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Livros da guerra colonial

Miandica terra do outro mundo


segunda-feira, 25 de março de 2019

MUITOS DAQUELES RAPAZES CONTINUAM LÁ!!!

ANTÓNIO LOBO ANTUNES:
"MUITOS DAQUELES RAPAZES CONTINUAM LÁ!!!


A guerra é uma memória “dorida”, para António Lobo Antunes, mas o escritor afirma que foi em África que ganhou o “respeito” por si próprio.
“Eu só comecei a ganhar o meu respeito em África. Porque tinha vergonha de mim”, afirmou António Lobo Antunes numa entrevista à Agência Lusa, em Paris, onde esteve para promover a tradução francesa do romance O Meu Nome é Legião.
“Lembro-me vagamente de um discurso de Salazar. Julgo que, na altura, tomei por boa a explicação de uma revolta de bandidos e de canalhas que estavam fazendo coisas cruéis e horríveis em África e portanto o governo português mandava para lá uma força pacificadora, quase de polícia, para resolver o problema”, recorda hoje o escritor.
“Acho que me portei bem em África”, afirmou Lobo Antunes, que combateu em Angola como jovem oficial do Exército português em 1971-72.
“Consegui uma coisa que é muito rara e que é um dos meus orgulhos, que é o respeito dos meus soldados. Eram garotos de 20 anos. Eles só amam quem respeitam. Encontramo-nos todos os anos e a maneira como eles me tratam comove-me sempre. Se eu me tivesse portado mal, eles desprezavam-me”, declarou Lobo Antunes.
“Eu só tenho a dizer bem do Exército português. Os nossos oficiais, os que conheci, que eram poucos, portaram-se com imensa dignidade. Por paradoxal que possa parecer, tive orgulho de estar ao lado daqueles homens”, acrescentou o escritor, que ao longo da entrevista recordou a figura de Ernesto Melo Antunes, “um homem superior”.
Dos soldados portugueses em combate, Lobo Antunes diz que “os rapazes eram extraordinários”. Um oficial cubano disse-lhe mais tarde que “éramos grandes soldados. Então compreendi porque é que fomos nós que fomos à Índia”.
Sobre o comportamento dos soldados portugueses, o escritor recorda que “eram como os oficiais: obedeciam a quem respeitavam. Daí haver pelotões muito melhores que outros, porque havia oficiais mais corajosos que outros e com mais capacidade de decisão debaixo de fogo”.
A guerra foi para Lobo Antunes “uma aprendizagem muito lenta, muito difícil e cheia de culpabilidade”. Cada um tinha os seus valores mas “nunca houve uma conversa” sobre isso entre as tropas, sublinha Lobo Antunes, que recorda uma cena do filme “Non, ou a Vã Glória de Mandar”, de Manoel de Oliveira.
“Os soldados vão num Unimog a discutir da justiça e da injustiça da guerra. Fiquei furioso com aquilo. Nós lá estávamos apenas ocupados em chegar ao dia seguinte”, diz Lobo Antunes.
“Lembro-me de uma carta do Ernesto, lá: ‘Cada vez mais isto me parece um erro formidável’”, acrescentou o companheiro de armas e amigo de Melo Antunes, que morreu “com grande dignidade” aos 66 anos, vítima de um cancro.
“Continuamos todos em guerra”, responde Lobo Antunes quando questionado sobre o seu silêncio em torno dos anos na tropa, comum a muitos antigos combatentes.
“Nunca acaba. As outras pessoas não compreendem. Muitos daqueles rapazes continuam lá e o tema constante das conversas deles é aquilo. O sofrimento, a revolta, o horror daquilo tudo. Cada vez que eu como com os oficiais da minha companhia, sei que nessa noite não durmo”, contou Lobo Antunes.
“Um dos meus oficiais, que morreu há relativamente pouco tempo num acidente brutal de automóvel, estava um dia numa bomba de gasolina e um carro passou-lhe à frente e ele foi de imediato ao porta-luvas buscar a pistola. Um homem doce. Mas a primeira reacção emocional dele foi imediata. Era muito difícil elaborar estas emoções. Havia como que uma regressão e voltávamos àquele estado”, recordou o escritor.
“É uma pena mas ainda não se fez o grande livro sobre a guerra. Tem que ser muito mais que um romance, tem que ser um documento e não é para mim”, conclui António Lobo Antunes. “Terá que ser feito com olhos mais frios e ser feito falando com aquelas pessoas. Com os soldados, não com os chefes.”

RECOMENDO QUE SE LEIA ATENTAMENTE:

O ministro da Defesa, Augusto Santos Silva, enalteceu hoje “o esforço, a dor e a experiência” de todos os envolvidos na Guerra em África, exortando a que se “mantenha viva a memória e a lembrança” dessas pessoas.
Discursando na inauguração de três exposições da Liga dos Combatentes - Programa Afonso Henriques, As Três Frentes em África e A Guerra do Ultramar – no Museu do Combatente, o governante distinguiu o que disse ser uma “evocação de natureza universalista” da Guerra Colonial.
Santos Silva notou que as iniciativas evocativas dos 50 anos sobre o início da Guerra Colonial louvam “todos os que serviram nas Forças Armadas” de então, mas também “toda a rede” humana e as famílias envolvidas nesse processo, assinalando “o esforço, a dor e a experiência de todos”.
Numa cerimónia onde esteve acompanhado pelo presidente da Liga dos Combatentes, general Chito Rodrigues, e onde estiveram o chefe da Casa Militar do Presidente da República, general Carvalho dos Reis, e o ex-governador de Portugal em Macau general Rocha Vieira, para além de vários oficiais generais e almirantes, o ministro considerou que se deve celebrar também a relação que Portugal mantém com as antigas colónias.
“Hoje, somos amigos e irmãos daqueles novos Estados que surgiram”, afirmou, salientando especialmente as relações com Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe no quadro da cooperação técnico-militar e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Na sua intervenção, Santos Silva fez também referência a um tema que já abordou enquanto académico, elogiando “a experiência da integração dos retornados”, processo que considerou ter decorrido “de forma exemplar” e que é estudado “como um caso de sucesso”.
No final, aos jornalistas, Santos Silva disse que a dignificação dos ex-combatentes é “uma das prioridades da política de Defesa Nacional”, dizendo ser “muito bom poder contar, para além do trabalho próprio e das obrigações próprias da administração, com o apoio das organizações dos próprios combatentes”.
O governante rejeitou ainda que os militares que ficaram com sequelas físicas e psicológicas na sequência daquele conflito de 13 anos sejam esquecidos pelo Estado português.
“Não me parece, nem me parece que a sociedade portuguesa se caracterize por essa atitude, antes pelo contrário”, afirmou, assinalando que praticamente todos os portugueses têm familiares que estiveram directamente envolvidos na Guerra Colonial e considerando que “todas essas pessoas” e também as instituições “têm procurado cumprir o seu dever na integração dos antigos combatentes”.

