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Livros da guerra colonial

Miandica terra do outro mundo


segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

A TRAGÉDIA DO RIO ZAMBEZE -- 21 de Junho de 1969. Depoimentos de sobreviventes e documentação oficial

                             A TRAGÉDIA DO RIO ZAMBEZE

  Na tarde de 21 de Junho de 1969,próximo das 17H uma coluna militar composta por 150 homens e 30 viaturas,que aguardava havia já seis dias a possibilidade da passagem daquele rio,embarcou no batelão,em Lacerdónia,com destino a Mopeia,na margem esquerda do Zambeze.

                                   

Ainda não era decorrida uma hora de viagem quando,inesperadamente,a embarcação, começou a inclinar sendo invadida pela água,fazendo-a afundar.No diálogo que travámos com dois dos sobreviventes,foi-nos dito que o batelão,face ao peso da carga,navegava com a plataforma quase submersa o que,por este motivo e também pela pequena ondulação que se fazia sentir,começou a meter água.O comandante da embarcação,que se encontrava na proa,em conversa com o Alferes Rosário e outro graduado,ao verificar a situação,ordenou para a casa das máquinas uma manobra de correcção,ou seja navegar para a margem,ordem esta que não foi percebida pelo maquinista,que ao tentar corrigi-la fá-lo de tal forma brusca,provocando,com a ajuda da água já acumulada no batelão,o seu afundamento,mas não totalmente,pois durante algumas uma pequena parte do mesmo,inclinada a menos de 45 graus,manteve-se fora de água.Este facto,segundo explicação de um dos nossos interlocutores aconteceu visto o batelão navegar já ao longo da margem esquerda do rio,em direcção a Mopeia,que não ficava,como se possa julgar,defronte a Lacerdónia,de onde partiu a coluna ,como se disse.Assim, a proa ao afundar-se,arrastando consigo as viaturas,enterrou-se no fundo do rio. A corrente que se fazia sentir e a "provável ajuda"de algumas viaturas,manteve o barco naquela posição,onde seis militares conseguiram agarrar-se até serem salvos pelos pescadores Campira. Muitos dos militares lutaram,alguns durante horas,"com as aguas do Zambeze",mas só 54 sobreviveram,ficando 19 a dever a sua vida a quatro pescadores autóctones que laboravam por perto,os Irmãos Campira. Aqueles irmãos apercebendo-se,pelo barulho,que algo de estranho se passava,impulsionaram as suas pirogas para as imediações do acidente efectuando,por longo período de tempo,o salvamento de homens semi- afogados e exaustos para a ilhota onde viviam.Depois de terminada esta tarefa,os pescadores prestaram aos sobreviventes,que tinham dores,frio e e choque emocional,a assistência possível,fazendo fogueiras para os aquecer.Uma vez que a lenha era escassa,não hesitaram em queimar parte das próprias palhotas onde viviam.Depois disso,já pela madrugada, os Campira foram a Mopeia,acompanhados por alguns sobreviventes,avisar as autoridades locais que iniciaram de imediato as buscas.A atitude dos pescadores originou em Moçambique,uma onda de solidariedade tal que lhes valeu,por iniciativa do jornal"Diário" de Lourenço Marques,a oferta de uma casa pré-fabricada,bem como um louvor decretado pelo Governador-Geral Dr.Baltazar Rebelo de Sousa.Foi com base neste louvor que lhes foi concedida a Medalha de Prata de serviços distintos . 

