CLICA NESTE VÍDEO, https://www.youtube.com/watch?
ONDE ESTÃO TESTEMUNHOS DE QUEM POR LÁ PASSOU.
NELE PODEM OUVIR COMO A SANTA DE MIANDICA LÁ CHEGOEduardo Carvalho
Furriel Milº da CENGª 1531
Enquanto decorriam os trabalhos na Picada NOVA
COIMBRA-LUNHO a "minha" secção recebeu ordem para se deslocar para
MIANDICA, onde iria ser construído um Aerodrómo e melhorar a segurança do
acampamento ali existente, cujo residentes era um Pelotão da CCAV 1507
. Os trabalhos de aterro demorou pouco tempo, visto que havia muita profissionalização entre nós a manobrar as máquinas.
De repente e quando passávamos para o outro lado dum riacho, cujo leito estava seco e, onde já estavam as máquinas, apareceu o Serafim a gritar que não via os camaradas que manobravam as máquinas. De imediato corri para junto das máquinas e qual não foi o meu espanto quando me vi envolvido por um enxame de abelhas. De tal forma fui "atacado" que tive de ser evacuado para NOVA COIMBRA.
Passados poucos dias regressei a MIANDICA
| MIANDICA destroços duma DO |
As Companhias de Caçadores 1559 e 1558 em Miandica
Texto do Livro: Moçambique Memórias de um Combatente
Por: Manuel Pedro Dias
Furriel Milº da CCAÇ 1559
A CCAÇ 1559 foi a
primeira Companhia do BCAÇ 1891 a enviar tropas para Miandica
Vindos do Molumbo, no Distrito da Zambézia, a
CCAÇ 1559, recebeu ordem para se deslocar para o Distrito do Niassa.
De comboio viajaram até ao Catur onde,tiveram a primeira realidade com a guerra. Em coluna auto rumaram até Meponda,que se situa nas margens do Lago Niassa.Daqui a 1559 foi transportada em lancha da Marinha (LDM)para o Cóbué destino final da Companhia.
Durante a viagem o Cap. Veiga deu ordem ao 1ºPelotão para desembarcar em NGO e de onde seguiriam a corta mato para MIANDICA onde iriam render o pessoal da CCAV 1505.
O desembarque foi atribulado .A voz do
Comandante da Lancha fazia-se ouvir:
RÁPIDO!!!RÁPIDO!!!!
| A 1559 a celebrar em Miandica (1967) o 1º Aniversário da sua Comissão |
Ali, ficaram entregues
ao seu destino quarenta "bravos", que iriam enfrentar uma das duras
experiências das suas vidas. Como "bagagem", levaram a inseparável
G3, duas catucheiras, cantil e saco de campanha com pano de tenda e e duas
rações de combate,peso este já excessivo para quem tinha de enfrentar uma
caminhada de dois dias através de percurso sinuoso,difícil e perigoso.
Finalmente avistámos Miandica. Era perfeitamente
perceptível a vozearia que nos chegava de destacamento que, entretanto,
fora alcançado. A recepcionarem-nos, não faltaram as tradicionais
"camaras de TV feitas com com caixas de ração de combate,e
"jornalistas" com "microfones" construídos com
latas de conserva.
Mas nós, alheios a toda esta alegria, lançámos um
olhar pelo acampamento a verificar as condições em que iríamos viver durante
dois meses.
Oh!!! meu Deus o que vimos!
Uma espécie de casa, exígua, sem reboco, cujos buracos serviam de refúgio aos parasitas, destinava-se a abrigar o Comando, arrecadação dos géneros alimentícios e postos de Enfermagem e de Rádio. No centro do destacamento,mais parecendo um "monumento", seu ex-libres, encontravam-se os destroços os destroços duma velha DORNIER que tempos antes ali tinha caído. A seu lado, um conjunto unido de toscos troncos servia de porta a uma escavação, que nos disseram ser o paiol das munições. Intalações sanitária eram inexistentes e os Postos de Sentinela em número de quatro, e colocados ao nível das barreiras, tinham também a cobri-los velhas e ferrugentas chapas. Os dias, vazios, decorriam vagarosamente. Já mais resignados fomo-nos adaptando à nova realidade.
Os reabastecimentos ao destacamento era efectuado pela Força Aérea,dado que as colunas auto-auto só tinham lugar com meses de intervalo, face à grande envergadura de que se revestiam.
