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Livros da guerra colonial

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segunda-feira, 8 de abril de 2019

RESENHA HISTÓRICA--MILITAR DAS CAMPANHAS DE ÁFRICA (1961--1974) DISTRITO DE TETE E MANICA e SOFALA-- MOÇAMBIQUE

1.  CARTA DE SITUAÇÃO REFERIDA A:                                  01 FEVEREIRO 1963 

Em 1 de Fevereiro de 1963, a Região Militar de Moçambique com o seu Quartel-General situado em Lourenço Marques, dividia-se em em três comandos territoriais. O primeiro, com sede em Nampula e a cargo do Comando de Agrupamento nº5, compreendia os distritos administrativos do Niassa, Cabo Delgado, Moçambique e Zambézia; o segundo, com sede na Beira e ainda sem comando constituído, estendia-se para sul até ao rio Save e abrangia os distritos de Tete e de Manica e Sofala ( mais tarde dividido em dois com as sedes na Beira e em Vila Pery); o terceiro, com sede em Lourenço Marques e a cargo do Quartel-General da Região Militar, sendo seu comandante o 2º Comandante da Região , compreendia o território a sul daquele rio e era constituído pelos distritos de Inhambane, Gaza e Lourenço Marques.
Por sua vez, cada comando territorial estava dividido em sectores de batalhão (de guarnição normal ou de reforço) correspondendo, em regra, a um distrito e dispondo de várias subunidades tipo companhia.
Por seu turno, o Comando Territorial do Centro estava também dividido em sectores, da responsabilidade de batalhões. O distrito de Tete, excepto a sua ponte sudeste estava a cargo do BART 162, com o seu comando sediado na capital deste distrito; a CCAÇ de Tete, (guarnição normal), igualmente nesta cidade, com um pelotão destacado em Changara; 1 CCAÇ em Moatize, com um pelotão destacado no Zóbué; 1 CCAV. estacionada em Furaancungo, com um pelotão destacado em Vila Coutinho; 1 CART. em Tete, com um pelotão destacado em Mágue e outro em Fingoe. A companhia de Moatize era, simultâneamente, uma unidade de ocupação e de intervenção do batalhão,
A área correspondente ao futuro distrito da Beira, acrescida da ponta sudesta do distrito de Tete, estava a cargo do BCAÇ de Tete (guarnição normal) com o seu comando e duas companhias de caçadores orgânicas estacionadas nesta cidade. Tinha na sua dependência, além destas, 1 CART. em Inhaminga, 1 CCAÇ e outra CART. em Mutarara. Destas unidades, a de Inhaminga acumulava a função de ocupação com a de intervenção do batalhão.
2.  CARTA DE SITUAÇÃO REFERIDA A:                                  01 de MAIO 1964 

Durante o período de Fevereiro de 1963 a 1 de Maio de 1964, não se verificaram acções de guerrilha no território de Moçambique. Entretanto, em Angola e na Guiné a luta ia aumentando de intensidade. Não é de estranhar, por esse facto, que a primeira prioridade na atribuição de reforços idos da Metrópole fosse dada a estes dois últimos territórios. Todavia, em Moçambique, ia-se processando a chegada de tropas para rendições e até mesmo alguns para reforço.
O distrito de Tete, manteve 1 comando de batalhão e 4 companhias, perde 1 pelotão de reconhecimento. O dispositivo, contudo, sofreu algumas alterações: os pelotões destacados em Vila Coutinho, Zóbue, Fingoe e Changara regressamàs suas unidades; Fingoe passa a dispor de 1 companhia.
3.  CARTA DE SITUAÇÃO REFERIDA A:                                  01 de OUTUBRO 1964 

No período que decorre desde 1 de Maio até 1 de Outubro de 1964, não há praticamente reforços em meios operacionais, embora as acções de guerrilha já tinha tido início. Assim, nos distritos da Zambézia, Tete, Vila Pery e Beira e em todo o território a sul do rio Save não se verificaram alterações no dispositivo.

4. DISPOSITIVO OPERACIONAL referido a:
 1 de JULHO 1965-- 
Na data a que se reportam estas cartas, verifica-se j´uma intensificação da actividade e guerrilha.
Entretanto tinham chegado ao Território novas forças, para rendição e reforço.
As alterações ao dispositivo, então verificadas, traduziam-se no reforço dos efectivos no Norte do Território, não só com as novas unidades chegadas, mas também à custa do relativo empobrecimento do dispositivo das zonas do Comando Territorial do Centro, do Comando Territorial do Sul e das áreas não afectadas do Comando Territorial do Norte.
Com a chegada dos Comandos de Agrupamento 23 e 25, a área do Comando Territorial do Norte foi dividida por ambos: Ao Agrupamento 23, foi atribuída a área do distrito de Cabo Delgado, com o comando em Porto Amélia; A Agrupamento 25, a área correspondente aos distritos do Niassa, Moçambique e Zambézia, com o comando em Nampula.
Por sua vez, a área do Comando Territorial do Centro foi atribuída ao Agrupamento 20.
O Comando Territorial do Centro, agora à responsabilidade do Comando Agrupamento 20, continuava a disporde três subsectores de batalhão. O primeiro, a cargo do comando do BART. 562, situado em Tete, e tendo sob a sua dependência a CCAÇ de Tete (guarnição normal) em Tete, 1 CART. em Moatize, 1 CART. no Francungo e 1 CART. em Fingoé, com um pelotão destacado no Magoé. 
6. DISPOSITIVO OPERACIONAL referido a:
11 de OUTUBRO 1965
Após a grande movimentação de forças que precedeu e acompanhou as operações que se iniciaram com a sublevação no Norte do distrito de Cabo Delgado e a oeste do distrito do Niassa, houve profundas alterações ao dispositivo, em particular a norte do rio Zambeze. Na área do, até então, Comando Territorial do Norte é criada a Zona de Intervenção Norte (ZIN) e um sector independente.
A ZIN, com o comando sediado em Nampula, é dividida em três sectores: O SECTOR "A", a cargo do  Comando de Agrupamento 25, que, entretanto se deslocou de Nampula para Vila Cabral: O SECTOR "B", a cargo do Comando de Agrupamento 23 em Porto Amélia, e o SECTOR "C", a cargo do Comando ZIN, por acumulação.
O sector independente correspondente ao distrito da Zambézia e com sede em Mocuba dependia directamente do Comando da Região Militar.
O Comando da ZIN era um comando conjunto, constituído pelo Posto de Comando Avançado da Região Militar e por escalões avançados dos Comandos da Força Aérea e da Marinha. Em 29 de Setembro, seguiam, por via aérea, para Nampula, a fim de assumir o comando da ZIN, o brigadeiro comandante interino da Região, bem como os elementos do QG em Lourenço Marques, que foram constituir o Posto de Comando Avançado.
Em resumo nesta data, os efectivos operacionais eram os seguintes
a) -- Zona de Intervenção Norte
-- No Sector "A" (Niassa) 4 comandos de batalhão, 15 companhias tipo caçadores, o Esquadrão de  Reconhecimento de Nampula, 1 bateria de artilharia e 1 companhia de engenharia;
-- Sector "B" (Cabo Delgado) 4 comandos de batalhão, 20 companhias tipo caçadores, 1 bateria de artilharia e 1 companhia de engenharia 3 pelotões de reconhecimento
-- No Sector "C" (Moçambique) 1 comando de batalhão, 2 companhias tipo caçadores e o Grupo de Artilharia de Campanha de Nampula (desfalcado).
b) Comando Territorial do Centro (Agrupamento 20)
-- 3 comandos de Batalhão, 9 companhias tipo caçadores, 1 bateria de artilharia de campanha e1 esquadrão de reconhecimento.
c) Comando Territorial do Sul
-- 2 comandos de batalhão, 7 companhias tipo caçadores e 1 bateria de artilharia de campanha
d) Sector da Zambézia
-- 1 comando de batalhão e 4 companhias tipo caçadores.
e) Reserva do comando da Região Militar
-- O esquadrão de Reconhecimento de Lourenço Marques. 1 bateria do Grupo de Artilharia de Nampula e o grupo de comandos.
8. DISPOSITIVO OPERACIONAL referido a:
6 de Junho  1966
No período de 10 de Janeiro 1966 até à data da carta em análise, o efectivo das forças do Exército em Moçambique, viu-se aumentado de 3 batalhões de caçadores: um destinado ao Sector "A" (distrito do Niassa), outro em reforço da Zambézia, que passou a contar com dois batalhões, e o terceiro atribuído ao dis trito de Tete, onde passaram igualmente a existir 2 batalhões. Todavia, por não ser significativa a alteração neste distrito, apenas se apresentou a carta da situação relativa à ZIN e Zambézia.
Este reforço demonstra uma maior preocupação do Comando com a evolução da situação nestes três distritos: no Niassa, a zona sublevada tendia a alastrar; a Zambézia e Tete, pelas informações recolhidas e pela sua posição geoestratégica pareciam as mais ameaçadas; cabo Delgado estacionara.
No Comando Territorial do Centro verificou-se um reforço de mais mais um batalhão, no distrito de Tete,
Aqui, o BART. 1881, com o comando em Tete, passou a ter sob as suas ordens: a CCAÇ de Tete, com um pelotão destacado em Changara, 1 CART.em Francungo, com um pelotão destacado em Vila Gamito e outro em Vila Coutinho, 1 CART. na Mutarara, com um pelotão em Doa.
Por sua vez, o BART. 1882 vai instalar o seu comando no Fingoé, e tem sob as suas ordens a 2Ç companhia do BCAÇ de Boane em Zambue, 1 CART. no Fingoé e 1 CART. em Magóe. Estas companhias mantêm vários grupo de combate destacados,
11. DISPOSITIVO OPERACIONAL referido a:
1 de MAIO  de  1967
No Comando Territorial do Centro persistem quatro subsectores de batalhão: um, com o comando em Fingoé e 4 companhias em Zabue, Muze, Mágoe e Fingoé; outro com o comando em Tete e 4 companhias em Vila Coutinho, Furancungo, Moatize e Mutarara, esta última retirada ao batalhão com sede na Beira.




