Garcia, apenas se ouvia o motor do VW, Quatro a cinco Kms antes antes da fronteira o condutor parou o carro e disse: entrem no mato, percorram cerca de 1 Km que alguém estará à vossa espera. Não houve despedidas, calados, seguimos as instruções, nem tínhamos andado 10 minutos, apareceram dois homens, um português e um sul-africano, disseram-nos para os seguir e passámos um arame farpado, fomos entregues à polícia sul-africana. Fui conduzido a um jeep, os outros ficaram com a polícia. Nunca soube quem eram os meus companheiros de fuga. Aproveito para lhes dar um abraço.
Metido no jeep, perguntaram-se se eu era o António Manuel Gomes Lopes  "Pintinhas", disse que sim mas não tinha documentos, responderam que não era importante.
Fui com eles até ao campo de refugiados de Komatiport, que ocupava um campo de Rugby. Levaram-me para um escritório improvisado e aí percebi que eles eram da CID (Polícia de Defesa Sul-Africana) e que já tinham o meu perfil.
Pediram-me apenas, para ser tradutor em alguns casos ao qual eu anuí tendo-lhes perguntado qual a situação da minha mulher e do meu filho, tendo respondido: estamos a tratar disso.
Eram quase 8 horas da noite.
A chegada e estadia na África do Sul
À chegada ao acampamento, entregaram-me um colchão, uma manta, umas calças e uma camisa. As pessoas iam-se acomodando como podiam debaixo das bancadas, tentando dormir ou descansar. Eu, ia mudando de sítio, queria ficar só e pensar no que tinha feito e o que me iria acontecer. Pensava na minha mulher e no meu filho, o que será deles. Essa noite, passei-a a revisitar os últimos acontecimentos da minha vida.
Estudantes Universitários de Lourenço Marque, 1974. 
Fiquei parvo com o que ouvia, muitos universitários, tinham aderido à FRELIMO, não sei se por medo se por conveniência. Muitos jovens da minha idade e meus amigos fizeram o mesmo. Houve quem relatasse que a morgue do Hospital estava pejada de cadáveres, muitos eram brancos e alguns tinham graxa preta no rosto.
Foi desolador e preocupante ouvir aqueles relatos, a minha família estava em LM e, eu não sabia nada deles. Tomei por verdade o que ouvia mas, coloquei algumas reticências. Mais tarde a polícia sul-africana tudo me confirmou.
No dia seguinte dirigi-me ao Oficial da Polícia, já não do dia anterior. Apresentei-me e com muita simpatia informou-me que "vamos tratar do seu assunto". Sabemos que tem família na África do Sul, respondi que sim mas, bem longe em Bloenfontein. Tem aqui o telefone ligue para a sua família para encontrarmos a via mais fácil de a sua mulher e seu filho se reunirem consigo. Telefonei ao meu pai, este como sempre, queria-nos era a salvo e bem. Como era muito perigoso não poderia ir à Matola dar o meu recado aos meus sogros. Fiquei de telefonar novamente para vermos o que de melhor poderíamos fazer.  O novo contacto foi para o meu sogro e este prontificou-se a levar a filha e o neto à fronteira de Ressano Garcia . Apenas tinha que saber aonde os deixar pois não possuíam passaporte. Expliquei tudo à Pilícia Sul-Africana  e de imediato estes delinearam um plano. Enviaram alguém com o nome de código"OSCAR" , todo vestido de azul e ficava à espera a cerca de 2 Kms da fronteira. Sabendo que era o meu sogro que os transportava, comuniquei à polícia que os meus familiares vinham num Ford Escort vermelho com uma determinada matrícula.
Foram horas de desespero, cerca das 3 da tarde, foi-me dito que deveria ir ao portão central, pois alguém queria falar comigo. Foi um momento de tensão que jamais esquecerei visto que não imaginava o que iria encontrar. Levei algum tempo a fazer o percurso, várias pessoas acercavam-se de mim e perguntavam-me o que é que lhes ia acontecer, o que tinham que fazer. Fui-lhes dizendo que as autoridades sul-africanas não nos iriam abandonar, para acreditarem neles, visto que eles nos ajudariam em tudo o que nós precisássemos.