CAMPAS e OSSÁRIOS de MOÇAMBIQUE



A preocupação com a situação em que se encontram as campas e ossários dos militares que serviram, combateram e tombaram por Portugal, inundados no estrangeiro e no território nacional, tem merecido desde sempre uma atenção permanente por parte da Liga dos Combatentes. Razões diversas, muitas vezes de natureza conjuntural, vinham colocando dificuldades à concretização de actividades sustentadas e exequíveis a levar a cabo pelas anteriores direcções. Neste quadro de incapacidades, as maiores implicações incidiram sobre as situações existentes no estrangeiro, já que, no território nacional, por acção dos Núcleos, da Direcção Central, de apoios camarários e de entidades diversas, vinha e vem sendo possível, por vezes com dificuldades, manter com dignidade, talhões, ossários e cripta situados em numerosos cemitérios espalhados pelo país.
As acções no estrangeiro eram cometidas aos Adidos da Defesa e Militares que, na directa dependência do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, alertavam e procuravam resolver algumas situações pontuais. É neste cenário que a anterior Direcção Central propôs, mais uma vez, a constituição de um Grupo de Trabalho para aprofundamento desta problemática, que mereceu a atenção, interesse e resposta pronta do Ministério da Tutela. Assim, por despacho de Sua Excelência o Secretário de Estado da Defesa e Antigos Combatentes, de Fevereiro de 2003, é aprovada a criação de um grupo que integra elementos dos três Ramos das Forças Armadas, do Estado-Maior General das Forças Armadas e do Ministério da Defesa, nomeadamente da Secretaria-Geral, Direcção Geral de Pessoal e Direcção Geral de Política de Defesa Nacional. A Liga dos Combatentes em Moçambique - Operação "Nova Frente"


Terminada a intervenção na República da Guiné-Bissau, a Liga dos Combatentes estabeleceu uma NOVA FRENTE – A REPÚBLICA de MOÇAMBIQUE, para prosseguir a sua actividade de Conservação das Memórias. Na observância dos objectivos desse seu Programa Estruturante, a Liga dos Combatentes partiu, em 4 de Setembro pretérito, para Moçambique e durante 19 dias deslocou-se pelo País, percorrendo a Norte as províncias de NAMPULA, NIASSA, CABO DELGADO e ainda o cemitério de GURUÉ na ZAMBÉZIA. A Sul, percorreu MAPUTO, INHAMBANE e GAZA reconhecendo os cemitérios municipais dessas províncias onde se encontram inumados militares que tombaram na I Guerra Mundial e na Guerra do Ultramar, identificando também alguns locais de inumação que se constituem actualmente em locais abandonados de vida humana e à mercê das alterações que a natureza introduz, tudo registando para posterior tratamento documental e concepção da acção de dignificação, a conduzir oportunamente.
Durante 19 dias, percorrendo as províncias referidas, concretizaram-se todos os objectivos definidos para esta acção de intervenção, devendo ser referido o bom estado de conservação geral de muitos cemitérios visitados e a colaboração das autoridades administrativas provinciais para ajudarem a localizar as campas situadas em zonas fora dos cemitérios. Cerca de 7 mil quilómetros percorridos em viaturas todo o terreno e várias horas de deslocação em avião (linhas aéreas de Moçambique) proporcionaram à Equipa de Missão da Liga dos Combatentes efectuar o total levantamento da situação em que se encontravam os Cemitérios e as Campas neles instaladas, ou fora deles, por forma a que o antecipado conhecimento que a Liga possuía dos locais e do quantitativo de Campas a identificar e posteriormente intervencionar, pudesse ser validado no terreno.
A situação real proporcionou ajuizar dos estragos que a natureza, as intempéries e os muitos anos passados sobre as inumações ocorridas têm provocado em Campas e em Cemitérios, partindo placas de cimento e destruindo identificação em muitas das Campas, provocando abatimento de solos e vendo crescer árvores de grande porte cujas raízes desagregam Campas e outras infraestruturas cemiteriais. No quadro anteriormente descrito, regista-se o cuidado das autoridades locais em preservar o que podem, pintando muros e armaduras de campas, evitando a degradação total de infraestruturas e proporcionando-nos a certeza de que têm preservado deliberadamente um espaço de memória física daqueles que tombaram. Há excepções, nalguns locais o abandono era total e elevado o desinteresse pelos Talhões de militares portugueses, mas os contactos com os Administradores do Governo Local proporcionaram criar uma relação que visa a contratualização de serviços de manutenção daqueles espaços.
A Equipa de Missão da Liga dos Combatentes não logrou contactos com Autoridades Governamentais do Governo Central de Moçambique, embora a Embaixada e o Consulado de Portugal naquele País tivessem diligenciado nesse sentido, mas a data da chegada a Moçambique da Equipa da Liga dos Combatentes constituía um momento singularmente delicado da governação do País e não possibilitou a credenciação documental da Missão, embora esta estivesse antecipadamente respaldada na intervenção da Embaixada de Moçambique em Portugal para garantir a boa execução da Missão, o que de facto veio a suceder.
Regressando a Equipa de Missão da Liga dos Combatentes a Portugal, em 22 de Setembro, validando o sentimento de ter cumprido o objectivo da Operação "NOVA FRENTE", a Equipa visitou 24 locais diferentes, todos os que se propunha visitar e "estudar", de Maputo a Tenente Valadim – esta a poucas dezenas de quilómetros da Tanzânia e a 50 quilómetros de Mavago, passando por Chibuto, Inhambane, Nampula, Angoche (António Enes) Malema (Entre Rios), Mirrote, Malapísia, Marrupa, Metangula, Mecaloge (Miranda), Mechuma (Nova Coimbra), Cuambo (Nova Freixo), Unango, Lichinga (Vila Cabral), Macomia, Mocimboa da Praia, Montepuez, Mueda, Palma, Quionga e Pemba. Ficaram bem alicerçados no terreno, para efeitos mediatos, os contactos com Administradores locais que activarão contratualmente melhorias já definidas e, em particular, com a Cônsul Honorária de Portugal em Nampula, neste último caso para se desenvolverem todas as diligências que viabilizem a construção de um Ossário que receberá as Ossadas dos militares a exumar de diversos locais das províncias de Nampula, Niassa e Cabo Delgado, num total estimado em cerca de 20.
Cemitério de Nangololo
A Equipa de Missão da Liga dos Combatentes regista o apoio logístico dos Irmãos Missionários da Consolata, não esquece o apoio institucional da Secretaria de Estado da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar, da Embaixada e do Consulado de Portugal em Moçambique, destaca o apoio do Cônsul Honorário em Nampula – Dr.ª Maria Luísa e regista a colaboração da Direcção Geral de Política de Defesa Nacional através da Cooperação Técnico Militar Portuguesa – que tutela, em Maputo e Nampula. A Liga dos Combatentes voltará a Moçambique e à Missão de continuar a CONSERVAÇÃO DAS MEMÓRIAS em Junho de 2011, percorrendo, reconhecendo e "estudando o terreno" que a aguarda nas Províncias de Tete, Zambézia, Manica e Sofala, sem deixar de consolidar nas outras Províncias as tarefas já iniciadas.É oportuno deixar um testemunho de respeito e de admiração a todos os Militares portugueses que em Moçambique Serviram Portugal e que para tal enfrentaram o desconforto, o isolamento e a solidão imensa, dando de si o melhor. Pelas terras onde andámos, nós que estivemos também no Ultramar, não conseguimos deixar de progressivamente acumular um sentimento de profundo respeito por todos aqueles que, naqueles locais, fizeram da sua vida renúncia em favor de Portugal. A Equipa de Missão foi constituída pelo Major-general Fernando Aguda, pelo Tenente-coronel Álvaro Diogo, Tenente-coronel Carlos Correia e Sr. Joaquim Gaspar, antigos Combatentes em diferentes teatros de operações no Ultramar e actualmente membros da Liga.