As DORNIER, em voo rasante, lançavam na improvisada pista, os géneros alimentícios, correio, tabaco etc....Todos os que andaram na Guerra sabem que a chegada do correio era um excelente tónico para leventar o moral da rapaziada. A nossa correspondência ía para o Cóbué e daqui era muito difícil enviá-la para Miandica.Tal facto, originou que que estivéssemos três semanas sem receber correio.
A dada altura, a
alimentação do pessoal começou a deteriorar-se de dia para dia.No
"depósito de géneros"apenas restava uma mísera carne de porco
conservada em barricas com sal,uns bolorentos pacotes de massa e pouco mais, ou
nada.Esta situação agravou-se dado que, durante oito dias, o pessoal entrou em
subalimentação quase total, o que levou os mais fracos a tentarem praticar
actos de verdadeira loucura, sendo impedidos de fazer pelos camaradas mais
lúcidos.
Perante a nossa insistência, via Rádio, dando conta da
situação, em certo final de tarde começámos a ouvir os roncares dos motors da
avioneta. Foi o delírio no acampamento. A Dornier em voo rasante lançava sobre
a pista a carga que nos era destinada.
Mas, com terra ou sem terra, naquela noite houve
alimentos frescos. No dia seguinte tivemos que consumir o restante,
dada a falta de frigoríficos.
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Ida à água em Miandica uma grande preocupação |
O abastecimento de água
era outra grande dor de cabeça, visto o percurso até ao rio, que corria a cerca
de um KM, ser bastante perigoso e a segurança ser feita apenas com
uma secção, ficando os restantes a assegurar a defesa do destacamento. Além
disso, uma outra secção estava incumbida de prestar apoio à máquina de
Engenharia,que laborava no prolongamento da pista., foi
atacada violentamente com intenso tiroteio de armas automáticas,vindo
do interior da mata. Dada a progressão dos homens ser em campo
aberto, pois avançavam na pista, receou-se o pior, até porque o inimigo tinha
iniciado este ataque convicto que teria granse sucesso,visto que os nossos
militares serem um alvo fácil.
Mas, bravos foram os nossos homens os quais,
ripostando ao fogo do inimigo, e com a ajuda daqueles que se encontravam
no destacamento,entretanto também fustigado em todas as direcções,
conseguiram calar as armas adversárias.
Minutos depois entravam para cá das barreiras os
nossos camaradas emboscados. Foi um momento ímpar e emocionante aquele.
Perante o que vivemos e presenciámos em Miandica,
quase somos levados a crer que a carta que Mouzinho Albuquerque escreveu
em Moçambique,dirigida ao Príncipe D. Luís,foi pensada em termos
de futuro e que se queria referir,certamente,àquele punhada de bravos que
viveram em Miandica-
O
Último soldado português morto em Miandica
Texto escrito por:
António Carvalho
1º Cabo Enfermeiro da CCAÇ 1558
Fiz parte do último grupo da Companhia Caçadores 1558
que foi destacado para Miandica.
Não vale a pena descrever as más condições, a todos os níveis, que lá passámos nos 3 meses que durava o destacamento, pois isso é do conhecimento de uma grande parte dos ex-militares que compunham o Batalhão de Caçadores 1891. Desde a falta de comida, correio, por vezes munições e tabaco, que foi muitas vezes a nossa única companhia.
Mas vou descrever um episódio, o último naquele lugar longe de tudo.
No dia 25 de Fevereiro de 1968, estava para chegar o novo grupo de combate que nos ia substituir, para podermos regressar a Nova Coimbra já que o nosso tempo de comissão estava a terminar.
Antes da chegada, combinado com todos os elementos, o alferes Quintas, que substituiu o alferes Sancho por ter sido ferido em combate, resolveu pregar uma partida aos “Checas”, trocando todos os postos, tendo ele passado asoldado e cabendo a mim o galão de alferes.
| Os Kokuanas da CCAÇÇ 1558 a recepcionarem os Chekas |
Quando chegaram os chekas, depois de termos recebido as instruções para o novo desempenho de funções, dirigi-me ao graduado que comandava os “Checas” e apresentei-me como sendo o alferes Quintas.
Depois de uma curta conversa, comecei a mostrar as instalações, que eram fáceis de visitar, pois quase nada havia.
Andei por cima da barreira que nos protegia, com o já citado novo comandante, explicando-lhe quais as zonas consideradas mais perigosas e de possíveis ataques.
