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Livros da guerra colonial

Miandica terra do outro mundo


segunda-feira, 29 de novembro de 2021

SABIAS QUE NO NIASSA.....


  O malogrado ciclista Joaquim Agostinho integrou a Companhia de Cavalaria 754 "Sete de Espadas)" que andou por vários locais deste Distrito, designadamente, Nova Coimbra, Lunho  e Miandica. Foi em Vila Cabral que começou a dar as "primeiras pedaladas", participando em provas de ciclismo das quais saía sempre vencedor..

Joaquim Agostinho e a sua mascote em Nova Coimbra

1965 no Lunho, Joaquim Agostinho 0 2º à direita a transportar mais um cadáver
                                                              
                                                                  **************
UM PILOTO DA FORÇA AÉREA PORTUGUESA ANDOU DESAPARECIDO NO MATO DURANTE DEZ DIAS?
O avião Dornier que pilotava saiu, no dia 24 de Agosto de 1966, de Vila Cabral, com destino a Valadim e Pauila, para entregar o tão desejado correio.
A aeronave não chegou ao seu destino dado ter-se registado um problema técnico, pelo que o piloto  tentou uma aterragem de emergência, não muito bem sucedida, em pleno mato.
A partir do momento em que se confirmou o seu desaparecimento foram encetadas as pesquisas aéreas no sentido de localizar a DO, o que só foi conseguido no dia 27. Entretanto, já andavam no terreno Grupos de Combate das CART.  1540 e 1541. No dia 28, muito cedo, sai outro GC da 1541 em direcção ao local onse se encontrava o aparelho sinistrado. Ali chegados, a 29, não encontraram rastos do piloto. Todavia, dentro da carlinga estava uma das suas armas de defesa, o que  levou a concluir que os guerrilheiros da FRELIMO não abordaram o avião, caso contrário teriam levado a arma. Finalmente, as intensas buscas, por parte dos GC já citados, ti 1968 
Registe-se o enorme empenhode todo o pessoal das aludidas Companhias que procedeu às buscas . Tal facto foi registado por carta enviada ao Comandante do batalhão de Artilharia 1885 pelo Comandante do Sector "A" (1)
(1) Estes elementos foram extraídos da Revista "Mais Alto" nº 224 Nov/Dez 1968, num excelentee e pormenorizado artigo intitulado "Dias longos de Ansiedade e Esperança" da autoria do Coronel José Mendonça Prazeres , Comandante do BART. 1885

Evacuação do piloto para Vila Cabral. na abertura lateral vê-se a mão aberta apoiando a face


                                                                        **************
Existiam várias povoações cuja toponímia original foi substituída por nomes de localidades e lugares da Metrópole, algumas delas ligadas às Unidades que ali se formaram.
Deixamos os nome das que temos conhecimento:
Miandica - Estremoz-a-Nova
Mevchuma - Nova Coimbra
Cuamba - Nova Freixo
Lipirichi - Olivença
Congerenge - Estação- Belém

Outras localidades alteraram a sua toponímia para nomes de personalidades em sua homenagem:
Licchinga - Vila Cabral (1)
Metangula - Augusto Cardoso (2)
Mavago - Valadim (3)
Gurué - Vila Junqueiro (4) 

(1) José Ricardo Pereira Cabral, antigo Governador-Geral de Moçambique
(2) Augusto Cardoso, Foi um notável Oficial de marinha e cientista ligado à região
(3) Eduardo António Prieto Valadim Foi Oficial do Exército Português. Comandou uma expedição a vários Régulos do Niassa em 1884
(4) Saraiva Junqueiro, grande impulsionador da cultura do chá na região.