segunda-feira, 11 de março de 2019

ERNESTINA E OS LUTOS INACABADOS

ESTA CRÓNICA FOI RETIRADA DO CADERNO P2 DO JORNAL PÚBLICO DO DIA 24 DE DEZEMBRO DE 2017 E É DA AUTORIA DE CATARINA GOMES
“Pedia a V.ª Ex.ª, pela sua saúde, já que não tive a sorte de trazerem o meu filho vivo, peço-lhe que mo mandem mesmo morto. Para eu o adorar e rezar ao pé daquele bom querido filho. Peço imensa desculpa a V.ª Ex.ª destas minhas tristes palavras, mas a dor é tão grande que não sei onde hei-de respirar. O nome do meu filho é Francisco da Luz Carloto.”



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Sem querer, a carta de uma camponesa alentejana que não sabia escrever, ajudou a mudar um pormenor da história. 
Maria Florinda da Luz tinha sido informada por telegrama que, o filho tinha morrido na guerra em Moçambique a 19 de Janeiro de 1967. Se o quisesse trazer, teria de pagar 12 mil escudos, o que equivaleria aos preços de hoje (de acordo com o conversor Pordata), a cerca de 4 mil Euros. Era impossível, mas a mãe do soldado sentiu que, à sua maneira, tinha de fazer alguma coisa
“A minha sogra era uma mulher sem estudos, mas bem resolvida”, lembra ao P2 a nora, Brígida Leitão. Partiu dela a ideia de ir ter com quem sabia, “o senhor presidente da junta”: “Ela a chorar disse-lhe tudo o que sentia, o que tinha no coração” e ele lá organizou e arrumou as frases à sua maneira, que assim seguiram, em tom submisso, para o ministro da Defesa, uma ousadia nos tempos que corriam.
Desde que a guerra tinha começado, em Angola em 1961, que o Estado português só pagava a ida e o regresso aos militares vivos, não o dos mortos. Quem queria trazer os seus tinha de pagar e quanto mais longe morria o militar mais caro: trazer um corpo de Moçambique era o mais caro; da Guiné, por ser mais próximo, ficava um pouco mais barato, 7500 escudos (cerca de 2500 euros), lembra o livro de Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, Os Anos da Guerra Colonial 1961.1975 (QuidNovi), que cita a carta da mãe e explica as suas repercussões.
“A transladação era incomportável para a maioria das famílias, era uma sociedade ruralizada, com hierarquias, com uma desigualdade mais nítida e aceite do que é hoje”, explica Carlos Matos Gomes. O que, na prática, acontecia é que eram as famílias dos oficiais quem mais meios tinha para pagar pelo regresso dos seus mortos. “A transladação era para uma elite social”, constata o autor e coronel na reserva.
A grande maioria dos mais de cerca 1500 militares portugueses (de acordo com o levantamento mais recente feito pela Liga dos Combatentes) que permanecem até hoje enterrados em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique “são soldados e cabos, há alguns sargentos e muito, muito poucos oficiais”, constata Carlos Matos Gomes.
A não vinda dos corpos era uma das formas que assumia a pouca visibilidade da morte na guerra. Carlos Matos Gomes lembra, por exemplo, que, se morriam vários homens numa operação, os jornais tinham instruções para diluírem as mortes por vários dias, em pequenas notícias a uma coluna, de um a dois mortos de cada vez, publicadas em páginas interiores. Além disso, nota, os mortos que chegavam vinham em navios de transporte dentro de vulgares caixotes de madeira e as urnas eram desembarcadas longe da vista e desencaixotadas no depósito de adidos da Ajuda. Mesmo os feridos chegavam durante a noite.
A política de transladações permaneceu inalterada e sem grande polémica até à tal carta vinda da aldeia alentejana do concelho de Nisa, Tolosa. Brígida Leitão sabia da carta, mas desconhecia que o Estado tinha passado a assegurar as transladações depois da iniciativa da sogra. O que sabem é que Francisco da Luz Carloto veio de Moçambique e está enterrado no cemitério de Tolosa.
Foi pouco depois da carta, em Março de 1967, que as Forças Armadas passaram a assegurar os custos da transladação dos corpos de África, mas a família tinha, à mesma, algumas despesas, por exemplo, pagar o caixão de chumbo e o transporte do hospital militar até ao cemitério da terra natal.
Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes constatam na sua obra que, das 2238 baixas ocorridas entre 1961 e 1966, na altura, só foram trazidos para Portugal 326 corpos, o que representava apenas cerca de 15% do total de mortos desse período. Era visível que os custos eram o grande obstáculo porque de Moçambique, onde a despesa era maior, só vieram 5,5% dos corpos, de Angola 12,9% e da Guiné, por ser um pouco menos oneroso, um pouco mais, 27,2%.
   
              “Mãe, o pai voltou para casa”