13. DISPOSITIVO OPERACIONAL referido a:
4 de DEZEMBRO de  1967
As cartas em referência traduzem bem as preocupações existentes durante o período que as antecedeu. Estas preocupações consistiam:
Nos dois anos que decorrem de 11 de Outubro de 1965 a 4 de Dezembro de 1967, Moçambique foi reforçada em tropas operacionais, com e comandos de agrupamento, 13 comandos de batalhão e 47 companhias tipo caçadores. Manteve os mesmos meios de artilharia de campanha e de cavalaria de que já dispunha anteriormente, bem como de engenharia e transmissões.
Contava também com 3 companhias de comandos, 1 companhia de cães de guerra, 3 companhias de polícia militar, 2 pelotões de artilharia antiaérea e 2 pelotões de canhões sem recuo.
A localização das unidades era a seguinte:
Sectores e comandos territoriais, com sedes em Vila Cabral, Marrupa, Porto Amélia, Nampula, Quelimane, Tete, Beira e Lourenço Marques.
No distrito de Tete estavam as companhias tipo caçadores em: Zambue, Fingoe, Muze, Vila Coutinho, Vila Gamito, Bene, Vuende, Tete, Moatize, Mutarara.

14. DISPOSITIVO OPERACIONAL referido a:
2 de DEZEMBRO de  1968
Foram poucas as alterações verificadas no período que decorreu desde a última das cartas de situação das últimas cartas de situação analisadas até a data das presentes.
Estas últimas denotam uma maior preocupação pelo aumento da ameaça e da penetração do inimigo, nomeadamente em toda a zona norte do Sector"E" e ni distrito de Tete. No Sector "E" é intercalado um novo comando de batalhão, que se foi instalar em Mecula e que deu origem a um novo subsector (EME). 
No distrito de Tete foi criado um novo sector -- designado por "F" -- compreendendo quatro subsectores, atribuídos aos batalhões de Tete, Fingoé, Bene e Furancungo, e designados por FTT, FFG, FBN e FFR. 
No Sector "C", os subsectores CER e CNA passam a constituir um único subsector, com a designação CRB. Esta mudança e a transferência para Namialo do antigo BCAÇ de Nampula. agora designado por BCAÇ 15, em substituição dum batalhão de reforço, reflectem a pouca preocupação que o distrito de Moçambique suscitava.
Nesta data, o dispositivo das unidades combatentes era o seguinte:
-- sectores, com os comandos instalados em Vila Cabral, Porto Amélia, Nampula, Quelimane, Marrupa e Tete;
-- dois comandos territoriais (CTC e CTS), com as respectivas sedes na Beira e Lourenço Marques;
Os comandos de Batalhão, em Metangula,Macaloge,Valadim, Vila Cabral, Catur,
Mocímboa do Rovuma, Mueda, Mocímboa da Praia, Montepuez, Mueda, Macomia, Porto Amélia,
Ribaué, Namialo, Vila Junqueiro, Mocuba, Mecula, Marrupa, Maúa, Nova Freixo, 
Fingoé, Bene, Furancungo, Tete, 
Vila Pery, Beira, Inhambane e Lourenço Marques;
No distrito de Tete, estavam estacionadas companhias tipo caçadores em: Muze, Zambué, Fingoé (2), Gago Coutinho,, Tembué, Sadzo, Cancombe, Cassuende (3), Vila Coutinho, Vila Gamito, Vuende. Mágoe, Moatize, Mutarara

16. DISPOSITIVO OPERACIONAL referido a:
6 de JULHO de  1970
Quanto ao dispositivo, estas cartas revelam algumas alterações.
Mantiveram-se,com os limites anteriores, a Zona de Intervenção Norte, com os Sectores A, B, C, D e E., o Sector "F" e o Comando Territorial do Sul.
O Sector A", manteve em traços gerais, o dispositivo anterior com 5 subsectores de batalhão.
O Sector "B"
No Sector "F" verifica-se uma ligeira rectificação do limite entre os Subsectores FFR e FTT, ficando o primeiro com a responsabilidade da fronteira norte. O número de subunidades, tipo companhia de caçadores, aumentou de 7, e estavam sediadas em Gago Coutinho, Muze, Fingoé (2) Zambue,Chipera, Cantina Oliveira Dias, Chiringa, Sabondo, Ponte do rio Luia, Caunda, Casula, Vila Coutinho, Vila Gamito, Vuende, Furancungo, Mágoe,Mutarara, Moatize e Tete.
No conjunto de território verifica-se:
--um reforço apreciável do Sector "B"
-- um reforço menor no Sector "F"
-- um relativo enfraquecimento nos sectores "C","D", e "E"
-- um enfraquecimento acentuado, em meios operacionais, do Comando Territorial do Centro e do Sul.
Em 5 de Janeiro de 1970, a RMM anuncia a constituição dos primeiros grupos especiais de "milícias", em número de seis com um efectivo total de 550 homens., estacionados de Palma ou Pundanhar, Mocímboa da Praia, Nairoteo, Muaguide, Macomia e Mamude.