Passado algum tempo e conforme já previamente combinado, separei-me por uns momentos do meu interlocutor e rapidamente voltámos aos respectivos postos, coloquei os meus óculos escuros, graduados, para não ser facilmente reconhecido e então o verdadeiro alferes Quintas tomou o seu posto e foi ter com o seu homologo, contando-lhe a brincadeira a que tinha sido submetido.
Eu fui ter com o meu colega enfermeiro que me ia render e entabulei então a conversa normal de mais velho para mais novo, dizendo-lhe que a zona era perigosa, sujeita a ataques, que ainda não tínhamos tido nenhum por sorte, e que a vida ali era muito dura.
Recebi como resposta “isso é conversa de velhos para nos meterem medo, pois em Nova Coimbra disseram-nos que havia muitas minas pelo caminho e nada nos aconteceu” .
Cerca das 16.50 horas, quase mal tínhamos acabado esta conversa, sofremos sim um ataque, como penso ainda não se tinha registado por ali, a partir do mato junto à pista de aterragem, com morteiros, bazucas e canhão sem recuo.
Com a surpresa e porque os novos, segundo penso que foi essa a informação que eles me transmitiram, tinham chegado directamente da metrópole, não tendo qualquer experiencia de guerra, muitos, tiveram como reacção deitarem-se no chão não crendo no que lhes estava a acontecer.
Coube-nos a nós, velhos, rechaçar o ataque, e não me esqueço daquele acto do nosso colega, que não me lembro o nome mas a alcunha “França” que saltou para cima da barreira de protecção e a descoberto, com raiva descarregou os carregadores da G3 para a zona de onde provinha o ataque.
Mas, infelizmente a primeira granada que é disparada pelo inimigo cai dentro do acampamento e mata o meu grande amigo Fernandes, que era o padeiro e que ao sentir o ataque desloca-se á barraca que nos servia de abrigo, buscar a G3 e quando ia para a barreira foi atingido, ficando com a cabeça quase desfeita, (o Fernandes está na foto anexa a almoçar e com uma caneca na mão.
| O Fernandes da CCAÇ 1558 o último soldado a morrer em Miandiaca |
No dia 26 de manhã, apareceu o helicóptero para fazer a evacuação, só que não havia feridos, mas um morto.
O alferes Quintas recebeu como resposta que não evacuavam mortos e que teríamos de o enterrar no mato em Miandica, tendo o mesmo dito que isso não faria, mas o carregaríamos mais de 40 km a corta mato, às costas, até Nova Coimbra, já que íamos regressar no dia seguinte aquele quartel para regressarmos a Portugal.
O comandante da aeronave, penso que tocado no coração, resolveu levar, contra todas as ordens, o corpo para Nova Coimbra.
O meu relato do último ataque a Miandica
Texto escrito por
José Martins
Soldado Radiotelegrafista da CCAÇ. 1558
Corria o mês de Fevereiro de 1968, um domingo antes do
Carnaval, quem escreve estas linhas lia o livro, de título “ Sob o nevoeiro”
enviado pelo Movimento Nacional Feminino, sentado no posto de vigia a noroeste
do destacamento, quando vejo aparecer um branco de camuflado, com a G3,
arrojada pela terra, e muito cansado. Grito-lhe, não dás nem mais um passo… e
porquê esta minha atitude… ( nas vésperas tínhamos recebido informação dum
golpe de mão perpetrado por brancos num destacamento contra nós
na zona de Cabo Delgado, O sujeito bem berrou que era do pelotão que nos vinha
render,,, começaram a chegar mais militares e pouco depois começou um forte de
bombardeamento, por uma arma nunca usada contra nós naquela zona, o canhão sem
recuo. Depois, sofremos a última baixa em combate, o soldado Fernandes.
Companhia de Caçadores
4141
Companhia de Caçadores
4141
Texto de Bernardino Simões
Soldado da CCAÇ 4141
A Operação "Intervalo" teve por finalidade a construção de uma picada do Lunho para Miandica e aqui reconstruir um novo aquartelamento.
Durante a Operação "Intervalo", um grupo de guerrilheiros da FRELIMO atacou com armas automáticas e emboscaram uma viatura da nossa companhia sem consequências.
A viatura seguindo a sua marcha detectou uma mina anticarro que de imediato foi levantada. No percurso detectámos duas minas anticarro que de imediato foram levantadas.