António Lopes da Silva. Morto em Angola em 1963.
Só 54 anos depois foi transladado para Portugal
Ernestina da Silva — que só este mês, 54 anos depois da morte do pai em Angola, em 1963, conseguiu transladá-lo para Portugal — não sabe se, na altura, foi sequer dada a possibilidade à mãe de pagar os 10 mil escudos que eram exigidos à família, o que equivaleria a cerca de 4000 euros aos preços de hoje. Teria sido indiferente. Era impossível angariar essa quantia. A mãe vivia da agricultura, plantava batatas, tomates, faziam azeite e vinho. Teve aliás de emigrar para a Alemanha, deixando a filha com oito anos a ser criada pelos avós. Os pais do soldado morto também pouco podiam fazer, eram agricultores, nove filhos. Nunca houve campa.
Ainda devolveram à família a aliança e o mostrador do relógio Sigma que o soldado António Lopes da Silva usava quando foi morto, “que veio cheio de sangue”, e que Ernestina conserva até hoje dentro de uma caixinha de veludo. Nunca ninguém da sua família se lembrou de reclamar, nem saberiam como o fazer. Era assim. Aceitava-se.
E não era só a impossibilidade de trazer o corpo. À família nada foi dito sobre como tinha ocorrido a morte. Ernestina Silva sabia o dia em que o pai tinha morrido, 3 de Outubro de 1963, que tinha morrido em combate. Mais nada.
E esse não saber era “um nó” dentro de Ernestina, mesmo com 56 anos. Emigrada nos Estados Unidos, tornou o Facebook a sua ferramenta de busca, fez-se amiga de todos os que a pudessem ajudar, sobretudo pára-quedistas, como o pai era, e todas as semanas, ritualmente, ia “bisbilhotar” às suas páginas. “Encontrei o meu pai”, disse à filha um dia, que não acreditou, “tu és doida”. Pediu logo o contacto ao sargento pára-quedista, Isidro Moreira Esteves, que tinha posto na sua página daquela rede social uma fotografia de homenagem ao soldado António Lopes da Silva e que aceitou atender o telefone àquela desconhecida já madrugada dentro. Estava tão feliz que nem deve ter pensado na diferença horária, lembra o sargento na reserva. “Chorou, chorou uns bons minutos” e Isidro deixou-a chorar.
Isidro Esteves não tinha só posto a fotografia do pai de Ernestina, como faz com muitos outros pára-quedistas, ele tinha-o visto morrer cinco metros à sua frente. Na aldeia de onde António Lopes da Silva era natural, Lobão da Beira (concelho de Tondela), circulou a certa altura o rumor de que o soldado não tinha morrido em combate, que tinha sido morto numa briga com um colega militar, conta Ernestina. Agora, aquele sargento na reserva vinha contar-lhe que o pai se voluntariou nesse dia, estava de folga, e que era o homem que seguia à frente da coluna com o seu cão de guerra, que não teve tempo para cheirar o inimigo que o matou com um tiro nas costas, à entrada de uma pequena clareira com capim. Tinha feito 22 anos dias antes. “Durante todo o tempo, o seu cão esteve sempre ao lado, sentado nas patas traseiras, recusando afastar-se do tratador, e sempre a uivar”, contou o major José Calheiros na cerimónia fúnebre de 6 de Dezembro. Durante todos estes anos, tinha estado enterrado num cemitério de Luanda, com o seu nome perfeitamente identificado.
Ernestina Silva, junto às ossadas de seu pai.
Ter o pai num sítio onde pode Ernestina ir visitá-lo e saber como foi a sua morte, limpa de rumores, ajudaram a produzir dentro dela uma “paz incrível”, uma mistura “de alívio e alegria”. No funeral, “foi como se ele me estivesse a dizer ‘obrigado, estou aqui’”. Na lápide em granito, que ainda está por fazer, vai colocar as suas datas de nascimento, de morte e de “regresso a casa”.
“Mãe, o pai voltou para casa.” A filha disse-lhe a frase ao ouvido, como se sussurrada a essa proximidade a mensagem tivesse mais possibilidade de lhe chegar ao cérebro. Claro que a mãe não reagiu, só abre e fecha os olhos, está em coma há três anos, mas era a pessoa para quem aquela mensagem, aquele funeral fora de tempo, mais teria tido importância. Ficou viúva aos 22 anos, sozinha a criar uma menina de dois anos que era Ernestina. Foi, por isso, a primeira pessoa a quem foi contar, mesmo sabendo que “a mãe já não está cá”.
                           O esqueleto E

António Victoriano - Pára-quedista morto aos 21 anos. 
Ficou enterrado no mato em Guileje na Guiné-Bissau
Mas o problema dos militares mortos que ficaram em África não teve só que ver com os custos. Muitos militares não foram transladados para Portugal porque permanecem até hoje em lugar incerto (200) ou continuam desaparecidos (267), informa o presidente da Liga dos Combatentes, o general Chito Rodrigues. Estes casos incluem, por exemplo, militares enterrados em situação de combate no local da morte, afogamentos, corpos enterrados em cemitérios improvisados das próprias unidades, que se encontram dispersos pelos territórios em lugares que hoje são mato e capim.
O irmão de Conceição Vitoriano Maia foi, até dada altura, um desses corpos sem paradeiro. Morto a 23 de Maio de 1973 (quando o Estado já custeava a transladação), a notícia que lhes chegou a casa já não veio por telegrama. “Não era normal ter a GNR à porta, eram dois, vinham a pé…” Tinha dez anos, não ouviu o que disseram à mãe. “Não precisei.” Quando saíram, a mãe chorava. O filho tinha “desaparecido em combate”. É pior do que “morto em combate”, afirma. Embora a mãe sentisse durante longos anos a necessidade de repetir, mesmo a desconhecidos, “eu tinha um filho, morreu na Guiné”, manteve durante muitos anos a esperança no regresso do filho: “Ele ia chegar um dia. Sempre que batiam à porta fora de horas…” Mas era um problema sem solução e os anos passaram.
Até que um sargento pára-quedista, Manuel Rebocho, descobriu em 2006 que tinha havido três soldados pára-quedistas que tinham ficado enterrados no mato em Guidaje (Guiné-Bissau) e que nunca ninguém tinha voltado para ir buscar, embora a divisa dos pára-quedistas fosse precisamente “Ninguém fica para trás”. Inconformado, começou a contactar entidades e famílias. Conceição Vitoriano Maia já estava pacificada em relação ao assunto do irmão, não havia corpo mas a sua morte era incontroversa. O sargento veio informá-la de que existia um mapa da altura desenhado pelos militares da unidade com a localização das sepulturas. E Conceição sentiu que, sabendo-se onde estava, não podia deixá-lo lá. Começou tudo em 2006, as cartas, os requerimentos, os pedidos de reuniões, à qual se juntou a Associação de Pára-Quedistas.
Conceição Vitoriano Maia diz que, no início, o que encontrou junto de entidades oficiais militares foi obstáculos. Respondiam-lhe que era um assunto encerrado, que era demasiado tarde. Face às resistências, decidiu então que, em vez de ser uma operação militar, organizaria ela própria uma missão civil para trazer o corpo do irmão e dos dois outros pára-quedistas que estavam no mesmo local. Ela era arqueóloga, mais habituada a escavações do período romano, é certo, mas estava disposta a fazer este trabalho.
O presidente da Liga dos Combatentes afirma que uma missão deste tipo estava a ser planeada há dois anos e que a liga acabou por aceitar incorporar na equipa da primeira missão a União de Pára-Quedistas.
Certo é que a ida à Guiné decorreu em Março de 2008 e acabou por ser o início da chamada Operação Conservação de Memórias, levada a cabo pela liga com o objectivo de “dignificar” os restos mortais de militares dispersos por vários locais e transferi-los para cemitérios centrais. O objectivo nunca foi assegurar a transladação para Portugal mas, localizados os militares, podiam ajudar as famílias que o quisessem fazer, explica Chito Rodrigues. A Liga dos Combatentes tem um protocolo com a TAP que assegura gratuitamente às famílias a viagem do cemitério da capital do país africano para Lisboa, mas as restantes despesas são a cargo da família, e ainda podem ser bastantes.
“Nós não percebemos porque é que essas pessoas não foram todas trazidas”, afirma o responsável, mas lembra que “a liga não substitui o Estado, actuamos onde o Estado não actua, como complemento, nos mortos e nos vivos”.
Conceição Vitoriano Maia lembra esses dias da missão na Guiné como de grande intensidade emocional. À noite, depois dos dias em escavações, conseguia dormir só com ajuda de calmantes. “Como é que alguém consegue ser duas: a arqueóloga e a irmã? Foi muito difícil de gerir.” Tinha como função destapar a área onde supostamente tinham sido enterrados vários militares, um deles o seu irmão, para depois deixar as colegas antropólogas trabalharem na identificação das ossadas. Como arqueóloga, está mais do que habituada a destapar esqueletos, são objectos arqueológicos como quaisquer outros, “como pedras”, mas aqui sabia que num daqueles rectângulos de terra mais clara jazia o irmão. Encontraram muitos objectos por aqueles dias, um cachimbo, garrafas de cerveja, pentes, pulseiras, anéis, objectos religiosos. E um pequenino coração de pedra cor-de-rosa para usar num fio. Pertencia ao esqueleto E, a letra correspondente à sua ordem de aparecimento.
O esqueleto E era António Vitoriano, morto aos 21 anos, o seu irmão. O pequeno pendente pertencia-lhe mas nem ela nem a mãe lhe conheciam o objecto. Não foi por causa dele que o identificaram. Cada ossada é uma história. A de António Vitoriano estava na clavícula. Quando o irmão tinha oito anos tinha caído de bicicleta e partido esse osso e lá estava ele, remendado. “Nem sei como é que fui capaz emocionalmente. Foi muito pesado.”
43 corpos na Guiné  e outros 73 corpos em Moçambique, recuperados com a Operação Conservação de Memórias. Desde 2018 apenas 13 famílias decidiram pagar pela vinda dos corpos
A Operação Conservação de Memórias haveria de ir mais quatro vezes à Guiné e sete a Moçambique. Em Angola, vários problemas burocráticos impediram, até agora, a realização de uma operação, refere Chito Rodrigues. Recuperaram 43 corpos na Guiné e outros 73 corpos em Moçambique, que estão em dois ossários, um em Bissau e outro em Nampula. Desde 2008, apenas 13 famílias decidiram pagar pela vinda dos corpos: nove da Guiné, dois de Moçambique e dois de Angola, constata o responsável da Liga dos Combatentes.
Chito Rodrigues diz que há várias razões para terem sido tão poucas famílias a pedir a transladação. Uma delas podem ser os custos envolvidos, depois, quase 99% dos militares não tinham filhos, os familiares que ficam são irmãos, sobrinhos ou familiares mais distantes e, claro, há o tempo, já passaram 40, 50 anos sobre estas mortes.
A seguir ao funeral do irmão, a mãe de Conceição Vitoriano Maia, que tinha parado de falar do filho, voltou a falar dele uns tempos e depois calou-se. “Ficou guardadinho lá na gaveta.” Finalmente arrumado.
Para Conceição Vitoriano, “há imensas famílias com isso por resolver, a prova é essa senhora”. Fala de Ernestina Silva, cujo caso conheceu pela televisão.


