História a três tempos
O processo-crime de 1964.
Tomás Lucas Manuel, Mário Jussa Jamal e Fernando
Murripa foram detidos em Março de 1964 na circunscrição de Sena, junto ao rio
Zambeze, a quase 400 quilómetros a noroeste da Beira. Todos trabalhavam na
Companhia Trans Zambézia Railways (como enfermeiro, telegrafista e auxiliar de
enfermagem, respectivamente) e nos primeiros ofícios da polícia o agente
Virgílio Francisco escreveu que se reuniam regularmente “para tratar de
assuntos relacionados com a organização subversiva Frelimo”. Transportados para
a Beira, foram encarcerados na cadeia da PSP, nas celas privativas da PIDE, sob
regime de isolamento. Nenhum tinha cadastro, comunicou a repartição dos
registos e do notariado de Lourenço Marques.
Documentos originais produzidos na subdelegação da
Beira relativos à captura de Tomás Lucas Manuel a 10 de Março de 1964. Na
“ordem de internamento” lê-se que foi detido para “averiguações”
Tomás Lucas foi submetido ao primeiro interrogatório
a 12 de Março, mas este auto de perguntas nunca chegou a Lisboa. A
direcção-geral leu apenas a inquirição feita a 4 de Maio pelo subinspector Joaquim
Piçarra Sabino e pelo agente Virgílio Francisco, na qual o enfermeiro
“confessou” ter angariado dinheiro para a Frelimo, à qual pertencia. Nesse
documento, dactilografado, vê-se a assinatura manuscrita de Tomás Lucas, a
caneta azul. Foi interrogado pelo menos mais quatro vezes, até meados de
Agosto, “instado para esclarecer total e concretamente todas as suas
actividades a favor” do movimento independentista, conforme se lê no processo.
Entre estes papéis há ainda cópias dos pedidos de
prorrogação dos prazos de prisão preventiva (legalmente prevista para três
meses), dirigidos ao governador-geral e justificados com a “gravidade e
multiplicidade dos factos criminosos” (não se especificava quais). A legislação
penal definia que o prazo poderia ser protelado por mais dois períodos
sucessivos de 45 dias, com a prévia homologação do Ministério do Interior, mas
Tomás Lucas e Fernando Murripa permaneceram reclusos mais de três anos, até
finais de 1967, sujeitos a “medidas administrativas de segurança” (um expediente
largamente usado pela PIDE para prolongar indefinidamente a prisão preventiva).
Em finais de Agosto, Virgílio Francisco assinou um
relatório concluindo que Tomás e Murripa eram dois dos “principais
responsáveis” da Frelimo em Sena, Mutarara e Bauè. Quanto a Mário, a polícia
não tinha conseguido recolher “elementos de prova”, pelo que propunha a sua
libertação. António Fernandes Vaz, o director da PIDE em Moçambique
(1960-1972), despachou favoravelmente o documento em Setembro de 1964 e ainda
nesse mês os autos foram remetidos para o Tribunal Territorial de Moçambique,
onde os acusados foram julgados por “actividade clandestina, instigação e
apologia à prática de crimes contra a segurança do Estado, visando a separação
da Província de Moçambique da Mãe-Pátria”.
Nenhum documento nesta pasta informa sobre a data do
julgamento ou a pena a que foram condenados. Os últimos fólios são telegramas
da direcção em Maputo para a filial da Beira sobre a libertação de Tomás e
Fernando e o seu regresso a casa, com termo de residência.
A denúncia em 1974.
Em seis páginas dactilografadas, com data de 15 de Junho, Tomás Lucas escreveu aos “excelentíssimos senhores da Comissão Investigadora de possíveis crimes cometidos pela PIDE/DGS” sobre os seus dias de cativeiro dez anos antes. Começava por nomear os alvos da queixa: Alberto da Natividade (chefe de brigada), Virgílio Francisco e um subinspector cujo nome não se lembrava (era Joaquim Piçarra Sabino
A denúncia de Tomás Lucas Manuel sobre os actos criminosos praticados por três dirigentes da PIDE/DGS da Beira resultou numa investigação da comissão de inquérito que incluiu perícias médicas
Contou que, no primeiro interrogatório feito numa
sala da moradia de Ponta Gea, foi espancado com chicote e palmatória por
Natividade, Francisco e mais quatro auxiliares (desconhecia as identidades).