   



                                                                    **************

Em Maniamba, entre 1967 e 1968, o "Drº Oliveira Salazar" prestou serviço na Companhia de Caçadores 1560.
Da Esquerda para a direita: Alferes Drº Poças, Alferes Oliveira e Alferes Salazar. Curioso 

                                                                  **************
O Lunho era apelidado pelas piores razões, de "capital do Estado de Minas Gerais" .
Este epíteto foi-lhe atribuído pelo facto de, na região, a FRELIMO ali ter implantado grande número de minas, quer antipessoais, quer anticarros.
As condições de vida no Lunho eram de tal maneira degradantes., que era hábito os operacionais das Unidades, sediadas na região, dirigirem aos seu camaradas, ditos do "arame farpado", a seguinte expressão: "VAI PARA O LUNHO MALANDRO""




Destacamento "X" situado entre Nova Coimbra e o Lunho. Aqui foi feito o célebre
HINO DO LUNHO.
 A fumar o Amadeu acompanhado de Furrieis da CENGª1531 e da 2ª CENGª de Moçambique


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HINO DO LUNHO
Letra: 
Alferes Carvalho "100" da 2ª CENGª de Moçambique.
Música de: Zeca Afonso "Os Vampiros"
O Lunho foi um dos locais mais duros da guerra no norte de Moçambique


O Hino do Lunho, foi feito em Julho/Agosto de 1967 na picada Nova Coimbra-Lunho

O Alferes Carvalho "100" com uma granada na mão

Os primeiros militares no aquartelamento no Lunho. 
O Alferes Carvalho "100" de pé com bigode


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Aconteceu um caso insólito, no dia 18 de Agosto de 1969, às 5 horas da manh, tendo como protagonistas três intervenientes: o Francisco, o Pacheco e o Leão                     

    Francisco                                          Pacheco                                     Leão                                          
O 4º Pelotão da Companhia de Artilharia 2388, sediada no Révia, encontrava-se no mato efectuando uma das muitas operações de rotina de que era incumbido.
Ao terminar mais um dia de patrulhamento,, aquela força escolheu o local achado conveniente para pernoitar. O pessoal foi colocado em círculo e de costas viradas para o centro do mesmo. Pela madrugada, a Lua escondera-se.
Descrito  o cenário, vamos aos factos: O Francisco ao terminar o turno de sentinela, comentou com o seu substituto parecer-lhe ter ouvido uns ruídos semelhantes aos produzidos por um le~so. As suas suposições não  foram levadas em linha de conta, tendo aquele seu camarada larachado, inclusive, com a situação, iniciando de seguida o turno para que fora escalado.
O Francisco dirigiu-se desconfiado, para o locl de dormida, onde partilhava as mesmas mantas com o camarada Pacheco.
Deitado de costas e pernas flectidas, tendo como cabeceira as botas, que entretanto descalçara, enquanto o sono não chegava, ia meditando no barulho anteriormente 
A certo passo, qual não é o seu espanto quando observa a manta a deslizarrapidamente sobre as pernas. Ao olhar para o lado, mais surpreendido ficou por verificar queo Pacheco desaparecera Atónito, levantou-se num impulso e vislumbra um enorme vulto que levava de rojo o seu camarada, que ainda não despertara totalmente do sono que desfrutava. O Francisco apercebe-se que o companheiro estava a ser arrastado por um enorme leão, pelo que desata aos gritos, ao mesmo tempo que atira uma bota ao animal,batendo-lhe inclusive, com as próprias mãos. A fera, que abocanhara as duas canelas do malogrado Pacheco, largou-o momentaneamente, mas logo de seguida desferiu nova dentada cravando-lhe os dentes no músculo da perna. A vítima já consciente do perigo que corria, gritava a plenos pulmões de dor e pânico. O Francisco não deixava de utilizar todas as "armas" ao seu alcance para afugentar o felino que, vendo-se "acossado", largou a "presa", afastando-se de seguida, mas não muito convencido.
Entretanto, e já com o alvoroço instalado no acampamento, houve a preocupação imediata de ver o estado em que se encontrava o Pacheco, verificando-se que o seu estado era preocupante, pois a segunda dentadado leão provocou-lhe  profundos orifícios onde jorrava sangue em abundância. O tendão de Aquiles encontrava-se exposto.. Em suma, o leão tinha provocado grandes danos na perna do malogrado Pacheco. 
Prestados os primeiros socorros, os possíveis, tentou-se o contacto via rádio com a sede da Companhia, para se proceder à evacuação por via aérea, só que o rádio não funcionou, pelo que tiveram que recorrer à única alternativa possível, transportar o ferido às costas para o local, previamente combinado, onde as viaturas recolheriam o G.C. o que viria a acontecer só por volta das 15 horas. Até chegar ao ponto de encontro foi feita uma longa  e dolorosa caminhada com a duração de 4 horas.
Os dois companheiros, o Pacheco e o Francisco, acabam de acordar. Desta feita não foram importunados