Os quatro irmãos Campira numa das suas pirogas

Entretanto,outros militares conseguiram,pelos seus próprios meios,alcançar terra
firme,muitos deles utilizando,como precioso auxílio,vários objectos flutuantes,tais como:Malas e sacos de viagem,bidões vazios,pedaços de madeira,etc...Houve até quem ficasse a dever a sua vida a uma viola que trouxera da Metrópole.Nos dias consequentes à tragédia,Mopeia foi "invadida"por jornalistas da imprensa da Província e da África do Sul.Deslocaram-se ao local algumas entidades militares.Uma das faltas mais notadas foi a do Movimento Nacional Feminino.
 À grande maioria dos sobreviventes,que se manteve no pequeno destacamento militar de Mopeia,coube-lhe ainda a ingrata missão de tentar identificar os corpos que durante alguns dias iam sendo resgatados das águas e margens do Zambeze.Quando nos ocorreu a ideia de inserir neste livro a tragédia do Zambeze,estávamos conscientes que,se o fizéssemos só com base nas pesquisas efectuadas nos jornais da época,alguma informação que prestássemos não seria precisa.Então,empenhar-nos no sentido de chegar ao contacto com algum dos sobreviventes,para ouvir,de viva voz,os seus angustiantes relatos das horas que se seguiram ao acidente.Assim,como já referimos,em Julho de 2009,40 anos depois,conseguimos falar pessoalmente com dois sobreviventes da tragédia,o António Banza Rodrigues e o João Filipe Barata Coelho.

Relato de um sobrevivente:
António Banza Rodrigues

 Em  traços gerais,sem entrar em pormenor,corroboro o que atrás foi escrito sobre o acidente.No entanto,quero acrescentar que,antevendo uma eminente tragédia,não cumpri as ordens do comandante da coluna que ordenava ao pessoal para se dirigir ao outro lado do batelão com o objectivo do equilibrar.Naquele breve espaço de tempo despi a camisa e descalcei as botas,mas enquanto o fazia um camarada ainda me disse:« Eh pá,eu não sei nadar»infelizmente engrossou a lista dos mortos. Já com o batelão a afundar cada vez mais,lancei-me à água,afastando-me desesperadamente do local breves segundos.pós a tragédia depois,a tragédia se consumava.Foram momentos dramáticos 

depois ouvia nitidamente os gritos de pânico daqueles que não sabendo nadar tentavam agarrar-se,fosse ao que fosse,na ânsia de se salvarem.
Entretanto, fui nadando de costas com o objectivo de me cansar o menos possível, mas tive que desistir da ideia, uma vez que a água me entrava pela boca.
Passado algum  tempo vi perto de mim um saco de viagem a boiar, consegui chegar junto a ele, e lá me segurei, com muito jeitinho, para que não se abrisse e perdesse por isso o efeito de bóia.
Lá longe, via a margem do rio, o pôr do sol já se iniciara, a noite não tardaria.
A certo passo, ao olhar para o lado, vejo um camarada de infortúnio, já exausto, tentando chegar até mim para usufruir da "boleia" do meu providencial saco, mas tive a consciência que se isso acontecesse seria, talvez, fatal para ambos, uma vez que aquela "tábua" de salvação não suportar dois "penduras". Além disso, não sabendo em concreto do estado em que se encontrava aquele camarada, resolvi atirar-lhe o saco, evitando assim que ele se aproximasse. Decorridos mais alguns minutos e cada vez mais exaustos, vejo três camaradas agarrados a um bidão de 200 L vazio a quem pedi "boleia" e me foi concedida visto haver espaço para quatro.
Contudo, face ao esforço despendido, quer físico, quer psicológico, acentuava-se cada vez mais a minha debilidade, até porque a cerca a cerca de 50 metros da margem, resolvemos largar o bidão e nadar para terra ficando, assim, cada qual entregue a si próprio
Alguns momentos depois,já sem movimentos e vencido, dei os "trunfos" ao Zambeze que lutara duas longas e intermináveis horas.

Os três companheiros de infortúnio a quem pedi boleia no bidão

Acontece que,quando as minhas pernas, já inertes,desciam na vertical senti os pés pisarem terra firme. Num impulso, ganhando de novo ânimo, vindo não sei de onde, pus-me de pé e verifiquei que a água me dava pela altura do peito.
Com dificuldade, consegui encontrar a margem onde se encontravam já alguns camaradas, uns que chegaram pelos seus próprios  meios, outros transportados pelos irmãos Campira, cuja actuação já foi relatada.
Assim foi o epílogo deste primeiro acto da minha comissão de serviço em Moçambique,outros mais estavam para acontecer.