Quando desmaiava despejavam-lhe baldes de água fria sobre a cabeça. “Cheguei ao
ponto de pedir ao chefe de brigada a própria morte, o qual ele respondeu-me que
não era preciso pedir que tinha já a morte na porta.”
Em todos os interrogatórios foi agredido e torturado
e no fim de cada um “era coagido pelas torturas a aceitar as acusações graves”,
assinando sempre um “auto de acusação”. Ficou num estado tão deplorável que
teve de ser levado para o hospital da cidade (Rainha D. Amélia), mas regressou
à cadeia antes de estar restabelecido — mal chegou foi novamente espancado e
isolado no “segredo”, uma cela privada de luz. Às refeições davam-lhe um prato
de farinha e peixe podre, e a água era “insalubre”. “[A comida] era-me atirada
como se fosse uma fera e a porta da cela logo fechada.”
Foi mantido três meses no “segredo”, sob “um grande
sofrimento e angústia”: “Quase que me levava à loucura, desejando a morte”,
escreveu. “Pela minha profissão e conhecendo matéria do corpo humano, acredito
que vivi por milagre.” Ao fim desses meses, levaram-no para uma cela
sobrelotada, com apenas um balde para as necessidades. Não havia refeitório e
consumiam a comida ali mesmo.
A comissão militar conseguiu recuperar as fichas
originais de presos de Tomás Lucas Manuel e Fernando Murripa, podendo assim
confrontar as denúncias com os registos da polícia política
No último interrogatório, encontrou Fernando
Murripa, que era seu primo, na mesma sala. Ambos foram espancados ao mesmo
tempo por Virgílio Francisco, que usou uma palmatória e bateu-lhe “até se
cansar”. Em Setembro, foi transferido para a Machava e presente a tribunal
militar, tendo tido como advogado de defesa António de Almeida Santos, que,
aliás, defendeu muitos presos políticos moçambicanos. Os juízes absolveram-no,
o “promotor de Justiça” recorreu da sentença para a Relação de Lisboa e Tomás
Lucas voltou a ser ilibado pela instância de recurso. (Nas suas Quase
Memórias, Almeida Santos, advogado dos Democratas de Moçambique, escreveu
não ter “a menor dúvida” de que os tribunais militares condenaram “muitos
inocentes”, sublinhando que as acusações eram “pouco consistentes” e quase
sempre fundadas na “confissão” obtida por “coacção física”.)
Tomada de posse do I Governo provisório a 16 de Maio
de 1974. António de Almeida Santos, ao lado de Mário Soares, tomou posse como
ministro da Coordenação Interterritorial Alberto Gouveia
Ao fim de três anos de reclusão, quando Tomás Lucas
regressou a casa, a Trans Zambézia Railways recusou readmiti-lo (o mesmo
aconteceu com Murripa e Jamal). Tinha marcas de chicotadas nas costas,
cicatrizes na cabeça, estava quase cego do olho esquerdo e tinha mazelas no
tórax. “Considero a minha vida encurtada”, escreveu. Terminava a queixa escrita
pedindo uma indemnização de 1250 contos pelos “danos psíquicos, físicos e económicos
em consequência das torturas e anos de prisão” e juntava a cópia de uma carta
dos seus antigos patrões que garantiam ter entregado um cheque no valor de sete
contos (o salário que não reclamou por ter sido detido) a um subinspector da
Beira (não identificado) — cheque que nunca lhe foi dado.
O que fez a Comissão.
Abriu um processo de averiguações, começando por
pedir exames de corpo de delito e ordenando a inquirição de duas testemunhas,
precisamente Fernando Murripa e Mário Jussa Jamal. Os dois ex-reclusos não se
limitaram apenas a corroborar o depoimento de Tomás, mas reviveram também as
violências sofridas na subdelegação. “(…) a maneira como os interrogatórios
eram feitos era o mais desumano possível, com sucessivas sovas com
cavalo-marinho, palmatória, pontapés e murros. Que finalmente e depois de,
assim, serem obrigados a confessar e a fim de se livrarem daqueles maus tratos
aceitavam como verdadeiras as acusações que lhes eram feitas. Que no final dos
interrogatórios eram obrigados a assinar sem que o que havia sido escrito lhes
fosse lido e para tal, a maior parte das vezes, era necessário que o agente lhe
pegasse na mão, tão feridas e magoadas se encontravam”, disse Murripa, então
enfermeiro no Hospital Rainha D. Amélia.