Chegados finalmente ao aquartelamento , foi pedida a sua evacuação, mas a Força Aérea, dado o avançado da hora, recusou-se a voar até ao Révia , Eles, F, não arriscavam um milímetro. Quantas mortes não aconteceram devido a este facto.
Finalmente no dia seguinte, 28 horas depois do "ataque do leão" o sinistrado foi transportado para o Hospital de Nampula, onde permaneceu algum tempo, voltando depois à actividade operacional na sua Unidade, a CART. 2388.

                     Um Leão também atacou em Metangula

Domingos Pereira, foi soldado condutor da CCS do Batalhão de Caçadores 1891 e deu-nos o seu testemunho do ocorrido a 10 de Maio de 1967. 

Encontrava-me de convalescença no quartel em Metangula devido à viatura que conduzia a 1 de Maio daquele ano, perto de Nova Coimbra, ter rebentado uma mina.

Um autóctone e o seu filho com 9 anos encontravam-se à pesca, com rede, junto às margens do Lago Niassa e próximos do Postos de sentinelas que haviam à entrada de Metangula de quem vinha de Nova Coimbra e de Maniamba. 
De repente foram surpreendidos por um ataque dum leão. Alertados pelos gritos os sentinelas foram ver o que se passava e depararam com um homem muito ferido no peito e no pescoço. Do quartel vieram reforços que transportaram o ferido para o hospital da Marinha que havia em Metangula. O ferido relatou então, que tinha lutado com o leão para salvar o filho, mas tal foi impossível depois de levar uma patada do leão que o deixou bastante ferido, ferimentos esses que o levaram à morte. Uma patrulha comandada pelo Alferes Presa na qual eu me incluía foi à procura do jovem e do leão. Não encontrámos quaisquer vestígios e conduzimos os soldados para os seus Postos ,3 em cada Posto.Como era de rotina às 24 horas de cada dia, o pessoal do Exército era rendido pelos Fuzileiros e foi quando estes se dirigiam para os Postos de vigilância, que ouviram tiros e lá chegados viram um soldado muito ferido e transportado aos ombros pelos seus 2 camaradas. O ferido foi conduzido para Metangula, daqui para Vila Cabral de onde foi transportado para a Metrópole. Os camaradas contaram que,lutou com bravura e o leão só fugiu quando foram disparados os tiros. Felizmente, recuperou e ainda hoje faz a sua vida normalmente.Atacadas as sentinelas, o Cmdt. do Batalhão deu ordens ao pessoal sob o comando de um Oficial e com a ajuda de 1 polícia e de vários Cipaios a “passar” a pente fino a serra em busca do jovem autóctone e se possível abater o leão. Depois de muitas buscas o animal foi encontrado debaixo duma árvore. O polícia aproximou-se o mais possível e desferiu-lhe um tiro que o matou de imediato. As buscas para encontrar o jovem foram retomadas e ao cair da noite foram dadas como encerradas e chegando-se à conclusão que tinha sido devorado pela fera. Este ataque era motivo de muita conversa e curiosidade e quando dias depois fomos recolher o animal, chegámos à conclusão que devido ao aspecto esquelético do animal, este devia ser muito velho e por isso abandonado pelo seu bando. A fome levou-o a atacar os humanos.




                                       CURIOSIDADES

1964. Primeiros "aquartelamentos   em Miandica

Mais uma "caserna" em Miandica

1964, Messe de Oficiais da CCS do BCAÇ 598

.                                         
1967. Nova Coimbra, enfermaria da CCAÇ 1558