               “Obrigação moral do Estado”
O historiador Miguel Bandeira Jerónimo, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, diz que esta recente transladação de um pai “ajuda-nos a perceber o que foi o império colonial português, a perceber a natureza do regime, a escassez de informação, o desrespeito que o regime tinha pela vida humana”. “São legados que não terminaram de todo.” “Há um ser humano, há uma família, há uma filha que não conheceu o pai.”
“A transladação é uma questão do foro privado, mas o Estado devia assegurá-las, se as famílias o desejarem. Devia ter sido feito pelo regime que conduziu a esta situação, mas esta, entre as muitas coisas que a democracia portuguesa tem para fazer, é uma obrigação moral do Estado democrático em relação ao seu passado.” “O grande problema é enterrar esta questão” e deixar que seja enredada “em discursos nacionalistas”.
“Quero trazer o meu irmão, quero que os meus pais descansem”
Otília Gonçalves
“Estes são retornos por fazer. Há uma família que tem o direito a este reencontro.” “Foi uma guerra de classes, por que é que deve continuar a assentar em desigualdade social?” A transladação do pai de Ernestina de Angola custou 7500 euros, a filha avançou com 2500, o restante foi angariado pelos pára-quedistas. O historiador chama a estes casos “os lutos inacabados do império”.
“Eu revi-me na pele da Tina. Tenho muito orgulho de ela ter conseguido.” Otília Gonçalves, 54 anos, conheceu pela Internet a filha que trouxe o pai de Angola, foi de propósito de Braga a Lobão da Beira para o funeral. Anda há cerca de dez anos a tentar trazer “o mano” de Angola. O irmão, o mais velho de 11 filhos, morreu no início da guerra, a 15 de Outubro de 1961, junto a uma fazenda chamada “Tentativa”. Embora nunca o tenha conhecido sem ser de foto, a presença da sua ausência marcou-lhe a infância na aldeia de Ponte de São Vicente, distrito de Braga. “Eu, pequenina, ia dar com a minha mãe a chorar sentada no chão, atrás do milho. ‘Sai daqui’”, ordenava à filha. Não queria que a sua dor fosse vista. Foi assim durante anos. No Verão, na altura de arejarem as roupas, do fundo de uma arca de madeira saía também o livro da primária “do mano”. É a única dos irmãos que não desiste. “Os meus irmãos acham que já não há nada para trazer.” Para Otília, há algo inacabado. Só receberam um telegrama a dizer que tinha morrido de acidente, perto de Nambuangongo, “muito simples e frio, ponto final. Se quisessem o filho, tinham de pagar. Era impossível. Tinham de vender a casa e as terras, claro que não dava”. Chamava-se Aquilino da Silva Gonçalves, era segundo cabo do Exército, ia fazer 21 anos.
Escreveu cartas e emails ao Presidente da República, ao primeiro-ministro, “a todos os órgãos”. “‘Acusamos a recepção, com os melhores cumprimentos.’ Mais nada. Tenho tudo arquivado.” “Quero trazer o meu irmão, quero que os meus pais descansem.” “Há muita gente que já não tem família mas há muita gente que ainda os quer trazer. Eu preciso.”
Este artigo encontra-se publicado no P2, caderno de domingo do PÚBLICO




terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

OPERAÇÃO "ATUM" TRANSPORTE DE LANCHAS DA MARINHA DO LUMBO A MEPONDA




Em 1963 foram inauguradas as instalações do (Comando da Defesa Marítima dos Portos do lago Niassa). Quase um ano antes do início do conflito armado na província do Niassa, (Setembro de 1964 – Cobué), a marinha portuguesa, aproveitando a lição recolhida com os acontecimentos de Angola, antecipou-se às previsíveis dificuldades no noroeste moçambicano e criou uma estrutura que se revelou de capital importância até aos últimos dias do conflito.
Agregado a este comando foi mais tarde criado o CELN, (Comando de Esquadrilhas de Lanchas do Niassa). Esta estrutura visava manter a vigilância e controle das águas terrotoriais do Lago Niassa; apoiar no transporte e cooperação de forças terrestres e aéreas; assumir a defesa do apoio logístico à bases da Marinha no Lago, assim como ao Destacamento de Fuzileiro ali presentes. Deveria ainda promover apoio aos serviços e missões hidrográficas.
Os primeiros navios que ficaram colocados sob p comando do CELN foram as LFP (Lanchas de Fiscalização Pequenas), "Castor" e "Régulus", em 21 de Novembro de 1963 e 23 de Novembro de 1965 respectivamente.