18. DISPOSITIVO OPERACIONAL referido a:
31  de MAIO de  1971
Contida e com sinas de regressão a actividade do inimigo nos distritos do Niassa e de Cabo Delgado, verificou-se, porém, o seu acréscimo na área de Tete.
A alteração da situação, neste último distrito, implicou, aí, uma profunda remodelação do dispositivo e um reforço dos nossos meios. Assim é criada, nessa ocasião, a Zona Operacional de Tete (ZOT), dividida me três sectores (F,G e H). O comando da ZOT situava-se em Tete, e o dos sectores integrantes em Tete, Fingoe e Furancungo.
O Sector F compreendia a área de um só batalhão, ( o º 17 da guarnição normal) e dispunha, como unidades fixas ou de quadrícula, 3 companhias de caçadores (uma em Changara, outra em Moatize e a terceira em Mutarara), com os seus pelotões destacados. Encontravam-se ainda na sua área de responsabilidade, como forças de intervenção, 2 companhias tipo caçadores, 1 companhia de comandos e 1 esquadrão de cavalaria. Dispunha ainda em Tete, de 1 companhia de construções e 1 pelotão de artilharia antiaérea. O comando deste sector era desempenhado, por acumulação, pelo comandante do BCAÇ 17.
O Sector G, a noroeste do distrito, dividia-se em três subsectores, da responsabilidade, cada um, de 1 unidade tipo batalhão de caçadores. O subsector GFG, a cargo do BCAÇ 2915, com o comando no Fingoé, dispunha como unidades fixas ou de quadrícula de 1 GE no Fingoé e de cinco companhias tipo caçadores, no Zambué, Muze, Fingoé, Cantina Oliveira e em Gago Coutinho, todas elas, com excepção da última, com pelotões destacados. Encontravam-se ainda na área deste subsector, como força de intervenção, 1 companhia de caçadores. O subsector GCC, a cargo do BCAV, 3837, com o comando em Chicoa, dispunha como unidades fixas ou de quadrícula de 3 companhias tipo caçadores, respectivamente em Chicoa, Mecumbura e Mágoe Novo, todas elas com pelotões destacados e um GE em Mágoe Novo. Encontravam-se ainda neste subsector, como forças de intervenção, 2 companhias de comandos. O subsector GCP a cargo do BCAÇ. 3843, com o comando na Chipera dispunha, como unidades fixas ou de quadrícula de 3 companhias tipo caçadores, duas em Estima e uma em Chiringa. Encontrava-se ainda na área deste subsector, como força de intervenção 1 companhia tipo caçadores.
Por último o Sector H, a nordeste do distrito dividia-se em três subunidade. O subsector HTB, a cargo do BART. 2897 com o comando em Tembué dispunha como unidades fixas ou de quadrícula, de 2 companhias tipo caçadores, uma em Sadzo e outra em Vila Gamito e esta última com dois pelotões destacados. Neste subsector estacionava uma CENGª em Vila Gamito. O Subsector HFR a cargo do BCAÇ 2895 com o comando em Furancungo, dispunha, como unidades fixas ou de quadrícula, além de um GE no Domué, de 3 companhias tipo caçadores, uma em Vuende, outra em Vila Coutinho e a terceira em Chizampeta todas com pelotões destacados. Encontrava-se ainda na área deste subsector, como força de intervenção, 1 companhia tipo caçadores. O Subsector HCS, A cargo do BCAV. 2903 com o comando em Cazula, dispunha como unidades fixas ou de quadrículas,  4 companhias tipo caçadores, respectivamente em Sabondo, Caunda, Zóbue e Bene todas elas com pelotões destacados, Encontrava-se ainda na sua área 1 companhia tipo caçadores em intervenção.
No conjunto , a ZOT passou a contar com 1 comando de zona, 3 comandos de agrupamento, 7 comandos de batalhão, 23 companhias tipo caçadores 3 GE em quadrícula, mais um conjunto de forças de intervenção, onde sobressaiam 6 companhias tipo caçadores, 1 esquadrão de cavalaria 3 3 companhias de comandos.
Esta área, relativamente à data anterior carta de situação de 6 de Julho de 1970 tem, grosso modo, um reforço de 1 comando de zona, 2 comandos de sector, 3 comandos de batalhão, 7 companhias tipo caçadores, 3 companhias de comandos e 3  GE.





19. DISPOSITIVO OPERACIONAL referido a:
2  de JULHO de  1973
No período que antecedeu a data em referência verificaram-se as seguintes alterações na área do distrito de Tete, o Subsector GCP passou a designar-se por: Comando Operacional da Defesa de Cabora Bassa (CODCB) e o subsector HTB foi suprimido, sendo a sua área absorvida pelos Subsectores HFR e HCS, este, posteriormente, designado por HSB. O sector F,anteriormente a cargo de 1 comando de batalhão, foi subdividido em três subsectores - FCB, FTT, FCX.
No Comando territorial de Centro é agora criado o Comando Geral dos Grupos Especiais (CGGE) com uma zona de acção correspondente à parte norte do CT.C. A nova fica a cargo do BCAÇ. 3842, com o comando sediado em Guro e tendo, em quadrícula, 5 companhias tipo caçadores e 5 GE. Dispunha ainda, como forças de intervenção, de 7 GEP.
A restante da área do CTC ESTÁ A CARGO DE 2 BATALHÕES: O BART. 6221, com o comando sediado em Inhaminga e com 3 companhias tipo caçadores em quadrícula, e o BCAÇ 16, com o comando na Beira, dispondo, entre outras forças 5 companhias tipo caçadores, 1 GE em quadrícula e 2 em intervenção, 2 companhias tipo caçadores, 2companhias de comandos e 3 GEP.
Estes três subsectores, integrantes do CTC estão sob o comando avançado em Vila Gouveia
Da análise desta carta depreende-se:
-- o enfraquecimento do inimigo na Zona Norte
-- o reforço da actividade do inimigo no Distrito de Tete, correspondente a um esforço de penetração para sul do rio Zambeze.
-- a manobra de meios para reforço do dispositivo mais afectadas ( em particular o distrito de Tete e a parte norte do CTC) à custa de outras, de momento, de menor prioridade (Sectores A e CTS).

20. DISPOSITIVO OPERACIONAL referido a:
31  de Dezembro 1973 de  1973
O esforço inimigo continua a exercer-se, não só no distrito de Tete como também na área do Comando Territorial do Centro.
Nesta última, a área anteriormente designada por Comando Geral dos Grupos Especiais (CGGE) passa a designar-se por Comando Operacional das Forças de Intervenção (COFI). Com o comando no Guro, ficou dividido em dois subagrupamentos: um atribuído ao BART. 7221, com a sede em Mungari e o outro ao BART. 3876, com sede em Chemba. O primeiro dispunha de 2 companhias tipos caçadores, respectivamente em Mungari e Mandié, ambas com pelotões destacados, além de 6 GE em Mandié, Andisséne, Guro, Chinsoro, Catunguirene, e Chimbiribiri e um GEP  em Catunguirene. O segundo batalhão dispunha de 3 companhias tipo caçadores, respectivamente em Chemba,Canxixe e Tambara, além de 8 GE em Lundo,  Chemba, Chiramba, Tambara, Madziuíre, Canxixe, dois e Sone. Dispunha ainda, como força de intervenção, de uma companhia de comandos em Madziuíre e 3 GEP em Madzuíre, Topo e Catulene.
Imediatamente a sul da área do COFI seguia-se uma outra zonade defesa, atribuída a três batalhões: a oeste, um subsector atribuído a cargo do BCAÇ 16, Com o comando em Vila Gouveia; ao centro, um outro a cargo do BCAÇ 3874, com o comando em Paiva de Andrade; a leste o terceiro, a cargo do BART. 6221, com o comando em Inhaminga.
No total, estes 3 batalhões dispunham, como forças de quadrícula, de 9 companhias tipo caçadores e 19 GE, além de uma força de intervenção por 4 companhias tipo caçadores e 6 GEP.
As unidades do BCAÇ 16, mais a norte, situavam-se as companhias em quadrícula, 2 em Vila Gouveia e Fudze; os GE em Fudze, Camberembero, Choa, Chinguinhene, Sagoro, Mepanze e Gimo; as companhia em intervenção em : Mepanze,Chinguinhene e Honde.
As unidades do BCAÇ 3874 situavam-se as companhias em quadrícula, em Macossa, Canda e CHITENGO; Os GEP, em intervenção em Macossa.
As do BART. 6221 dispunham-se: as companhias em quadrícula, em Maringué e Sena; a companhia de intervenção em Inhaminga.
A sul as forças acima indicadas, no restante da área do CTC, a cargo do comando recuado do BCAÇ 16 situado na Beira, regista-se a existência de 5 GEP, e 5 GE no Dondo e mais um GE no Pungué e outro em Mavonde.
No total, a área do CTC, à responsabilidade do comando do agrupamento 6009, situado na Beira, viu os seu efectivos aumentados para 3 comandos de batalhão, sendo 1 desdobrado em dois escalões, 13 companhias tipo caçadores, 19 GE e 6 GEP, além de 1 companhia de engenharia em Vila Gouveia com 3 destacamentos e 2 companhias de PM na Beira..
21. DISPOSITIVO OPERACIONAL                                        referido a 1  de ABRIL de  1974