1965. Lunho refeitório da CCS do BCAÇ 598


IGREJAS


Em Novembro de 1967 em Miandica, o 1º GC da CCAÇ 1558, nada tinha. As beatas deitadas para o chão já tinham desaparecido. Correio nem vê-lo, comida alimentação má e muito escassa. O desespero começava a assaltar aqueles bravos homens. Até que o saudoso Alferes resolveu enviar uma mensagem para o MNF em Vila Cabral a pedir uma Santa que Rogasse por Nós. O seu pedido foi de imediato aceite e com a Santa viajou de helicóptero o correio, o tabaco e alimentação. A Santa foi baptizada com o pomposo nome de Nossa Senhora De Miandica, Rogai Por Nós
A 5 de Abril de 1968, Miandica foi abandonada por um GC da CART. 2325, que tinha rendido a CCAÇ 1558. Em boa hora levaram a Santa para o Lunho onde construíram a famosa Capela dos Bidons


                                                        Lunho 1968. Capela dos Bidons



Lunho 1968. Capela dos Bidons. No lado direito em cima de uma bidão pode ver-se a Santa

Igreja deMassangulo
Interior da  Igreja de Messangulo

Igreja de Vila Cabral


Igreja Anglicana de Messumba

Igreja de Unango

PONTES E PONTÕES

Ponte velha do Lunho

Nova Ponte do Rio Lunho

A nova ponte do Rio Lunho destruída pela FRELIMO


Abril de 1967. Picada Maniamba-Nova Coimbra. Minutos depois desta foto, os 
militares de camisa preta (Fuzileiro)  1º à esquerda e o 1º ( Filipe da CCS do BCAÇ 1891) com uma enxada na mão deslocaram-se ao leito do Rio, tendo o Filipe pisado uma mina antipessoal e ser amputado de uma perna. O Fuzileiro ficou ferido

CCAÇ 1558. Dezembro 1967 - Picada Lunho-Nova Coimbra

 1967 CENGª 1531. Construção de pontão na picada Nova Coimbra - Lunho

1967. 2ª CENGª de Moçambique Picada Lunho-Nova Coimbra, após o
rebentamento de uma minna

1967. 2ª CENGª de Moçambique. Nova Ponte do rio Lunho



1967 CENGª 1531. Construção de pontão na picada Nova Coimbra - Lunho





CART. 2388. Passagem do rio Lugenda em Murama


Passagem por teleférico em Muranda sobre o Rio Lugenda


CCAÇ 2662 - Picada Nova Coimbra-Lunho


CCAÇ 2667 - Ponte sobre o Rio Lumbiza entre Unango e Macaloje

1968 2ª CENGª Moçambique   Rio Luangua em Nova Viseu
  
1968 2ª CENGª Moçambique Ponte do rio Luangua em Nova Viseu


FIM










segunda-feira, 15 de novembro de 2021

MAJOR COSTA MATOS e DANIEL ROXO. - VISÃO E EFICÁCIA

                                        Major Costa Matos e Daniel Roxo

Visão e Eficácia

Major Costa Matos

Decorria o ano de 1962 quando o então Major Costa Matos, foi nomeado governador da Província do Niassa. Nessa altura já Daniel Roxo percorria aquele território em actividades cinegéticas, acompanhado de um pequeno grupo de autóctones que o ajudavam nas suas sortidas pelas matas do noroeste moçambicano.

Natural de Lourenço Marques, o Major Costa Matos revelou-se o governador provincial que melhor entendeu o problema que o país então atravessava, percebendo que o conflito latente nas Províncias Ultramarinas, só se resolveria se fosse possível organizar as populações de forma a retirar à Frelimo o controle psicológico das mesmas. Isto equivale a dizer que o governador foi talvez dos primeiros a perceber que ganhava a guerra quem ganhasse a realidade local, ou seja, as populações. Costa Matos havia feito parte de um conjunto restrito de oficiais que observaram na Argélia, as técnicas de contraguerrilha. Associou a esse facto o seu enorme conhecimento de África e uma capacidade invulgar de decisão assertiva.

O Major Costa Matos a acompanhar o Presidente Américo Tomaz

Costa Matos travou uma luta que foi antes de mais nada, contra o tempo. O conflito que decorria em Angola há mais de um ano era um mau presságio, e o governador sabia que se urdia em Dar-es-Salam, uma teia de conspiração para tornar possível uma guerrilha no interior de Moçambique. A fronteira norte era a mais vulnerável. O Niassa, de muito baixa densidade populacional, oferecia zonas onde os guerrilheiros facilmente poderiam construir os seus santuários, tão ao jeito dos ensinamentos das academias chinesas e soviéticas. A única forma de o impedir seria apostar na antecipação à acção psicológica-política da Frelimo.