Exterior do Hospital Rainha D. Amélia em 1909. Hoje
chama-se Hospital Central da Beira e é um dos mais antigos de MoçambiqueANTT
Ouvido a 24 de Julho, Mário Jussa começou por falar
nas “paredes manchadas de sangue” que viu na sala de interrogatórios (algo
também mencionado por Tomás e Fernando) e da pancada que sofreu com rabos de
raia. Numa das sessões de tortura deste homem, que foi libertado ao fim de seis
meses de reclusão por falta de provas, deitaram-lhe álcool sobre as pernas e
lançaram fogo, “do que ainda hoje apresenta cicatrizes”, escreveram os
instrutores militares. “(…) logo à entrada se lembra de ter sido avisado pelo
agente Virgílio que se não confessasse como verdadeiras as suspeitas que sobre
ele recaíam iria apanhar muita pancada e que não assumiam a responsabilidade
pela vida de alguém que entrasse naquela sala.”
A comissão juntou aos autos mais uma inquirição:
Manuel António Abreu, um escriturário de Vila Pery (actual Chimoio), não era
testemunha das sevícias infligidas a Tomás Lucas, mas era uma das vítimas de
Virgílio Francisco. Detido em Setembro de 1965 para “averiguações”, foi privado
de água e comida durante os primeiros três dias de reclusão e nos
interrogatórios foi obrigado a estar ajoelhado e imóvel durante horas sobre
dois rolos de madeira, sendo espancado quando se mexia.
A perícia médica feita a Tomás Lucas, requerida
pelos militares, chegou em finais de Julho: “Diminuição da visão do olho
esquerdo (…); cicatrizes em número de sete do dorso resultantes de ferimentos
profundos provocados por chicotadas; cicatriz linear da região frontal acima da
arca superior esquerda; cicatriz com sulco da região parietal esquerda (…). As
lesões cicatriciais referidas são resultantes de traumas e violências como as
referidas pelo examinado e delas resultam incapacidade para o trabalho”,
registaram os médicos António Leitão Pereira Marques e Fernando de Azevedo Vaz.
A comissão pediu ainda um relatório clínico ao hospital da Beira, onde Tomás
fizera uma cirurgia ao olho, mas nada consta no processo.
Telegrama onde se lê que o agente Virgílio
Francisco, indiciado por ofensas corporais graves, “pode ser detido pelas
autoridades militares”
Desfecho.
Nestas investigações, os militares não obtiveram
mais informações sobre Virgílio Francisco ou sobre o subinspector que teria
ficado com os sete mil escudos de Tomás Lucas. Mas numa pasta referente a outra
denúncia encontram-se documentos que comprovam que Francisco não saíra da
corporação “há vários anos”, mas antes fora demitido em Janeiro de 1973, na
sequência de um processo disciplinar (não são indicados os motivos). Em 1974,
estava a trabalhar numa firma em Nampula. (Neste processo, a comissão procurava
os paradeiros de Virgílio Francisco e de “Virgílio Maia”, julgando tratar-se de
dois agentes, quando, na verdade, eram a mesma pessoa, conforme se verifica na
relação de quadros da PIDE no Ultramar.)
Sobre o dirigente superior que recebera o cheque da
Trans Zambézia Railways, presume-se que tenha sido Joaquim Piçarra Sabino, um
dos pides que interrogou Tomás Lucas em 1964. Em meados de Maio de 1974, o
comando-chefe em Moçambique emitiu ordem para deter este subinspector, entre
outros funcionários da cúpula policial, por suspeita de “abusividades de
autoridade”. Piçarra Sabino conseguira fugir do país (provavelmente nos últimos
dias de Abril), mas foi capturado em Lisboa. Em Maio de 1976, a Comissão de
Extinção da PIDE/DGS decretou a sua libertação, com termo de identidade e
residência.
Na ordem de libertação por ele assinada lia-se que
estava proibido de “frequentar certos meios ou locais frequentados
habitualmente por pessoas vítimas da repressão das ex-PIDE/DGS ou Legião
Portuguesa.” No seu caso, não corria esse “risco”.
A “SALA DO INFERNO”
Os presos chamavam-lhe “sala do inferno”. Era uma
divisão pequena, sem janelas, apenas com um pequeno postigo de ventilação,
contígua ao posto antropométrico. Estava praticamente vazia — tinha uma
cadeira, alguns sacos de cimento num dos cantos e do tecto pendiam duas argolas
de ferro, atravessadas por um toro de madeira escura.