No que se refere aos orgãos e unidades das forças terrestres, existiam, nesta data, os seguintes:
-- 1 comando de zona de operações em Tete
A):
-- 6 comandos de agrupamentos: em Vila Cabral (Sector "A" , destacando um posto de comando avançado para Marrupa; 
Porto Amélia, (Sector "B")destacando um posto de comando avançado para Mueda;
Mocuba (Sector "D"), 
Tete, Furancungo e Beira (CTC)
-- O Comando Operacional de defesa de Cabora Bassa (CODCB) sediado em Estima.
-- O Comando das Carga Críticas (CCC), não mencionado na carta 32.
-- O Comando Operacional das Forças de Internção (COFI), estacionado em Nampula.
B):
Comandos de batalhão, num total de 31, situados de norte para sul e de oeste para leste, em:
SECTOR "A" Metangula. Macaloge, Valadim, Vila Cabral, Mecula, Marrupa,.
SECTOR "B" 
Mocímboa da Praia, Montepuez, Macomia, Porto Amélia, Mocímboa do Rovuma, Nangade e Mueda.

SECTOR "C" Nova Freixo e Mocuba.
SECTOR "D" Changara, Tete, Caldas Xavier, Fingoé, Mecumbura, Furancungo, Sabondo, Xipera (todos na ZT); 
 SECTOR "I" Vila Gouveia.
Comando Territorial do Centro (CTC) Vila Paiva de Andrade e Inhaminga
Comando Operacional Forças Especiais (COFI) Chemba e Mungari
Comando Territorial do Sul (CTS) Lourenço Marques
C):
Companhias tipo caçadores, num total de 128, sediadas em:
Sector "A"
Maniamba, Lunho, Nova Coimbra, Olivença, Pauíla, Unango, luatize, Muembe, Nova Viaeu, Valadim, Catur, Lione, Cantina Dias, Malapísia, Massangulo, Candulo,, Chiulézi, Mecula,, Ilha Metarica. Revia, Nanlixa. Marrupa,Maúa,
Sector "B"
Omar, Negomano, Nazembe, Mocímboa do Rovuma, Palma, Pundanhar, Muidine, Nangade, Nancatari (duas), Sagal (duas), Mueda (quatro), Nangololo (duas), Mocímboa da Praia (duas), Antadora, Diaca, Nambude, Balama, Toma de Nairoto, Nairoto, Quitarejo, Mataca, Chai,, Macomia, Bilibiza Muluco, Muaguide, Porto Amélia, Namapa, Mecuburi,

Subsector "DNF":Mecanhelas, Nova Freixo (duas), Entr-os-rios (duas) e Mandimba
Subsector "DMO" Morrumbala, Vila Junqueiro, Molumbo, Milange e Mabo-Tacuane
Subsector "FCG"Chioco, Mazoé, Changara, Chinanga
Subsector "FTT"Tete (duas), Chimazi.
Subsector "FCX" Moatize (duas), MCito, Doa, Zóbué, Mutarara, Capirizange.
Subsector "GFG"Zambué, Uncanha, Fingoe, Cantina Oliveira, Gago Coutinho.
Subsector "GCC"Mágoe Novo, Nura, Taíbo
Subsector "HFR"Vila Coutinho, Casula, Vuende, Chizampete, Dómué
Subsector "HSB"Sabondo, Mavuzi, Bene
Subsector "CODCB"Estima, Chiringa, Songo, Tchrodzi, Chipera
"COFI)Chiramba, Canxixe, Tambara, Mungari, Mandié
Sector "I"Macossa, Vila Gouveia, Vila Manica, Fundeze Honde, Nhamessundo.
Subsector "CTC"
Chibabava, Chiluvo, Maringué, Chitengo (duas), Canda, Vila Fontes, Sena, Inhaminga
Subsector "CTS"Lourenço Marques, Chibuto (duas)
d):
1 Batalhão de Comandos sediado em Montepuez, com quatro companhias nesta localidade, e mais quatro destacadas em Estima, Inhaminga, Vanduzi e Caniaculo.
e):
1 grupo de artilharia de campanha (Gac6), sediado na Ilha de Moçambique, com baterias destacads em Mueda (duas), Songo e Nangade.
f):
3 esquadrões de cavalaria, em Porto Amália, Vila Gouveia e Marara
g): 1 agrupaamento de engenharia em Nampula, 1 batalhão de engenharia com o comando também nesta cidade, 5 companhias de engenharia, 2 de construção, 1 de sapadores (minas), 2 destacamentos de engenharia; as companhias de engenharia situavam-se em Mueda, Vila Cabral, Nangade, Vila Gouveia e Tete. As companhias de construção em Tete e Nampula; a de sapadores (minas) no Songo; e os destacamentos de engenharia em Lourenço Marques e Beira.
h):81 Grupos Especiais (GE) distribuídos da seguinte forma: 7 pelo Sector "A", 20 
Sector "A" 7; Sector "B" 20; Sector "D" 9; "ZOT" 16; "COFI" 14; Sector "I" 10 "CTC" 5
i): 12 Grupos Especiais de Paraquedistas (GEP), distribuídos:
"CTC" 6; "COFI" 4; "Subsector "HSB" 1; Subsector " FAG" 1 i): 1 companhia de morteiros em António Enes.
K):5 Companhias de polícia militar, em Nampula, Beira (duas), Tete, e Lourenço Marques (dois).
l): 2 pelotões de artilharia antiaéra: um em Mueda e outro em Tete.








segunda-feira, 25 de março de 2019

MUITOS DAQUELES RAPAZES CONTINUAM LÁ!!!

ANTÓNIO LOBO ANTUNES:
"MUITOS DAQUELES RAPAZES CONTINUAM LÁ!!!