A primeira preocupação do novo governador é criar um sistema de informações local. Conta para isso com o apoio da 2ª Secção do Quartel General em Lourenço Marques, por onde terá de resto passado antes de ser nomeado. São enviados para o Niassa três homens, destinados a comandar pequenos grupos de sipaios. Estes militares deviam fazer-se passar por caçadores profissionais, financiar as suas actividades com os rendimentos gerados pela venda do produto das caçadas, enquanto recolhiam informações ulteriormente trabalhadas no governo provincial em Vila Cabral. Os tenentes Orlando Cristina e Gomes dos Santos, e o alferes Pestaquinni, deviam trajar à civil, jamais identificar-se como militares, para que a sua missão fosse bem-sucedida.

Orlando Cristina e Jorge Jardim

Francisco Daniel Roxo não fez parte destes grupos iniciais. Chegado a Moçambique há mais de uma década, ele continuava a percorrer a mata, caçando ao abrigo de uma licença outorgada pela Direcção dos Serviços de Veterinária do Niassa. Não é claro o momento exacto em que os dois homens se conhecem, mas num meio tão pequeno tudo se acaba por saber, mormente se o governador busca incansavelmente, homens que estejam dispostos a ajudá-lo na missão de travar a influência do IN no espaço da sua jurisdição.

Sabemos no entanto, que em 1963 o Major Costa Matos convenceu Daniel Roxo a aceitar um emprego como assistente no Censo da População da Província. Aproveitando o conhecimento profundo deste não só do terreno, mas também dos dialetos locais, o governador matou assim vários coelhos de uma só cajadada.

Em primeiro lugar experimentava as intenções de Daniel Roxo, que conheceria ainda mal, pese embora as boas indicações certamente recolhidas. Em segundo lugar ficava com dados objectivos de quem habitava o Niassa, e que movimentos de populações existiam através da fronteira norte, e se possível quem os fazia com alguma regularidade. Em terceiro lugar, percorrendo as aldeias do Niassa, o grupo do Daniel Roxo, ia recolhendo informações de todo o género, que compiladas e tratadas se revelariam fundamentais.

Major Costa Matos e Daniel Roxo

No final desse ano, o governador ordena ao Roxo que intensifique a recolha de dados nas aldeias no norte da província, junto ao Rovuma. Foi através deste trabalho que foi possível detectar movimentos de população em direcção à ilha de Likoma, no lago, já em território do Malawi. Foi exactamente a partir de uma base nessa ilha que foi levado a cabo o ataque ao Cobué, que marca o início da luta armada naquela província.

No primeiro trimestre de 1964 o Major sente o nível de ameaça subir. Demonstrando mais uma vez a sua capacidade de acção e decisão, e confiante já nas capacidades de Daniel Roxo, atribui-lhe outra missão. Teria agora de utilizar as suas deambulações para fazer contrainformação. Esta deveria visar o desmantelamento da propaganda dos Comissários Políticos da Frelimo junto das populações, e quando esta fosse detectada, conseguir discernir as linhas de penetração e bases de apoio dos mesmos.

Tudo isto é a demonstração cabal de que as informações chegavam em qualidade e quantidade ao palácio do governador, como talvez nunca tivessem chegado a nenhum outro congénere do antigo Império Português. O plano montado numa altura em que a organização da Frelimo se encontrava em movimento, resultou em pleno só não terá chegado foi a tempo de impedir a luta.

Major Costa Matos e o Régulo de Mataka

O somatório da capacidade de decisão e visão do governador, e a eficácia do comandante de Milícias, profundo conhecedor das gentes e do terreno, dotado de uma coragem fora do comum, resultou na evidente contenção da Frelimo no distrito. Confrontada com um sistema organizado, o movimento independentista foi obrigado a enveredar quase exclusivamente por uma estratégia de dificultação da circulação dos meios militares portugueses, evitando no máximo possível o contacto directo. Nunca existiu real perigo a sul da linha Nova Coimbra –Metangula. Acresce que o Niassa foi a província moçambicana com menos actividade de forças especiais, (paraquedistas, comandos, GE’s e GEP’s), quando comparada com Cabo Delgado ou Tete, com a excepção da presença de fuzileiros no lago que se revelou heroica.