Relato de um sobrevivente:

João Filipe Barata Coelho

As quatro décadas decorridas,não foram ainda suficientes para apagar da minha memória os horrores da tragédia que presenciei e vivi naquele fatídico fim de tarde de 21 de Junho de 1969. Enquanto o batelão navegava eu ia tentando ocupar o tempo conversando com este ou aquele camarada de viagem.No momento em que me encontrava numa amena cavaqueira,à proa,com os comandantes da embarcação e da coluna militar,comecei a sentir os pés molhados,reparando que as ondas do rio provocavam a entrada de água,com abundância,para cima da plataforma, situação que levou o comandante do barco a dar instruções,como já atrás referi ,para o manobrarem na direcção da margem.Apercebendo-me que algo ia correr mal,e assim aconteceu num curtíssimo espaço de tempo,dirigi-me,a correr,no sentido inverso onde me encontrava,despindo,entretanto,a roupa,ficando apenas .Como  por magia demoníaca o batelão imerge arrastando consigo homens, viaturas e demais carga que transportava.Lá bem no extremo da parte emersa da embarcação preparava-me para me lançar à água quando os cinco camaradas que ali se encontravam,firmemente seguros,imploravam que não os abandonasse,pois não sabiam nadar. Perante aquelas aflitivas súplicas e por verificar que a parte onde nos encontrávamos não se movia,resolvi ficar.

 

O Governador do Distrito da Zambézia cumprimenta os irmãos Campira

Durante o tempo que ali permanecemos,cerca de duas horas e meia,fui tentando ganhar forças psicológicas para dar ânimo aos meus companheiros de infortúnio e a mim próprio.
Era visível que a proa do batelão se ia afundando gradualmente.
Sentíamos isso pela água que,cada vez mais cobria os nossos corpos.Recordo que o pânico se apoderava de mim quando via,por perto,algo deslizar pela corrente pois,como é sabido,o
 Zambeze é habitat natural dos crocodilos,os quais,com toda aquela agitação,deveriam,sem dúvida,andar nas redondezas.
As esperanças de salvamento esfumavam-se,ao mesmo ritmo com que a noite avançava sobre o
Zambeze e,por isso,a todo o momento teria que tomar uma decisão,que não poderia ser outra senão abandonar o local,deixando ali os meus companheiros a aguardar que o batelão se .afundasse,definitivamente, o que aconteceu horas mais tarde.
No meio de um "nocturno silêncio"ouvimos uma voz forte,lá longe,gritar:
«Há aí alguém?». Enchendo os pulmões de ar respondemos,com  toda a força que nos foi permitida,que sim.«Quantos estão aí!»,retorquiu aquela voz salvadora.Minutos depois surge perto de nós uma piroga com um único timoneiro,um dos irmãos Campira,que em três viagens transportou os náufragos para "porto seguro". Como devem calcular é difícil descrever em palavras o momento em que pisei terra firme e vejo reunidos os cinco companheiros de infortúnio que  antes ouvira:«Meu Furriel,eu não sei nadar».
Pela madrugada,com o grupo praticamente reunidos seguimos para Mopeia onde permanecemos durante algum tempo.
Finda a dura tarefa de identificação dos cadáveres,recebi guia de marcha com destino ao Lunho."capital do estado de minas gerais"na verdade,nada mais gratificante para recuperar,física e psicologicamente,dos males sofridos..."

