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segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A ÚLTIMA OPERAÇÃO MILITAR EM MOÇAMBIQUE (OUTUBRO DE 1974)

 A ÚLTIMA OPERAÇÃO MILITAR EM MOÇAMBIQUE (OUTUBRO DE 1974)



Naquele mês de Outubro de 1974 a ainda província ultramarina de Moçambique vivia a ferro e fogo desde inícios de Setembro. A luta pelo poder, até hoje nunca completamente esclarecida, entre os guerrilheiros da Frelimo que o Conselho da Revolução elevou a representantes legítimos e únicos de todo o povo moçambicano, e todos aqueles que tinham uma ideia plural para o futuro do país, estava no auge. As patrulhas conjuntas nas ruas, com o que restava da presença militar portuguesa e antigos guerrilheiros da Frelimo, prenunciava já o que seria o novo Moçambique, quando dali a 8 meses, a 25 de junho do ano seguinte, se tornasse um estado independente.

A situação político-militar assentava num acordo de cessar-fogo, que obrigava os aquartelamentos de tropa portuguesa que ainda restavam, a procedimentos de retirada e abandono de instalações, promovendo a entrada naqueles dos antigos guerrilheiros que em vão os tinham tentado tomar de assalto nos últimos 10 anos, sem que o lograssem fazer em nenhum caso. Por outro lado, o mesmo acordo obrigava as forças da Frelimo a não executarem nenhuma acção contra as forças em retirada. Em síntese era esta a realidade no território.

No noroeste do país, uma companhia de formação local, cujos graduados eram quase todos originários da ainda metrópole, fazia missões de protecção a colunas de civis, que por razões diversas abandonavam a zona. O primeiro dado estranho é a necessidade de protecção a colunas de civis, estando em vigor já um clima de cessar-fogo,acordo este que preconizava que os movimentos de pessoas e bens não deveriam ser molestados. Assim sendo, porquê este aparente excesso de zelo? Talvez a lição de Omar, e o adágio, velho de séculos, de que cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, tivessem prevalecido.

Nos últimos meses de guerra tinha surgido um novo tipo de mina anticarro, baseada num mecanismo mecânico simples, que consistia numa roda dentada, que rodava após cada passagem sobre ela. A dada altura a roda tinha um dos dentes em falta, e quando chegava o momento em que uma viatura accionava pela 5ª ou 6ª vez a mina, esta explodia, porque era precisamente os dentes da roda que travavam o detonador.

A companhia em questão recebeu ordens aos primeiros dias de Outubro para proceder a mais uma escolta. Composta por cinco viaturas, a terceira accionou a mina, ferindo com gravidade dois militares, cuja evacuação foi solicitada à FAP com carácter de urgência. Quando os soldados fizeram a vistoria ao local, perceberam que havia pisado o engenho com as primeiras viaturas, e que a lotaria tinha cabido aos colegas que se deslocavam na terceira Berliet.

Evacuados os camaradas, e regressados ao aquartelamento, o jovem alferes que comandara o grupo de combate naquele dia tinha um dilema para resolver. O seu grupo tinha sido atacado, dois dos seus homens lutavam pela vida no Hospital Militar, e as mazelas que os acompanhariam pela vida fora eram evidentes. O oficial miliciano sabia que uma resposta ao ataque envolvia autorizações que dificilmente seriam dadas.Os comandantes militares em Lourenço Marques estavam demasiado engajados com uma retirada a todo o custo, e com pouca vontade de criar problemas aos seus amigos da Frelimo.  A questão era, portanto,como responder no limite da legalidade. O jovem alferes comunicou ao seu superior que tinha em mente ir mato adentro tentar detectar uma base inimiga sobre a qual existiam informações há algum tempo, e que não fora alvo de uma missão de reconhecimento final por ter entrado em vigor o cessar fogo. O tal acordo que tornava aquela mina inverosímil e injustificável. O oficial comandante da unidade afirmou não poder autorizar tal iniciativa.



Perante a negativa do seu capitão, o jovem Alferes responde:

 – Um exército com 850 anos de História, foi atacado, de forma soez e cobarde. Soez porque o inimigo se furtou ao combate, deixando uma vez mais um artefacto traiçoeiro na picada. Cobarde porque estando em vigor um acordo ele foi claramente desrespeitado. A minha posição de oficial e o prestígio do exército, não permitem que se volte para casa de “rabo entre as pernas” sem pelo menos tentar detectar a base de onde saíram os autores de tal canalhice. Por último o sofrimento dos dois militares feridos exige a nossa ação

O capitão acabou por aceder, mas exigiu que fossem apenas voluntários, e que se alguma coisa corresse mal, deu a entender que nunca tinha aprovado tal missão.