Nada disto retira o brilho a quem ali serviu, e em zonas muitas vezes de pesadíssimo isolamento, cumprindo o seu dever e portanto tornando-se parte deste sucesso.

Nos meses imediatamente anteriores ao deflagrar do conflito, Daniel Roxo cria uma rede de informação nas aldeias do Niassa, que será sem dúvida a base do seu sucesso nos anos subsequentes, sobretudo nas diferentes operações militares que cumpriu. Muitos dos que serviram na província nos anos sessenta e setenta, foram testemunhos da fantástica capacidade operativa dos homens do Daniel Roxo -Milícias do Niassa. Para além dos atributos em campanha, os sucessos ficaram a dever-se a este trabalho preparatório, que permitiu a contra infiltração no IN.

Daniel Roxo e o seu Grupo na apresentação  de material de guerra apreendido à FRELIMO

A mais conhecida missão em que o grupo do Roxo participou, e que foi realizada sobretudo com as informações por eles recolhidas, foi a Operação Marte, no início de Agosto de 1968. Foi levada a efeito pelos homens da 4ª companhia de comandos de CIOE de Lamego, apoiados por alguns homens do grupo do Roxo. As informações foram tão boas, que foi possível ultrapassar a vigilância da base provincial no Niassa, (na zona a norte de Miandica), e atacá-la com surpresa e êxito total, destruindo material de guerra, capturando informações e militares, e recuperando populações que para ali tinham sido enviadas.

A vida destes homens ligou-se numa época particularmente difícil para Moçambique. Tinham com os meios de que dispunham, contornar um problema que já existia, e que apanhou a administração portuguesa a dormir a sono solto, na esmagadora maioria dos casos. Eles foram talvez a dupla mais bem-sucedida na organização de uma das mais remotas regiões que alguma vez formou o território nacional.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

AS FERIDAS ABERTAS

   TEXTO DE GLÓRIA DE SOUSA

PUBLICADO EM 31 DE AGOSTO DE 2013

Entre 1974 e o início da década de 1980, milhares de pessoas - entre elas prostitutas, dissidentes políticos e Testemunhas de Jeová - foram forçadas a ir para campos de reeducação. A maior parte não voltou.
Os anos da  história de Moçambique independente foram um período conturbado. Ainda antes da independência de Moçambique (1975) o governo marxista da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) sentia a necessidade de eliminar os comportamentos e costumes associados ao colonialismo português e ao sistema capitalista, criar uma nova mentalidade e uma sociedade socialista.
Pelo que ainda em 1974, Armando Guebuza, actual chefe de Estado e na época ministro da Administração Interna do governo de transição, anunciou a criação de campos ou centros de reeducação. Este tipo de programa foi característica de outros regimes totalitários socialistas, como o da antiga União Soviética ou da China, por exemplo.
O plano inicial era reeducar, nas zonas rurais, as prostitutas das grandes cidades. Na época, o ministro Guebuza estimou que existiam 75 mil prostitutas só na capital (embora,  presumivelmente, mulheres que viviam sozinhas e mães solteiras), como reporta um artigo do jornal português "A Capital" de 1974.
O alvo das rusgas alargou-se depressa. Além de prostitutas, milhares de outras pessoas como dissidentes políticos,suspeitos de ligação ao poder colonial português, alcoólicos, autoridades tradicionais (como régulos, curandeiros) e Testemunhas de Jeová (um grupo cristão que recusa, entre outros, o serviço militar obrigatório) que foram apanhados nas ruas das principais cidades de Moçambique, em particular em Maputo, Beira e Inhambane, segundo relatos em jornais internacionais.