Durante os trabalho de reconstrução do aquartelamento de Miandica os guerrilheiros da FRELIMO atacaram-nos por diversas vezes. Capturámos uma espingarda automática, uma mina anti-carro, 7 porta granadas de canhão sem recuo e não tivemos baixas.
A FRELIMO atacou a companhia de engenharia que se encontrava a "desatascar" uma viatura na picada do Lunho para Miandica.
De regresso ao Lunho uma viatura berliett da C.caç.4141 na picada de Miandica para o Lunho accionou uma mina anticarro a qual ficou praticamente destruída. Nessa viatura viajava algum pessoal que felizmente só tiveram ferimentos ligeiros.
A picada do Lunho para Miandica começou a ficar intransitável sendo o pessoal reabastecido por Helicóptero.
Os Últimos Soldados Portugueses naquele inferno
Por: António Caldas
A 20 de Março, o 2º Pelotão da CART 7260, comandado pelo Alferes Lourenço e acompanhados por alguns militares da CCAÇ 4141, saíram do aquartelamento do Lunho e seguiram a pé pela picada até Miandica.
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| Abrindo caminho para esgotar a água |
Na visita guiada dentro do acampamento, deparámos com três tendas e um muro de terra em volta. Os velhinhos (Kokuanas) informaram que para Norte, nem um passo, são as zonas libertadas. A Oeste havia um antigo acampamento que tinha sido abandonado em 1968 e com ele uma pista de aviação.
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Restos do acampamento, que foi construído nos finais de 1966 pela CENGª 1531, e abandonado a 3 de Abril de 1968 |
A 28 de Março, o 4º Pelotão que nos ia abastecer, localizou e desactivou uma mina anti-carro com dispositivo anti-pessoal.
Os GES ainda se deslocaram para o local de onde os homens da Frelimo atacaram o aquartelamento, mas estes já tinham debandado e só encontraram vários rastos de sangue e muitas cápsulas vazias de muitas armas de fogo.
No dia seguinte, recebemos em Miandica, o 1º Pelotão comandado pelo Alferes Raposo que andava em patrulha na zona.
Os Pelotões que permaneceram em Miandica.
A Companhia de Cavalaria 754 (7 de Espadas) e a Companhia de Artilharia 637, andaram na região de Miandica. A 7 de Espadas levou muita pancada nesta região (havendo mortos enterrados na zona, cujas campas foram vistas por militares da CCAÇ 1559 ( ver vídeo em cima). A 637 teve acampamento em Miandica -a-Velha.
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| Miandica |
22/9/1966 --- Pelotão da CCAV. 1507 do BCAV. 1879
15/3/1967 --- 1º Pelotão da CCAÇ 1559. --- 8 de Maio ataque aos homens da pista.
18/5/1967 --- 3º Pelotão da CCAÇ 1559 .--- A 18 e 19 de Maio sofre violentos ataques sem consequências.
17/7/1967 ---4º Pelotão da CCAÇ 1559 --- Sem incidentes, apenas a entrega de um guerrilheiro da Frelimo.
22/9/1967 --- 1º Pelotão da CCAÇ 1558. Este Pelotão participou na Operação "CARAVANA 1". Reabastecimento de Miandica. No percurso Lunho - Miandica foram accionadas duas minas anti-carro.
02/12/1967 --- 2º Pelotão da CCAÇ 1558. Em 25 de Fevereiro de 1968, dia da redenção, por um Pelotão da CART 2325, a Frelimo fez um violento ataque ao destacamento que provocou a morte ao soldado António Fernandes da CCAÇ 1558.
24/2/1968. Um Pelotão da CART 2325 que se mantém em Miandica até ao seu abandono a 3 de Abril de 1968.
Em Maio de 1973 um Pelotão da CCAÇ 4141, acompanhado por pessoal da 2ªENGª. foi para Miandica para iniciar os trabalhos do novo aquartelamento.
20/3/1974 --- 2º Pelotão da CART 7260, ali permaneceu até 12 de Abril de 1974, quando mais uma vez este aquartelamento foi abandonado.
Na segunda ocupação as instalações eram tendas de campanha. Foi aberto um poço para abastecimento de água. O fornecimento de pão era feito do seguinte modo: Saía um um grupo de Miandica em direcção ao Lunho e daqui outro em direcção a Miandica. Encontravam-se a meio caminho para fazer a entrega do pão que era para oito dias.

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