Retirada de uma viatura do fundo do rio
                              
                                        Os Sobreviventes

Adelino Augusto Padre; Adriano Saveca; Agostinho Francisco; Agostinho Naiveve,
Agostinho Oliveira; Alberto Maganha; Alcino Gomes de Moura; Alfredo Dias;
Alfredo Rende; António Banza Rodrigues; António Bernardino Silva; 
António Carlos Prudêncio; António Esteves Lourenço; António Augusto Salgado; 
António Lopes Cardoso; Armando Murulango; Armindo Gomes da Silva;
Artur Videira Carreira; Caetano Oala; Ernesto Saete; Eugénio Daniel Santos;
Felizardo Langa;  H. Aing; João António F. Carvalho; João Filipe Barata Coelho; 
João Louro Carapito; João Manuel Alves Meireles; Joaquim C. Alichamade;
Joaquim L.P. Sardinha; Joaquim Turrula Ribeiro; Joaquim V. Simões Pereira;
José Justino Pinto; José Morais da Silva; Lucas Gasolina: Luís Augusto Silva;
Luís da Silva Torres; Manuel Albino Dabale; Manuel Rodrigues Figueira; 
Manuel Costa Almeida; Manuel da Rocha Cardoso; Manuel J.P. Rodrigues;
Manuel santos Ventura; Maximino dos Santos; Nelson Vasconcelos Afonso; 
Rafael António A. Pereira; Raúl Lopes Rodrigues; Rodrigues Manuel;
Rui Alexandre Ribeiro Silva; Samuel Elias; Vítor M. Videira Cardoso.

 
Os sobreviventes

Extraído do Livro de:

Manuel Pedro Dias 

 Aquartelamentos Militares em Moçambique

                      Relatório Oficial  da Tragédia




   







segunda-feira, 29 de novembro de 2021

SABIAS QUE NO NIASSA.....


  O malogrado ciclista Joaquim Agostinho integrou a Companhia de Cavalaria 754 "Sete de Espadas)" que andou por vários locais deste Distrito, designadamente, Nova Coimbra, Lunho  e Miandica. Foi em Vila Cabral que começou a dar as "primeiras pedaladas", participando em provas de ciclismo das quais saía sempre vencedor..

Joaquim Agostinho e a sua mascote em Nova Coimbra

1965 no Lunho, Joaquim Agostinho 0 2º à direita a transportar mais um cadáver
                                                              
                                                                  **************
UM PILOTO DA FORÇA AÉREA PORTUGUESA ANDOU DESAPARECIDO NO MATO DURANTE DEZ DIAS?
O avião Dornier que pilotava saiu, no dia 24 de Agosto de 1966, de Vila Cabral, com destino a Valadim e Pauila, para entregar o tão desejado correio.
A aeronave não chegou ao seu destino dado ter-se registado um problema técnico, pelo que o piloto  tentou uma aterragem de emergência, não muito bem sucedida, em pleno mato.
A partir do momento em que se confirmou o seu desaparecimento foram encetadas as pesquisas aéreas no sentido de localizar a DO, o que só foi conseguido no dia 27. Entretanto, já andavam no terreno Grupos de Combate das CART.  1540 e 1541. No dia 28, muito cedo, sai outro GC da 1541 em direcção ao local onse se encontrava o aparelho sinistrado. Ali chegados, a 29, não encontraram rastos do piloto. Todavia, dentro da carlinga estava uma das suas armas de defesa, o que  levou a concluir que os guerrilheiros da FRELIMO não abordaram o avião, caso contrário teriam levado a arma. Finalmente, as intensas buscas, por parte dos GC já citados, ti 1968 
Registe-se o enorme empenhode todo o pessoal das aludidas Companhias que procedeu às buscas . Tal facto foi registado por carta enviada ao Comandante do batalhão de Artilharia 1885 pelo Comandante do Sector "A" (1)
(1) Estes elementos foram extraídos da Revista "Mais Alto" nº 224 Nov/Dez 1968, num excelentee e pormenorizado artigo intitulado "Dias longos de Ansiedade e Esperança" da autoria do Coronel José Mendonça Prazeres , Comandante do BART. 1885

Evacuação do piloto para Vila Cabral. na abertura lateral vê-se a mão aberta apoiando a face


                                                                        **************
Existiam várias povoações cuja toponímia original foi substituída por nomes de localidades e lugares da Metrópole, algumas delas ligadas às Unidades que ali se formaram.
Deixamos os nome das que temos conhecimento:
Miandica - Estremoz-a-Nova
Mevchuma - Nova Coimbra
Cuamba - Nova Freixo
Lipirichi - Olivença
Congerenge - Estação- Belém