Cerca de 10 mil reeducandos em 1980

Os detidos eram, normalmente, encaminhados para os postos de polícia e, sem qualquer comunicação à família e sem decisão de um tribunal, eram transportados para centros de reeducação, sobretudo no norte do país. Era como um castigo.
Através do trabalho forçado na agricultura, ou machamba, como habitualmente se diz em moçambique, as pessoas deveriam ser reeducadas e, nesse processo,aprender os princípios do marxismo-leninismo.
Apesar de não haver  dados oficiais, estima-se que, em 1980, cerca de 10.000 pessoas estariam concentrados em 12 centros de reeducação. O número viria a crescer nos anos seguintes - segundo estudos do historiador e antropólogo Omar Ribeiro Thomaz, da Universidade Estadual de Campinas, no Brasil.
Em Novembro de 1975 foi anunciada a detenção de 3.000 pessoas em rusgas efectuada nas cinco principais cidades do país, segundo o jornal tanzaniano Daily News. E em 1982 foi anunciada a suspensão de mais 500 funcionários públicos e a necessidade de enviá-los para a reeducação


O mais terrível

Alguns dos centros de reeducação ocuparam as instalações de antigas bases militares. Estavam em locais remotos, distantes das comunidades, de difícil acesso.conta-se que os fugitivos, quando não eram apanhados pelos guardas, acabavam por serem denunciados pelos camponeses da região ou devorados por feras.
A maior parte dos centros de reeducação localizava-se na província noroeste do Niassa, a maior e menos habitada do país.
Os centros de reeducação ficavam em zonas de mato denso, longe das comunidades

O centro de Metelele, no Niassa, para onde foram enviados vários inimigos políticos da FRELIMO, é considerado o mais terrível . Segundo o livro "Uriaa Simango - um homem, uma causa" de Bernabé  Lucas Ncomo, dos 1.800 prisioneiros que lá entraram, desde 1975, menos de 100 saíram com vida , até 1983.
Em Metelele ou nas imediações terão morrido, por exemplo, Uria Simango e Joana Simeão, personalidades ligadas à fundação da FRLIMO, que viriam a ser acusados de traição.
Mural em Lichinga (Vila Cabral)

"Lavar a cabeça" de ideias colonialistas

Natural da Beira, Félix Bingala, hoje com 57 anos, veio para a província por força da reeducação. Conta que foi integrado no programa em 1975, depois da visita à cidade da Beira do então ministro da Administração Interna, Armando Guebuza . O ministro acusou muitos jovens de serem defensores do colonialismo português.
Na altura com  19 anos, a Félix Bingala trabalha numa loja na Beira quando foi apanhado numa rusga: "carregaram-me". Entrei no machimbombo, fui à 5ª esquadra. Dali mandaram-me para o Grande Hotel. Logo de manhã, apareceram muitos machimbombos, carros, e carregaram-me para Sakuze, na Gorongosa.
Atravessei o rio Sakuze. Fomos para o mato. Disseram-nos aqui têm que construir cidade,, trazer as vossas mulheres para aqui, para tirar as ideias do tempo colonial, para nos "lavar a cabeça". E ficámos. 
Era muita gente, toda a raça estava acumulada ali: moçambicanos, mista, portuguesa, havia uma mistura de pessoas em Sakuze, recorda.
Desde esse momento, há 38 anos atrás, Félix Bingala rompeu irremediavelmente ligação com o o passado: desde que estou aqui não tenho possibilidade de contactar com a família, A minha família até pode dizer: ele já morreu e eu  ainda estou vivo", recorda.


RENAMO recrutou homens da reeducação.

O centro de reeducação de Sakuze, para onde Félix foi enviado, em 1975, localizava-se na Serra da Gorongosa na província centralk de Sofala. Durante a guerra civil (entre 1976 e 1992), a região foi um bastião da RENAMO, Resistência Ncional Moçambicana.
Foi lá onde o principal partido da oposição começou a recrutar homens para as suas fileiras, retirando-os do domínio da FRELIMO. "A RENAMO estava a aproveitar estes homens, que já estavam preparados" militarmente, diz Félix Bingala que nunca foi apanhado nas investidas,
Para escapar às rusgas da RENAMO, a FRELIMO transferiu os reeducandos. Depois da Sakuze, Félix  Bingala foi para outro centro, em Panda, na província de Inhambane, onde, todavia a RENAMO conseguiu recrutar mais homens. Pelo que em 1978, Félix foi novamente transferiso pata Majancaze, província de Gaza, onde,  conta, também andaram homens da RENAMO.
Um ano mais tarde, Félix Bingala foi encaminhado finalmente para o centro de reeducação de Msawize, no mato denso de do distrito de Sanga, na província do Niassa.