A guerra é uma memória “dorida”, para António Lobo Antunes, mas o escritor afirma que foi em África que ganhou o “respeito” por si próprio.
“Eu só comecei a ganhar o meu respeito em África. Porque tinha vergonha de mim”, afirmou António Lobo Antunes numa entrevista à Agência Lusa, em Paris, onde esteve para promover a tradução francesa do romance O Meu Nome é Legião.
“Lembro-me vagamente de um discurso de Salazar. Julgo que, na altura, tomei por boa a explicação de uma revolta de bandidos e de canalhas que estavam fazendo coisas cruéis e horríveis em África e portanto o governo português mandava para lá uma força pacificadora, quase de polícia, para resolver o problema”, recorda hoje o escritor.
“Acho que me portei bem em África”, afirmou Lobo Antunes, que combateu em Angola como jovem oficial do Exército português em 1971-72.
“Consegui uma coisa que é muito rara e que é um dos meus orgulhos, que é o respeito dos meus soldados. Eram garotos de 20 anos. Eles só amam quem respeitam. Encontramo-nos todos os anos e a maneira como eles me tratam comove-me sempre. Se eu me tivesse portado mal, eles desprezavam-me”, declarou Lobo Antunes.
“Eu só tenho a dizer bem do Exército português. Os nossos oficiais, os que conheci, que eram poucos, portaram-se com imensa dignidade. Por paradoxal que possa parecer, tive orgulho de estar ao lado daqueles homens”, acrescentou o escritor, que ao longo da entrevista recordou a figura de Ernesto Melo Antunes, “um homem superior”.
Dos soldados portugueses em combate, Lobo Antunes diz que “os rapazes eram extraordinários”. Um oficial cubano disse-lhe mais tarde que “éramos grandes soldados. Então compreendi porque é que fomos nós que fomos à Índia”.
Sobre o comportamento dos soldados portugueses, o escritor recorda que “eram como os oficiais: obedeciam a quem respeitavam. Daí haver pelotões muito melhores que outros, porque havia oficiais mais corajosos que outros e com mais capacidade de decisão debaixo de fogo”.
A guerra foi para Lobo Antunes “uma aprendizagem muito lenta, muito difícil e cheia de culpabilidade”. Cada um tinha os seus valores mas “nunca houve uma conversa” sobre isso entre as tropas, sublinha Lobo Antunes, que recorda uma cena do filme “Non, ou a Vã Glória de Mandar”, de Manoel de Oliveira.
“Os soldados vão num Unimog a discutir da justiça e da injustiça da guerra. Fiquei furioso com aquilo. Nós lá estávamos apenas ocupados em chegar ao dia seguinte”, diz Lobo Antunes.
“Lembro-me de uma carta do Ernesto, lá: ‘Cada vez mais isto me parece um erro formidável’”, acrescentou o companheiro de armas e amigo de Melo Antunes, que morreu “com grande dignidade” aos 66 anos, vítima de um cancro.
“Continuamos todos em guerra”, responde Lobo Antunes quando questionado sobre o seu silêncio em torno dos anos na tropa, comum a muitos antigos combatentes.
“Nunca acaba. As outras pessoas não compreendem. Muitos daqueles rapazes continuam lá e o tema constante das conversas deles é aquilo. O sofrimento, a revolta, o horror daquilo tudo. Cada vez que eu como com os oficiais da minha companhia, sei que nessa noite não durmo”, contou Lobo Antunes.
“Um dos meus oficiais, que morreu há relativamente pouco tempo num acidente brutal de automóvel, estava um dia numa bomba de gasolina e um carro passou-lhe à frente e ele foi de imediato ao porta-luvas buscar a pistola. Um homem doce. Mas a primeira reacção emocional dele foi imediata. Era muito difícil elaborar estas emoções. Havia como que uma regressão e voltávamos àquele estado”, recordou o escritor.
“É uma pena mas ainda não se fez o grande livro sobre a guerra. Tem que ser muito mais que um romance, tem que ser um documento e não é para mim”, conclui António Lobo Antunes. “Terá que ser feito com olhos mais frios e ser feito falando com aquelas pessoas. Com os soldados, não com os chefes.”

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O ministro da Defesa, Augusto Santos Silva, enalteceu hoje “o esforço, a dor e a experiência” de todos os envolvidos na Guerra em África, exortando a que se “mantenha viva a memória e a lembrança” dessas pessoas.
Discursando na inauguração de três exposições da Liga dos Combatentes - Programa Afonso Henriques, As Três Frentes em África e A Guerra do Ultramar – no Museu do Combatente, o governante distinguiu o que disse ser uma “evocação de natureza universalista” da Guerra Colonial.
Santos Silva notou que as iniciativas evocativas dos 50 anos sobre o início da Guerra Colonial louvam “todos os que serviram nas Forças Armadas” de então, mas também “toda a rede” humana e as famílias envolvidas nesse processo, assinalando “o esforço, a dor e a experiência de todos”.
Numa cerimónia onde esteve acompanhado pelo presidente da Liga dos Combatentes, general Chito Rodrigues, e onde estiveram o chefe da Casa Militar do Presidente da República, general Carvalho dos Reis, e o ex-governador de Portugal em Macau general Rocha Vieira, para além de vários oficiais generais e almirantes, o ministro considerou que se deve celebrar também a relação que Portugal mantém com as antigas colónias.
“Hoje, somos amigos e irmãos daqueles novos Estados que surgiram”, afirmou, salientando especialmente as relações com Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe no quadro da cooperação técnico-militar e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Na sua intervenção, Santos Silva fez também referência a um tema que já abordou enquanto académico, elogiando “a experiência da integração dos retornados”, processo que considerou ter decorrido “de forma exemplar” e que é estudado “como um caso de sucesso”.
No final, aos jornalistas, Santos Silva disse que a dignificação dos ex-combatentes é “uma das prioridades da política de Defesa Nacional”, dizendo ser “muito bom poder contar, para além do trabalho próprio e das obrigações próprias da administração, com o apoio das organizações dos próprios combatentes”.
O governante rejeitou ainda que os militares que ficaram com sequelas físicas e psicológicas na sequência daquele conflito de 13 anos sejam esquecidos pelo Estado português.
“Não me parece, nem me parece que a sociedade portuguesa se caracterize por essa atitude, antes pelo contrário”, afirmou, assinalando que praticamente todos os portugueses têm familiares que estiveram directamente envolvidos na Guerra Colonial e considerando que “todas essas pessoas” e também as instituições “têm procurado cumprir o seu dever na integração dos antigos combatentes”.

CAMPAS e OSSÁRIOS de MOÇAMBIQUE



A preocupação com a situação em que se encontram as campas e ossários dos militares que serviram, combateram e tombaram por Portugal, inundados no estrangeiro e no território nacional, tem merecido desde sempre uma atenção permanente por parte da Liga dos Combatentes. Razões diversas, muitas vezes de natureza conjuntural, vinham colocando dificuldades à concretização de actividades sustentadas e exequíveis a levar a cabo pelas anteriores direcções. Neste quadro de incapacidades, as maiores implicações incidiram sobre as situações existentes no estrangeiro, já que, no território nacional, por acção dos Núcleos, da Direcção Central, de apoios camarários e de entidades diversas, vinha e vem sendo possível, por vezes com dificuldades, manter com dignidade, talhões, ossários e cripta situados em numerosos cemitérios espalhados pelo país.
As acções no estrangeiro eram cometidas aos Adidos da Defesa e Militares que, na directa dependência do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, alertavam e procuravam resolver algumas situações pontuais. É neste cenário que a anterior Direcção Central propôs, mais uma vez, a constituição de um Grupo de Trabalho para aprofundamento desta problemática, que mereceu a atenção, interesse e resposta pronta do Ministério da Tutela. Assim, por despacho de Sua Excelência o Secretário de Estado da Defesa e Antigos Combatentes, de Fevereiro de 2003, é aprovada a criação de um grupo que integra elementos dos três Ramos das Forças Armadas, do Estado-Maior General das Forças Armadas e do Ministério da Defesa, nomeadamente da Secretaria-Geral, Direcção Geral de Pessoal e Direcção Geral de Política de Defesa Nacional. A Liga dos Combatentes em Moçambique - Operação "Nova Frente"