Com 20 anos, este jovem alferes tinha-se voluntariado para a tropa dois anos antes, assim que terminara o Liceu, e apesar de matriculado na Faculdade de Letras preferiu optar por congelar a matrícula, e cumprir aquilo que entendia ser o seu dever de cidadão. Depois de Mafra, foi para Angola, tirar a especialidade, finda a qual voltou a voluntariar-se para cumprir a sua comissão em Moçambique em unidade de recrutamento local.

Convocado o grupo à parada o oficial solicitou voluntários para a missão que pretendia levar a cabo. Todos os graduados se escusaram, uma vez que estavam a menos de dois meses do fim da comissão, e a guerra tinha terminado. Todos os praças, (naturais de Moçambique na sua totalidade), aceitaram participar.

Reunido o pessoal, saiu um grupo de combate com 22 elementos, ainda o dia não tinha rompido. Caminharam ao longo de 3 dias, em pequenos grupos separados, para melhor ludibriar a vigilância na base. Sentindo a dada altura algumas vozes, em zona já de mata fechada, o alferes deu ordem para que cada um dos seus homens se envolvesse na vegetação local, e aguardassem o amanhecer para desferir o ataque final. Eram frias as noites em Tete, por oposição aos dias tórridos. Os homens aguardaram em incómodos postos o passar das horas e da noite, sem emitir o mais pequeno ruído, e com o grupo já em linha dentro das contingências possíveis. Transidos de frio, foi com algum alívio que sentiram a hora do amanhecer chegar. Ruídos começaram a chegar da base, e a ordem para se avançar no máximo silêncio possível foi dada. A adrenalina toma o lugar do cansaço, da fome, da noite mal dormida, do próprio medo. Vozes ouvem-se agora claramente, o alferes jura até hoje que segundos antes de desferir a ordem de ataque final ouvira o bater do pilão tão característico de África. A base estava à sua frente agora, e 22 elementos disparavam a tudo o que se mexia. Atravessaram a base, atirando granadas para as cubatas existentes, mas demorando o menos possível no interior desta. Os habitantes da base, escaparam pelos pontos de fuga, conhecidos de todos. Dois cadáveres de guerrilheiros ficaram no solo, como consequência do tiroteio. Já no lado oposto a base, os militares protegeram-se, pois caíam as primeiras granadas de morteiro, das proximidades, assestados para a eventualidade de um ataque à base.

Regressaram os militares ao aquartelamento, carregando algumas armas que apanharam, e com o sentimento do dever cumprido. No ar o fumo das cubatas ardidas dissipava-se, e a chegada ao aquartelamento terminou a missão, da qual não foi produzido nenhum relatório, porque não podia ter existido.

Passaram 4 dias até que a população local trouxe o pedido dos homens da Frelimo da região para uma reunião com vista a um acordo para a zona. Foram os guerrilheiros recebidos na base, e apesar de solicitados a deixar as suas armas à entrada desta, recusaram-se a fazê-lo por sua segurança. O medo era evidente no rosto daqueles homens. Os militares portugueses aceitaram sentar-se à mesa desarmados, e com os frelimistas de kalashnikov ao colo. Entre os primeiros apenas as facas de mato pendiam dos camuflados. O acordo era simples, os guerrilheiros comprometiam-se a não ter qualquer acção nas vias de comunicação e o exército a não voltar a atacar nenhuma base. Acordo simples e na realidade desnecessário tendo em vista o acordo geral de cessar-fogo, no entanto o objectivo estava alcançado, os acordos são para cumprir, e se não forem as consequências terão de ser aceites.

Ficou ainda o aquartelamento activo perto de um mês, durante o qual não se registou mais nenhuma ocorrência. Em inícios de Dezembro rumaram os metropolitanos a Lourenço Marques, e dali embarcaram para a Metrópole. A comissão estava terminada.

Que terá sido feito dos 21 militares naturais da província, e que aceitaram participar na missão? Não foi possível apurar nada relativamente a 20 deles. Apenas um deles vive em Portugal e foi uma das fontes deste texto, este nunca mais soube nada dos antigos companheiros, que julga terem ficado em Moçambique.

 NOTA DO AUTOR DO TEXTO

 Os factos relatados são verídicos, e foram-me transmitidos por 2 elementos da unidade que executou a missão descrita. Um destes elementos é o ex-alferes mencionado. Porque não estou autorizado a revelar nem nomes, nem locais, nem a própria unidade em questão, o texto vai truncado nesse sentido.

O que esta operação tem de especial é o facto de ter sido a última acção ofensiva do exército português em Moçambique, realizada a 15 de Outubro de 1974, 476 anos 7 meses e 8 dias depois de Vasco da Gama ter aportado à Ilha de Moçambique.

 António Carlos Nunes Ferreira Augusto 

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