Num dia de Maio de 1971, um operário de 32 anos que
trabalhava na Açucareira de Moçambique entrou nesta sala e foi obrigado a
despir-se. Um auxiliar da polícia prendeu-lhe os pulsos com uma tira de
serapilheira e depois com uma corda, mandou-o subir para uma cadeira, amarrou a
corda à trave de madeira e retirou a cadeira, deixando-o suspenso pelos braços.
O homem, José Andimo, não sabe quanto tempo passou até começar a chorar de
dores. Quando o fez foi agredido com um pau. Daí a pouco entraram na sala três
pides. Um deles disse-lhe que se “não queria falar teria que continuar
pendurado”.
No Verão de 1974, Andimo continuava a ignorar quanto
tempo ficara “pendurado” na “sala do inferno” da subdelegação da PIDE na Beira,
mas tinha ainda marcas nos pulsos e cicatrizes no corpo por causa dos
espancamentos feitos com chambocos de pele de hipopótamo. A polícia suspeitava
que este homem e um outro, José Sive, submetido às mesmas torturas, angariavam
dinheiro para a Frelimo através de um pequeno clube de futebol do qual faziam
parte.
Ficha original de preso de José Sive agregada ao
processo de investigação militar. No verso foram registadas informações sobre o
seu casamento, colhidas numa edição de Agosto de 1973 do jornal “Voz Africana”
Em Outubro de 1971, cinco meses depois de terem sido
presos, Andimo e Sive foram libertados. A comissão conseguiu obter uma cópia da
ordem de soltura, na qual se lê não ter ficado provado que os dois homens
tivessem “desenvolvido quaisquer actividades violentas a favor da Frelimo ou
mesmo que tivessem contactado com elementos terroristas da referida
organização.”
O autor do parecer, promulgado pela direcção em
Maputo, era Calisto Vasconcelos, chefe de brigada, preso na Operação Zebra
e duas vezes ouvido pela comissão, contrariando sempre o que ele próprio tinha
escrito três anos antes: Andimo e Sive eram, afinal, dirigentes de uma
“associação secreta” da Frelimo, declarou. Também negou o emprego de qualquer
violência ou “meios coercivos” nos interrogatórios, apontando apenas que eram
“longos” porque era preciso “persuadir os presos a confessar”.
Neste mesmo processo, os instrutores diligenciaram
ainda a inquirição de uma dactilógrafa da PIDE, Maria de Lurdes Miranda Velez,
que trabalhara na Secção Reservada da Beira, um gabinete próximo da “sala do
inferno”. A funcionária afirmou que “pouco ou nada sabia dizer” sobre as
práticas de torturas e desconhecia “absolutamente tudo” o que acontecia naquela
divisão, mas admitiu ter ouvido, “por voltas de 1964”, agentes a “esbofetearem
os presos”.
As denúncias apresentadas por José Andimo e José
Sive originaram mais audições, desta vez de funcionários africanos. Um
intérprete, Pedro Muguio, e dois guardas prisionais, Manuel Tanjune e Ernesto
Tonela, confessaram as agressões e admitiram ter participado das mesmas.
“Queimavam os presos na cara e no corpo com a ponta do cigarro”, disse Tonela,
contando ainda que muitos “não conseguiam comer” por causa dos espancamentos:
“Vomitavam por não conseguirem suster a comida no estômago.” Já nos
interrogatórios feitos fora das instalações policiais, “não se batia” nos
prisioneiros, “porque poderia haver outras pessoas que ouvissem ou
assistissem”, explicou.
Em finais de Agosto, a comissão identificou e
convocou mais quatro testemunhas para fundamentar solidamente a acusação sobre
os ex-pides, mas estas diligências nunca chegaram a realizar-se devido ao fim
abrupto dos trabalhos.
Centenas de queixas sobre as violências perpetradas
pelos elementos da PIDE na Beira tiveram o mesmo fim. Além das torturas,
tratamentos cruéis e condições indignas de reclusão, foram também denunciados
casos de assassinatos, roubos de bens e de dinheiro, extorsão, destruição de
património e de documentos públicos. Quanto aos desaparecidos, em número
impossível de apurar, qualquer possibilidade de saber os seus destinos
perdeu-se para sempre nas fogueiras onde desapareceram os arquivos.