Outras localidades alteraram a sua toponímia para nomes de personalidades em sua homenagem:
Licchinga - Vila Cabral (1)
Metangula - Augusto Cardoso (2)
Mavago - Valadim (3)
Gurué - Vila Junqueiro (4) 

(1) José Ricardo Pereira Cabral, antigo Governador-Geral de Moçambique
(2) Augusto Cardoso, Foi um notável Oficial de marinha e cientista ligado à região
(3) Eduardo António Prieto Valadim Foi Oficial do Exército Português. Comandou uma expedição a vários Régulos do Niassa em 1884
(4) Saraiva Junqueiro, grande impulsionador da cultura do chá na região.

   



                                                                    **************

Em Maniamba, entre 1967 e 1968, o "Drº Oliveira Salazar" prestou serviço na Companhia de Caçadores 1560.
Da Esquerda para a direita: Alferes Drº Poças, Alferes Oliveira e Alferes Salazar. Curioso 

                                                                  **************
O Lunho era apelidado pelas piores razões, de "capital do Estado de Minas Gerais" .
Este epíteto foi-lhe atribuído pelo facto de, na região, a FRELIMO ali ter implantado grande número de minas, quer antipessoais, quer anticarros.
As condições de vida no Lunho eram de tal maneira degradantes., que era hábito os operacionais das Unidades, sediadas na região, dirigirem aos seu camaradas, ditos do "arame farpado", a seguinte expressão: "VAI PARA O LUNHO MALANDRO""




Destacamento "X" situado entre Nova Coimbra e o Lunho. Aqui foi feito o célebre
HINO DO LUNHO.
 A fumar o Amadeu acompanhado de Furrieis da CENGª1531 e da 2ª CENGª de Moçambique


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HINO DO LUNHO
Letra: 
Alferes Carvalho "100" da 2ª CENGª de Moçambique.
Música de: Zeca Afonso "Os Vampiros"
O Lunho foi um dos locais mais duros da guerra no norte de Moçambique


O Hino do Lunho, foi feito em Julho/Agosto de 1967 na picada Nova Coimbra-Lunho

O Alferes Carvalho "100" com uma granada na mão

Os primeiros militares no aquartelamento no Lunho. 
O Alferes Carvalho "100" de pé com bigode


  **************
Aconteceu um caso insólito, no dia 18 de Agosto de 1969, às 5 horas da manh, tendo como protagonistas três intervenientes: o Francisco, o Pacheco e o Leão                     