Terminada a intervenção na República da Guiné-Bissau, a Liga dos Combatentes estabeleceu uma NOVA FRENTE – A REPÚBLICA de MOÇAMBIQUE, para prosseguir a sua actividade de Conservação das Memórias. Na observância dos objectivos desse seu Programa Estruturante, a Liga dos Combatentes partiu, em 4 de Setembro pretérito, para Moçambique e durante 19 dias deslocou-se pelo País, percorrendo a Norte as províncias de NAMPULA, NIASSA, CABO DELGADO e ainda o cemitério de GURUÉ na ZAMBÉZIA. A Sul, percorreu MAPUTO, INHAMBANE e GAZA reconhecendo os cemitérios municipais dessas províncias onde se encontram inumados militares que tombaram na I Guerra Mundial e na Guerra do Ultramar, identificando também alguns locais de inumação que se constituem actualmente em locais abandonados de vida humana e à mercê das alterações que a natureza introduz, tudo registando para posterior tratamento documental e concepção da acção de dignificação, a conduzir oportunamente.
Durante 19 dias, percorrendo as províncias referidas, concretizaram-se todos os objectivos definidos para esta acção de intervenção, devendo ser referido o bom estado de conservação geral de muitos cemitérios visitados e a colaboração das autoridades administrativas provinciais para ajudarem a localizar as campas situadas em zonas fora dos cemitérios. Cerca de 7 mil quilómetros percorridos em viaturas todo o terreno e várias horas de deslocação em avião (linhas aéreas de Moçambique) proporcionaram à Equipa de Missão da Liga dos Combatentes efectuar o total levantamento da situação em que se encontravam os Cemitérios e as Campas neles instaladas, ou fora deles, por forma a que o antecipado conhecimento que a Liga possuía dos locais e do quantitativo de Campas a identificar e posteriormente intervencionar, pudesse ser validado no terreno.
A situação real proporcionou ajuizar dos estragos que a natureza, as intempéries e os muitos anos passados sobre as inumações ocorridas têm provocado em Campas e em Cemitérios, partindo placas de cimento e destruindo identificação em muitas das Campas, provocando abatimento de solos e vendo crescer árvores de grande porte cujas raízes desagregam Campas e outras infraestruturas cemiteriais. No quadro anteriormente descrito, regista-se o cuidado das autoridades locais em preservar o que podem, pintando muros e armaduras de campas, evitando a degradação total de infraestruturas e proporcionando-nos a certeza de que têm preservado deliberadamente um espaço de memória física daqueles que tombaram. Há excepções, nalguns locais o abandono era total e elevado o desinteresse pelos Talhões de militares portugueses, mas os contactos com os Administradores do Governo Local proporcionaram criar uma relação que visa a contratualização de serviços de manutenção daqueles espaços.
A Equipa de Missão da Liga dos Combatentes não logrou contactos com Autoridades Governamentais do Governo Central de Moçambique, embora a Embaixada e o Consulado de Portugal naquele País tivessem diligenciado nesse sentido, mas a data da chegada a Moçambique da Equipa da Liga dos Combatentes constituía um momento singularmente delicado da governação do País e não possibilitou a credenciação documental da Missão, embora esta estivesse antecipadamente respaldada na intervenção da Embaixada de Moçambique em Portugal para garantir a boa execução da Missão, o que de facto veio a suceder.
Regressando a Equipa de Missão da Liga dos Combatentes a Portugal, em 22 de Setembro, validando o sentimento de ter cumprido o objectivo da Operação "NOVA FRENTE", a Equipa visitou 24 locais diferentes, todos os que se propunha visitar e "estudar", de Maputo a Tenente Valadim – esta a poucas dezenas de quilómetros da Tanzânia e a 50 quilómetros de Mavago, passando por Chibuto, Inhambane, Nampula, Angoche (António Enes) Malema (Entre Rios), Mirrote, Malapísia, Marrupa, Metangula, Mecaloge (Miranda), Mechuma (Nova Coimbra), Cuambo (Nova Freixo), Unango, Lichinga (Vila Cabral), Macomia, Mocimboa da Praia, Montepuez, Mueda, Palma, Quionga e Pemba. Ficaram bem alicerçados no terreno, para efeitos mediatos, os contactos com Administradores locais que activarão contratualmente melhorias já definidas e, em particular, com a Cônsul Honorária de Portugal em Nampula, neste último caso para se desenvolverem todas as diligências que viabilizem a construção de um Ossário que receberá as Ossadas dos militares a exumar de diversos locais das províncias de Nampula, Niassa e Cabo Delgado, num total estimado em cerca de 20.
Cemitério de Nangololo
A Equipa de Missão da Liga dos Combatentes regista o apoio logístico dos Irmãos Missionários da Consolata, não esquece o apoio institucional da Secretaria de Estado da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar, da Embaixada e do Consulado de Portugal em Moçambique, destaca o apoio do Cônsul Honorário em Nampula – Dr.ª Maria Luísa e regista a colaboração da Direcção Geral de Política de Defesa Nacional através da Cooperação Técnico Militar Portuguesa – que tutela, em Maputo e Nampula. A Liga dos Combatentes voltará a Moçambique e à Missão de continuar a CONSERVAÇÃO DAS MEMÓRIAS em Junho de 2011, percorrendo, reconhecendo e "estudando o terreno" que a aguarda nas Províncias de Tete, Zambézia, Manica e Sofala, sem deixar de consolidar nas outras Províncias as tarefas já iniciadas.É oportuno deixar um testemunho de respeito e de admiração a todos os Militares portugueses que em Moçambique Serviram Portugal e que para tal enfrentaram o desconforto, o isolamento e a solidão imensa, dando de si o melhor. Pelas terras onde andámos, nós que estivemos também no Ultramar, não conseguimos deixar de progressivamente acumular um sentimento de profundo respeito por todos aqueles que, naqueles locais, fizeram da sua vida renúncia em favor de Portugal. A Equipa de Missão foi constituída pelo Major-general Fernando Aguda, pelo Tenente-coronel Álvaro Diogo, Tenente-coronel Carlos Correia e Sr. Joaquim Gaspar, antigos Combatentes em diferentes teatros de operações no Ultramar e actualmente membros da Liga.

segunda-feira, 11 de março de 2019

ERNESTINA E OS LUTOS INACABADOS

ESTA CRÓNICA FOI RETIRADA DO CADERNO P2 DO JORNAL PÚBLICO DO DIA 24 DE DEZEMBRO DE 2017 E É DA AUTORIA DE CATARINA GOMES
“Pedia a V.ª Ex.ª, pela sua saúde, já que não tive a sorte de trazerem o meu filho vivo, peço-lhe que mo mandem mesmo morto. Para eu o adorar e rezar ao pé daquele bom querido filho. Peço imensa desculpa a V.ª Ex.ª destas minhas tristes palavras, mas a dor é tão grande que não sei onde hei-de respirar. O nome do meu filho é Francisco da Luz Carloto.”



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Sem querer, a carta de uma camponesa alentejana que não sabia escrever, ajudou a mudar um pormenor da história. 
Maria Florinda da Luz tinha sido informada por telegrama que, o filho tinha morrido na guerra em Moçambique a 19 de Janeiro de 1967. Se o quisesse trazer, teria de pagar 12 mil escudos, o que equivaleria aos preços de hoje (de acordo com o conversor Pordata), a cerca de 4 mil Euros. Era impossível, mas a mãe do soldado sentiu que, à sua maneira, tinha de fazer alguma coisa
“A minha sogra era uma mulher sem estudos, mas bem resolvida”, lembra ao P2 a nora, Brígida Leitão. Partiu dela a ideia de ir ter com quem sabia, “o senhor presidente da junta”: “Ela a chorar disse-lhe tudo o que sentia, o que tinha no coração” e ele lá organizou e arrumou as frases à sua maneira, que assim seguiram, em tom submisso, para o ministro da Defesa, uma ousadia nos tempos que corriam.
Desde que a guerra tinha começado, em Angola em 1961, que o Estado português só pagava a ida e o regresso aos militares vivos, não o dos mortos. Quem queria trazer os seus tinha de pagar e quanto mais longe morria o militar mais caro: trazer um corpo de Moçambique era o mais caro; da Guiné, por ser mais próximo, ficava um pouco mais barato, 7500 escudos (cerca de 2500 euros), lembra o livro de Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, Os Anos da Guerra Colonial 1961.1975 (QuidNovi), que cita a carta da mãe e explica as suas repercussões.
“A transladação era incomportável para a maioria das famílias, era uma sociedade ruralizada, com hierarquias, com uma desigualdade mais nítida e aceite do que é hoje”, explica Carlos Matos Gomes. O que, na prática, acontecia é que eram as famílias dos oficiais quem mais meios tinha para pagar pelo regresso dos seus mortos. “A transladação era para uma elite social”, constata o autor e coronel na reserva.
A grande maioria dos mais de cerca 1500 militares portugueses (de acordo com o levantamento mais recente feito pela Liga dos Combatentes) que permanecem até hoje enterrados em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique “são soldados e cabos, há alguns sargentos e muito, muito poucos oficiais”, constata Carlos Matos Gomes.
A não vinda dos corpos era uma das formas que assumia a pouca visibilidade da morte na guerra. Carlos Matos Gomes lembra, por exemplo, que, se morriam vários homens numa operação, os jornais tinham instruções para diluírem as mortes por vários dias, em pequenas notícias a uma coluna, de um a dois mortos de cada vez, publicadas em páginas interiores. Além disso, nota, os mortos que chegavam vinham em navios de transporte dentro de vulgares caixotes de madeira e as urnas eram desembarcadas longe da vista e desencaixotadas no depósito de adidos da Ajuda. Mesmo os feridos chegavam durante a noite.
A política de transladações permaneceu inalterada e sem grande polémica até à tal carta vinda da aldeia alentejana do concelho de Nisa, Tolosa. Brígida Leitão sabia da carta, mas desconhecia que o Estado tinha passado a assegurar as transladações depois da iniciativa da sogra. O que sabem é que Francisco da Luz Carloto veio de Moçambique e está enterrado no cemitério de Tolosa.
Foi pouco depois da carta, em Março de 1967, que as Forças Armadas passaram a assegurar os custos da transladação dos corpos de África, mas a família tinha, à mesma, algumas despesas, por exemplo, pagar o caixão de chumbo e o transporte do hospital militar até ao cemitério da terra natal.
Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes constatam na sua obra que, das 2238 baixas ocorridas entre 1961 e 1966, na altura, só foram trazidos para Portugal 326 corpos, o que representava apenas cerca de 15% do total de mortos desse período. Era visível que os custos eram o grande obstáculo porque de Moçambique, onde a despesa era maior, só vieram 5,5% dos corpos, de Angola 12,9% e da Guiné, por ser um pouco menos oneroso, um pouco mais, 27,2%.
   