O transporte desta última revestiu-se de particular dificuldade, não só porque foi o primeiro realizado com o conflito armado já em curso, mas também porque durante a viagem ocorreu um descarrilamento da plataforma ferroviária que suportava a lancha o que provocou um deslocamento da embarcação cuja reposição se revelou difícil. Com estes dois navios chegaram ainda 2 LDM e 2 LDP (Lanchas de Desembarque Médias ou Pequenas). Estas duas LFP vieram a ser cedidas ao Malawi, em 1970, ao abrigo de um acordo secreto, que obrigou a novo baptismo das embarcações para "John Chilambwe" e "Chibisa" respectivamente. A 20 de Maio de 1975 foram cedidas a título definitivo àquele país africano.
Nos primeiros de Setembro de 1965 chegaram ao porto de Nacala mais duas LFP, a saber, as lanchas "Mercúrio" e "Marte". As tentativas de encalhe dos navios nas plataformas ferroviárias resultaram num fracasso, pelo que os Caminhos de Ferro de Moçambique desistiram da operação, tendo as lanchas voltado ao mar. O Comando Naval de Moçambique lança então uma grande operação. envolvendo forças terrestres e mar, para realizar o transporte das embarcações até Meponda, onde seriam colocadas nas águas do Lago. A operação recebeu o nome de código "ATUM"e teve início a 13 de Setembro de 1965.
O problema do encalhe das embarcações foi resolvido pelo Engº Lino Ferreira e pelo Capitão de Mar e Guerra Pedro Mouzinho, que construíram para o efeito uma linha férrea literalmente aé dentro de água do Oceano Índico. Foi depois necessário esperar pela maré alta para que os carris ficassem submersos, colocando-se as embarcações sobre estes e esperando pela vazante para que aquele ficassem na posição certa quando os carris estivessem novamente fora de água.
A operação de transporte decorreu sob o comando de um oficial do Comando Naval de Moçambique e contou com a escolta do agrupamento de Comandos formado meses antes na Namaacha, que garantiu a segurança a homens e material. Ao oficial que comandou esta força do  Exército, Alferes CMD Cabral Sacadura, foi ainda atribuída a responsabilidade de autorizar ou não, a circulação de comboios entre o Lumbo e Catur, para que esta não colidisse com o transporte das lanchas.
Ao longo do percurso foi necessário destruir alguns muretes que serviam de guardas das pontes, dando largura suficiente para que as lanchas atravessassem aquelas obras de arte. Em alguns locais construíram-se autênticos castelos com travessas em madeira, para elevar as embarcações e vencer dessa forma os obstáculos no percurso. Deve-se salientar que a tracção manual foi a única utilizada nos momentos em que surgiram dificuldades de circulação do género das descritas, numa operação verdadeiramente épica.
Chegada das lanchas a Meponda
A Operação "ATUM" terminou a 19 de Dezembro de 1965, quando as lanchas navegando desde Meponda, chegaram a Metangula, e a escolta regressou ao Lumbo. O percurso incluiu aproximadamente 500 Kms em via férrea, e depois 250 Kms por via terrestre, qquantas vezes sinuosa, onde a improvisação foi a solução para cada contratempo.
Em 1967 o CELN recebeu as últimas embarcações, duas LFP, "Saturno" e "Urano", assim como duas LDM. Estas embarcações completaram a força naval no Lago Niassa.


Texto de José António Cabral Sacadura
Alferes Milº Comando

Alferes Milº Comando José Cabral Sacadura, responsável pela segurança
da épica Operaçã0

Hoje até sonhei com esta operação.Claro que entendeu que o nosso trabalho foi o de garantir  segurança ao longo dos 700 Kms.( se a memória não me atraiçoa!) do Lumbo ao
Catur.  Salvo erro o comandante da Companhia do Catur era o cap. Florindo Morais, hoje,Coronel Comando reformado e que curiosamente foi durante uns anos presidente da Federação Portuguesa de Badminton. Este, ao princípio, e quando viu barcos a navegar em terra, nem queria acreditar, e, nem queria colaborar no trajecto até Meponda, 120 Kms. De picada por vezes algo sinuosa e com subidas pronunciadas. Como curiosidade a última estação antes do Catur, estação terminal, chamava-se Belém. 

Durante aquele tempo só havia comboios quando este seu amigo determinava, e mesmo assim, os troços em que eles se deslocavam eram objecto de grande cuidado. Mas tinham de haver pois a quantidade de gente que aguardava para se deslocar era imensa. Hoje, recordo, foi um tempo épico, modéstia à parte digna dos portugueses de antanho pois levar 2 lanchas e 7 lanchas de desembarque para o Lago Niassa só a engenharia portuguesa seria capaz de maquinar tal operação.
O meu colega, que tem uma colecção de 600 fotografias da nossa comissão nos Comandos, ainda não me respondeu, porventura deve estar fora, porque ele, que tem ainda por cima uma memória prodigiosa, onde hoje em dia eu quase não descortino a fronteira entre a ficção e a realidade, vai colaborar doutro modo a juntar mais uns mosaicos a esta nossa conversa. Penso aliás que até
nos podemos juntar, à volta de uma mesa(tem de ser!) pois isto, pelo menos a mim faz-me muito bem, aliviando-me bastante a cabeça. Agora que tento gastar o tempo até parece que volta, de novo, tudo ao nosso espírito, e como só falamos uns com os outros que viveram situações idênticas....
Estas fotos que consegui descobrir no meu sótão ( hoje tenho pena de não ter sido mais organizado...)ilustram o que era o trabalho de preparar uma lancha para passar as pontes. Sobretudo as que não se conseguiam deitar as guardas das mesmas abaixo. Segundo o que está escrito na parte de trás diz que foi na estação do MONAPO ( veja a curiosidade do actual presidente da Associação
de natação de Santarém, o Cor. Loureiro ser precisamente desta cidade(?) onde a ponte era bastante alta. Através de castelos de travessas de madeira utilizou-se uma plataforma. Em cima desta colocaram-se uns carris, e mais outra plataforma e mais travessas e, no fim a passagem em tracção manual para aquilo não cair. Só visto!

