Ferido e exausto, foi levado para uma cela exígua onde estavam já nove homens, todos eles com ferimentos que não tinham sido tratados. Ali ficou um ano, sem culpa formada, sendo por vezes levado para uma sala onde era sovado. As pancadas na cabeça e na cara inchavam de tal forma os olhos que ele e os seus companheiros de cárcere ficavam cegos durante dias: podiam ficar privados de comida e água até quatro dias; as feridas que não saravam originavam infecções, gangrenas e doenças. Ninguém era curado ou levado para o hospital local (Egas Moniz).
Ao fim de um ano, Varranja foi transferido para a cadeia do comando distrital da PSP, administrada exclusivamente pela polícia política, onde ninguém entrava a não ser os pides. Foram dois anos a tentar sobreviver: na sua cela – cinco metros de largura por 15 de comprimento – estavam 200 reclusos obrigados a estar sentados ou deitados uns sobre os outros. Existia um balde para as necessidades, o cheiro era nauseabundo e o calor insuportável; todos os dias morriam homens, por doenças, infecções, fome sede e asfixia. Um dia, um dos presos levado para ser interrogado regressou à cela quase morto, com mordeduras de cão nos ombros e nas pernas; também sangrava abundantemente da zona genital e os testículos tinham sido “arrancados” pelo animal. Morreu ao fim de dois dias, em agonia, com dores excruciantes. O seu cadáver foi “levado para o pé da porta |de cela| porque já cheirava muito mal”. O “guarda Ramos” ordenou-lhes depois que retirassem o corpo da cela. Varranja não sabia o nome deste homem, apenas que era de Muíte.
No seu terceiro ano de reclusão, integrou o grupo de presos mais resistentes que foram sujeitos a trabalhos forçados: de sol a sol, Varranja trabalhou em obras camarárias, na serração de um colono e nas limpezas de um hospital. Nunca recebeu qualquer remuneração.
Quiera Jamal esteve também na “prisões privativas da PSP”,, como a PIDE designava os calabouços sob sua tutela desde 1964 até 1969/70. Tinha 50 anos, era vendedor ambulante e fora detido em Maio de 1966 por “fazer concorrência aos monhés quando não tinha licença para isso”. Na subdelegação não foi interrogado, mas bateram-lhe com palmatória e “cavalo-marinho” (tipo chicote, em geral feito com a pele de hipopótamo) em diversas ocasiões, uma delas quando tirou um bicho do seu prato de farinha e feijão; “Come mesmo assim. Que és tu mais que um bicho?”, gritou-lhe um agente enquanto o espancava.
O cão da PIDE, Boby, que era levado frequentemente para os dois locais de reclusão, mordeu-lhe a perna direita, deixando-lhe uma cicatriz visível aos olhos dos militares que ouviram o seu testemunho, registado a 15 de Julho de 1974 em Nampula. “Quando o cão mordia o participante, o guarda Ramos dizia ‘deixa o cão tirar bife que ele está com fome’”, escreveram. O mesmo Ramos vigiava, sempre acompanhado pelo animal, os presos que por vezes tomavam banho durante a madrugada, por volta das cinco da manhã, atiçando-o contra os corpos nus. Numa dessas noites, um dos prisioneiros, Murronha Uhura, foi mordido nos testículos e no pénis, voltando à cela a sangrar, mutilado. Não sobreviveu ao dia seguinte, tendo morrido ao nascer do dia. Quiera Jamal pediu para que ficasse escrito o que se passou: “O guarda Ramos abriu a porta da cela e viu o morto |e| disse ‘o gajo está a rir’, pisando-o com a bota na boca. Seguidamente disse para os outros presos levantarem o corpo ‘porque ele vai ficar de pé’, o que eles fizeram tendo o cadáver caído imediatamente por terra, como é óbvio. O cadáver foi metido na manhã seguinte num jipe |e| carregado para ele pelos colegas de cela”.
Murronha Uhura morreu a 26 de Junho de 1966. No dia seguinte, o subinspector Gilberto da Silva Campos, que chefiava a PIDE em Nampula, comunicou à direcção da polícia em Lourenço Marques (hoje Maputo) que o preso morrera por “broncopneumonia” – causa que ficaria registada na sua certidão de óbito. Este ofício foi registado pela “comissão de apuramento de responsabilidades criminais de elemntos da extinta PIDE/DGS” ao arquivo da polícia em Nampula.
Uma investigação completa
Quando os alferes milicianos ouviram os depoimentos de Varranja Paqueliua e Quiera Jamal, em Julho de 1974, a comissão tinha já mais de um mês de inquirições e reunira milhares de páginas e documentos probatórios sobre os crimes da PIDE/DGS. A província de Nampula era uma das mais populosas da colónia e na cidade estavasediado o comando militar territorial do Norte, numa área muito massacrada pela guerra. Nos centros urbanos era onde mais se fazia sentir a hostilidade popular contra os funcionários coloniais.
Num dos “perintreps” (relatórios militares com informações confidenciais)enviados em finais de Maio para Lisboa, lê-se que um grupo de nativos invadira a habitação de um ex-guarda prisional da PIDE, destruindo o interior, agredindo a mulher e uma cunhada e arrastando uma das filhas para a rua, onde lhe rasgaram a roupa e a “maltrataram”. Isto aconteceu cerca de duas semanas antes da Operação Zebra (8 de Junho), quando as Forças Armadas capturaram em todo o país mais de meio milhar de pides, numa acção preventiva que procurava também apaziguar o ódio popular. Quinze dias depois, muitos foram libertados, outros tinham-se evadido em fugas inexplicáveis.
Mas a ira contra a PIDE manteve-se. Num “perintrep” relativo à terceira semana deJunho relatam-se mais ataques a residências de antigos pides, mas também a edifícios
governamentais e agentes da PSP. Os manifestantes usavam pedras, garrafas partidas e
ferros e as tropas só conseguiam dispersá-los com “tiros para o ar”.
Foi neste ambiente que os militares Luís Filipe Sacramento, Nuno Mira Vaz, Rui
Craveiro Afonso e Nuno Brederode dos Santos, entre outros, recolheram os
testemunhos sobre as torturas e maus tratos exercidos pelos pides em todo o Norte –
além de Nampula, a repressão traduzia-se num alargado reportório de violências que
começava nas detenções ilegais e terminava em mutilações, doenças crónicas, trabalho
escravo e mortes.
Na análise dos trabalhos feitos pela comissão, divulgados pela primeira vez
nesta série do PÚBLICO, afigura-se evidente que as investigações feitas nesta capital
provincial foram as mais completas: durante as fases de investigação, os militares
recorreram a arquivos (da PIDE, do hospital, dos registos civis e da administração
colonial), pediram exames médicos e certidões de óbito, interrogaram vítimas,
familiares, testemunhas, pides e agentes da PSP. A 5 de Agosto, tinham já reunido
tantas provas documentais das atrocidades que perguntaram ao ex-chefe da PIDE em
Nampula, Gilberto da Silva Campos, porque é que nada fizera para “evitar maior
genocídio”.
“Furaram-me o pescoço e queimaram-me as costas “