              “Mãe, o pai voltou para casa”

António Lopes da Silva. Morto em Angola em 1963.
Só 54 anos depois foi transladado para Portugal
Ernestina da Silva — que só este mês, 54 anos depois da morte do pai em Angola, em 1963, conseguiu transladá-lo para Portugal — não sabe se, na altura, foi sequer dada a possibilidade à mãe de pagar os 10 mil escudos que eram exigidos à família, o que equivaleria a cerca de 4000 euros aos preços de hoje. Teria sido indiferente. Era impossível angariar essa quantia. A mãe vivia da agricultura, plantava batatas, tomates, faziam azeite e vinho. Teve aliás de emigrar para a Alemanha, deixando a filha com oito anos a ser criada pelos avós. Os pais do soldado morto também pouco podiam fazer, eram agricultores, nove filhos. Nunca houve campa.
Ainda devolveram à família a aliança e o mostrador do relógio Sigma que o soldado António Lopes da Silva usava quando foi morto, “que veio cheio de sangue”, e que Ernestina conserva até hoje dentro de uma caixinha de veludo. Nunca ninguém da sua família se lembrou de reclamar, nem saberiam como o fazer. Era assim. Aceitava-se.
E não era só a impossibilidade de trazer o corpo. À família nada foi dito sobre como tinha ocorrido a morte. Ernestina Silva sabia o dia em que o pai tinha morrido, 3 de Outubro de 1963, que tinha morrido em combate. Mais nada.
E esse não saber era “um nó” dentro de Ernestina, mesmo com 56 anos. Emigrada nos Estados Unidos, tornou o Facebook a sua ferramenta de busca, fez-se amiga de todos os que a pudessem ajudar, sobretudo pára-quedistas, como o pai era, e todas as semanas, ritualmente, ia “bisbilhotar” às suas páginas. “Encontrei o meu pai”, disse à filha um dia, que não acreditou, “tu és doida”. Pediu logo o contacto ao sargento pára-quedista, Isidro Moreira Esteves, que tinha posto na sua página daquela rede social uma fotografia de homenagem ao soldado António Lopes da Silva e que aceitou atender o telefone àquela desconhecida já madrugada dentro. Estava tão feliz que nem deve ter pensado na diferença horária, lembra o sargento na reserva. “Chorou, chorou uns bons minutos” e Isidro deixou-a chorar.
Isidro Esteves não tinha só posto a fotografia do pai de Ernestina, como faz com muitos outros pára-quedistas, ele tinha-o visto morrer cinco metros à sua frente. Na aldeia de onde António Lopes da Silva era natural, Lobão da Beira (concelho de Tondela), circulou a certa altura o rumor de que o soldado não tinha morrido em combate, que tinha sido morto numa briga com um colega militar, conta Ernestina. Agora, aquele sargento na reserva vinha contar-lhe que o pai se voluntariou nesse dia, estava de folga, e que era o homem que seguia à frente da coluna com o seu cão de guerra, que não teve tempo para cheirar o inimigo que o matou com um tiro nas costas, à entrada de uma pequena clareira com capim. Tinha feito 22 anos dias antes. “Durante todo o tempo, o seu cão esteve sempre ao lado, sentado nas patas traseiras, recusando afastar-se do tratador, e sempre a uivar”, contou o major José Calheiros na cerimónia fúnebre de 6 de Dezembro. Durante todos estes anos, tinha estado enterrado num cemitério de Luanda, com o seu nome perfeitamente identificado.
Ernestina Silva, junto às ossadas de seu pai.
Ter o pai num sítio onde pode Ernestina ir visitá-lo e saber como foi a sua morte, limpa de rumores, ajudaram a produzir dentro dela uma “paz incrível”, uma mistura “de alívio e alegria”. No funeral, “foi como se ele me estivesse a dizer ‘obrigado, estou aqui’”. Na lápide em granito, que ainda está por fazer, vai colocar as suas datas de nascimento, de morte e de “regresso a casa”.
“Mãe, o pai voltou para casa.” A filha disse-lhe a frase ao ouvido, como se sussurrada a essa proximidade a mensagem tivesse mais possibilidade de lhe chegar ao cérebro. Claro que a mãe não reagiu, só abre e fecha os olhos, está em coma há três anos, mas era a pessoa para quem aquela mensagem, aquele funeral fora de tempo, mais teria tido importância. Ficou viúva aos 22 anos, sozinha a criar uma menina de dois anos que era Ernestina. Foi, por isso, a primeira pessoa a quem foi contar, mesmo sabendo que “a mãe já não está cá”.
                           O esqueleto E