Penso que em breve poderei dar mais elementos. Ao mesmo tempo é bom recordar. AGORA!!!
Aquele abraço
jsacadura

"Marte" e "Mercúrio" a caminho do Niassa
Texto retirado da Revista "Domingo", do jornal CM de 8 de Maio de 2016
Carlos Águas Trindade
Acender um cigarro era o hábito de Carlos Águas Trindade quando precisava de resolver um problema. Assim fez.Assim o fez ao ver um camião a afundar-se lentamente, sem que o condutor conseguisse avançar nem recuar. Em cima da plataforma atrelada, seguia um navio de guerra de 44 toneladas, que em Dezembro de 1965 estava a apenas a 12 Kms do Lago Niassa, após percorrer quase 1000 Kms ao logo da província ultramarina de Moçambique.
Mais de meio século depois, Carlos Águas Trindade, agora com 88 anos contou-nos o sucedido:
"O alferes que ia à frente, num jipe, fez sinal de que havia um buraco no caminho, mas o condutor da plataforma precipitou-se e fez uma travagem a fundo. As rodas de trás arrastaram-se e ficou em cima de pântano.Com aquele peso todo, já com o sol quase posto. "recorda, o  homem que, mesmo  sem ter qualquer patente, se viu no meio de uma grande operação militar.
Foi buscar um calço e passou um quarto de hora a procurar soluções. Ao regressar, viu que a plataforma já se afundara dez centímetros, e o navio começava a inclinar-se. Era preciso fazer alguma coisa e depressa.
Lembrou-se dos montes feitos pelas formigas termiteiras, mais resistentes que terra batida, e que não raras vezes eram usadas para recuperar estradas africanas. Em vez de insectos, recorreu ao caterpillar que levava num dos camions da extensa caravana de veículos pesados, protegida por um companhia de comandos, que incluía um companhia de engenharia e 80 trabalhadores moçambicanos. A máquina criou uma barreira de terra capaz de manter a embarcação nivelada até à manhã do dia seguinte, quando o camião começou a ser puxado por cabos até deixar de estar atolado. Conseguiu-se, após três dias de trabalho.
Tanto "Marte" como "Mercúrio" passaram das águas para a plataforma requisitada à África doSul e à Rodésia, mas havia um problema. "Ninguém viu este pormenor: os barcos não passavam nas pontes de caminho de ferro, cujos arcos eram de cimento armado.
Um ataque da Frelimo à caravana seria uma preocupação mais tarde, quando já estavam embrenhados no interior da província ultramarina, mas o primeiro teste foi logo no início da viagem, ao chegarem à ponte ferroviária de Monapo, a meio caminho entre o Lumbo e Nampula. Para que os arcos das pontes não fossem obstáculo intransponível devido à largura dos navios, era preciso tornar mais altas as 44 toneladas dos navios.
Serviu o ensaio para as outras pontes. A partir daí foi mais fácil, garante Águas Trindade , embora o ensaio tenha demorado 3 dias, inflacionados pelo tempo empregado a empurrar plataformas, tão lentamente quanto possível para não descobrir quão instável era o equilíbro dos navios. Mas nenhuma parte da viagem foi rápida: "Às vezes nem dez quilómetros avançávamos num dia. Com cuidado e marcha lenta".
A partir de Nampula, as duas plataformas e os vagões cheios de máquinas, materiais e pessoal dedicado ao transporte e à segurança das embarcações -- incluindo as suas tripulações, comandadas pelo guarda-marinha da Reserva Naval Manuel Abecassis ("Marte") e pelo segundo tenente Torres Sobral ("Marte") -- tiveram a companhia de dois machimbombos com civis e trinta viaturas militares, que seguiam por estrada tão próximo quanto possível do caminho de ferro.
O fim da linha foi o Catur, já no distrito do Niassa, mas a 180 quilómetros de Meponda, onde os navios deveriam voltar a estar em contacto com a água. Se a primeira parte de percurso fora difícil, o "resto foi para esquecer". 
Após mais três dias dedicados à árdua missão de transferir as plataformas para os camiões em quefariam o resto da viagem, a chegada ao mato acarretou novos riscos.
"O primeiro susto foi na curva do Bispo, antes de chegarmos a Vila Cabral. Foi um caso sério para subir. Tive de pôr três camions, ligados uns aos outros, a puxar a plataforma, que não era boa".



Bem pior foi o segundo susto. A ponte sobre o rio Manguel, com 17 metros de altura, começou a partir-se com e procurar alternativas o peso do primeiro navio que tentou atavessá-lo. Houve que fazer marcha-atrás.
"Quando estávamos em Vila Cabral, disse a um alferes: Traga dinamite, que a gente pode precisar lá no Lago". Afinal, foi necessário antes. "No sítio melhor para atravessar o rio Manguel, estava uma árvore que era uma coisa monstruosa", diz quem a viu a ir pelos ares, contrariando-se a regra de nada fazer que pudesse ser detectado por guerrilheiros.
Cerca de dois meses depois de sair da costa moçambicana, por estradas que ficavam ligeiramente menos intrasitáveis graças a uma niveladora, a chega a Meponda, na margem do Lago Niassa, soube a triunfo. Mas antes do regresso a casa passou dias a assistir quanto ao melhor método de fazer as embarcações entrarem na água. E lá acabou por assumir a responsabilidade.
"Fiz uma estrada no fundo do Lago, com as travessas e os carris do caminho de ferro. As travessas tinham 12 metros e pus 6"

Texto e fotos de Carlos Avelino, retirados da página "Picadas do Niassa"
Após a chegada das lanchas ao porto de Nacala, ao contrário do que estava previsto, que seria o transporte das mesmas por caminho de ferro, até ao Catur (ver mapa), tiveram que alterar o plano por ter surgido o primeiro contratempo: ao fazerem o reconhecimento do percurso ferroviário entre Nacala e Nampula, descobriram que havia um túnel no qual as lanchas não poderiam passar, ou seja, a largura da lancha era maior que a abertura desse mesmo túnel.
Depois de uma semana a congeminar sobre o que poderia ser feito, chegaram à conclusão que era impossível continuar com o anteriormente planeado, optando então por pôr as lanchas a flutuar e levá-las para o Lumbo, o terminal ferroviário mais próximo (junto à ilha de Moçambique) enquanto que os respectivos berços (onde iriam assentar as lanchas no seu transporte por terra) mais os caixotes que, para protecção, continham todo o material sensível (antenas e radares), fizeram o mesmo percurso, mas por via férrea. Aqui, devido ao facto de todo este equipamento ter sido retirado das lanchas, desconheço se navegaram para o Lumbo pelos seus próprios meios ou se foram rebocadas.
Dias mais tarde (estamos em Setembro de 1965) no Lumbo, foi feita a primeira tentativa de encalhe das lanchas nos respectivos berços, mas não teve êxito. Os navios voltaram ao mar e a entidade responsável pela operação - Caminhos de Ferro de Moçambique - desistiu do trabalho. De Lisboa vieram então ordens para que o Comando Naval de Moçambique assumisse a plena responsabilidade pela operação. O Comando Naval de Moçambique lança então uma grande operação, envolvendo forças de terra e mar, para realizar o transporte das embarcações até Meponda, onde seriam colocadas nas águas do lago. A operação recebeu o nome de código “Atum”.