    Francisco                                          Pacheco                                     Leão                                          
O 4º Pelotão da Companhia de Artilharia 2388, sediada no Révia, encontrava-se no mato efectuando uma das muitas operações de rotina de que era incumbido.
Ao terminar mais um dia de patrulhamento,, aquela força escolheu o local achado conveniente para pernoitar. O pessoal foi colocado em círculo e de costas viradas para o centro do mesmo. Pela madrugada, a Lua escondera-se.
Descrito  o cenário, vamos aos factos: O Francisco ao terminar o turno de sentinela, comentou com o seu substituto parecer-lhe ter ouvido uns ruídos semelhantes aos produzidos por um le~so. As suas suposições não  foram levadas em linha de conta, tendo aquele seu camarada larachado, inclusive, com a situação, iniciando de seguida o turno para que fora escalado.
O Francisco dirigiu-se desconfiado, para o locl de dormida, onde partilhava as mesmas mantas com o camarada Pacheco.
Deitado de costas e pernas flectidas, tendo como cabeceira as botas, que entretanto descalçara, enquanto o sono não chegava, ia meditando no barulho anteriormente 
A certo passo, qual não é o seu espanto quando observa a manta a deslizarrapidamente sobre as pernas. Ao olhar para o lado, mais surpreendido ficou por verificar queo Pacheco desaparecera Atónito, levantou-se num impulso e vislumbra um enorme vulto que levava de rojo o seu camarada, que ainda não despertara totalmente do sono que desfrutava. O Francisco apercebe-se que o companheiro estava a ser arrastado por um enorme leão, pelo que desata aos gritos, ao mesmo tempo que atira uma bota ao animal,batendo-lhe inclusive, com as próprias mãos. A fera, que abocanhara as duas canelas do malogrado Pacheco, largou-o momentaneamente, mas logo de seguida desferiu nova dentada cravando-lhe os dentes no músculo da perna. A vítima já consciente do perigo que corria, gritava a plenos pulmões de dor e pânico. O Francisco não deixava de utilizar todas as "armas" ao seu alcance para afugentar o felino que, vendo-se "acossado", largou a "presa", afastando-se de seguida, mas não muito convencido.
Entretanto, e já com o alvoroço instalado no acampamento, houve a preocupação imediata de ver o estado em que se encontrava o Pacheco, verificando-se que o seu estado era preocupante, pois a segunda dentadado leão provocou-lhe  profundos orifícios onde jorrava sangue em abundância. O tendão de Aquiles encontrava-se exposto.. Em suma, o leão tinha provocado grandes danos na perna do malogrado Pacheco. 
Prestados os primeiros socorros, os possíveis, tentou-se o contacto via rádio com a sede da Companhia, para se proceder à evacuação por via aérea, só que o rádio não funcionou, pelo que tiveram que recorrer à única alternativa possível, transportar o ferido às costas para o local, previamente combinado, onde as viaturas recolheriam o G.C. o que viria a acontecer só por volta das 15 horas. Até chegar ao ponto de encontro foi feita uma longa  e dolorosa caminhada com a duração de 4 horas.
Os dois companheiros, o Pacheco e o Francisco, acabam de acordar. Desta feita não foram importunados

Chegados finalmente ao aquartelamento , foi pedida a sua evacuação, mas a Força Aérea, dado o avançado da hora, recusou-se a voar até ao Révia , Eles, F, não arriscavam um milímetro. Quantas mortes não aconteceram devido a este facto.
Finalmente no dia seguinte, 28 horas depois do "ataque do leão" o sinistrado foi transportado para o Hospital de Nampula, onde permaneceu algum tempo, voltando depois à actividade operacional na sua Unidade, a CART. 2388.

                     Um Leão também atacou em Metangula

Domingos Pereira, foi soldado condutor da CCS do Batalhão de Caçadores 1891 e deu-nos o seu testemunho do ocorrido a 10 de Maio de 1967. 

Encontrava-me de convalescença no quartel em Metangula devido à viatura que conduzia a 1 de Maio daquele ano, perto de Nova Coimbra, ter rebentado uma mina.

Um autóctone e o seu filho com 9 anos encontravam-se à pesca, com rede, junto às margens do Lago Niassa e próximos do Postos de sentinelas que haviam à entrada de Metangula de quem vinha de Nova Coimbra e de Maniamba. 
De repente foram surpreendidos por um ataque dum leão. Alertados pelos gritos os sentinelas foram ver o que se passava e depararam com um homem muito ferido no peito e no pescoço. Do quartel vieram reforços que transportaram o ferido para o hospital da Marinha que havia em Metangula. O ferido relatou então, que tinha lutado com o leão para salvar o filho, mas tal foi impossível depois de levar uma patada do leão que o deixou bastante ferido, ferimentos esses que o levaram à morte. Uma patrulha comandada pelo Alferes Presa na qual eu me incluía foi à procura do jovem e do leão. Não encontrámos quaisquer vestígios e conduzimos os soldados para os seus Postos ,3 em cada Posto.Como era de rotina às 24 horas de cada dia, o pessoal do Exército era rendido pelos Fuzileiros e foi quando estes se dirigiam para os Postos de vigilância, que ouviram tiros e lá chegados viram um soldado muito ferido e transportado aos ombros pelos seus 2 camaradas. O ferido foi conduzido para Metangula, daqui para Vila Cabral de onde foi transportado para a Metrópole. Os camaradas contaram que,lutou com bravura e o leão só fugiu quando foram disparados os tiros. Felizmente, recuperou e ainda hoje faz a sua vida normalmente.Atacadas as sentinelas, o Cmdt. do Batalhão deu ordens ao pessoal sob o comando de um Oficial e com a ajuda de 1 polícia e de vários Cipaios a “passar” a pente fino a serra em busca do jovem autóctone e se possível abater o leão. Depois de muitas buscas o animal foi encontrado debaixo duma árvore. O polícia aproximou-se o mais possível e desferiu-lhe um tiro que o matou de imediato. As buscas para encontrar o jovem foram retomadas e ao cair da noite foram dadas como encerradas e chegando-se à conclusão que tinha sido devorado pela fera. Este ataque era motivo de muita conversa e curiosidade e quando dias depois fomos recolher o animal, chegámos à conclusão que devido ao aspecto esquelético do animal, este devia ser muito velho e por isso abandonado pelo seu bando. A fome levou-o a atacar os humanos.