António Victoriano - Pára-quedista morto aos 21 anos. 
Ficou enterrado no mato em Guileje na Guiné-Bissau
Mas o problema dos militares mortos que ficaram em África não teve só que ver com os custos. Muitos militares não foram transladados para Portugal porque permanecem até hoje em lugar incerto (200) ou continuam desaparecidos (267), informa o presidente da Liga dos Combatentes, o general Chito Rodrigues. Estes casos incluem, por exemplo, militares enterrados em situação de combate no local da morte, afogamentos, corpos enterrados em cemitérios improvisados das próprias unidades, que se encontram dispersos pelos territórios em lugares que hoje são mato e capim.
O irmão de Conceição Vitoriano Maia foi, até dada altura, um desses corpos sem paradeiro. Morto a 23 de Maio de 1973 (quando o Estado já custeava a transladação), a notícia que lhes chegou a casa já não veio por telegrama. “Não era normal ter a GNR à porta, eram dois, vinham a pé…” Tinha dez anos, não ouviu o que disseram à mãe. “Não precisei.” Quando saíram, a mãe chorava. O filho tinha “desaparecido em combate”. É pior do que “morto em combate”, afirma. Embora a mãe sentisse durante longos anos a necessidade de repetir, mesmo a desconhecidos, “eu tinha um filho, morreu na Guiné”, manteve durante muitos anos a esperança no regresso do filho: “Ele ia chegar um dia. Sempre que batiam à porta fora de horas…” Mas era um problema sem solução e os anos passaram.
Até que um sargento pára-quedista, Manuel Rebocho, descobriu em 2006 que tinha havido três soldados pára-quedistas que tinham ficado enterrados no mato em Guidaje (Guiné-Bissau) e que nunca ninguém tinha voltado para ir buscar, embora a divisa dos pára-quedistas fosse precisamente “Ninguém fica para trás”. Inconformado, começou a contactar entidades e famílias. Conceição Vitoriano Maia já estava pacificada em relação ao assunto do irmão, não havia corpo mas a sua morte era incontroversa. O sargento veio informá-la de que existia um mapa da altura desenhado pelos militares da unidade com a localização das sepulturas. E Conceição sentiu que, sabendo-se onde estava, não podia deixá-lo lá. Começou tudo em 2006, as cartas, os requerimentos, os pedidos de reuniões, à qual se juntou a Associação de Pára-Quedistas.
Conceição Vitoriano Maia diz que, no início, o que encontrou junto de entidades oficiais militares foi obstáculos. Respondiam-lhe que era um assunto encerrado, que era demasiado tarde. Face às resistências, decidiu então que, em vez de ser uma operação militar, organizaria ela própria uma missão civil para trazer o corpo do irmão e dos dois outros pára-quedistas que estavam no mesmo local. Ela era arqueóloga, mais habituada a escavações do período romano, é certo, mas estava disposta a fazer este trabalho.
O presidente da Liga dos Combatentes afirma que uma missão deste tipo estava a ser planeada há dois anos e que a liga acabou por aceitar incorporar na equipa da primeira missão a União de Pára-Quedistas.
Certo é que a ida à Guiné decorreu em Março de 2008 e acabou por ser o início da chamada Operação Conservação de Memórias, levada a cabo pela liga com o objectivo de “dignificar” os restos mortais de militares dispersos por vários locais e transferi-los para cemitérios centrais. O objectivo nunca foi assegurar a transladação para Portugal mas, localizados os militares, podiam ajudar as famílias que o quisessem fazer, explica Chito Rodrigues. A Liga dos Combatentes tem um protocolo com a TAP que assegura gratuitamente às famílias a viagem do cemitério da capital do país africano para Lisboa, mas as restantes despesas são a cargo da família, e ainda podem ser bastantes.
“Nós não percebemos porque é que essas pessoas não foram todas trazidas”, afirma o responsável, mas lembra que “a liga não substitui o Estado, actuamos onde o Estado não actua, como complemento, nos mortos e nos vivos”.
Conceição Vitoriano Maia lembra esses dias da missão na Guiné como de grande intensidade emocional. À noite, depois dos dias em escavações, conseguia dormir só com ajuda de calmantes. “Como é que alguém consegue ser duas: a arqueóloga e a irmã? Foi muito difícil de gerir.” Tinha como função destapar a área onde supostamente tinham sido enterrados vários militares, um deles o seu irmão, para depois deixar as colegas antropólogas trabalharem na identificação das ossadas. Como arqueóloga, está mais do que habituada a destapar esqueletos, são objectos arqueológicos como quaisquer outros, “como pedras”, mas aqui sabia que num daqueles rectângulos de terra mais clara jazia o irmão. Encontraram muitos objectos por aqueles dias, um cachimbo, garrafas de cerveja, pentes, pulseiras, anéis, objectos religiosos. E um pequenino coração de pedra cor-de-rosa para usar num fio. Pertencia ao esqueleto E, a letra correspondente à sua ordem de aparecimento.
O esqueleto E era António Vitoriano, morto aos 21 anos, o seu irmão. O pequeno pendente pertencia-lhe mas nem ela nem a mãe lhe conheciam o objecto. Não foi por causa dele que o identificaram. Cada ossada é uma história. A de António Vitoriano estava na clavícula. Quando o irmão tinha oito anos tinha caído de bicicleta e partido esse osso e lá estava ele, remendado. “Nem sei como é que fui capaz emocionalmente. Foi muito pesado.”
43 corpos na Guiné  e outros 73 corpos em Moçambique, recuperados com a Operação Conservação de Memórias. Desde 2018 apenas 13 famílias decidiram pagar pela vinda dos corpos
A Operação Conservação de Memórias haveria de ir mais quatro vezes à Guiné e sete a Moçambique. Em Angola, vários problemas burocráticos impediram, até agora, a realização de uma operação, refere Chito Rodrigues. Recuperaram 43 corpos na Guiné e outros 73 corpos em Moçambique, que estão em dois ossários, um em Bissau e outro em Nampula. Desde 2008, apenas 13 famílias decidiram pagar pela vinda dos corpos: nove da Guiné, dois de Moçambique e dois de Angola, constata o responsável da Liga dos Combatentes.
Chito Rodrigues diz que há várias razões para terem sido tão poucas famílias a pedir a transladação. Uma delas podem ser os custos envolvidos, depois, quase 99% dos militares não tinham filhos, os familiares que ficam são irmãos, sobrinhos ou familiares mais distantes e, claro, há o tempo, já passaram 40, 50 anos sobre estas mortes.
A seguir ao funeral do irmão, a mãe de Conceição Vitoriano Maia, que tinha parado de falar do filho, voltou a falar dele uns tempos e depois calou-se. “Ficou guardadinho lá na gaveta.” Finalmente arrumado.
Para Conceição Vitoriano, “há imensas famílias com isso por resolver, a prova é essa senhora”. Fala de Ernestina Silva, cujo caso conheceu pela televisão.


               “Obrigação moral do Estado”
O historiador Miguel Bandeira Jerónimo, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, diz que esta recente transladação de um pai “ajuda-nos a perceber o que foi o império colonial português, a perceber a natureza do regime, a escassez de informação, o desrespeito que o regime tinha pela vida humana”. “São legados que não terminaram de todo.” “Há um ser humano, há uma família, há uma filha que não conheceu o pai.”
“A transladação é uma questão do foro privado, mas o Estado devia assegurá-las, se as famílias o desejarem. Devia ter sido feito pelo regime que conduziu a esta situação, mas esta, entre as muitas coisas que a democracia portuguesa tem para fazer, é uma obrigação moral do Estado democrático em relação ao seu passado.” “O grande problema é enterrar esta questão” e deixar que seja enredada “em discursos nacionalistas”.
“Quero trazer o meu irmão, quero que os meus pais descansem”
Otília Gonçalves
“Estes são retornos por fazer. Há uma família que tem o direito a este reencontro.” “Foi uma guerra de classes, por que é que deve continuar a assentar em desigualdade social?” A transladação do pai de Ernestina de Angola custou 7500 euros, a filha avançou com 2500, o restante foi angariado pelos pára-quedistas. O historiador chama a estes casos “os lutos inacabados do império”.
“Eu revi-me na pele da Tina. Tenho muito orgulho de ela ter conseguido.” Otília Gonçalves, 54 anos, conheceu pela Internet a filha que trouxe o pai de Angola, foi de propósito de Braga a Lobão da Beira para o funeral. Anda há cerca de dez anos a tentar trazer “o mano” de Angola. O irmão, o mais velho de 11 filhos, morreu no início da guerra, a 15 de Outubro de 1961, junto a uma fazenda chamada “Tentativa”. Embora nunca o tenha conhecido sem ser de foto, a presença da sua ausência marcou-lhe a infância na aldeia de Ponte de São Vicente, distrito de Braga. “Eu, pequenina, ia dar com a minha mãe a chorar sentada no chão, atrás do milho. ‘Sai daqui’”, ordenava à filha. Não queria que a sua dor fosse vista. Foi assim durante anos. No Verão, na altura de arejarem as roupas, do fundo de uma arca de madeira saía também o livro da primária “do mano”. É a única dos irmãos que não desiste. “Os meus irmãos acham que já não há nada para trazer.” Para Otília, há algo inacabado. Só receberam um telegrama a dizer que tinha morrido de acidente, perto de Nambuangongo, “muito simples e frio, ponto final. Se quisessem o filho, tinham de pagar. Era impossível. Tinham de vender a casa e as terras, claro que não dava”. Chamava-se Aquilino da Silva Gonçalves, era segundo cabo do Exército, ia fazer 21 anos.
Escreveu cartas e emails ao Presidente da República, ao primeiro-ministro, “a todos os órgãos”. “‘Acusamos a recepção, com os melhores cumprimentos.’ Mais nada. Tenho tudo arquivado.” “Quero trazer o meu irmão, quero que os meus pais descansem.” “Há muita gente que já não tem família mas há muita gente que ainda os quer trazer. Eu preciso.”
Este artigo encontra-se publicado no P2, caderno de domingo do PÚBLICO




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