Chegado ao portão perguntei ao polícia por quem me procurava, apontaram para um homem, era um conterrâneo dos meus pais que tinha sido contratado pelos meus familiares de Bloenfontein que estava pronto para me ajudar a sair daquele campo. Ficámos em conversa pondo-me ele ao corrente do que se estava a passar em Moçambique.A conversa prosseguia e por volta da 5 da tarde, vejo um jeep a cruzar o portão com várias pessoas, olho com curiosidade, e vejo a minha mulher e o meu filho. Foi uma comoção inexplicável. Tínhamos que sair dali foi o meu primeiro pensamento. Falei com o conterrâneo dos meus pais se ele podia assinar a papelada e ficasse responsável pela minha saída, pedido que de imediato aceitou. Não queria que os meus familiares vissem a angústia das pessoas que estavam no Campo de Refugiados.
Os quatro, dirigimos-nos ao improvisado escritório do oficial da polícia sul-africana, contei-lhe os meus propósitos e rapidamente assinou os papéis para sairmos do campo (nós não tínhamos qualquer documento). Deram-nos um "PERMIT" temporário, de 3 meses, o nosso amigo levou-nos à estação de comboios de Komartipor, pagou-nos os bilhetes até Bloemfontein. Foram cerca de 24 horas de viagem, não queria pensar mais no que tinha deixado para trás, ia para longe, fora do rebuliço de Johnnesburg que me seria desfavorável. Ficou para trás uma carreira militar, uma deserção, mas bem longe de governos VERMELHOS.
Fui bem aceite pela pequena comunidade portuguesa de Bloenfontein, o patriarca dessa comunidade o já falecido sr. Avelino, foi um homem chave na minha adaptação, à minha nova vida. O meu familiar, arranjou-me de imediato emprego, era algo que eu nunca tinha feito ou estudado. Trabalhava em ar condicionados, agarrei-me de alma e coração, trabalhei e estudei muito mas venci. Apenas um problema, estive três anos sem documentos. A minha mulher, e o outro meu filho, já nascido na África do Sul, já estavam completamente legalizados. A mimo consulado português, levou três anos a dar-me o B.I, a minha sorte é que a polícia de Segurança sul africana (CID), sabia muito bem da minha situação e foi-me dando periodicamente, autorização de residência.
Custaram-me muito estes três anos, não podia fazer planos futuros. Quando o consulado me entregou o B.I  e já com a residência permanente, a empresa para a qual trabalhava transferiu-me para Johannesburg. Uma nova etapa na minha vida.
Jamais esquecerei a ajuda que a CID, me prestou em todos os aspectos. No nascimento do meu segundo filho, fomos apoiados a nível de saúde e sem termos de pagar um cêntimo..

CHEGADA A JOHANNESBURG

Finalmente em Johannesburg, outra vida social. Grande parte dos meus amigos de Lourenço Marques, já lá estavam a viver. A comunidade portuguesa na cidade,  era enorme e estava bem organizada. Respirava-se melhor. Voltei a sorrir, esqueci grande parte das minhas angustias relacionadas com o 7 de Setembro. Já pouco se falava no assunto, comecei a ir ver jogos de Hockey, futebol, Basquete e até havia o Malhanga. Estava em casa.
Não queria terminar este depoimento, sem divulgar algo que ainda hoje para mim é um mistério.
Em 1984, encontro ocasionalmente, o Trajano da Mata, que alegria, ambos pensávamos que o pior tinha acontecido às nossas vidas.
Todas as 3ª no final da tarde, frequentava um café onde comprava o jornal Português editado na capital do Rand, mais o jornal ABola, visto que ficava a caminho de casa. O dono do café era natural da Beira e aproveitava para conversar um pouco antes de regressar a casa.
É numa dessas terças-feira que encontro o Trajano, que também era cliente assíduo desse café. Foi o primeiro encontro de muitos que fazemos questão de ter durante muito tempo. Interessante nunca falamos do passado, o passado ficou enterrado, conversávamos sobre a política portuguesa, da sul-africana, por vezes o Beirense entre as nossas conversas e o atendimento de um cliente, dava o seu palpite. O café ficava próximo de uma mina e como tal havia muitos pretos moçambicanos que se iam abastecer ao café que também vendia géneros alimentícios, excepto bebidas alcoólicas e seguiam as suas vidas.
Porém, certo dia um mineiro, aproximou-de nós e em bom português disse que gostaria de falar connosco, fora do café, olhámos para ele com curiosidade e anuímos.
De facto o homem era mineiro, encapotado, perguntou-nos se o podíamos ajudar, visto que o povo moçambicano estava a sofrer com a DITADURA de Samora Machel. Havia uma facção militar que não estava contente e que dentro de poucos dias chegaria a Johannesburg, um coronel, que necessitava de ajuda médica e queria entrar em contacto com o governo sul-africano. Ficámos parvos, nem queríamos acreditar no que estávamos a ouvir. Combinámos encontrarmo-nos no mesmo café dois dias depois. 
O Trajano continuava a ter ligações com Pretória e ficámos de conversar no dia seguinte. A minha adrenalina começa a mexer, tinha prometido à minha família que não me metia em mais complicações.
No dia seguinte, o Trajano diz-me que tinha um contacto em Pretória e que estava pronto a conversar com o Coronel moçambicano.
Informámos o "mineiro" e este ficou de nos avisar da data que o oficial da FRELIMO chegaria. E, assim foi. Ao cair da tarde desse dia, eu e Trajano, e o "mineiro", fomos para o Hotel onde o Coronel estava hospedado. Quando subimos ao seu quarto o oficial estava a trocar o seu camuflado por roupaà civil. Feitas as apresentações, seguimos de imediato para Pretória. aqui chegado fomos ao encontro de um sul-africano. Feitas as apresentações eu e o Trajano afastámos-nos, para os dois conversarem à vontade.
Nunca soubemos o que falaram e francamente nunca me interessou. De regresso a Johannesburg, deixámos o Coronel no seu Hotel e o "mineiro" perto do café.
Vim para Portugal em Agosto de 1986, em Outubro desse ano, Samora Machel, morre num "acidente" aéreo. Este "acidente" ainda hoje tem muitos contornos especulativos. Para mim, o "acidente" teve as "mãos" do tal Coronel e das autoridades sul-africanas. Sem provas em contrário, até a CIA (USA) tem essa precessão.
Foi o virar de página da História de Moçambique.


Fim

Páginas

Páginas

Armamento e comunicações