                                       CURIOSIDADES

1964. Primeiros "aquartelamentos   em Miandica

Mais uma "caserna" em Miandica

1964, Messe de Oficiais da CCS do BCAÇ 598

.                                         
1967. Nova Coimbra, enfermaria da CCAÇ 1558

1965. Lunho refeitório da CCS do BCAÇ 598


IGREJAS


Em Novembro de 1967 em Miandica, o 1º GC da CCAÇ 1558, nada tinha. As beatas deitadas para o chão já tinham desaparecido. Correio nem vê-lo, comida alimentação má e muito escassa. O desespero começava a assaltar aqueles bravos homens. Até que o saudoso Alferes resolveu enviar uma mensagem para o MNF em Vila Cabral a pedir uma Santa que Rogasse por Nós. O seu pedido foi de imediato aceite e com a Santa viajou de helicóptero o correio, o tabaco e alimentação. A Santa foi baptizada com o pomposo nome de Nossa Senhora De Miandica, Rogai Por Nós
A 5 de Abril de 1968, Miandica foi abandonada por um GC da CART. 2325, que tinha rendido a CCAÇ 1558. Em boa hora levaram a Santa para o Lunho onde construíram a famosa Capela dos Bidons


                                                        Lunho 1968. Capela dos Bidons



Lunho 1968. Capela dos Bidons. No lado direito em cima de uma bidão pode ver-se a Santa

Igreja deMassangulo
Interior da  Igreja de Messangulo

Igreja de Vila Cabral


Igreja Anglicana de Messumba

Igreja de Unango

PONTES E PONTÕES

Ponte velha do Lunho

Nova Ponte do Rio Lunho

A nova ponte do Rio Lunho destruída pela FRELIMO


Abril de 1967. Picada Maniamba-Nova Coimbra. Minutos depois desta foto, os 
militares de camisa preta (Fuzileiro)  1º à esquerda e o 1º ( Filipe da CCS do BCAÇ 1891) com uma enxada na mão deslocaram-se ao leito do Rio, tendo o Filipe pisado uma mina antipessoal e ser amputado de uma perna. O Fuzileiro ficou ferido

CCAÇ 1558. Dezembro 1967 - Picada Lunho-Nova Coimbra

 1967 CENGª 1531. Construção de pontão na picada Nova Coimbra - Lunho

1967. 2ª CENGª de Moçambique Picada Lunho-Nova Coimbra, após o
rebentamento de uma minna

1967. 2ª CENGª de Moçambique. Nova Ponte do rio Lunho



1967 CENGª 1531. Construção de pontão na picada Nova Coimbra - Lunho





CART. 2388. Passagem do rio Lugenda em Murama


Passagem por teleférico em Muranda sobre o Rio Lugenda


CCAÇ 2662 - Picada Nova Coimbra-Lunho


CCAÇ 2667 - Ponte sobre o Rio Lumbiza entre Unango e Macaloje

1968 2ª CENGª Moçambique   Rio Luangua em Nova Viseu
  
1968 2ª CENGª Moçambique Ponte do rio Luangua em Nova Viseu


FIM










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