Obedecer para sobreviver na reeducação

Olhando para trás, Félix recorda com amargura os centros de reeducação : muitos moçambicanos perderam a vida, ao serem comidos por leões, ao fugiirem.
A região da Gorongosa é até aos dias de hoje uma importante base da RENAMO

Quanto ao quotidiano, o ex-reeducando lembra: "de dia de trabalho, pegar a enxada para a machamba, ir à pesca, fazer cestas (quem soubesse). comida para a gente comer. Mas a comida  não chegava para tudo e vinha da província para lá. Houve dificuldades mesmo. Se alguém saisse um pouco, a população iria amarrar. Nós éramos chamados presos, éramos amarrados, bem esticados. Tinha que se cortar cabelo "assim" , usar saco, para se saber quem é fugitivo. Até havia uma cova grande. Se você praticou alguma coisa, você desce com a escada até lá, fica ali, "caga ali, mija" de manhã tira, comida vem, recebe e come. Essa era a punição.
André Ernesto Embalato, natural de Gaza, passou também por centros de reeducação. Trabalhava numa pastelaria em Maputo, quando em 1975 foi apanhado pela polícia sem documentos de identificação.
Esteve igualmente em Sakuze antes de ser transferido até ao Niassa.
A vida é ser mandado, de ser batido de qualquer maneira. Quem não obedecia à ordem era batido.
"Quando tocava o apito , devia-se correr, se fosse quando estivesse a comer devia deixar-se a comida e receber ordem. Se não receber ordem tem porrada , acontecia assim", diz André Ernesto Embalato

Na reeducação as pessoas regeneravam-se ou perdiam a vida

O centro de Msawize durou pouco tempo mais desde que Félix Bingala chegou, em 1979. Por ordem do governo,começou a trabalhar na empresa agrícola do Unango, no mesmo distrito de Sanga.  A empresa estatal recebeu forte apoio da Alemnha Oriental comunista. Depois entrou em falência e Félix Bingala começou a trabalhar na horta, vendeu os seus produtos até conseguir dinheiro para pagar a viagem para Lichinga, a capital provincial do Niassa. Em 1984 encontrou apoio na organização Caritas, ligada à Igreja Católica, onde trabalha até hoje como guarda.






Entretanto, o programa de reeducação tinha terminado. Face à pressão da  opinião pública internacional, o Presidente Samora Machel ordenou inquéritos confidenciais sobre as condições de vida nos campos, em finais de 1981, que acabariam por conduzir à suspensão do "processo reeducativo"
Na época Joaquim Chissano ocupava a pasta do Ministério dos Negócios Estrangeiros e viria a suceder na Presidência da República, após a morte de Samora Machel, num acidente aviação em 1986.
Chissano elogia ainda o processo de reeducativo, como disse numa entrevista, em 2012, à DW  África: "Foi pena que nós não (continuássemos) a ter campos de reeducação. Porque não eram campos de tortura, eram realmente de reeducação. A pessoa regenerava-se. Nós criámos campos para pessoas criminosas, pessoas que  tinham roubado  ou até tinham assassinado. E eram reabilitados. Era um lugar onde as pessoas faziam a sua agricultura, tinham o seu rendimento, refaziam a sua vida, tinham alfabetização, aprendiam ofícios"


Ainda bem que terminou

Contudo, opinião diferente tem tanto quem passou pelos centros de reeducação como quem acompanhou o fim do programa do governo.
Uma activista moçambicana, que pediu anonimato, viveu de perto, no Niassa, o fim do processo reeducativo assim como do programa que se seguiu, a Operação Produção (de trabalhos forçados).
Segundo a activista "falar abertamente nesse assunto é um pouco difícil, porque é considerada uma questão política e também foi um projecto menos sucedido que trouxe a perda de muitos cidadãos, (...)
Houve feridas abertas, famílias separadas, pais e filhos, muitos perderam a vida. Não foi bem sucedido esse plano. Ainda bem que terminou, porque hoje em dia não vem ninguém para o Niassa para ser reeducado"































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