A “ sala do inferno”
Os
presos chamavam-lhe “sala do inferno”. Era uma divisão pequena, sem janelas,
apenas com um pequeno postigo de ventilação, contígua ao posto antropométrico.
Estava praticamente vazia – tinha uma cadeira, alguns sacos de cimento num dos
cantos e do tecto pendiam duas argolas de ferro, atravessadas por um toro de
madeira escura.
Num dia
de Maio de 1971, um operário de 32 anos que trabalhava na Açucareira de
Moçambique entrou nesta sala e foi obrigado a despir-se. Um auxiliar da polícia
prendeu-lhe os pulsos com uma tira de serapilheira e depois com uma corda,
mandou-o subir para uma cadeira, amarrou a corda à trave de madeira e retirou a
cadeira, deixando-o suspenso pelos braços. O homem, José Andimo, não sabe
quanto tempo passou até começar a chorar de dores. Quando o fez foi agredido
com um pau. Daí a pouco entraram na sala três pides. Um deles disse-lhe que se
“não queria falar teria que continuar pendurado”.
No
Verão de 1974, Andimo continuava a ignorar quanto tempo ficara “pendurado” na
“sala do inferno” da subdelegação da PIDE na Beira, mas tinha ainda marcas dos
pulsos e cicatrizes no corpo por causa dos espancamentos feitos com chambocos
de pele de hipopótamo. A polícia suspeitava que este homem e um outro, José
Sive, submetido às mesmas torturar, angariavam dinheiro para a Frelimo através
de um pequeno clube de futebol do qual faziam parte.
Em
Outubro de 1971, cinco meses depois de terem sido presos, Andimo e Sive foram
libertados. A comissão conseguiu obter uma cópia da ordem de soltura, na qual
se lê não ter ficado provado que os dois homens tivessem “desenvolvido
quaisquer actividades violentas a favor da Frelimo ou mesmo que tivessem
contactado com elementos terroristas da referida organização.
O
autor do parecer, promulgado pela direcção em Maputo, era Calisto Vasconcelos,
chefe de brigada, preso na Operação Zebra e duas vezes ouvido pela
comissão, contrariando sempre o que ele próprio tinha escrito três anos antes:
Andimo e Sive eram, afinal, dirigentes de uma “associação secreta” da Frelimo,
declarou.Também negou o emprego de qualquer violência ou “meios coercivos” nos
interrogatórios, apontando apenas que eram “longos” porque era preciso
“persuadir os presos a confessar”.
Neste mesmo processo, os instrutores diligenciaram ainda a inquirição de
uma dactilógrafa da PIDE, Maria de Lurdes Miranda Velez, que trabalhara na
Secção Reservada da Beira, um gabinete próximo da “sala do inferno”. A
funcionária afirmou que “pouco ou nada sabia dizer” sobre as práticas de
torturas e desconhecia “absolutamente tudo” i que acontecia naquela divisão,
mas admitiu ter ouvido, “por voltas de 1964”, agentes a “esbofetearem os
presos”.
As
denúncias apresentadas por José Andimo e José Sive originaram mais audições,
desta vez de funcionários africanos. Um intérprete, Pedro Muguio, e dois guardas
prisionais, Manuel Tanjune e Ernesto Tonela, confessaram as agressões e
admitiram ter participado das mesmas. “Queimavam os presos na cara e no corpo
com a ponta do cigarro”, disse Tonela, contando ainda que muitos “não
conseguiam comer” por causa dos espancamentos: “Vomitavam por não conseguirem
suster a comida no estômago.” Já nos interrogatórios feitos fora das
instalações policiais, “não se batia” nos prisioneiros, “porque poderia haver
outras pessoas que ouvissem ou assistissem”, explicou.
Em finais de Agosto, a comissão identificou e
convocou mais quatro testemunhas para fundamentar solidamente a acusação sobre
os ex-pides, mas estas diligências nunca chegaram a realizar-se devido ao fim
abrupto dos trabalhos.
Centenas de queixas sobre as violências perpetradas pelos elementos da
PIDE na Beira tiveram o mesmo fim. Além das torturas, tratamentos cruéis e
condições indignas de reclusão, foram também denunciados casos de assassinatos,
roubos de bens e de dinheiro, extorsão, destruição de património e de
documentos públicos. Quanto aos desaparecidos, em número impossível de apurar,
qualquer possibilidade de saber os seus destinos perdeu-se para sempre nas
fogueiras onde desapareceram os arquivos.
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