Depois de goradas a primeira tentativa para colocar as lanchas nos seus berços, procedeu-se á segunda tentativa, já sob nova orientação. Aproveitando a grande amplitude de marés existentes nesta zona, construíram na praia um espécie de linha férrea, soldaram os berços aos carris e numa baixa - mar meteram tudo mar dentro, no Oceano Indico. Depois, na maré alta, com os carris já submersos e o atrelado com o berço em posição, colocaram as embarcações sobre este e esperaram pela maré vazante para que as lanchas ficassem na posição certa quando os carris estivessem novamente fora de água. Nesta nova tentativa, já em Outubro de 1965, a LFP «Mercúrio» "adormeceu" com êxito no respectivo berço. (foto anterior).
Dias depois, também a LFP «Marte» foi colocada no seu berço.



Já nos vagões ferroviários e a caminho de Nampula, que entroncava com a de Nacala, ninguém pensou num pormenor: os barcos não passavam nas pontes de caminho de ferro, cujos arcos eram de cimento armado.
Para que os arcos das pontes não fossem obstáculo intransponível devido à largura dos navios, era preciso tornar mais altas as 44 toneladas de ‘Marte’ e ‘Mercúrio’. Recorreu-se então a macacos hidráulicos que elevaram as embarcações cerca de dois metros. Enquanto os quatro macacos mantinham os navios suspensos, travessas dos caminhos de ferro eram amontoadas, à custa da força humana, até manter o berço em que repousavam os barcos à altura desejada ou seja acima do limite superior da ponte.
Este ensaio serviu de solução para as outras pontes que encontraram pelo caminho. Ao longo do percurso foi necessário também destruir alguns muretes que serviam de guardas das pontes, dando largura suficiente para que as lanchas conseguissem atravessá-las.
Em Nampula ficaram mais de um mês à espera das plataformas alugadas ao exército da África do Sul para fazer o transporte rodoviário das lanchas, quando chegassem ao Catur.


A linha ferroviária, na altura, só ia até ao Catur, já no distrito do Niassa, mas ainda a mais de 200 quilómetros de Meponda, onde ‘Marte’ e ‘Mercúrio’ deveriam voltar a estar em contacto com o elemento natural para qualquer navio. Se a primeira parte do percurso fora difícil, o resto foi para esquecer.





Após vários dias dedicados à árdua missão de transferir as plataformas para os camiões em que fariam o resto da viagem, a chegada ao mato acarretou novos riscos.
O primeiro susto aconteceu antes de chegarem a Vila Cabral, (actual Lichinga). A partir do Catur, como o terreno era de planície, a progressão fez-se sem grandes sobressaltos. O pior foi quando chegaram à subida que os ia levar a Vila Cabral (1500 m de altitude). Para evitar que as plataformas continuassem a derrapar, tiveram de pôr três camiões, ligados uns aos outros, para puxar a plataforma. Para não comprometer a delicada estabilidade das lanchas,todas estas operações eram bastante morosas, chegando a avançar apenas três ou quatro quilómetros por dia. Certo é que venceram mais essa dificuldade e tiveram um dia de descanso na vila que já era cidade e capital de distrito. Faltavam "apenas" oitenta Km`s até Meponda, já no Lago Niassa, mas que se iriam revelar os mais difíceis por irem entrar em zona montanhosa.




Bem pior foi o segundo susto: a ponte sobre uma ribeira, com 15 metros de altura (que asseguravam aguentar até duzentas toneladas) cede, e a lancha que estava a atravessá-la, começa a afundar, só se salvando graças a uma caixa de ferramenta (que estava por debaixo da plataforma), que foi de encontro a um dos pilares da ponte e ao ficar aí presa, segurou toda a estrutura, ficando a lancha a balouçar e na eminência de cair a qualquer momento. Houve que fazer marcha-atrás e procurar alternativas.
Como a ponte deixou de oferecer confiança, dinamitaram umas quantas árvores de grande porte e com a ajuda da niveladora e da bulldozer abriram uma nova estrada, de maneira a conseguirem atravessar a ribeira a vau, no sítio que lhes pareceu mais favorável.
Tudo isto acontecia numa fase do percurso em que a qualquer momento podiam ser atacados, mas com todos estes problemas, essa possibilidade parecia ser a menor das preocupações. A utilização da dinamite não era, de certeza, a melhor forma para quem queria passar despercebido, mas a situação assim o obrigava.
A segurança do material, dos operadores das máquinas, das tripulações das lanchas e restante pessoal, estava a cargo de uma Companhia de Comandos, que amiúde, faziam batidas a toda a volta para "limpeza" do terreno.
À Força Aérea foi pedida a colaboração na segurança e dissuasão de possíveis ataques dos combatentes da Frelimo entre o Catur e Meponda, tendo em especial atenção a eventual sabotagem das pontes.

Mal refeitos do que lhes tinha acontecido não tardou muito a verem-se metidos noutra situação: o condutor de uma das plataformas não conseguindo travar a tempo à voz de paragem de um alferes dos Comandos (normalmente iam sempre à frente) originou a que os rodados da dita plataforma entrassem numa zona lodosa e se afundassem cerca de quatro metros. Mais uma vez tiveram que puxar toda aquela estrutura para cima, colocar pranchas por baixo para fazer altura e assim conseguirem avançar. Foram mais oito dias só para resolver esta situação.

Finalmente Meponda, o porto lacustre que nas águas portuguesas fica mais a sul. Aqui depararam-se com outro problema: como colocar as embarcações na água? Resolveram então aproveitar os carris e as travessas e com elas fizeram uma estrada que se prolongava até ao fundo do lago. Colocaram cada uma das lanchas, com o respectivo berço, em cima dos carris e manualmente, ou seja à força bruta, empurraram-nas a pouco e pouco para dentro de água até atingirem a profundidade necessária para se verem livres do seu berço, e ficarem a flutuar. Estava feito, por pouco não passavam o Natal no mato. Tinham passado quase quatro meses desde que tinham saído da costa moçambicana.
Aqui as circunstâncias foram-lhes favoráveis. Não havendo amplitude de marés, só há duas situações: ou é época de seca (pouca profundidade no lago numa grande distância) ou é época das chuvas. Quando chegaram ao lago estavam precisamente no pico pluvial. As lanchas ao entrarem na água ganharam de imediato a profundidade suficiente para flutuar.



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